Uma Copa do Mundo não é fascinante apenas pelo fato de que, durante um mês, o planeta todo está virado para uma só competição. Não é apenas pela reunião dos maiores craques do mundo, representando seus países e protagonizando grandes jogos memoráveis. Mais que tudo isso, é uma oportunidade de troca cultura, interação social e, sobretudo, terreno para grandes histórias, com narrativas próprias e desfechos que apenas contribuem com a valorização do torneio. A edição que acabou há pouco, em especial, foi repleta delas, e escolhemos dez das melhores, seja por sua importância inerente ou pela repercussão e significado que tiveram logo que aconteceram.

Claro que houve alguns outros fatos marcantes, como o consolo de David Luiz a James Rodríguez, mas que, por encerrar em si próprios, acabaram não sendo incluídos na lista. De qualquer forma, sinta-se livre para também relembrar, na área de comentários, outras das histórias que você considerou memoráveis para o Mundial.

Samaras e o pequeno torcedor do Celtic

Um grande gesto de Georgios Samaras durante a temporada europeia, pelo Celtic, teve capítulos posteriores durante a Copa do Mundo. Após os Bhoys conquistarem mais um título escocês, o grego carregou Jay Beatty, um garoto de 11 anos com Síndrome de Down, pelo gramado do Celtic Park e ganhou a torcida do menino durante o Mundial. No jogo em que Samaras foi herói e classificou a Grécia às oitavas de final, Beatty foi gravado comemorando empolgado o gol de seu ídolo no último minuto. O vídeo ganhou enorme repercussão, chegou até o atacante aqui no Brasil, e Samaras prontamente se ofereceu a pagar as viagens e os ingressos para que o garoto e sua família viesse ao país para assistir o jogo contra a Costa Rica, nas oitavas de final. O gesto acabou não se concretizando: a família respondeu à oferta com gratidão, mas falando que já tinham planos de viagem.

Confira a história em mais detalhes:

Esqueça dos dentes de Suárez: muito maior nesta Copa é o coração de Samaras

Ascensão e queda de Suárez

Mesmo com todas as polêmicas que sempre carregou em sua carreira, Luis Suárez ganhou imenso apoio de pessoas de todo o mundo às vésperas da Copa do Mundo. Grande craque do Campeonato Inglês e maior nome da Celeste, o uruguaio teve de passar por cirurgia no joelho a um mês do início do Mundial, e sua participação no torneio era uma incógnita. Contrariando as previsões iniciais de que estaria fora da Copa, recuperou-se a tempo de jogar a segunda partida, foi o herói da vitória sobre a Inglaterra por 2 a 1, sendo ovacionado por torcida e colegas de time após o apito final, mas viu tudo ruir logo no jogo seguinte. A inconsequente mordida em Chiellini acabou acarretando numa severa punição da Fifa, que tirou dele até mesmo o direito de se manter concentrado com o restante da seleção e o afastou de qualquer atividade relacionada ao futebol. Um gancho tão pesado que até “aliviou” a situação para o uruguaio.

O que escrevemos sobre isso:

Os milagres de Suárez, o tipo de craque que a Copa adora
O impulso de Suárez, que já salvou o Uruguai, agora foi pura inconsequência

A invasão dos torcedores latinos
Torcedores da Colômbia fazem festa no Castelão (AP Photo/Hassan Ammar)
Torcedores da Colômbia fazem festa no Castelão (AP Photo/Hassan Ammar)

Antes do início da Copa, um dos argumentos para quem defendia o Brasil como um dos favoritos ao título era o forte apoio que a Seleção receberia por jogar em casa. Acabou que esse fator contribuiu também com as campanhas dos outros sul-americanos, que se sentiram em seu próprio território com as invasões incríveis de suas torcidas. Aquela história do hino à capela dos brasileiros se estendeu também às outras seleções da América do Sul, começando pelos chilenos, se estendendo na estreia da Colômbia, em um Mineirão bastante tomado por torcedores cafeteros, e chegando até, por exemplo, às festas argentinas nas areias de Copacabana.

