É coisa do passado a empolgação da temporada 2012/13, quando o Campeonato Holandês chegou a sonhar com uma aproximação das quatro grandes ligas europeias em qualidade técnica. O cenário voltou a ser difícil na Eredivisie 2014/15: campeão definido com algumas rodadas de antecedência, tropeços melancólicos de vice-líder ao final do torneio e a crescente ameaça de Ucrânia e Bélgica no ranking da Uefa por vagas nas competições continentais.

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No entanto, o PSV foi um campeão totalmente merecedor do título que ganhou, encerrando sete anos de jejum. Houve algumas boas surpresas, como Zwolle, Groningen e Willem II. E se a queda direta do Dordrecht era previsível, o NAC Breda mostrou algum espírito de luta até ser rebaixado – espírito de luta que acabou premiando o Heracles, que escapou por pouco. Clubes como Utrecht e Twente, todavia, mostraram perigosa apatia.

De mais a mais, a sorte sorriu para o PSV, que virou um dos cabeças-de-chave da fase de grupos da próxima Liga dos Campeões, podendo enfim fazer um time holandês “passar do inverno europeu” no principal torneio interclubes do continente, após oito anos. Enquanto a temporada não começa, já que enfim a seleção holandesa também liberou os jogadores para as férias, segue a primeira parte da retrospectiva da temporada no futebol batavo.

Dordrecht

Colocação final: 18º colocado, com 20 pontos (rebaixado diretamente, pelo último lugar)
Técnico: Ernie Brandts (até a 23ª rodada), Gérard de Nooijer (interino, da 24ª à 26ª rodada) e Jan Everse
Maior vitória: Dordrecht 2×1 Go Ahead Eagles (25ª rodada) e Dordrecht 2×1 Ajax (34ª rodada)
Maior derrota: Utrecht 6×1 Dordrecht (23ª rodada)
Principal jogador: Joris van Overeem (meio-campista)
Artilheiro: Mart Lieder e Giovanni Korte (ambos com 3 gols)
Quem mais partidas jogou: Joris van Overeem (meio-campista), atuou em todos os 34 jogos
Copa nacional: eliminado na terceira fase, pelo Vitesse
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: péssimo

Já ao final do primeiro turno, dava para cravar que dificilmente os “Cabeças de Cabra” escapariam da última posição e da queda para a Eerste Divisie. O pior é que nem havia como ser muito diferente: afinal de contas, tratava-se da equipe de menor orçamento entre as 18 integrantes da divisão de elite na Holanda. Ou seja, não dava para mudar muita coisa.

O Dordrecht tentou, trocou de técnico, viu um jogador promissor em Van Overeem (que até jogou o Torneio de Toulon pela seleção holandesa sub-21), mas seu retorno após a segunda divisão estava selado. Se serve de consolo, pelo menos a despedida veio com uma vitória sobre o apático Ajax, vice-campeão holandês. E pelo menos, o planejamento para 2015/16 já se iniciou, com Jan Everse confirmado como técnico. Quem sabe não venha daí um novo acesso?

Go Ahead Eagles

Colocação final: 17º colocado, com 27 pontos (rebaixado na repescagem)
Técnico: Foeke Booy (até a 28ª rodada) e Denis Demmers
Maior vitória: Go Ahead Eagles 2×0 NAC Breda (13ª rodada)
Maior derrota: PSV 5×0 Go Ahead Eagles (17ª rodada)
Principais jogadores: Giliano Wijnaldum (lateral esquerdo) e Marnix Kolder (atacante)
Artilheiro: Alex Schalk (4 gols)
Quem mais partidas jogou: Jop van der Linden (zagueiro), com 31 jogos
Copa nacional: eliminado na terceira fase, pelo Twente
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: ruim

Dos clubes rebaixados, o Go Ahead Eagles foi o segundo a jogar a toalha. Perdeu muito tempo tentando se reencontrar, ainda sob o comando de Foeke Booy, mas já estava claro que o time estava perdido sob seu comando. De mais a mais, a escolha do auxiliar Denis Demmers como interino foi meio conturbada – bem como a decisão de trazer Bert van Marwijk (que passou pelo clube quando jogador) como conselheiro especial do clube. No pior time do returno – apenas 11 pontos ganhos -, a inatividade do ataque foi flagrante e desesperadora. Um exemplo foi Glynor Plet: contratado em janeiro para ser titular, não marcou gol algum.

