Noventa e seis jogos, 256 gols (média de 2,66 por jogo), poucas surpresas, eliminações precoces e muitas consolidações. A primeira fase da Copa Libertadores 2013 terminou na última quinta-feira com o recorde de seis brasileiros classificados às oitavas. É mais uma prova do domínio econômico que o país impõe aos seus adversários no continente. Somados aos quatro argentinos que passaram de fase, sobraram apenas seis vagas para os outros nove países que disputam a competição. Os desafiantes serão o colombiano Independiente Santa Fe, o peruano Real Garcilaso, o paraguaio Olimpia, o equatoriano Emelec, o uruguaio Nacional e o mexicano Tijuana. Para conhecer, lembrar, guardar, analisar e pensar, apresentamos aqui o balanço da fase de grupos da Libertadores.

Grupo 1

Equipes: Barcelona (EQU), Boca Juniors (ARG), Nacional (URU) e Toluca (MEX)

Classificados: Nacional e Boca Juniors

O cara do grupo: Ivan Alonso, do Nacional. O centroavante de 34 anos colocou o badalado Loco Abreu como opção do banco de reservas, marcou o gol que garantiu o empate com o Barcelona por 2 a 2 – após a equipe estar com uma desvantagem de 2 a 0 – e o da vitória por 3 a 2 contra o Toluca.

A decepção: Carlos Bianchi. O técnico dono de quatro títulos da Copa Libertadores da América retornou ao Boca Juniors com a missão de fazer a equipe ao menos jogar bem. Não deu certo. Os xeneizes ganharam três e perderam três, mas não convenceram em nenhuma das partidas.

Entre mortos e feridos o Nacional foi o único salvo. Em um grupo bastante complicado, nenhuma das equipes jogou tudo o que se esperava e só os uruguaios saíram fortalecidos, muito embora isso possa ser atribuído a uma parcial desilusão com o futebol do Bolso. De toda a maneira o grupo começou com um grande empate por 2 a 2 entre Nacional e Barcelona – em partida de arbitragem muito contestável -, passou pela grande virada dos uruguaios por 3 a 2 contra o Toluca e pelos desempenhos medíocres do Boca Juniors para chegar ao auge no confronto dos dois times em solo argentino. Naquela partida, mesmo com dez em campo, o Nacional se superou e venceu por 1 a 0 com gol de Scotti. Em Montevidéu, no entanto, deu Boca. Toluca e Barcelona ameaçaram apresentar algo, mas ficaram apenas na promessa.

Grupo 2

Equipes: Libertad (PAR), Palmeiras, Sporting Cristal (PER) e Tigre (ARG)

Classificados: Palmeiras e Tigre

O cara do grupo: Os caras da torcida do Palmeiras. Foram eles os responsáveis por um novo alviverde: orgulhoso do que é e com raça até os ossos.

A decepção: Libertad. O grande potencial tático dos paraguaios virou água em duas partidas ruins contra Palmeiras e Tigre.

Dois campeões nacionais e dois times desacreditados por campanhas ruins em seus países. Foi este o desenho do grupo 2, que terminou com os donos das taças indo para casa mais cedo e as equipes sem prestígio alcançando a redenção. Principalmente o Palmeiras que, de envergonhado clube da Série B, passou a orgulhoso e brioso time, que luta até o fim e que joga em sintonia rara com seu torcedor. Foi assim que os brasileiros conseguiram a classificação: três jogos em casa e três vitórias. O Tigre, como já era de se esperar, não apresentou bom futebol, mas tal qual havia feito na Copa Sul-Americana mostrou uma efetividade acima do normal e, mesmo sendo dominado na maioria dos jogos, conseguiu a classificação. O Sporting Cristal, por sua vez, parecia que ia engrenar depois de boas partidas contra o Libertad, mas chafurdou na própria incompetência e foi eliminado antecipadamente. Nenhuma decepção porém foi maior que o Libertad. Organizado, disciplinado, reforçado… Eliminado. O Gumarelo que mostrava evolução perdeu tudo contra o Palmeiras e na péssima jornada diante do Tigre, na qual necessitava apenas de um empate.

Grupo 3

Equipes: Arsenal (ARG), Atlético Mineiro, São Paulo e The Strongest (BOL)

Classificados: Atlético Mineiro e São Paulo

O cara do grupo: Rogério Ceni. Naquela que deve ser sua última Libertadores, o camisa 1 do São Paulo foi vilão e herói. Contra o The Strongest na Bolívia foi um dos responsáveis pela derrota ao falhar no segundo gol. Já no confronto decisivo contra o Galo, Ceni marcou de pênalti e inspirou os companheiros à uma grande partida.

