Old Trafford viveu uma grande noite europeia. O Barcelona, vestido com o seu uniforme amarelo, venceu o Manchester United por 1 a 0, em um gol contra de Luke Shaw, pelo jogo de ida das quartas de final da Champions League. Apesar disso, os mandantes fizeram uma boa partida, taticamente falando. Bom, ao menos até uma parte do duelo, no meio do segundo tempo, quando os dois técnicos fizeram substituições que mexeram totalmente no jogo. O United, que dominava o duelo praticamente desde tomar o gol, passou a ser dominado pelo Barcelona, que segurou a bola e gastou o tempo até o fim. O placar magro, porém, deixa o duelo ainda aberto, especialmente pelo que o United fez em Paris na fase anterior, ainda com evidente vantagem ao Barcelona.

O técnico Ole Gunnar Solskjaer escalou um time no 5-3-2. Na linha defensiva, Luke Shaw, normalmente lateral esquerdo, ficou um pouco mais centralizado e Diogo Dalot fez a lateral esquerda. Paulo Pogba, mais solto, tentava comandar as ações ofensivas, enquanto defensivamente o time tirava todo o espaço para não deixar Lionel Messi confortável. O camisa 10 raramente teve algum espaço para jogar, para armar, chutar ou fazer qualquer ação perigosa. Nesse sentido, o técnico do United foi muito bem: conseguiu tirar o poder de fogo dos visitantes, que são muito perigosos.

O Barcelona, por sua vez, começou o jogo mostrando força, especialmente no domínio da bola. O meio-campo com Sergio Busquets, Ivan Rakitic e Arthur trocou muitos passes nos primeiros minutos. Philippe Coutinho foi titular do time, atuando pelo lado esquerdo do ataque.

O jogo começou com posse de bola para o Barcelona. Nos primeiros 10 minutos, os catalães tiveram 86% de posse, algo impressionante. Só que o primeiro lance de perigo foi do United, em uma falta cometida por Sergio Busquets, que escapou no lucro sem tomar cartão. Na cobrança, Rashford encheu o pé, mas mandou por cima.

Logo a 12 minutos, Busquets achou um lindo passe para Messi, que se movimentou e caiu nas costas dos zagueiros. O argentino, porém, dominou a bola que veio pelo alto de costas, ajeitou, girou e cruzou para o outro lado, onde estava Luis Suárez. O camisa 9 cabeceou para o meio, mas a bola desviou de leve em Luke Shaw e entrou. Logo depois do gol, o assistente assinalou impedimento. O VAR revisou o lance e não constatou fora de jogo e, assim, o gol foi validado normalmente. O gol, aliás, foi dado para Shaw, contra, não para Suárez.

Os momentos depois do gol, porém, foram do United melhorando, pouco a pouco, e passando a dominar a partida. Controlar mesmo, ainda que o jogo não fosse de posse de bola. Fred e Paul Pogba faziam um bom jogo dominando as ações por ali. A dificuldade do time era finalizar. Embora rondasse a área do Barcelona e tenha passado a dominar o meio-campo – muito pela força física e bom posicionamento de Pogba, Fred e McTominay -, nenhuma finalização ia no gol.

A volta para o segundo tempo foi igual. O United voltou ávido por conseguir um gol, tentando pressionar mais à frente, se impondo diante do Barcelona com um meio-campo físico diante de jogadores de alta técnica que eram antecipados, ou atropelados, a cada tentativa de troca de passes. A intensidade do United era imensa, com o time recuperando e partindo com todo afinco ao campo de ataque. E sempre chegava perto. Nunca chutava a gol. Faltava algo ao United. E já se imaginava o que fazer: desmontar a linha de cinco jogadores na defesa? O tempo passava, o placar seguia 1 a 0 para os visitantes e havia dúvidas. Desmontar o esquema que vinha funcionando tão bem para segurar o Barcelona parecia um risco.