Com tal desorganização, nem mesmo vencer o Feyenoord em Roterdã (1 a 0, na 31ª rodada) impediu a chegada da repescagem – e a derrota para o depois promovido De Graafschap, decretando o rebaixamento. No entanto, o prêmio de consolação foi bem generoso: a vaga na primeira fase preliminar da Liga Europa, como clube mais disciplinado do Campeonato Holandês, primeiro colocado no ranking de “fair play” da Uefa. Será o primeiro rebaixado holandês a jogar um torneio continental desde o NEC na Copa Uefa 1983/84. Tudo tem seu lado bom.

NAC Breda

Colocação final: 16º colocado, com 28 pontos (rebaixado na repescagem)
Técnico: Nebojsa Gudelj (até a 8ª rodada), Eric Hellemons (interino, até a 17ª rodada) e Robert Maaskant
Maior vitória: NAC Breda 3×1 Zwolle (4ª rodada)
Maior derrota: PSV 6×1 NAC Breda (2ª rodada) e Heracles Almelo 6×1 NAC Breda (8ª rodada)
Principais jogadores: Demy de Zeeuw (meio-campista) e Adnane Tighadouini (atacante)
Artilheiro: Adnane Tighadouini (14 gols)
Quem mais partidas jogou: Jelle ten Rouwelaar (goleiro), atuou em todos os 34 jogos
Copa nacional: eliminado nas oitavas de final, pelo Excelsior
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: ruim

Se parecia tão desalentado quanto o Dordrecht ao final do turno, o NAC Breda não desistiu de mudar seu destino. Contratou o desempregado Demy de Zeeuw e… deu certo, já que ele ajeitou o meio-campo, liberando Erik Falkenburg para a armação. Na frente, Adnane Tighadouini desembestou a fazer gols. Alguns deles, bem importantes, como o 1 a 0 sobre o Go Ahead Eagles, concorrente direto contra o descenso, aos 46 minutos do segundo tempo. Até se escreveu aqui: o NAC não se entregaria sem luta. A três rodadas do fim, parecia que a “Pérola do Sul” escaparia até da repescagem.

Todavia, uma derrota na 32ª rodada, para o Heracles, na 15ª posição (primeira fora da repescagem), baqueou definitivamente o time, condenado à Nacompetitie após perder também as duas últimas. Na Nacompetitie, o VVV foi facilmente superado. E após a vitória no jogo de ida do confronto decisivo contra o Roda JC (1 a 0, em Kerkrade), a salvação parecia próxima. Parecia: em casa, o time permitiu o 1 a 0 do Roda. Na prorrogação, empatou, mas tomou o segundo gol. E caiu cruelmente, após 15 temporadas seguidas na Eredivisie. Houve luta, de fato. Mas ela foi tardia por demais.

Excelsior

Colocação final: 15º colocado, com 32 pontos
Técnico: Marinus Dijkhuizen
Maior vitória: Heracles 0x3 Excelsior (18ª rodada) e Excelsior 3×0 Heerenveen (25ª rodada)
Maior derrota: Excelsior 0x5 Zwolle (14ª rodada)
Principal jogador: Tom van Weert (atacante)
Artilheiro: Tom van Weert (13 gols)
Quem mais partidas jogou: Sander Fischer (zagueiro), atuou em todos os 34 jogos
Copa nacional: eliminado nas semifinais, pelo Groningen
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: ruim

Se o Excelsior escapou da queda, deve isso a alguns jogadores no meio-campo e no ataque. Como Luigi Bruins, principal armador das jogadas de ataque, que colaborou bem enquanto teve fôlego e físico (ficou de fora da parte final da temporada, com lesões no joelho). Ou Jeff Stans e Rick Kruys, que se desdobravam na marcação e na saída de bola. Ou Tom van Weert, que salvou o ataque da inapetência completa após a queda de produção de Jordan Botaka. Enfim, só a atuação de alguns jogadores e o esforço do técnico Marinus Dijkhuizen salvaram. Porque fatores não faltavam para a queda.

Um deles, a irregularidade dos goleiros: foram três durante a temporada (Jordy Deckers, Alessandro Damen e Gino Coutinho), sem que nenhum trouxesse tranquilidade. Pior: nas últimas nove rodadas, nenhuma vitória. Os Kralingers só escaparam da queda porque os concorrentes foram piores ainda – e pelos pontos que vinham com um empate aqui, outro ali. As tentativas de Marinus Dijkhuizen em dar solidez ao time foram recompensadas com a ida do treinador para o Brentford, quase promovido à Premier League. Agora, cabe ao experiente técnico Alfons “Fons” Groenendijk tornar a temporada 2015/16 menos torturante aos torcedores do time de Roterdã.

