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A Premier League, finalmente, teve uma pausa de inverno nesta temporada, mas foram apenas duas semanas, com uma rodada desmembrada. Não houve exatamente uma interrupção. Ela infelizmente acabou vindo depois, com a pandemia de coronavírus, e não se sabe quando, nem como, nem se, a Premier League será retomada. Foram disputadas 29 rodadas até agora e, se o título estava praticamente definido, ainda havia muita briga pelas vagas europeias e contra o rebaixamento.

Mantendo nossa coluna de futebol inglês funcionando, começamos nesta semana um balanço da temporada da Premier League, em três partes (porque vai saber quanto tempo esta pausa demorará), com o que os times fizeram até agora e o que ainda gostariam de fazer, sempre partindo do pressuposto de que este Campeonato Inglês será completado um dia.

Arsenal

Posição:
Objetivo palpável: Champions League
Ataque: 40 gols (oitavo da liga)
Defesa: 36 gols (oitava da liga)
Artilheiro: Pierre-Emerick Aubameyang (17 gols)
Garçom: Nicolas Pépé (6)
Melhor vitória: Arsenal 2 x 0 Manchester United
Pior derrota:  Arsenal 1 x 2 Brighton
Copas: quarta rodada da Copa da Liga (5 x 5p Liverpool), nas quartas de final da FA Cup
Futebol europeu: 16 avos de final da Liga Europa
Em casa: 7V, 5E, 3D (sexta campanha)
Fora: 2V, 8E, 3D (12ª campanha)
Troca de técnico: Unai Emery (até a 13ª rodada), Freddie Ljungberg (interino entre 14ª e 18ª rodada), Mikel Arteta (desde a 19ª rodada)

O Arsenal começou a temporada com algumas esperanças de que, entre candidatos que levantavam uma série de dúvidas, e que, na prática variaram entre instáveis e medianos, estava bem posicionado para conquistar uma das vagas na Champions League. Havia se reforçado relativamente bem, vinha de uma campanha em que o quarto lugar escapou por muito pouco e chegara à final da Liga Europa, apesar de ter sofrido uma pesada derrota para o Chelsea em Baku.

O trem, porém, descarrilhou completamente. O trabalho de Unai Emery, escolhido para ser o sucessor de Arsène Wenger, implodiu quando o Arsenal chegou à sua pior sequência em 27 anos. Não contribuiu à causa o fato de que quase nenhuma contratação deu certo. Pépé, negócio mais caro da história do clube, não estourou, Kieran Tierney mal jogou por problemas físicos, Dani Ceballos foi esquecido e, acredite se quiser, David Luiz falhou bastante.

A chegada de Mikel Arteta soprou um pouco de ar fresco na temporada do Arsenal, derrotado apenas uma vez pela Premier League desde o Boxing Day, quando o espanhol estreou, mas um problema segue presente: o excesso de empates. São 13, maior quantidade da Premier League empatada com o Wolverhampton, sendo oito fora de casa.

Por isso, apesar da sequência quase invicta, e de 17 gols de Aubameyang, vice-artilheiro do certame, o Arsenal ainda está em nono lugar, a oito pontos da quarta posição. A Champions League, porém, segue sendo um objetivo palpável por dois motivos. O primeiro é que o clube tem um jogo a menos, contra um Manchester City provavelmente desinteressado, que pode diminuir a distância para cinco.

E, dependendo da confirmação ou não da punição ao City por violações do Fair Play Financeiro, o quinto lugar pode ser suficiente, e ele está a apenas cinco pontos de distância.

Aston Villa

Jack Grealish, do Aston Villa

Posição: 19º
Objetivo palpável: escapar do rebaixamento
Ataque: 34 gols (13º da liga)
Defesa: 56 gols (20ª da liga)
Artilheiro: Jack Grealish (7 gols)
Garçom: Jack Grealish (6)
Melhor vitória: Villa 2 x 0 Everton
Pior derrota: Villa 1 x 6 Manchester City
Copas inglesas: vice-campeão da Copa da Liga (1 x 2 City), terceira rodada da Copa da Inglaterra (1 x 2 Fulham)
Futebol europeu: não disputou
Em casa: 5V, 2E, 6D (17ª campanha)
Fora: 2V, 2E, 11D (19ª)
Troca de técnico: continua com Dean Smith 

Quando o Aston Villa anunciou todas as contratações e investimentos para sua temporada de retorno à elite do futebol inglês, a pergunta que se fazia era: ele repetirá a receita fracassada do Fulham? Havia algumas diferenças pontuais na política de mercado, mas, 29 rodadas depois, o campeão europeu tem chances reais de igualar ao menos o resultado do time londrino: bater na Premier League e voltar.

