O atacante Mario Balotelli foi vítima de racismo neste fim de semana, no estádio Marc’Antonio Bentegodi, em Verona, contra o time da casa, Hellas Verona. No segundo tempo, o atacante do Brescia estava próximo à bandeirinha de escanteio, pegou a bola com as mãos e chutou na direção da arquibancada. Disse várias vezes a companheiros a palavra “basta”, enquanto se dirigia a deixar o gramado após os insultos raciais. O atacante falou sobre o episódio em entrevista na Itália, contando por que reagiu da forma como fez. O jogador, nascido em Palermo, contou como isso doeu porque a filha dele viu e, mais do que isso, a filha dele já ouviu a mesma coisa, os mesmos atos racistas. Por isso, o jogador diz que é importante os adultos agirem para estabelecer um exemplo de como ser cidadão. E isso incluiu não aceitar racismo.

“Eu sei que nós não deveríamos dar atenção a essas pessoas, mas não podemos simplesmente subestimar a seriedade do que eles estão fazendo também”, afirmou Balotelli ao programa de televisão Le Iene. “Se eu não reajo, nada iria acontecer. Você pode me chamar de idiota, eu não ligo, mas não me chame de ‘nigro’ [palavra usualmente usada para ofender e considerada ofensiva na Italia]. Isso não é feito por engano. Isso é sério”.

“Eu parei porque eu pensei, é isso, eu já vi o bastante. Eu digo punam esses que são culpados e não toda a Curva, porque isso é a beleza do futebol. Eu nunca acusei toda a cidade de Verona, apenas alguns idiotas são responsáveis”, continuou o atacante. “Eles eram apenas poucos, sim, mas eles eram o suficiente para me fazer ouvir de dentro de campo, então não podem ser dois ou três”.

“Eu serei honesto, eu realmente gosto do estádio em Verona e seus torcedores, já que eles sempre brincaram de um jeito divertido e irônico. Se eles querem distrair um jogador, eles podem fazer isso de milhares de formas, mas não assim. Isso não é certo. Nós não podemos aceitar que isso é uma mera brincadeira”, continuou.

“Minha filha Pia viu na TV e isso fez doer três vezes mais. Isso também aconteceu com ela antes e você não pode insultar uma criança dizendo palavras como essas. Nós adultos temos que estabelecer o padrão e mostrar como ser um cidadão”, disse ainda o atacante.

“Eu não estou dizendo que eu sou diferente dos outros jogadores que recebem o mesmo abuso, os mesmos barulhos de macaco, mas o problema é que eu sou italiano e eu quero voltar à Nazionale [seleção italiana]”, explicou Balotelli. “Eu posso aceitar todos os times de insultos, mas os baseados em racismo não são aceitáveis. Aqueles que fizeram isso, eu repito que eram poucos, são completos idiotas”.

Apesar da reação de Balotelli, o técnico do Verona, Ivan Juric, disse que nada tinha acontecido. O presidente do clube, Maurizio Setti, também disse que nada aconteceu. Negaram o óbvio, apesar de infelizmente ser algo bastante conhecido de alguns ultras do Verona. Falamos sobre como as atitudes dos dirigentes, políticos e mesmo das pessoas em geral tem normalizado o racismo na Itália.

Um exemplo claro disso é que políticos de Verona querem processar Balotelli por difamação. É uma loucura completa em um cenário que se torna cada vez menos propenso a rever os próprios problemas. O ato racista de seus torcedores rendeu uma punição suave para o clube: uma parte das arquibancadas estará fechada por um jogo. O líder dos ultras, Luca Castellini, disse que Balotelli era “italiano porque tem cidadania italiana, mas nunca poderá ser completamente italiano”. O clube, então puniu o torcedor e o proibiu de entrar no estádio até 2030.

A Itália precisa começar a lidar com o racismo de forma séria para poder combatê-lo. Enquanto vermos medidas inócuas como as que estão sendo feitas, os casos continuarão acontecendo e vozes como a de Mario Balotelli continuarão sendo importantes para se manifestar, como já aconteceu com Kalidou Koulibaly, do Napoli, antes. E provavelmente teremos mais jogadores que sofrem com esse tipo de coisa.

O Brescia de Mario Balotelli entra em campo contra o Torino, no próximo sábado, às 11h (horário de Brasília).