Heracles

Heracles

Colocação final: 14º colocado, com 37 pontos
Técnico: Jan de Jonge (até a 4ª rodada) e John Stegeman
Maior vitória: Heracles 6×1 NAC Breda (8ª rodada)
Maior derrota: Heracles 1×4 Twente (6ª rodada) e Heracles 1×4 Heerenveen (28ª rodada)
Principal jogador: Bryan Linssen (atacante)
Artilheiro: Bryan Linssen (10 gols)
Quem mais partidas jogou: Mark-Jan Fledderus, Thomas Bruns (ambos meio-campistas) e Bryan Linssen (atacante), todos com 33 jogos
Copa nacional: eliminado nas oitavas de final, pelo Cambuur
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: ruim

Os Heraclieden viveram o mesmo tipo de história que o NAC Breda, mas com final feliz. No primeiro turno, o desastre foi quase completo. Basta dizer que o início de temporada foi o pior da equipe de Almelo em sua história na Eredivisie: nada menos do que sete derrotas nas sete primeiras rodadas. Só deixou a última colocação na 10ª rodada – e a zona de perigo, na 14ª. Mas depois voltou a ela, na 19ª rodada. John Stegeman tentava mudar algo no time, como o goleiro (barrou Telgenkamp, colocando o experiente belga Bram Castro), mas a coisa não ia.

A bem da verdade, a coisa só foi a partir da metade final da temporada. Não que tenha se tornado excelente, mas na irregularidade de desempenhos, achou-se uma vitória aqui e outra ali (quatro nas últimas sete rodadas). A experiência de Fledderus no meio-campo e o poder de finalização de Bryan Linssen colaboraram para salvar a equipe da queda. Deixando o ambiente serenado o bastante para que o clube até celebrasse o lançamento de um novo escudo. Distintivo novo, vida nova? É o que se espera.

ADO Den Haag

Colocação final: 13º colocado, com 37 pontos (na frente pelo maior saldo de gols)
Técnico: Henk Fräser
Maior vitória: ADO Den Haag 3×0 Groningen (3ª rodada)
Maior derrota: Vitesse 6×1 ADO Den Haag (8ª rodada)
Principal jogador: Michiel Kramer (atacante)
Artilheiro: Michiel Kramer (17 gols)
Quem mais partidas jogou: Dion Malone (lateral direito), Aaron Meijers (meio-campista) e Mike van Duinen (atacante), com 33 jogos
Copa nacional: eliminado na segunda fase, pelo Almere City
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: ruim

Podia ter sido pior. Afinal de contas, os Hagenaren terminaram o primeiro turno num temeroso 14º lugar, com a mesma pontuação do Go Ahead Eagles, que já estava na zona da repescagem contra o rebaixamento. Aparentemente, havia passado o “efeito Henk Fräser”, que fizera a equipe sair das últimas posições direto para o meio da tabela na parte final do Holandês 2013/14. O ataque, tradicionalmente eficiente em marcar gols, estava emperrado, e a defesa não colaborava muito.

Mas uma melhora no início do returno (entre a 21ª e a 25ª rodadas, foram três vitórias e dois empates) ajudou o time auriverde de Haia a se recompor. Tradicional referência no ataque, Michiel Kramer reapareceu com seus gols, amenizando a decepção que foi Mike van Duinen. O meio-campo se recompôs ganhando em velocidade com Roland Alberg. E o desempenho melhorou, afastando o perigo que se avizinhava no turno. Mas o ADO foi avisado. Precisa melhorar na próxima temporada.

Cambuur

Colocação final: 12º colocado, com 41 pontos
Técnico: Henk de Jong
Maior vitória: Cambuur 4×1 Dordrecht (8ª rodada)
Maior derrota: Zwolle 6×1 Cambuur (26ª rodada)
Principal jogador: Bartholomew Ogbeche (atacante)
Artilheiro: Bartholomew Ogbeche (13 gols)
Quem mais partidas jogou: Leonard Nienhuis (goleiro), atuou em todos os 34 jogos
Copa nacional: eliminado nas quartas de final, pelo Twente
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: mediano

A temporada do clube de Leeuwarden podia ter sido extraordinária para seus padrões. De uma equipe que tivera dificuldades em 2013/14, os auriazuis tornaram-se um time bastante sólido e organizado, com defesa bem entrosada e ótimo início de temporada (invencibilidade nas cinco primeiras partidas, com três vitórias e dois empates). De quebra, o experiente atacante nigeriano Ogbeche era garantia de redes balançando. Se conseguisse manter o nível do primeiro turno, uma ótima surpresa estava a caminho.