É verdade que o Villa soma 25 pontos, um a menos do que toda a campanha do Fulham, e chegou à decisão da Copa da Liga Inglesa, com uma vitória emocionante sobre o Leicester. Também é que o excesso de lesões prejudicou o time que até fez algumas partidas interessantes nesta temporada. O problema é que, com quatro derrotas seguidas e na vice-lanterna, o Villa era o pior time da Premier League quando ela foi paralisada.

Havia pouca coisa funcionando a seu favor. Os resultados no Villa Park começaram razoáveis, mas já tem a quarta pior campanha como mandante. A defesa consegue ser pior que a do Norwich e parou como a mais vazada da liga. Pepe Reina precisou ser contratado emergencialmente após a lesão de Tom Heaton, e Wesley também se machucou seriamente quando estava apenas começando a se adaptar à Inglaterra.

A situação poderia ser pior não fosse por Jack Grealish, líder do time em gols, com sete, e assistências, com seis, mostrando que tem qualidade mais do que suficiente para brilhar na Premier League. A questão é se terá oportunidade de fazê-lo na próxima temporada pelo Villa ou se terá que mudar de time. Graças à instabilidade da parte de baixo da tabela, a salvação ainda está a apenas dois pontos de distância. Mas o desempenho terá que ser muito melhor quando a bola voltar a rolar. 

Bournemouth 

Eddie Howe, do Bournemouth (Foto: Getty Images)

Posição: 18º
Objetivo palpável: escapar do rebaixamento
Ataque: 29 gols (16º da liga)
Defesa: 47 gols (16ª da liga)
Artilheiro: Callum Wilson (8)
Garçom: Ryan Fraser (4)
Melhor vitória: Chelsea 0 x 1 Bournemouth
Pior derrota: West Ham 4 x 0 Bournemouth
Copas inglesas: terceira rodada da Copa da Liga (Burton Albion 2 x 0), quarta rodada da FA Cup (1 x 2 Arsenal)
Futebol europeu: não disputou
Em casa: 4V, 5E, 5D (16ª campanha)
Fora: 3V, 1E, 11D (17ª campanha)
Troca de técnico: continua com Eddie Howe 

É um time que tem o 16º melhor ataque, a 16ª melhor defesa e a 16ª melhor campanha como mandante e que surpreendentemente não está em 16º lugar. Está pior, em 18º, embora com a mesma pontuação do West Ham – esse, sim, em 16º. E não é necessário ir muito longe para descobrir por que após, três campanhas muito seguras, o Bournemouth corre sérios riscos de ser rebaixado.

A equipe de Eddie Howe, treinador mais longevo da Premier League ao lado de Sean Dyche, tinha uma característica marcante para um clube pequeno que se estabilizou no meio da tabela. Em vez de fechar a casinha, fazia partidas em que tomava e levava muitos gols. Seus ataques variaram entre 45 e 55 gols nas quatro temporadas na elite, mas a bola não está mais entrando.

O Bournemouth anotou apenas 29 tentos e, a menos que marque mais ou menos duas vezes em cada uma das nove rodadas restantes, terminará bem abaixo da sua média. E a defesa continua uma peneira, também a quinta pior da liga. Callum Wilson é o artilheiro com oito gols, Harry Wilson fez sete porque é um excelente cobrador de bola parada, Joshua King registrou quatro, Nathan Aké e Dan Gosling têm duas e depois vem a turma que marcou apenas uma vez na campanha.

A campanha fora de casa não é pior porque deu para arrancar três vitórias – contra dois mandantes ruins, Villa e Southampton, e uma zebra diante do Chelsea -, mas 11 derrotas na estrada atrapalham bastante um time que também não é o mais confiável do mundo quando atua diante de seus torcedores.