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Seleções africanas e o dinheiro das premiações

Os acordos por premiações em campeonatos constantemente são um problema em competições de tiro curto, e na Copa do Mundo a história não é diferente. Inevitavelmente, as federações africanas e suas administrações controversas passaram por isso neste Mundial, com a seleção ganense tendo o caso mais emblemático. Antes da última partida da fase de grupos, contra Portugal, os jogadores de Gana ameaçaram não entrar em campo por não terem recebido a premiação pela classificação à Copa e só assim foram atendidos. A forma como tudo ocorreu, no entanto, não poderia ser pior: um avião trazendo US$ 3 milhões em dinheiro, e com imagens flagrando o momento em que os atletas recebiam suas partes, com um deles cheirando o bolo de notas.

Além dos ganenses, camaroneses e nigerianos tiveram problemas similares. Os primeiros, durante a preparação para o Mundial, chegaram a se recusar a embarcar para o Brasil na data estipulada, incontentes com o valor que lhes havia sido oferecido. Eventualmente, a federação aumentou a proposta, e a seleção veio para a competição. Já os jogadores da Nigéria ameaçaram entrar em greve durante a Copa, antes do jogo de oitavas de final contra a França. Um treino dos nigerianos chegou a ser cancelado durante o impasse, mas, com a efetuação do pagamento prometido, os comandados de Stephen Keshi entraram em campo diante dos Bleus e, apesar da derrota, fizeram uma boa partida. O episódio chegou a ter até mesmo a intervenção do presidente da Nigéria.

Queda espanhola e a lavagem de roupa suja

De maior seleção do mundo, atual campeã e candidata ao bicampeonato, a Espanha decaiu para “humilhada pela Holanda na estreia” e, derrotada também pelo Chile, foi eliminada na fase de grupos ao fim da segunda rodada. A queda começou com o trator da Oranje na Fonte Nova, na rodada de abertura, foi consumada com a derrota incontestável para o Chile no Maracanã e teve seu toque final com uma vitória inútil e bastante cabisbaixa sobre a Austrália na despedida na Arena da Baixada. Uma campanha ruim o suficiente para fazer vazar o mau ambiente do grupo espanhol. Se, antes da Copa, Xavi estava defendendo o tiki-taka, afirmando que a equipe triunfaria novamente com ele ou morreria abraçado à tática, logo após a goleada holandesa Xabi Alonso e Fàbregas criticaram em público o estilo, evidenciando um atrito dentro da equipe, com direito até a reclamação interna de que “faltava apetite” aos jogadores.

O que escrevemos:

A Espanha se arruinou a partir de suas certezas inabaláveis
A derrota espanhola não foi em campo, mas nos vestiários

O recorde de Klose
Porque Klose abaixou a crista de Ronaldo, tão demagógico nos últimos tempos, ao se tornar maior artilheiro das Copas
Porque Klose abaixou a crista de Ronaldo, tão demagógico nos últimos tempos, ao se tornar maior artilheiro das Copas

Aos 36 anos, Miroslav Klose veio ao Brasil com um grande objetivo individual: se tornar o maior artilheiro da história da Copa do Mundo. Não só conseguiu como o fez em grande estilo. Klose precisava de apenas dois gols para ultrapassar Ronaldo, que tinha 15. O primeiro veio logo em seu primeiro toque na bola neste Mundial. Entrou no decorrer do jogo com Gana e, dois minutos depois, balançou a rede, igualando o brasileiro. Depois, diante do próprio Brasil, na goleada histórica por 7 a 1 na semifinal do Mineirão, fez o segundo gol do jogo, deixando o ex-camisa 9 da Seleção para trás na partida mais emblemática possível em que poderia chegar ao recorde.

