A Catalunha segue manifestando a soberania de seus interesses diante da repressão à realização de seu referendo de independência. Nesta terça, diferentes instituições se alinham para uma greve geral, como resposta à “violência exercida pelas forças de segurança do Estado”. Sindicatos, empresários e entidades independentistas lideram a ação, demarcando seu repúdio ao que consideram um ataque à democracia. E o protesto contará com a participação dos próprios clubes de futebol. Representantes catalães na primeira divisão do Campeonato Espanhol, Barcelona e Girona irão parar, enquanto o Espanyol optou pela neutralidade, mas sem ferir o direito de seus funcionários.

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A posição do Barcelona é a que ganha maior notabilidade, especialmente diante das críticas recebidas neste domingo, pelo jogo contra o Las Palmas. A decisão de fechar os portões do Camp Nou e entrar em campo causou um racha interno na diretoria dos blaugranas. Vice-presidente institucional, Carles Vilarrubí pediu demissão por discordar da realização da partida, assim como o diretor Jordi Monés. Segundo os dirigentes, o Barça deveria se recusar a disputar o jogo, em manifestação mais contundente sobre sua posição contra a ação das forças de segurança do governo espanhol na votação. Esta visão era compartilhada por parte da torcida e se refletiu também na capa dos jornais esportivos do país.

O Barcelona, entretanto, foi a campo. Conforme matéria publicada pelo jornal Sport, nesta segunda, a diretoria tinha a intenção de não realizar a partida, mesmo sabendo das consequências desportivas desta posição. Contudo, após uma conversa com os jogadores é que se decidiu por aquilo que chamam de “opção intermediária”: os portões fechados. O periódico ainda afirma que, inicialmente, Gerard Piqué e Sergi Roberto se mostraram favoráveis ao W.O., enquanto Lionel Messi propôs que jogassem com os portões abertos, para que os seis pontos não fossem perdidos, mas se arcasse com os desdobramentos de uma possível invasão de campo. Foi o presidente Josep Maria Bartomeu quem propôs a ideia acatada, sob apoio de Andrés Iniesta, Ernesto Valverde e outros membros do elenco.

Nesta segunda, Bartomeu publicou uma carta falando sobre o ocorrido. Reiterou que a decisão do clube foi importante para “transmitir a excepcionalidade da partida e a singularidade do que ocorreu no Camp Nou a 174 países”. Também disse compreender posições contrárias e lamentou os problemas que essa posição trouxe aos torcedores. Além disso, anunciou oficialmente a participação na greve geral desta terça, interrompendo todas as atividades do clube. Nesta segunda, os funcionários blaugranas já realizaram uma paralisação de 15 minutos, em protesto contra a violência.

“Neste momento tão transcendental de nossa história, o Barcelona reafirma seu posicionamento de compromisso com as liberdades e com o povo da Catalunha. O que se viu ontem em nosso país é inadmissível. Pedimos respeito pelos cidadãos da Catalunha e nos colocaremos, uma vez mais, junto de seus legítimos representantes. Nós, catalães, ganhamos o direito de sermos escutados. Como uma das entidades de referência do país, fazemos um apelo para que se encontrem soluções políticas, respeitando a vontade dos cidadãos”, escreveu Bartomeu. “Para terminar, queremos nos solidarizar com todos os cidadãos anônimos que ontem defenderam um bem tão valioso como nossa democracia. Queremos apoiar as 893 pessoas que foram vítimas destas agressões, com o desejo de que se recuperem logo”.

Recém-promovido à primeira divisão do Campeonato Espanhol, o Girona seguiu a postura do Barcelona. Todas as atividades estarão paralisadas e o clube condenou as “ações violentas e repressivas vividas neste domingo na Catalunha, mostrando seu apoio e solidariedade com os cidadãos e instituições do país”.  Já na segunda divisão, Reus e Gimnàstic de Tarragona também suspendem suas atividades.

O Espanyol, por sua vez, não deixou de considerar os “graves acontecimentos vividos no conjunto do território catalão”, mas não quis se posicionar institucionalmente sobre a greve. “O clube respeitará escrupulosamente a posição pessoal de todos os seus trabalhadores e profissionais em relação ao exercício individual de seguir a jornada”, apontou a nota oficial, declarando ainda que o clube fechará seus portões, enquanto a apresentação dos jogadores que não desejarão aderir à greve será postergada da manhã para a tarde. Há duas semanas, os Pericos afirmaram que preferem manter o esporte à margem do político-social, ressaltando que “os posicionamentos cheios de palavras vazias não servem em nada”.