Todos esses aspectos são sinais de desgaste do trabalho de Howe, que tirou o Bournemouth do buraco e o levou à Premier League e também já foi cotado a cargos mais importantes na Inglaterra. Chegou a haver rumores de que poderia ser demitido, mas continua no comando do barco que ele trouxe à tona e não gostaria de ver afundar novamente.

Brighton 

Graham Potter, do Brighton (Foto: Getty Images)

Posição: 15º
Objetivo palpável: escapar do rebaixamento
Ataque: 32 gols (14º da liga)
Defesa: 40 gols (10ª da liga)
Artilheiro: Neal Maupay (8)
Garçom:  Pascal Gross (4)
Melhor vitória: Brighton 3 x 0 Tottenham
Pior derrota: Bournemouth 3 x 1 Brighton
Copas inglesas: terceira rodada da Copa da Liga (1 x 3 Villa), terceira rodada da FA Cup (0 x 1 Sheffield Wednesday)
Futebol europeu: não disputou
Em casa: 4V, 6E, 4D (14ª campanha)
Fora: 2V, 5E, 8D (16ª campanha)
Troca de técnico: continua com Graham Potter

Pelo trabalho com o Östersund, da Suécia, e o Swansea, na segunda divisão, Graham Potter foi a grande aposta do Brighton para conseguir fazer com que o clube fosse além dos seus recurso graças a um grande trabalho coletivo e um futebol um pouco mais sofisticado do que o bola-pro-alto-que-é-jogo-de-campeonato de Chris Hughton. Caso não seja rebaixado, e ainda existe um risco sério, os sinais são promissores para a próxima temporada.

O desempenho costuma ser bom, é o quinto time que mais troca passes na liga e o sétimo que mais finaliza, e perdeu poucas vezes em casa para um clube dessa dimensão – apenas quatro – mas os resultados nem sempre acompanham, e por isso o Brighton, com 29 pontos, é o time que separa a zona dos desesperados, de 27 para baixo, do resto da tabela (a partir do Southampton, com 34).

Um diagnóstico interessante é que falta poder de fogo. Apesar de um volume de jogo alto, o artilheiro do Brighton é Neal Maupay, com oito gols, e logo depois aparecem Leandro Trossard e Adam Webster, um zagueiro, com três. O ataque anotou apenas 32 gols e o que se destaca mesmo é a defesa, décima melhor da Premier League empatada com outras duas equipes.

Para quem vê o copo meio cheio, o Brighton chegou à paralisação com apenas três derrotas em nove rodadas. Para quem o vê meio vazio, os outros seis jogos terminaram empatados, e a última vitória da equipe do sul da Inglaterra foi contra o Bournemouth, ainda no final do ano passado.

É natural que Potter esteja encontrando dificuldades para mudar drasticamente o estilo do time, sem ter revolucionado completamente o elenco, embora Maupay, Webster e Trossard sejam jogadores que chegaram no começo da temporada por mais de € 20 milhões cada. Caso permaneça na elite, a tendência é o projeto dar um passinho à frente na campanha seguinte.

Burnley

Chris Wood, do Burnley (Photo by Laurence Griffiths/Getty Images)

Posição: 10º colocado
Objetivo palpável:
Liga Europa
Ataque: 34 gols (12º da liga)
Defesa: 40 gols (10ª da liga)
Artilheiro: Chris Wood (11 gols)
Garçom: Dwitgh McNeil e Ashley Westwood (5)
Melhor vitória: United 0 x 2 Burnley
Pior derrota: Tottenham 5 x 0 Burnley
Copas inglesas: segunda rodada da Copa da Liga (1 x 3 Sunderland) e quarta rodada da FA Cup (1 x 2 Norwich)
Em casa: 7V, 2E, 6D (10ª campanha)
Fora: 4V, 4E, 6D (10ª campanha)
Troca de técnico: continua com Sean Dyche 

É um time com a 10ª melhor campanha como mandante e como visitante e com a 10ª melhor defesa e, olha só, realmente ocupa o 10º lugar da Premier League, depois de um começo de campeonato em que parecia que, como Eddie Howe no Bournemouth, a passagem de Sean Dyche pelo Burnley estava com os dias contados.

Não é difícil traçar paralelos entre os dois clubes. São estilos de jogo diametralmente opostos, mas não têm grandes recursos e acreditam que trabalhos de longo prazo proporcionam a estabilidade que precisam para continuar na Premier League. Tentam recrutar com cautela e têm uma longa folha corrida quando o assunto é causar problemas aos grandes.

