Balanço do 1º turno

Confira nesta semana a segunda parte da análise do primeiro turno do Campeonato Francês. Clique aqui para ler a primeira parte.

Paris Saint-Germain
(2º, 31PG, 8V, 7E, 4D, 30GP, 21GC)

Enfim o PSG saiu do vale das sombras. A equipe recuperou um pouco de seu brilho esquecido no passado para voltar a ser protagonista na Ligue 1. Desde 1999/2000, o clube não figurava na vice-liderança do campeonato na metade da temporada. O mais importante foi perceber o poder de reação da equipe quando mais precisou, algo que o Parc des Princes havia se desacostumado a ver. As derrotas para Bordeaux e Sochaux sugeririam um abalo no grupo, mas o técnico Antoine Kombouaré segurou as pontas e os jogadores contornaram a situação sem maiores danos. Muito deste salto de qualidade se deve a Nenê, vice-artilheiro do torneio com 13 gols e responsável por quase metade dos tentos marcados pelo time da capital.

Os destaques não param por aí. Sylvain Armand se firmou na defesa no lugar de Zoumana Camara e trouxe serenidade ao setor. O espaço criado no lado esquerdo foi muito bem preenchido por Siaka Tiéné. Para quem achava que Ludovic Giuly estava em decadência, ele mandou Stéphane Sessegnon para o banco de reservas. Aliás, há não muito tempo, o meia-atacante do Benin era considerado um dos jogadores mais talentosos do PSG. Sessegnon se tornou um problema. O atleta cobrou Kombouaré por ter perdido tanto espaço no time (foi titular em apenas quatro partidas) e ouviu impropérios suficientes para amaldiçoar até sua quinta geração. Esta polêmica, aliás, ameaça estragar os dias de paz no Parc des Princes e comprometer o excelente desempenho da equipe até o momento.

Valenciennes
(16º, 22PG, 5V, 7E, 7D, 21GP, 21GC)

Uma avalanche prejudicou as pretensões do Valenciennes de cumprir uma primeira metade da temporada de forma mais digna. Uma série de lesões e a saída de alguns dos seus jogadores mais importantes (Ben Khalfallah, Audel e Tiéné) fizeram o VA se preocupar mais com a zona do rebaixamento do que gostaria. Embora não tenha vivido a experiência terrível de ficar entre os três últimos colocados, o time está bem perto disso – ocupa um perigoso 16º lugar.

Pelo menos alguma esperança ressurgiu com a vitória por 2 a 1 sobre o Toulouse na 19ª rodada, encerrando uma sequência de três derrotas. O começo de 2011 será crucial para os planos do Valenciennes. Após enfrentar Montpellier e Lyon, a equipe terá confrontos diretos contra rivais da parte de baixo da tabela (Lens, Brest, Caen, Lorient e Monaco). O VA espera por uma enfermaria mais vazia e maior estabilidade para continuar na elite.

Toulouse
(9º, 27PG, 8V, 3E, 8D, 21GP, 20GC)

A torcida do Toulouse se perguntava se haveria vida após a saída de André-Pierre Gignac. A resposta não poderia ser mais satisfatória. O TFC soube reagir muito bem à transferência de seu principal jogador e figura no meio da tabela de forma honrosa. Pode parecer pouco, mas os Violetas também sofreram várias baixas nesta primeira metade da temporada, como foram os casos de Yohann Pelé, Mauro Cetto, Moussa Sissoko, Cheikh M’Bengue e Xavier Pentecôte.

O desempenho nas rodadas iniciais da Ligue 1 foi perfeito: venceu seus quatro primeiros jogos e liderou o campeonato. No entanto, a equipe não demorou para enfrentar uma crise em seu ataque. Seria uma recaída por Gignac? A falta de agressividade do setor ofensivo do Toulouse foi em parte resolvida nas últimas partidas com uma boa atuação de Federico Santander, autor de três gols nos cinco jogos finais dos Violetas na Ligue 1. Com uma equipe jovem, o TFC tem boas chances de evoluir a médio prazo.

Sochaux
(11º, 25PG, 7V, 4E, 8D, 29GP, 23GC)

Nas últimas temporadas, os torcedores do Sochaux se acostumaram a ver o time sonhar não mais do que em evitar a queda para a Ligue 2. A duras penas, o time se livrou da guilhotina, e a expectativa para 2010/11 não era muito diferente. No entanto, a equipe surpreendeu. Com um estilo de jogo ambicioso, os Leões apostaram na juventude de seu elenco e se deram bem. O técnico Francis Gillot enfim vê dar frutos o trabalho feito nas categorias de base do clube. Pierrick Cros, Ryad Boudebouz, Nicolas Maurice-Belay, Edouard Butin e Marvin Martin simbolizam este novo espírito de jogo coletivo, leve, de toque de bola rápido.