A decepção: O São Paulo. Apesar da classificação o Tricolor teve a pior campanha entre todas as equipes que avançaram e deixou bastante a desejar nesta primeira fase. Sobretudo nos jogos contra o Arsenal, quando deveria ter aproveitado a fraqueza do adversário.

No grupo 3 entraram um dos maiores campeões brasileiros da Libertadores, um tricampeão boliviano, uma equipe com pouco a dizer em termos continentais e o time do presidente da Federação Argentina de Futebol. Do grupo 3 saíram uma equipe quase imbatível, dona do futebol mais vistoso das Américas no momento, um time vindicado após desempenhos frustrantes e dois clubes orgulhosos do trabalho que deram aos brasileiros. Em que se pese a derrota para o São Paulo, o Atlético Mineiro já tem muito a comemorar com seu desempenho e a evolução deste time. O Tricolor paulista, por sua vez, reencontrou o torcedor depois de quatro meses frustrantes, mas precisa evoluir demais para ter alguma chance de título. O The Strongest foi organizado e teve grandes momentos, mas quando precisava apenas de um empate acabou jogando abaixo do esperado. Por fim o Arsenal teve apenas minutos de bom futebol em todas as suas partidas, o que quase foi suficiente para a classificação.

Grupo 4

Equipes: Deportes Iquique (CHI), Emelec (EQU), Peñarol (URU) e Vélez Sarsfield (ARG)

Classificados: Vélez e Emelec

O cara do grupo: Ricardo Gareca. Parece replay, mas é a realidade. Uma vez mais o técnico do Vélez foi capaz de manter um time coeso e digno de grandes feitos, apesar da falta de grandes reforços e a perda de jogadores. Desta vez foi Chucky Ferreira, que se machucou e foi substituído por Copete.

A decepção: Termos apenas dois classificados.

O sorteio da chave foi cruel com três equipes potencialmente perigosas para os sempre dominantes brasileiros. Enquanto o Emelec veio repaginado em uma versão ainda melhor que a de 2012, o Peñarol se reencontrava com um bom futebol, enquanto o Vélez… Bem, o Vélez era e é o Vélez. Os argentinos não foram brilhantes, mas mostraram a eficiência que os acompanha de três anos para cá, passaram de fase sem grandes sustos e têm potencial para crescer durante a competição. No arranca-rabo entre Emelec e Peñarol os equatorianos venceram. E foi justamente no confronto entre os dois. Em Guaiaquil os uruguaios eram melhores, mas acabaram levando dois gols e perdendo a vaga. O Deportes Iquique, por sua vez, pode se orgulhar da vitória contra o Emelec e da estreia na Libertadores.

Grupo 5

Equipes: Corinthians, Millonarios (COL), San José (BOL) e Tijuana (MEX)

Classificados: Corinthians e Tijuana

O cara do grupo: Paolo Guerrero. Às vezes ele é discreto. Às vezes ele parece “empacar” a fluidez do Corinthians. A verdade, no entanto, é que o peruano manda pro gol todas as bolas que se oferecem a ele dentro da área.

A decepção: A morte do garoto Kevin Spada dentro do estádio Jesús Bermúdez em Oruro e a posterior falta de pulso da Conmebol, que não sustentou a punição ao Corinthians.

Nada pode apagar o que aconteceu em Oruro na primeira partida do grupo 5 da Libertadores 2013. Nada deve apagar o que aconteceu ali sob o risco de que incorramos nos mesmos erros outra vez. De toda a maneira, houve futebol também e neste sentido o Corinthians mostrou de novo porque é um dos melhores times do planeta. A consistência da equipe do técnico Tite se mantém e agora com algumas variações, como as duas linhas de quatro. As vitórias também continuam. Apesar da derrota para o Tijuana, o Corinthians não passou apertos e tem tudo para fazer outro belo torneio. No mais, os mexicanos também merecem destaque. O estilo de jogo rápido e a presença da torcida no estádio Caliente fazem dos Xolos bons candidatos a surpresa do torneio. O Millonarios decepcionou com um jeito muito “flojo” de jogar, enquanto o San José fez o que dele se esperava.

Grupo 6

Equipes: Cerro Porteño (PAR), Deportes Tolima (COL), Independiente Santa Fe (COL) e Real Garcilaso (PER)

Classificados: Santa Fe e Garcilaso

O cara do grupo: Omar Pérez. No modesto time do Santa Fe ele manda e desmanda. Chama a responsabilidade, dá as assistências, bate os pênaltis, faltas e escanteios. O argentino foi tudo o que sempre se espera de um autêntico camisa 10.

A decepção:  Cerro Porteño. Nem o mais pessimista hincha do Ciclón e nem o mais otimista olimpista poderiam imaginar atuações tão ruins assim. Dos três zagueiros de Jorge Fossati à falta de criatividade ofensiva dos meias e atacantes de Chiqui Arce: tudo no Cerro foi horrível.

