Ir para um jogo eliminatório de ida e volta com uma vantagem de 3 a 0 é algo que todo clube quer. O que o Barcelona conseguiu no Camp Nou no jogo de ida da semifinal da Champions League foi muito além do que o jogo mostrou. O que mais impressionou no jogo de volta, em Anfield, foi a incapacidade do Barcelona em lidar com o que se viu no estádio do Liverpool. Foi sendo demolido, sem mostrar qualquer capacidade de mudar a tragédia que se desenhava. Viu os Reds enfiarem 4 a 0 e jogarem muito mais.

Diante de um rival ligado desde o primeiro minuto, os blaugranas não mostraram reação e pareceram temer o pior, mesmo antes do time inglês conseguir igualar o número de gols do jogo de ida. Um gol logo no início pareceu criar uma esperança, mas ainda era só um passo de um caminho longo pela frente. O Barcelona não pareceu preocupado em campo, tenso, ou mesmo com aquela postura de quem tenta reagir por estar encurralado.

O primeiro tempo teve um Barcelona que conseguiu criar alguns lances e que exigiram mais dos defensores do Liverpool. Criaram chances que foram bem defendidas pelo time da casa. Mesmo assim, o que se viu em campo foi um Liverpool melhor, que pressionou, tentou e também errou bastante.

A eliminatórias parecia no controle do Barcelona pelo placar, não pela bola. O segundo tempo foi um sufoco desde o começo. O Barcelona ameaçou menos que no primeiro tempo, tentando ser um pouco mais pragmático para segurar o ímpeto do Liverpool. Só que não foi suficiente. À medida que o tempo passava, o que se via era um Barcelona lamentando, não jogando.

Com o segundo gol do Liverpool, o Barcelona ainda tinha a vantagem no placar agregado, 3 a 2. Só que a feição dos jogadores do Barcelona era como se o time já estivesse sendo goleado. Ainda era cedo na partida, eram apenas nove minutos da etapa final. Dava tempo de se reorganizar em campo, tranquilizar e tentar ter mais controle do jogo. Só que a reação dos jogadores não era essa. As cabeças baixas, alguns fazendo o sinal de “não” com a cabeça. Lamentavam, o que é normal, mas pareciam cabisbaixos.

O placar ainda não era condizente com o mental do Barcelona, mas logo se tornaria. Dois minutos depois do segundo gol, veio o terceiro. Como é fácil deduzir, os jogadores do Barcelona sentiram. O time não jogava, fazia pouco em campo e dependia exclusivamente de Messi. Foi ele que puxou ataque com a bola, correndo, driblando, tentando tirar um coelho da cartola. Arrumou uma falta que ele mesmo cobrou, mas em vez da curva mágica do jogo de ida e a bola morrendo no fundo da rede, o chute ficou na barreira.

Messi parecia o único autorizado a chutar. Tanto que todos os chutes do Barcelona tiveram participação direta de Messi. Foram cinco chutes do camisa 10, além de três chances que ele mesmo criou para companheiros. E foi só o que o Barcelona produziu ao longo da partida.

Os problemas coletivos do Barcelona aconteceram ao longo de toda a temporada, um problema de repertório que por vezes dependeu da individualidade dos seus jogadores. Não quer dizer que o time de Ernesto Valverde não sabia o que estava fazendo. O treinador basco trouxe uma dose grande de pragmatismo ao jogo do Barcelona, com uma defesa muito mais segura e com um time mais capaz de competir fisicamente. Só que contra o Liverpool, como aconteceu outras vezes na temporada, o que o time mostrou foi muito pouco repertório para lidar com os problemas impostos pelo adversário.

Em alguns momentos da temporada, as atuações que ficaram devendo foram salvas pela genialidade de Messi, que talvez faça uma das suas melhores temporadas na carreira. Foram muitos jogos decididos por Messi, seja criando a jogada do gol, seja marcando ele mesmo os gols da vitória. Em outras oportunidades, o goleiro Ter Stegen salvou.

Individualmente, o Barcelona ficou abaixo. O problema do Barcelona é dever em outros aspectos do jogo. Inclusive o aspecto mental. O time jogava como eliminado antes dos gols suficientes para isso. Não conseguiu ter uma postura condizente com o seu escudo, com a sua camisa, com a sua tradição e com os jogadores que possui.

Anfield Road é sim um lugar que se impõe, por tudo que representa, pela história que carrega, por ser a casa de um clube que acredita até o fim. Só que o Barcelona também tem que acreditar. Tem obrigação de acreditar. Tem aquele que é um dos melhores jogadores da história nas suas fileiras, vestindo a camisa 10 e a braçadeira de capitão. Tem jogadores de alto calibre, que custaram fortunas para os cofres do clube.

Faltou confiança ao time, afinal, como confiar em um jogo que depende dos jogadores encontrarem soluções? E quando o adversário as encontra mais fácil? E quando o adversário sabe como dificultar o trabalho dos jogadores em termos coletivos. O Liverpool não tem Messi, também não teve Firmino e nem Salah, dois dos seus craques. Mas confia no seu jogo. Sabe do que é capaz, mesmo que tenha que confiar em jogadores que não renderam tanto assim com a camisa do clube, como o próprio Origi. O jogo dá confiança. A forma como o time sabe encontrar soluções da confiança.

Depender de jogadores terem ideias para resolver os problemas pode funcionar muitas vezes em um time que tem muitos jogadores de alto nível, como é o Barcelona. O problema é quando o adversário do outro lado está preparado para o duelo, consegue igualar o jogo, sabe como encontrar respostas coletivamente. Respostas que o coletivo do Barcelona sofre para entregar. E que parecem sofrer com o mental diante de uma situação como essa. O Barcelona ficou paralisado em Anfield enquanto via o Liverpool atropelar.

Há problemas táticos no Barcelona, houve questões individuais, com falhas, e o jogo coletivo do Barcelona ainda é pobre. Messi é um craque, um gênio, mas mesmo ele não irá resolver todos os jogos. É preciso estar preparado para isso. Isso seguiu faltando. É difícil não ligar os dois aspectos. O mental parece pesar em um time que precisa tirar coelhos da cartola a cada encruzilhada. Desta vez, em Anfield, os coelhos não apareceram. Foi preciso guardar a cartola e voltar para casa, refletir sobre esses tantos problemas para evitá-los no futuro. A lição da Roma, na temporada passada, não pareceu suficiente. Valverde terá que ser cobrado por isso. Ser eliminado é parte do jogo. Ter tantos problemas coletivos e com tanta constância, porém, não é algo que pode passar batido.