Há 18 meses, Ezequiel Barco sequer tinha estreado pela equipe principal do Independiente. Era apenas um garoto que chegara pouco tempo antes nas categorias de base do Rojo, trazido de Rosário. O talento, no entanto, saltava aos olhos. E ele ganhou uma oportunidade com Gabriel Milito, então treinador do time. Em um ano, a percepção sobre o adolescente de 18 anos se transformou. Ele se tornou “La Joya”, grande esperança dos torcedores alvirrubros. Confirmou-se no maior dos palcos, o Maracanã, em uma decisão continental. Excelente ao longo da Copa Sul-Americana, o camisa 27 fez uma partida irrepreensível contra o Flamengo. As pernas incessantes eram mesmo de um menino, mas com a maturidade e a leitura de jogo dignas de um senhor. Ou então dignas daqueles aos quais o destino guarda um futuro grandioso. Nesta quarta, a grandiosidade se concretizou em formato de taça. Para que o prodígio, como um jovem sonhador, chorasse ao ser carregado nos braços de seus companheiros.

VEJA TAMBÉM: O Independiente se coroa em pleno Maracanã, bicampeão da Copa Sul-Americana

Até 2015, poucos conheciam Barco. Ele atuava em uma equipe de bairro em Rosário, dedicada a formar jovens. Mas que, curiosamente, foi decisiva à sua ascensão meteórica. A Asociación Atlética Jorge Bernardo Griffa é batizada em homenagem ao ex-defensor homônimo, de larga carreira no Atlético de Madrid. Depois de se aposentar, Jorge Griffa retornou ao Newell’s Old Boys, onde surgiu na década de 1950, e passou a trabalhar nas categorias de base. Como treinador, ajudou a lapidar grandes jogadores – do calibre de Batistuta, Valdano, Sensini, Samuel, Balbo e Maxi Rodríguez, entre outros. Depois, passaria também por diferentes agremiações, até chegar ao Independiente para atuar como coordenador geral da base. Por lá, recebeu a recomendação de seu filho, Diego Griffa, para levar o tal Barco a Avellaneda. Após ser recusado em peneiras no Boca Juniors, no River Plate e no Gimnasia, o guri contrariava os nãos que ganhara, vestindo uma camisa de peso.

Milito não precisou de muitas provas para se impressionar com a qualidade de Barco nos treinamentos. Ele não se inibia em driblar os companheiros bem mais experientes e nem fugia das pancadas nos primeiros amistosos, firme nos combates apesar de sua baixa estatura. Já a sua estreia pela equipe principal aconteceu em agosto de 2016, em partida contra o Defensa y Justicia pela Copa Argentina. Quer mais uma prova de como o destino é matreiro? O treinador dos adversários era ninguém menos que Ariel Holan, atual comandante do Rojo. Na ocasião, os auriverdes ganharam por 1 a 0 e eliminaram o clube de Avellaneda. Não seria isso, de qualquer maneira, a atrapalhar a eclosão do ponta, então com 17 anos.

O primeiro gol de Barco aconteceu um mês depois, contra o Godoy Cruz, pelo Campeonato Argentino. Mais notável que o tento, porém, foi sua participação ativa no jogo. Ia para cima dos adversários, não economizava nos dribles, injetava velocidade no time. Saiu ovacionado no Estádio Libertadores de América e não segurou as lágrimas. O garoto logo ingressou também na campanha do Rojo na Copa Sul-Americana. Participou da classificação contra o Lanús, antes de enfrentar a Chapecoense. Em ambos os jogos, entrou no segundo tempo. E na definição da vaga nas quartas de final, em uma disputa por pênaltis que contou com oito cobranças para cada lado na Arena Condá, ele foi um dos três que não encarou Danilo na marca da cal. Soa até como ironia do destino, pensando em tudo o que ocorreu depois.

