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Apesar de seu status como maior clube do futebol indonésio, o Persija Jakarta entrou em campo em sua despedida em casa na temporada sem brigar por nada no Campeonato Indonésio. Apenas 13º colocado, ficou longe da disputa pelo bicampeonato, mas também termina sua campanha sem riscos de ser rebaixado à segunda divisão. Ainda assim, os gritos entusiasmados de seus torcedores nas arquibancadas do Estádio Gelora Bung Karno, tradicionalmente conhecidos como Jakmania, indicavam que algo especial acontecia naquela noite de terça-feira, 17 de dezembro de 2019.

Depois de uma carreira de 20 anos, Bambang Pamungkas entrava aos 30 minutos do segundo tempo para, aos 39 anos de idade, jogar seus últimos minutos de futebol profissional. Desconhecido do público ocidental, o atacante, popularmente chamado de “Bepe”, se tornou, ao longo dos anos, basicamente uma instituição do futebol indonésio. É isso que explica seus números assustadores nas redes sociais, mesmo tão desconhecido do público ocidental: 5,5 milhões de seguidores no Twitter e mais de um milhão no Instagram.

Uma figura deste tamanho, tão desconhecida dos fãs de futebol das fronteiras da Indonésia para fora, parecia o nome ideal para reinaugurarmos a nossa seção Conheça o Jogador, uma recompensa destravada pelo apoio maciço dos leitores da Trivela em nossa campanha no APOIA.se/Trivela. Começamos a pesquisar sobre sua história no futebol local e encontramos um personagem com atuação que vai além das quatro linhas.

Nascido em Salatiga, cidade colada à capital da província de Java Central, Semarang, Pamungkas começou sua trajetória no futebol aos oito anos, defendendo a equipe juvenil SSB Hobby Sepakbola Getas. Passou seus três anos finais como jogador de base no Diklat Salatiga, de sua cidade-natal. Em 1999, fez sua estreia como profissional, já na capital indonésia, Jacarta, defendendo o Persija. Seu impacto no principal clube do país foi imediato, e Bepe marcou 24 gols em 30 partidas em sua temporada inaugural. Inevitavelmente, juntou-se à seleção indonésia já em 1999.

Compilado de gols de Bepe pelo Persija Jakarta

A história do Persija Jakarta está intimamente ligada à do próprio futebol indonésio, ao menos em sua criação. A equipe foi fundada em 1928 e, dois anos depois, junto de outros clubes, ajudou a criar a PSSI, a Federação Indonésia de Futebol. Naquela primeira década de campeonato – uma era ainda amadora que durou até 1994 –, o Persija, com seu antigo nome VIJ Batavia, foi dominante no cenário nacional, vencendo o título da liga em 1931, 1933, 1934 e 1938, além de um título não-oficial em 1930.

O Campeonato Indonésio só se tornou profissional a partir de 1994. De 1930 a 1979, era completamente amador. Passou a ser semi-profissional em 1979, até se profissionalizar em 1994. Antes disso, o futebol no país tinha dois sistemas de competição separados, organizados pela própria PSSI: Perserikatan (amador) e Galatama (semiprofissional).

Desde a profissionalização, teve diversos nomes e cisões: Primeira Divisão (1994-2008), Superliga Indonésia (2008-2014), Premier League Indonésia (2011-2013), Indonesia Soccer Championship A (2016) e, por fim, Liga 1 (2017 até o momento).

Aquele início arrasador catapultou o Persija Jakarta ao status que até hoje detém no futebol indonésio, e outras conquistas vieram em 1954, 1964, 1973, 1975, 1979, 2001 e 2018. Nessas duas últimas conquistas, apesar do intervalo significativo de 17 anos entre elas, Bambang Pamungkas foi essencial aos títulos, com gols e, por fim, sua larga experiência.

Jakmania, a torcida do Persija Jakarta (Divulgação)

Se o desempenho estelar em sua temporada de estreia no Persija em 1999 foi o salto à fama de Bepe no futebol indonésio, o que fez entre 2001 e 2002 o colocaram na condição de ídolo nacional. Em 2001, como dito acima, fez parte da equipe que venceu o Campeonato Indonésio pela primeira vez desde 1979. Já em 2002, levou a fama ao Sudeste Asiático de maneira mais abrangente. Na campanha de vice-campeonato da seleção indonésia na Copa AFF, torneio bianual entre seleções do sudeste asiático, foi o artilheiro da competição, com oito gols, além de herói da classificação à final ao marcar o único gol da semifinal contra a Malásia. Na final, a Indonésia acabou derrotada nos pênaltis pela Tailândia.

Em outras duas oportunidades, em 2000 e 2010, Bambang Pamungkas foi até a decisão do torneio com a seleção indonésia, mas também acabou derrotado, por Tailândia (4×1) e Malásia (4×2 no agregado), respectivamente. Em vez de mancha no currículo, são campanhas vistas como sucessos na carreira de Bepe, especialmente por ter influenciado positivamente o lado coletivo da equipe a partir de sua individualidade.

Bambang Pamungkas atuou pela seleção indonésia durante pouco mais de 12 anos, entre 1999 e 2012, e, no período, entrou em campo vezes suficientes para deter, até hoje, o recorde de jogador com maior número de jogos pela Indonésia: são 86 jogos e 38 gols marcados. Na lista de artilheiros históricos, é o segundo colocado, com Soetjipto Soentoro liderando com 57 gols, marcados na década de 1960.