No papel era um grupo simples para o Cerro Porteño. A equipe mostrava consistência em território paraguaio e, apesar de não ter levado o título do Clausura 2012, parecia inclinada a um espírito copeiro sob a batuta de Jorge Fossati. Nada mais distante da realidade. Apático e com muitos problemas na marcação, o Ciclón perdeu as duas primeiras, demitiu o treinador, trouxe Arce e perdeu outras três partidas, antes de empatar diante do Tolima e ser eliminado com a pior campanha do torneio. Sem nada a ver com o fracasso cerrista, o Santa Fe aproveitou para crescer durante a competição. Única equipe invicta no torneio, o Expresso Rojo mostrou uma marcação eficiente, capacidade de reagir e grande determinação em suas partidas. Desta forma superou suas próprias limitações e chega com força para pelo menos incomodar no mata-mata. Quem também se mostrou competente foi o Real Garcilaso. Sem grandes estrelas e sem um futebol vistoso, os peruanos apostaram na capacidade de cumprir à risca o plano de jogo para avançar. O mesmo não pode ser dito do Tolima, que oscilou demais e ficou pelo caminho.

Grupo 7

Equipes: Deportivo Lara (VEN), Newell’s Old Boys (ARG), Olimpia (PAR) e Universidad de Chile (CHI)

Classificados: Olimpia e Newell’s

O cara do grupo: Juan Manuel Salgueiro. Em um time marcado por problemas de pagamento de salários e troca de diretoria, o camisa 10 do Olimpia assumiu a bronca e se tornou o principal nome do repaginado Decano.

A decepção: As fracas atuações da Universidad de Chile.

Deportivo Lara, Newell’s Old Boys e Universidad de Chile iniciaram a Libertadores 2013 dispostos a mostrar em nível continental toda a qualidade ofensiva que possuem. Mas no fim das contas foi o Olimpia, marcado por um futebol pragmático no ano passado, que mais foi às redes. Os paraguaios encerraram a fase de grupos com o melhor ataque ao lado do Atlético Mineiro. Méritos do camisa 10 Juan Manuel Salgueiro, do atacante Bareiro e principalmente do técnico Ever Hugo Almeida. Foi ele o principal responsável pela guinada do Olimpia, que chegou à Libertadores envolto em problemas e sem nenhum reforço de peso. No mais, a Universidad de Chile foi mal como se esperava, mas foi pior do que se imaginava. A contratação de Dario Franco para o comando dava a ideia de que La U manteria os preceitos da escola bielsista, mas na prática somente a formação tática seguiu tal padrão. Sem pressionar de forma adequada e sem a movimentação de outrora, os chilenos não conseguiram avançar. O Newell’s, muito mais cru do ponto de vista de sua proposta de jogo, acabou sendo melhor e teve em Ignácio Scocco um salvador da pátria. Já o Deportivo Lara deu trabalho, mas, sem a força que tinha em 2012 – ao menos em território venezuelano -, padeceu e foi eliminado.

Grupo 8

Equipes: Caracas (VEN), Fluminense, Grêmio e Huachipato (CHI)

Classificados: Fluminense e Grêmio.

O cara do grupo: Vanderlei Luxemburgo. Aqui, diferentemente dos demais, o cara do grupo não foi uma figura positiva. O técnico do Grêmio falou demais, treinou de menos e terminou a fase de grupos da Libertadores com a ridícula provocação aos jogadores do Huachipato, sendo agredido depois.

A decepção: O 0x0 de Grêmio e Fluminense na Arena da equipe gaúcha. Era pra ser um jogo eletrizante, mas foi estudado demais e terminou sem gols.

No papel era barbada: Fluminense e Grêmio classificados. Na prática foi um grupo bastante encardido, motivado por desempenhos abaixo do esperado dos brasileiros e um incomum domínio dos visitantes. Foram apenas três vitórias dos mandantes nos 12 jogos disputados, o que, somado ao empate entre gaúchos e cariocas, gerou a possibilidade de qualquer um dos quatro avançar à segunda fase. No fim das contas, no entanto, Grêmio e Fluminense aproveitaram a melhor qualidade de seus elencos para superar os esforçados Huachipato e Caracas. Chilenos e venezuelanos, aliás, podem se orgulhar bastante da campanha empreendida. Com elencos fracos até mesmo para o padrão dos respectivos países, sobrou entrega e aplicação para quase chegar às oitavas.

Seleção da primeira fase da Libertadores

Camilo Vargas (Santa Fe); Peruzzi (Vélez), Gil (Corinthians), Réver (Atlético-MG) e Bagüí (Emelec); Ralf (Corinthians); Scocco (Newell’s), Salgueiro (Olimpia), Pérez (Santa Fe) e Ronaldinho Gaúcho (Atlético-MG); Guerrero (Corinthians).