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Não ser craque nunca foi problema para Klose se tornar o maior

A mobilização nos Estados Unidos

A capacidade que uma Copa do Mundo tem de engajar um povo pode ser muito bem medida pela empolgação que tomou conta dos Estados Unidos durante a competição. O país, muito mais famoso por sua paixão por outros esportes, como basquete, beisebol e futebol americano, adotou o soccer em junho, lotou praças para assistir às partidas, foi o país estrangeiro cujos habitantes mais compraram ingressos para os jogos e deixou para a posterioridade a impressão de que a popularidade do futebol entre os ianques tem tudo para crescer cada vez mais daqui para frente. As TVs americanas tiveram recordes de audiência no esporte, o que abre espaço para o crescimento. Poucas pessoas conseguiram ficar completamente alheias aos feitos do Team Usa, e até Barack Obama demonstrou sua torcida – além de ter telefonado para dois dos principais jogadores da seleção, Dempsey e o goleiro Howard.

Alemães reis do carisma e respeitosos com os derrotados
Podolski comemorou o dia seguinte à conquista com a camisa do Flamengo. Quase um carioca
Podolski comemorou o dia seguinte à conquista com a camisa do Flamengo. Quase um carioca

Algumas seleções mostraram bom envolvimento com as populações locais das cidades em que estiveram hospedadas, como Camarões e Costa do Marfim, com Samuel Eto’o e Didier Drogba, que foram bastante carinhosos com os fãs mirins. Nenhuma delas, no entanto, superou a Alemanha. Levar uma surra de sete gols e ainda assim torcer para o time que o humilhou tem que ter um bom motivo, e o que levou tantos brasileiros a abraçarem a seleção alemã depois do Mineiraço foi a simpatia demonstrada pela Nationalmannschaft desde a primeira semana em que chegou ao país. Pra começar, Neuer e Schweinsteiger apareceram com a camisa do Bahia em um vídeo gravado por um torcedor, cantando e pulando pelo time. Depois, uma série de coisas, como o forte contato que tiveram com a população de Santa Cruz Cabrália, onde foi construído o CT da seleção para a Copa, a produção de vídeos em homenagem ao Brasil, e, é claro, Lukas Podolski e suas postagens em português e suas declarações de amor ao país.

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O milagre da Costa Rica

Antes da Copa do Mundo, durante as entrevistas coletivas entre um treinamento e outro, Jorge Luis Pinto, técnico da Costa Rica, afirmava que não tinha medo dos campeões mundiais que teria de enfrentar na fase de grupos e que iria para cima de todos. Parecia mais uma afirmação daquelas para manter elevado o moral do elenco, mas acabou se materializando em uma campanha histórica para os Ticos. O tal grupo da morte acabou dominado pelos costarriquenhos, que venceram uruguaios e italianos, empataram com os ingleses e terminaram na ponta da chave. Nas oitavas, deixaram a Grécia para trás com uma grande atuação do goleiro Keylor Navas nos pênaltis e deram adeus à competição também nos penais, contra a forte Holanda, após resistir bravamente por 120 minutos. A campanha inédita encheu de orgulho o povo do país, que recebeu de forma comovente seus heróis.

A festa dos costarriquenhos durante e depois da Copa:

Sinta como a Costa Rica viu sua histórica classificação
Com essa festa toda é que a Costa Rica foi recebida na volta para casa

Argélia tomando a França na comemoração da classificação ao mata-mata
Muitos argelinos comemoraram a vaga no Arco do Triunfo, em Paris (Foto: AP)
Muitos argelinos comemoraram a vaga no Arco do Triunfo, em Paris (Foto: AP)

Se tem um país que soube apreciar suas realizações nesta Copa, esse país foi a Argélia. Como se não bastasse a festa no jogo que garantiu a vaga para o Mundial, com um mosaico de fogo nas arquibancadas, as festas pela campanha da seleção argelina na competição e a recepção aos jogadores após a eliminação foram fantásticas. Ao conquistar a primeira e única vitória no torneio, contra a Coreia do Sul, as ruas de Argel e de outras cidades da Argélia foram tomadas por torcedores, mas as celebrações se estenderam também além das fronteiras do pais. Na França, que já foi colonizadora do país e hoje é lar de muitos argelinos, Paris e Marselha foram tomadas por argelinos.

Confira os vídeos com as comemorações nas cidades francesas