Claro, nem sempre o time apresenta a eficiência da qual tanto necessita para decidir um jogo, mas o elenco evolui a passos largos e aprimora seu entrosamento rapidamente. O treinador precisa cuidar com mais atenção das jogadas de bola parada, um verdadeiro tormento para a defesa do FCSM. Com alguns pequenos ajustes, o Sochaux conseguirá não só atingir sua meta logo (a de permanecer na Ligue 1) como até incomodar na briga por posições nobres da tabela.

Rennes
(3º, 31PG, 8V, 7E, 4D, 18GP, 12GC)

A fama do Rennes se justifica por seu desempenho nas últimas temporadas: o time sempre fica no quase na hora de beliscar uma vaga na Liga dos Campeões. Desta vez, os bretões ao menos tiveram um início de temporada muito bom. Sempre considerado como um candidato que corre por fora na luta pelo título e que na hora do vamos ver sempre deixa a desejar, os rubro-negros enfim correspondem às expectativas. No entanto, a equipe tem mais limitações do que parece, e na hora de decidir estes problemas costumam atacar de uma vez só e minar qualquer esperança.

O Rennes se orgulha por possuir a melhor defesa da Ligue 1, com apenas 12 gols sofridos. Os aplausos, contudo, param por aí. O setor ofensivo dos bretões chega a ser uma piada. O time marcou míseros 18 gols, uma média bisonha para quem sonha em levantar a taça ao final da temporada. As saídas de Gyan e Bangoura, figuras essenciais no ataque, não foram preenchidas, o que diminuiu drasticamente as opções para o setor. Para completar, a onda de lesões (Onyekachi Apam, Fabien Lemoine, Alexander Tettey, Rod Fanni, Sylvain Marveaux e Théophile-Catherine) reduziu ainda mais a qualidade da equipe. O técnico Frédéric Antonetti tem feito milagres com um elenco jovem e de pouca experiência. Resta saber como os jogadores reagirão à medida que a pressão vinda com as rodadas decisivas bater na porta do Rennes.

Arles-Avignon
(20º, 8PG, 1V, 5E, 13D, 10GP, 36GC)

Definitivamente, o ACA entrará para a história da Ligue 1 pela porta dos fundos. Não dá para defender um time que venceu apenas uma partida, perdeu 13 de seus 19 jogos e só conquistou seu primeiro ponto na nona rodada e diante do Brest, um dos times que subiram com ele para a elite. O Arles-Avignon demonstra com todas as forças ser um time que não merece a primeira divisão. Tudo no clube conspirou contra sua sobrevivência, a começar com uma política desastrosa. A demissão do treinador que levou o clube à elite já seria outro fator determinante para o fracasso, mas o Arles-Avignon fez questão de caprichar ao criar uma novela de triste desfecho.

Um novo presidente critica o trabalho do anterior, mas nada faz para arrumar a casa. As contratações se mostraram um fiasco retumbante. Os gregos Charisteas e Basinas perceberam a furada na qual se meteram e caíram fora sem pestanejar. Ah, ainda há o “caso Erbate”, que sumiu e não deu satisfações ao clube. Além disso, o elenco se mostrou frágil demais para suportar o nível da Ligue 1 – basta olhar a quantidade ridícula de gols marcados pela equipe, que só balançou as redes em oito (!) partidas. Tudo isso ajuda a explicar como o clube está destinado a voltar para a segunda divisão de forma humilhante.

Lyon
(4º, 31PG, 8V, 7E, 4D, 26GP, 21GC)

Para um time acostumado a triunfar, o quarto lugar obtido pelo Lyon na primeira metade desta temporada soaria como um ultraje aos dirigentes do clube. Como os tempos são outros, o OL está em uma posição até acima de suas reais possibilidades. A oscilação vivida pelo time ao longo de 2010 assustou. As atuações fantasmagóricas nos jogos do returno da fase de grupos da Liga dos Campeões deixaram no ar uma série de dúvidas. Na Ligue 1, o início também foi terrível. Após a derrota por 1 a 0 para o Saint-Etienne no dérbi, os lioneses estavam em um vergonhoso antepenúltimo lugar. A presença na zona de rebaixamento fez o time acordar, encaixar uma série de 12 jogos sem derrotas e subir na tabela. Contudo, o time está bem longe de convencer.

Yoann Gourcuff traduz muito bem este espírito do Lyon. Incensado como o melhor jogador francês em ação na Ligue 1, o meia deixou o Bordeaux em uma negociação de € 22 milhões. Apresentado com pompa, com 15 mil torcedores ávidos para ver seu novo astro, Gourcuff causou um grande sentimento de fracasso. Com seguidas lesões e fora de forma, ele se arrastou em campo, sem dar aquele toque de classe ausente ao meio-campo lionês. O jeito foi apelar novamente para o estilo brigador de Lisandro López, um dos poucos a resolver as coisas sozinho pelos lados de Gerland. Hugo Lloris e Michel Bastos também dão suas contribuições, mas isso é exatamente a repetição da temporada passada. Ou seja, falta muito para o OL retomar aquela velha mística de time temido.