Mas se o Bournemouth gosta de trocar socos, o Burnley é a melhor representação na elite do rústico futebol inglês, o estilo no nonsense, que em tradução livre significa sem frescuras, com bolas longas, aéreas e jogadores fortes. No entanto, parecia que essa fórmula havia se esgotado quando o time colecionou quatro vitórias e dez derrotas entre outubro e janeiro.

Dyche, porém, conseguiu dar a volta por cima e chegou à paralisação com sete rodadas de invencibilidade, incluindo quatro triunfos e três empates, e se afastou da zona de confusão. Ocupa um confortável lugar no meio da tabela e, como ninguém tem voado na Premier League, está a quatro pontos da sétima posição, que deve dar uma vaga na próxima Liga Europa – talvez até o oitavo lugar baste, dependendo do que o Tribunal Arbitral do Esporte decidir sobre o Manchester City.

A questão é se o Burnley quer jogar a Liga Europa novamente. Quando o fez em 2018/19, a obrigação de encarar sucessivas fases preliminares no começo da temporada custou ao elenco curto de uma equipe que exige muito fisicamente de seus jogadores. Acabou ficando em 15º lugar na Premier League, embora a seis pontos da zona de rebaixamento. 

Chelsea 

Lampard, do Chelsea

Posição:
Objetivo palpável: vaga na Champions League
Ataque: 51 gols (4º da liga)
Defesa: 39 gols (9ª da liga)
Artilheiro: Tammy Abraham (13)
Garçom: Willian (5)
Melhor vitória: Arsenal 1 x 2 Chelsea
Pior derrota: Chelsea 0 x 1 West Ham
Copas inglesas: quarta rodada da Copa da Liga (1 x 2 Manchester United) e nas quartas de final da FA Cup
Futebol europeu: oitavas de final da Champions League
Em casa: 7V, 3E, 5D (8ª campanha)
Fora: 7V, 3E, 4D (3ª campanha)
Troca de técnico: continua com Frank Lampard

Seria compreensível, no começo da temporada, se o Chelsea não terminasse a Premier League entre os quatro primeiros colocados. Havia perdido Eden Hazard, trocado o experiente Sarri pelo novato Frank Lampard e o mercado estava embargado por punição da Fifa. Agora, a nove rodadas do fim, seria frustrante se os Blues perdessem vaga na próxima Champions League.

De certa forma, o Lampard foi vítima do próprio sucesso. Seu respaldo com as arquibancadas de Stamford Bridge é quase infinito e as condições adversas que assumiu renderiam certa leniência com a crítica. Mas um começo muito bom, com direito a seis vitórias seguidas, fez com que o Chelsea abrisse uma boa vantagem em relação ao quinto colocado.

Chegou a ser de nove pontos na 12ª rodada, quando o clube ocupava o terceiro lugar da Premier League, mas foi sendo achatada porque, desde então, o Chelsea ganhou apenas seis vezes em 17 partidas pela liga inglesa e não conseguiu emendar duas vitórias seguidas.

O problema mais mencionado por Lampard é a dificuldade em colocar a bola na casinha. O treinador acredita que seu time cria muitas oportunidades, mas falha na hora da finalização. Buscou outro centroavante na janela de janeiro, não conseguiu, reclamou e finalmente começou a dar chances a Olivier Giroud porque Tammy Abraham, artilheiro do time, parou de fazer gols. Dos seus 13, 10 vieram nas primeiras 12 rodadas da Premier League, mais ou menos um divisor de águas na temporada do Chelsea.

Outra questão é que, por mais que Lampard seja talvez a pessoa que melhor conhece Stamford Bridge, o rendimento como mandante é muito fraco para um time que quer ficar no topo da tabela. Tropeçou (oito vezes) mais do que ganhou (sete) e tem apenas a oitava melhor campanha em casa, com a mesma pontuação do Sheffield United (24 pontos).

O Chelsea esboçava uma reação quando o campeonato parou. Havia derrotado Tottenham, importantíssimo confronto direto, e um Everton em ascensão, apesar de ter bobeado contra o Bournemouth. A boa notícia é que não precisa de um rendimento tão especial para se manter em quarto, a menos que algum dos times abaixo realmente arranque.