A Itália tem o primeiro senador negro da sua história: Toni Iwobi, um nigeriano naturalizado italiano. O curioso é saber pelo partido que ele foi eleito: a Lega, antiga Lega Nord, um partido de centro-direita que tem como uma das suas bandeiras ser contra imigrantes. Por isso, o atacante Mario Balotelli, do Nice, fez uma crítica a Iwobi por se eleger com esse discurso.

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Balotelli nasceu em Palermo, cidade que fica na Sicília, sul da Itália. Filho de imigrantes ganeses, o atacante foi colocado para adoção porque seus pais não conseguiam pagar os custos de saúde. O jovem Mario tinha um problema sério de saúde, que ameaçava a sua vida. Ele foi adotado pela família Balotelli, Silvia e Francesco. Ele cresceu no norte do país, em Concesio, na região de Brescia. Ele adotou o nome dos pais adotivos, Balotelli, mas manteve o dos pais biológicos, Barwuah.

A antiga Lega Nord tem a pauta anti-imigração há muito tempo e tem também na sua plataforma uma maior autonomia do norte, região onde ocorreu a industrialização italiana e que é mais rica, em relação ao sul, mais pobre e rural. Assim como no Brasil, há um discurso que por vezes esbarra em um separatismo da região rica em relação à região mais pobre.

Na época de Diego Maradona no Napoli, que o time conquistou o título, torcidas mais radicais de clubes do norte do país traziam faixas que mostravam separação entre as duas Itálias, a do norte e a do sul. Em uma visita ao Verona, que fica no Veneto, uma faixa saudava os campeões italianos com a faixa “Bem-vindos à Itália” e “Vesúvio, nos faça sonhar”. Vesúvio é um vulcão adormecido que fica em Nápoles. Sim, as faixas desejavam a morte dos napolitanos.

Nas eleições realizadas no último domingo, a Lega conseguiu cerca de 18% dos votos e Iwobi acabou sendo eleito. Foi uma foto da festa que ganhou comentário de Balotelli. O senador aparece com uma camisa com os dizeres “Parem a invasão”, contra os imigrantes, ao lado do líder do partido, Matteo Salvini. “Talvez eu seja cego ou talvez ainda não o avisaram que ele é negro”, escreveu Balotelli em seu Instagram. “Uma vergonha!”.

O amor pelos pais adotivos é muito forte, como Balotelli mostrou na Eurocopa de 2012. Ele nasceu na Itália, mas teve que esperar até os 18 anos para escolher a sua nacionalidade. Isso porque os seus pais adotivos nunca o adotaram formalmente, por questões burocráticas. Aos 18 anos, ele tirou passaporte italiano e finalmente pôde defender a seleção italiana. Ele disse, na época: “Eu sou italiano, eu me sinto italiano e eu irei para sempre jogar pela seleção italiana”. Ele, porém, não esquece a sua raiz africana.

Balotelli já enfrentou racismo várias vezes, desde o seu início de carreira como profissional na Inter, passando por Inglaterra e agora a França. Um dos episódios mais marcantes foi a sua participação justamente na Eurocopa de 2012, na Ucrânia. Foi a primeira vez que um jogador negro defendeu as cores da Itália na história.

O atacante foi um alvo intenso de racismo ao longo do torneio. Na semifinal, ao marcar um dos gols da Itália contra a Alemanha, ele tirou a camisa, mostrando o torso, negro, e ficou sério, sem comemorar. Por tudo isso, questões como a de imigração na Itália são muito significativas para Balotelli e para sua família. Ainda mais quando é o primeiro senador negro da história da Itália.