Auxerre
(14º, 23PG, 4V, 11E, 4D, 25GP, 22GC)

A classificação para a Liga dos Campeões era um sonho que demorou para ser digerido pelo AJA. A equipe teve o azar de cair no grupo da morte ao lado de Real Madrid, Milan e Ajax, o que minou suas possibilidades de avançar para a fase seguinte. Contudo, com o passar dos jogos, ficou a certeza: mesmo se estivesse em uma chave mais simples, o Auxerre daria vexame da mesma forma. E como as derrotas seguidas no torneio abalam o lado psicológico do elenco, estava pronta a bomba que prejudicou a equipe nesta primeira metade da temporada. Na Ligue 1, o AJA pouco fez para se impor diante dos adversários, tanto que acumula o maior número de empates: 11.

A LC apenas evidenciou algo claro: o Auxerre conta com um elenco limitado, que não estava maduro o suficiente para se dividir entre duas competições de alto nível de exigência. Para piorar, alguns dos principais jogadores da equipe sofreram seguidas lesões, como foram os casos de Jelen, Hengbart, Le Tallec e Pedretti. Talvez agora, sem o torneio continental para encarar, o AJA deve melhorar a parte física de seus atletas e se recuperar. No entanto, a torcida não deve criar muitas esperanças. Ficar no meio da tabela já estará de bom tamanho.

Lens
(19º, 16PG, 3V, 7E, 8D, 17GP, 32GC)

Os Sang et Or estão em guerra. A segunda divisão parece o destino mais certo para o Lens, envolto em uma série de problemas internos que minam as forças do time. As evidências se multiplicam. Em outubro, foi dado o primeiro sinal público de que algo não andava bem. A derrota por 3 a 0 para o Sochaux não era humilhante o suficiente. Nenad Kovacevic e Yohan Démont acharam que faltava um tempero para torná-la mais sofrida e começaram a se estapear em campo. Duas semanas depois, o mesmo Démont dá sinais de estar com os nervos à flor da pele ao esmurrar um muro no centro de treinamentos da equipe e fraturar a mão. Tudo porque seu companheiro de equipe Issam Jemaa cometeu a heresia de interromper uma conversa entre ele e o técnico-assistente.

A cereja do bolo foi colocada por Vedran Runje. O goleiro tirou satisfações com a torcida após a derrota por 3 a 0 para o Lorient, selando de vez a ruptura entre arquibancada e gramado. Jean-Guy Wallemme resistiu até demais no circo que se tornou o Lens, mas ele foi demitido. Os Sang et Or conseguiram a proeza de ter a segunda defesa mais vazada da Ligue 1, melhor apenas do que a do Arles-Avignon. O desempenho ofensivo beira o ridículo, com somente 17 gols marcados. Os retornos de Jemaa e Pollet prometem amenizar um pouco o problema, mas tantos problemas internos parecem mesmo levar o Lens para uma implosão.

Lille
(1º, 32PG, 8V, 8E, 2D, 33GP, 21GC)

Mesmo com um jogo a menos, o Lille conquistou o simbólico título de campeão de inverno da Ligue 1. nada mais justo para o time que aliou eficiência com um futebol vistoso. Há 60 anos, os torcedores do LOSC esperavam por algo assim. Fiel ao seu estilo de jogo ofensivo, que já havia atraído os holofotes na temporada passada, a equipe ostenta com orgulho a marca de melhor ataque do campeonato, com 33 gols marcados. Se o time já era forte no setor ofensivo, a contratação de Moussa Sow o tornou ainda mais letal. O atacante já balançou as redes adversárias 14 vezes e ocupa o posto de artilheiro da Ligue 1.

Como se o sucesso de seu ataque não fosse suficiente, o Lille ainda tem a melhor campanha como visitante. Em nove jogos na casa dos adversários, os Dogues voltaram com 14 pontos. Além disso, o time demonstra ter a frieza necessária para decidir o jogo nos instantes finais. Oito pontos foram somados graças a gols marcados nos 15 minutos finais de seus jogos. No entanto, nem tudo está bem no norte. A volúpia ofensiva tem seu preço, pago pela defesa. A equipe sofreu 21 gols, compensados pela eficiência dos homens de frente.

O técnico Rudi Garcia coroa seu excelente trabalho à frente do Lille ao fincar raízes com seu estilo rigoroso, mas ao mesmo tempo voltado para o ataque. Nas temporadas mais recentes, quando conquistou a classificação para a Liga dos Campeões, o LOSC se notabilizou pelo sucesso obtido com jogadores sem tanto nome, com a aposta na força do grupo – uma filosofia muito bem seguida por Claude Puel. Em 2010/11, os Dogues usam uma estratégia parecida, mas aprimorada com a eficiência incorporada por Garcia. O Lille parte com grandes chances de chegar ao fim da temporada com a taça em suas mãos.