O bom semestre com o Independiente levou Barco à seleção argentina sub-20, participando do Campeonato Sul-Americano da categoria. Reserva, ajudou a Albiceleste a se classificar ao Mundial. Ainda assim, os melhores momentos estariam guardados ao seu retorno ao Independiente, quando passou a trabalhar com o recém-contratado Ariel Holan. Ganhou mais relevância dentro da engrenagem do Rojo. Não apenas ajudava por sua capacidade individual, mas também pela entrega e pela possibilidade em aparecer pelos diferentes lados do campo. Sua produtividade ofensiva também cresceria.

Barco foi importante ao longo de toda a campanha na Copa Sul-Americana, com dois gols e duas assistências até a decisão. Aparecia ao lado de Emiliano Rigoni como uma das principais válvulas de escape do time. O companheiro, entretanto, logo se transferiu ao Zenit. E o aumento de responsabilidade não foi problema ao camisa 27. Muito pelo contrário, como bem se viu no jogo de volta contra o Libertad, na semifinal. Depois da derrota em Assunção, o Independiente teve um pênalti anotado ao seu favor logo nos primeiros minutos em Avellaneda. Pois foi o garoto de 18 anos pegou a bola e não teve problemas para abrir caminho à classificação.

Por fim, Barco exibiu o seu melhor nos 180 minutos contra o Flamengo. Já tinha feito grande atuação em Avellaneda, infernizando a defesa rubro-negra em suas arrancadas à linha de fundo e nos avanços em diagonal. Foi dele a jogada que fez William Arão e Everton Ribeiro parecerem dois patetas, antes de cruzar para Maximiliano Meza anotar o segundo gol. Já no reencontro, nada pareceu intimidar o jovem, nem mesmo o Maracanã lotado. Permaneceu ativo a todo instante, chamando o jogo para si, movimentando-se para dar opções, puxando os contra-ataques, criando jogadas. A intensidade se deu até mesmo sem a bola, e principalmente no segundo tempo, indo e vindo pelos lados do campo. Quando os rubro-negros ganharam força ofensiva do lado esquerdo, com Everton e Vinicius Júnior, o camisa 27 acabou sendo essencial para pressionar o lateral. Não fosse o preciosismo dos companheiros, mais gols poderiam ter saído. Sua inteligência, sua qualidade e sua vontade valeram a taça ao Independiente, em virtudes ressaltadas na cobrança de pênalti com nervos de aço, para decretar o empate por 1 a 1.

Após a partida, Barco era um dos mais festejados em campo. E não apenas por seu protagonismo no bicampeonato do Independiente. O futuro do prodígio não deverá ser em Avellaneda. Nas últimas semanas, o Rojo negociou a sua venda ao Atlanta United, da Major League Soccer, em transferência dada como praticamente certa. Nos Estados Unidos, vai ter a oportunidade de ser treinado por Tata Martino (coincidentemente, outro aprimorado por Jorge Griffa no Newell’s) e defenderá um clube no qual mais revelações do futebol argentino buscam sua afirmação – sobretudo Miguel Almirón e Héctor Villalba, outros dois que saíram do país bem cotados, depois de brilharem por Lanús e San Lorenzo, respectivamente. De qualquer maneira, questiona-se o caminho que adolescente precisa escolher aos 18 anos, em uma situação chamada de “insólita” por Holan.

Barco tem bola para mais. Não à toa, vem sendo comparado com Sergio Agüero, não apenas pelas origens ou pelo tipo físico, mas também pelo ímpeto demonstrado nestes primeiros meses de carreira profissional. Diante da maneira como o camisa 27 lidou com os momentos de maior pressão e da maturidade de seu futebol na Copa Sul-Americana, não seria surpreendente se algum clube europeu logo cruzasse o seu caminho. Ou mesmo que ele ganhasse uma oportunidade de ser observado por Jorge Sampaoli, como foi seu antigo colega Rigoni. O que o atacante de 18 anos jogou nesta decisão no Maracanã precisa ser ressaltado como algo fora da curva. Algo que aponta Barco como um talento fora da curva, e que já passa de promessa a realidade.


Os comentários estão desativados.