Por Felipe Lobo

Uma das grandes diferenças que se canta em relação ao última Barcelona campeão da Europa e o time atual é o jogo mais direto. Com atacantes tão perigosos como Messi, Neymar e Suárez, é natural que o jogo seja mais vertical. Mesmo assim, o time ainda tem resquícios do tiki-taka tão bem trabalhado por Pep Guardiola. A final da Champions League contra a Juventus exigiu que o Barcelona tivesse um repertório amplo. Depois de começar o jogo com um toque de bola envolvente, lembrando aqueles momentos de dominância e posse de bola acima dos 70%, o time espanhol viu os italianos igualarem e serem até melhores no segundo tempo. Conseguiu fazer o gol em uma arma antes tão pouco explorada: o contra-ataque mortal. O placar de 3 a 1 conta a história de um jogo muito difícil, mas uma vitória de um time que sabe jogar de mais de um jeito, o que torna tudo muito mais difícil para qualquer adversário. Mesmo quando é um tão bom quanto foi a Juventus em Berlim.

Tudo começou em um passe sensacional de Messi da direita para a esquerda, onde encontrou Jordi Alba, libre. Ele tocou para Neymar, que dominou indo para fora da área. Em um toque curto, o brasileiro achou Iniesta dentro da área, abrindo o espaço. O camisa 8, capitão do time, tocou para o meio, onde estava Rakitic, que completou de primeira, de pé esquerdo. Gol do Barcelona logo aos três minutos de jogo, dando uma grande vantagem ao time de Luis Enrique – em sua primeira final europeia, uma vez que como jogador ele jamais alcançou esta fase da competição. O Barcelona começava bem um jogo que teria muitas variações.

Logo depois, aos seis minutos, mais uma bela inversão de jogo de Messi da direita para a esquerda, desta vez encontrando Neymar. O brasileiro jogou de primeira para a área, mas a zaga tirou. O Barcelona tinha a bola, a Juventus, marcando forte, tentava tirar os espaços. Aos sete minutos, veio a resposta da Juventus. Contra-ataque puxado por Morata pela direita, que colocou para correr contra Mascherano e, claro, levou vantagem. Chegou à linha de fundo, fez o corte em cima do argentino e tocou para Vidal, que chutou para fora. Aos 13 minutos, Buffon salvou a Juventus. Jogada pela direita com Suárez, que recebeu na linha de fundo e tocou para trás, onde Daniel Alves apareceu para fuzilar. O goleiro caía para o lado direito, mas como se fosse um jogador de vôlei, esticou o braço para defendeu. A bola ainda sobrou para Messi, que tocou de cabeça por cima do gol.

Depois dos 25 minutos, o domínio do Barcelona diminuiu. A Juventus igualou mais o jogo no meio-campo, mas pouco conseguia ameaçar o gol de Ter Stegen. Só mesmo em chutes de fora da área, mas o time teve pouca penetração na área. A melhor chance nesse sentido foi um lance de Pogba pela esquerda, que buscou Tevez dentro da área e Mascherano cortou. Os primeiros mintuso, tão rápidos e intensos dos dois times, acabou diminuindo. Melhor para a Juventus, que viu o ímpeto blaugrana diminuir e, assim, conseguir respirar e voltar ao jogo.

O segundo tempo começou com o mesmo panorama do primeiro, mas logo isso mudaria. Aos 10 minutos, em uma saída de bola errada do Barcelona, Marchisio se antecipou e deu um lindo passe de calcanhar para Lichststeiner. O lateral tocou para o meio onde Tevez, inteligentemente, girou e bateu. Ter Stegen defendeu, mas Morata, no rebote, mandou para as redes. Tudo igual em Berlim.

No futebol, um gol realmente muda tudo. O Barcelona, tão superior até ali, sentiu. A Juventus ganhou confiança. Os italianos cresceram também em volume de jogo e, antes dos 20 minutos, já tinha chutado outras quatro vezes ao gol do Barcelona. Todas com perigo. A Juventus passou a ter mais a bola, mais chegada à frente. O Barcelona procurava seu jogo, mas não encontrava. A Juventus, forte, intensa, vibrante, não deixava. Mas é nestes momentos que os jogadores acima da média podem mudar tudo.

Quando a Juve estava no seu melhor momento do jogo, o Barcelona tratou de fazer o gol e tirar o nervosismo da torcida catalã. Aos 23 minutos, Messi puxou o contra-ataque, avançou com espaço, passou pela marcação e chutou cruzado. Buffon espalmou e a bola sobrou para Luis Suárez, que tocou de primeira para o fundo da rede. Gol, 2 a 1, Barcelona de novo na frente.

O gol da Juventus pareceu deixar o Barcelona nervoso, mas o contrário também aconteceu no gol dos espanhóis. O time de Turim sentiu o golpe, até por ter menos tempo para buscar o empate. E o Barcelona passou a ser novamente senhor do jogo. A Juventus tentava, mas não mais ameaçou o gol de Ter Stegen.

Veio então a polêmica do jogo. Em um contra-ataque rápido, Alba cruzou já dentro da área para Neymar tocar de cabeça para o gol. Só que ele cabeceou na própria mão. O árbitro atrás do gol informou o turco Çakir, que anulou o gol. A controvérsia em relação à regra é que muitos interpretam que apenas toques intencionais deveriam ser marcados, mas essa é uma interpretação que não se usa há muito tempo. Tanto que hoje se fala muito em movimento natural ou antinatural. O gol, efetivamente, foi com a mão, mas o lance gerou discussão – e ainda gerará mais. Mas tornou-se um detalhe sem tanto peso ao final do jogo.

Quando o jogo já estava no momento de desespero, com a Juve jogando bola na área, veio o golpe fatal. Em um contra-ataque, uma arma que esse time passou a utilizar com a maestria que o seu rival Real Madrid tanto se especializou nos últimos anos. Desta vez, teve Neymar, Pedro e Neymar de novo, recebendo diante de uma defesa da Juventus esfacelada já ao 49 minutos. O brasileiro colocou a bola na rede e definiu o placar, o jogo e o título. Um título que ele assinou com letras garrafais: Neymar marcou nos dois jogos das quartas de finais, nos dois jogos das semifinais e na final. Uma marca inédita. Nem Messi e Cristian Ronaldo conseguiram isso até aqui.

O Barcelona que teve um primeiro tempo de tiki-taka foi o time do contra-ataque no segundo gol. E soube usar essa arma e seus talentos para vencer e convencer. A Juventus foi gigantesca em campo, conseguiu igualar e até ser melhor em um período do segundo tempo. Mas o Barcelona conseguiu usar seu repertório para vencer com autoridade. O penta da Champions chegou. O Barcelona escreveu mais um capítulo de glória em sua história. Um dos times mais fantásticos de se ver jogar e que poderemos lembrar por muitos anos.