Não que a queda de produção do Cambuur tenha sido assustadora. Bem ou mal, até as últimas rodadas a equipe teve chance de entrar nos play-offs por vaga na Liga Europa. E a campanha na Copa da Holanda foi razoável. Porém, a equipe caiu justamente quando não podia: na fase final. Chegou a ser goleada pelo Zwolle, e não ganhou em nenhuma das últimas cinco rodadas (três empates, duas derrotas). A temporada foi tranquila, até honrosa. Mas a sensação de decepção foi inevitável. O Cambuur tinha time para um pouco mais.

Utrecht

Colocação final: 11º colocado, com 41 pontos (na frente pelo maior saldo de gols)
Técnico: Rob Alflen
Maior vitória: Utrecht 6×1 Dordrecht (23ª rodada)
Maior derrota: Utrecht 1×5 PSV (10ª rodada)
Principal jogador: Sébastien Haller (atacante)
Artilheiro: Sébastien Haller (11 gols)
Quem mais partidas jogou: Robbin Ruiter (goleiro) e Yassin Ayoub (ponta-de-lança), ambos com 31 jogos
Copa nacional: eliminado na segunda fase, pelo PSV
Competição continental: nenhuma
Conceito da temporada: mediano

O Utrecht foi aquela típica equipe que levou a temporada inteira empurrando as coisas com a barriga. Como de costume, não flertou com o rebaixamento. Mas tampouco mostrou capacidade para sonhar com coisas maiores, como até o Cambuur chegou a fazer em certo momento da temporada. E desde a metade do campeonato ficou claro que o time não iria muito longe sob o comando de Rob Alflen. Tanto que antes mesmo do final da temporada sua saída foi anunciada.

O único motivo de ânimo veio a partir do empréstimo do francês Sébastien Haller. Vindo do Auxerre, “Seb” resolveu o problema da falta de referência no ataque: bastaram os últimos seis meses da temporada para tornar-se o goleador dos Utregs na Eredivisie. Além disso, há jogadores promissores no elenco, como Yassin Ayoub, Ruud Boymans e o americano Rubio Rubin, presente no Mundial Sub-20. Ficará a cargo de Erik ten Hag, o novo treinador, fazer uma equipe menos desanimada.

Twente

Colocação final: 10º colocado, com 43 pontos (perdeu seis pontos, em punição da federação holandesa por problemas financeiros)
Técnico: Alfred Schreuder
Maior vitória: Dordrecht 0x4 Zwolle (12ª rodada)
Maior derrota: Twente 0x5 PSV (29ª rodada)
Principais jogadores: Hakim Ziyech e Jesús Corona (meio-campistas)
Artilheiro: Hakim Ziyech (11 gols)
Quem mais partidas jogou: Kamohelo Mokotjo (meio-campista), com 33 jogos
Copa nacional: eliminado nas semifinais, pelo Zwolle
Competição continental: Liga Europa (eliminado nos play-offs para a fase de grupos, pelo Qarabag-AZE)
Conceito da temporada: mediano

O problema do Twente não foi o elenco. Sim, a defesa foi costumeiramente insegura – principalmente no gol, com Marsman sendo barrado em detrimento de Sonny Stevens; a ausência de Felipe Gutiérrez em boa parte da temporada pesou um pouco; e reforços como Ryo Miyaichi, cedido pelo Arsenal, decepcionaram. Mas com tudo isso, havia gente jogando bem. Principalmente no meio-campo, com Mokotjo, Ziyech e Jesús Corona. Dava até para superar a crítica da torcida em relação à falta de capacidade de Alfred Schreuder em fazer o time se impor. Dava para superar até a falta de pontaria de Luc Castaignos.

O que não pôde ser superado foi a grave crise financeira por que passa o Twente. Os Tukkers já perdiam terreno durante a temporada, mas serem punidos com a perda de seis pontos, por omitirem perdas no balanço e não cumprirem metas de reabilitação, foi a gota d’água no ânimo da equipe. E ainda assim, houve profissionalismo suficiente para chegar às semifinais da Copa da Holanda e até para minorar danos esportivos, vencendo as duas últimas partidas da temporada. O desafio agora será saber revelar novos talentos e contratar a baixo custo para não aprofundar a crise, já que os destaques (Castaignos, Ziyech, Corona) deixarão o clube.