Uma rápida busca nas redes sociais é o bastante para encontrar cenas de violência da polícia espanhola contra habitantes da Catalunha que queriam participar de um referendo oficioso sobre a independência da região. Como esta e esta. De acordo com a prefeita de Barcelona, Ada Colau, pelo menos 460 pessoas foram feridas, em um dia de ebulição para o povo catalão. No meio disso tudo, acredite se quiser, houve um jogo de futebol, vencido pelo Barcelona por 3 a 0 contra o Las Palmas.

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Com portões fechados. Impedir a torcida de entrar no Camp Nou foi o meio-termo encontrado pelo Barcelona – se foi suficiente ou se deveria ter tomado uma medida mais dura é assunto para outro texto – para equilibrar eventuais problemas de segurança com as exigências das instituições de Madri. Parte da diretoria azul-grená queria que o confronto fosse adiado, mas ninguém concordou: nem o Las Palmas, nem La Liga, nem a Federação Espanhola.

“Não houve maneira (de suspender a partida) e, diante da negativa da Liga de passá-la para outra data, isso implicaria uma perda importante de pontos para o time, seis. Conversamos com diretores, executivos, também com a comissão técnica, os jogadores, e decidimos disputar a partida”, afirmou o presidente do Barça, Josep María Bartomeu. “Decidimos, em vez de anular o jogo, que era o que todos queríamos, disputá-lo de uma maneira excepcional, ou seja, sem público, com portões fechados, para que se veja que está sendo jogada uma partida de futebol, mas que nada tem a ver com a normalidade”,

Apesar de Bartomeu ter afirmado que não determinou portões fechados por motivos de segurança, que os Mossos, a polícia da Catalunha, garantiu a integridade física dos participantes, essa medida também parece ter esse caráter. Porque a Grada d’animación do Barcelona, um grupo de torcedores organizados, publicou nas redes sociais uma convocação para que os presentes no Camp Nou invadissem o campo para realizar um protesto pacífico contra a violência policial, sentando no gramado no primeiro minuto do jogo. Mesmo com portões fechados, houve uma invasão de campo, rapidamente resolvida pelos seguranças do estádio.

Quando o assunto é a independência da Catalunha, instituições esportivas da Espanha tomam partidos. O presidente de La Liga, Javier Tebas, já afirmou que, se a região se separar da Espanha, o Barcelona e outros clubes catalães não poderiam disputar o Campeonato Espanhol. A maior autoridade esportiva da Catalunha abriu a possibilidade de o Barcelona e seus colegas disputarem ligas vizinhas, como a francesa, italiana ou até mesmo a inglesa.

O Las Palmas, por sua vez, colocou uma bandeira da Espanha em sua camisa e emitiu um comunicado em nome da “unidade da Espanha”. “Com a bandeira espanhola bordada em nosso uniforme, queremos votar, de forma inequívoca, em uma imaginária consulta para a qual ninguém nos convocou: acreditamos na unidade da Espanha”, disse. “O Las Palmas poderia ter se limitado a ser uma testemunha muda desta encruzilhada histórica ou tomar partido. Escolhemos a segunda opção”.

Com a palavra “democracia” no telão do Camp Nou, Barcelona e Las Palmas entraram em campo para um jogo melancólico. Busquets abriu o placar, no começo do segundo tempo, e Messi garantiu os três pontos com dois gols. Comemorou ambos de forma tímida. Neste domingo, há coisas mais importantes que o futebol na Catalunha.