O Barcelona só melhorou dentro do jogo quando o técnico Ernesto Valverde fez mudanças. As saídas de Arthur e Philippe Coutinho e entradas de Sergi Roberto e Vidal deram uma nova vida ao meio-campo do time da Catalunha. Os dois entraram bem. Vidal deu mais força ao meio-campo, antes sendo atropelado pelo United. Sergi Roberto deu velocidade e passou a ser um perigo em trama pela direita com Semedo. As mudanças, realizadas aos 20 minutos do segundo tempo, começaram a causar problemas ao United, que tentou reagir.

Pouco depois, entrou Anthony Martial no lugar de Romelu Lukaku. Pouco depois, tirou Dalot, desmontando a linha de cinco defensores, e colocando Jesse Lingard. As mudanças de Solskjaer pioraram o United em campo. Sem Lukaku, que fazia um duelo físico pesado com Gerard Piqué, o United perdeu a presença entre os zagueiros blaugranas que incomodava. E perdeu a chegada ao ataque que o time ainda tinha, apesar de não conseguir chutar a gol. As mudanças fizeram com que o United tivesse mais dificuldades em chegar ao ataque.

Rashford primeiro virou centroavante, para nos minutos seguintes virar um ponta esquerdo no 4-4-2 do time, deixando Lingard e Martial à frente. O time perdeu força ofensiva. Não chegava mais ao ataque com perigo. E, pior ainda, via o Barcelona conseguir conter o meio-campo e passar a tocar, tocar e tocar a bola. Gastando o tempo, a ponto de ficar até dois minutos só passando a bola de um lado para o outro. O desmonte do time fez com que o United perdesse até mesmo a capacidade de pressão. O que comprometeu os minutos finais. O time ainda tentou, sim, pressionar no final, jogando bolas na área e encontrando algo que desse esperança. Não conseguiu, até porque não tinha Lukaku mais para isso.

No fim do jogo, o Barcelona terminou com 62% de posse de bola, contra os 38% do United. Isso, porém, diz pouco do jogo. O United conseguiu controlar a partida na maior parte do tempo, mas foi incapaz de transformar em chances de gol. O controle do jogo vinha pelo balanço defensivo, contendo bem os adversários, sem dar espaço a Messi, especialmente, mas também sem conceder chances a Suárez ou mesmo Coutinho.

O técnico Ernesto Valverde tem bastante mérito por ter percebido o problema do Barcelona e mudado o time, inclusive com duas alterações de uma só vez. Isso mudou o jogo, conteve o Manchester United e inverteu o domínio. O United dominava defensivamente o Barcelona, tinha dificuldade para finalizar, mas sempre conseguir impedir que os catalães fossem longe com a bola. Com as mudanças, o Barcelona passou a ter a bola e até mesmo chegar ao ataque com mais perigo.

De outro lado, Solskjaer teve um excelente plano de jogo para conter o Barcelona e tentar vencer o jogo. Tomou um gol, que foi de grande mérito dos jogadores do Barcelona, e viu o seu time se reencontrar no jogo e melhorar. Faltou poder de finalização e as próprias alterações feitas pelo técnico não funcionaram. Os jogadores que entraram não conseguiram melhorar o desempenho do time, como um todo, e coletivamente a equipe da casa perdeu força a cada alteração.

Ainda há um jogo inteiro a ser disputado e, claro, o jogo no Camp Nou pode ser muito diferente. É inegável que o Barcelona ganha uma vantagem importante, com um gol de vantagem e decidindo em casa. Diante do que aconteceu contra o PSG, porém, é prudente esperar para ver o que será da partida de volta. Até porque o Barcelona não tem se mostrado um time consistente, muito menos confiável, nesse tipo de duelo. O Manchester United sai de campo pensando em como conseguiu melhorar o seu desempenho, mas não conseguiu vencer. Precisará jogar ainda mais fora de casa para, quem sabe, escrever outro épico no estádio que conquistou o título da Champions League de 1998/99.