Na Indonésia, Bepe defendeu na maior parte do tempo o Persija, com a exceção sendo o ano que passou no Pelita Bandung Raya em 2014. Ao todo, teve quatro passagens pelo Persija: 1999-2000, 2000-2005, 2007-2012 e 2015-2019. Nesses intervalos, além do ano no Pelita Bandung Raya, teve duas aventuras internacionais.

  • Em quatro passagens pelo Persija, Bambang Pamungkas fez 168 gols em 352 jogos de liga indonésia.
  • Sua primeira temporada como profissional, em 1999/2000, já foi de destaque, com 24 gols em 30 jogos pelo Persija.
  • Em 2000, fez sete gols em 11 jogos pelo EHC Norad, da 3ª divisão holandesa
  • Em 2003, fez 24 gols em 29 partidas, sua melhor marca em uma temporada.

A primeira delas veio quando tinha apenas 19 anos. Logo após o trabalho de destaque na chegada ao Persija em 1999, defendeu por empréstimo, em 2000, o EHC Norad, da terceira divisão holandesa, anotando sete gols em 11 jogos.

Apesar do desempenho, sua carreira na Europa se resumiu a esta curta passagem. Por fim, entre 2005 e 2007, jogou pelo Selangor FA, da Malásia, conquistando ainda em 2005 três títulos: a segunda divisão malaia, a Copa da Malásia e a FA Cup da Malásia, além de ser o artilheiro da segundona com 23 gols em 24 partidas.

Goleador em campo, jeito com as palavras fora dele

Se, por um lado, seus gols pela seleção indonésia e pelo tradicional Persija foram os grandes impulsores de sua fama gigantesca na Indonésia, a sua personalidade fora dos campos certamente ajudou a polir a imagem de modelo para a sociedade. Se mesmo hoje vermos Juan Mata manter um blog em paralelo à sua carreira de jogador é algo que surpreende, o que dizer de Bambang Pamungkas, que desde o fim de 2007 atualiza frequentemente o seu próprio blog?

Foi por meio de suas linhas e parágrafos que Bepe foi além dos gols para se destacar como um jogador distinto no futebol indonésio. Em seu blog, separado em diferentes categorias, como “seleção indonésia” e “clube”, o atacante mantinha uma linha de contato direto com os torcedores, sem intermédio da imprensa local.

Ao longo dos anos, foi neste espaço uma figura sem meias palavras, pronto a analisar triunfos e sobretudo derrotas, a expor suas opiniões em prol dos direitos dos jogadores ou a criticar a Federação Indonésia de Futebol pela falta de continuidade no comando da seleção, que teve 15 técnicos em 15 anos, entre 1998 e 2013, período que abrangeu toda a carreira do atacante na equipe nacional.

“O que quero dizer é: não tem ninguém na Federação Indonésia de Futebol que pense que um técnico de longo prazo na seleção é algo que seria bastante influente para os resultados a serem conquistados pela própria seleção?”, escreveu em maio de 2013.

Em 2012, em especial, virou porta-voz de jogadores indonésios com salários atrasados e desafiou dirigentes do futebol indonésio ao criticar a divisão do esporte no país, com duas ligas e duas federações nacionais. A atuação fora de campo lhe rendeu um lugar no ranking de 10 melhores jogadores asiáticos daquele ano no site americano da ESPN, por meio das palavras do correspondente da publicação na Ásia à época, John Duerden.

O jogador foi, ao longo de sua carreira, uma figura muito preocupada com a maneira como se expressava, com a imprensa local relatando que dificilmente o atleta dava entrevistas espontâneas, em coletivas de imprensa ou zonas mistas. Preferia responder a perguntas por e-mail, por meio do qual teria tempo e controle sobre o que comunicava.

A preferência faz sentido a alguém que sempre fugiu do comum ao se expressar em público. Além dos posts de blog, lançou dois livros, em 2011 (BEPE20: Quando Meus Dedos Dançam) e 2014 (Bepe20 Pride), em que discute bastidores de sua carreira tanto por clubes como pela seleção nacional.

Levou, por fim, seu jeito com as palavras também à sua despedida do futebol. A derrota por 2 a 1 para o Persebaya Surabaya não estragou a ocasião. Emocionado e realizado, já tendo garantido o sucesso na última passagem ao ajudar a equipe a vencer o campeonato nacional aos 38 anos, deu seu adeus à Jakmania no Estádio Gelora Bung Karno.

“Pessoas sábias dizem: ‘Homens de verdade não choram, mas seus corações sangram’. Hoje, permitam-me ser um homem de verdade. Não vou dizer muito, já basta que meu coração esteja sangrando. (…) Aqui (no Persija), já fui o melhor jogador. Já alcancei o topo da artilharia e me tornei um campeão. Entretanto, também quebrei minha perna, tive depressão e, um dia, fui considerado um traidor. Mas, com tudo o que passei, todos vocês continuaram me apoiando. Por isso, quero expressar minha mais profunda gratidão, do fundo do meu coração.”

Despedida de Bambang Pamungkas