A final da Liga Europa acontecerá em uma cidade inédita para as competições da Uefa. Baku, capital do Azerbaijão, é um lugar geograficamente distante das principais cidades europeias. Especificamente de Londres, fica bem longe – quase cinco mil quilômetros, precisamente. A escolha gera alguma controvérsia, não por acaso. Entre as críticas ao país estão a falta de democracia e falta de respeito aos direitos humanos. Isso, porém, não é uma novidade. O Azerbaijão investe para limpar a sua imagem há tempos e o esporte é uma ferramenta poderosa para isso. Antes da decisão entre Chelsea e Arsenal, explicamos um pouco sobre as polêmicas envolvendo a cidade no extremo leste da Europa.

A escolha da sede da final da Liga Europa

A Uefa abriu o processo de escolha da sede da final da Liga Europa em dezembro de 2016. As candidatas tinham até 27 de janeiro de 2017 para expressarem interesse, com a candidatura apresentada até o dia 6 de junho de 2017. Segundo a Uefa, seis cidades se interessaram, mas apenas três apresentaram, de fato, suas candidaturas: Baku, com o estádio Olímpico; Sevilha, com o Estádio Ramón Sánchez Pizjuán; e Istambul, com o Vodafone Park. No dia 20 de setembro de 2017, o Comitê Executivo da Uefa escolheu Baku como vencedora.

Desde setembro de 2016 a presidência da Uefa era ocupada por Aleksander Ceferin, esloveno, que sucedeu Ángel María Villar, presidente interino de outubro de 2015 a setembro de 2016. Este, por sua vez, substituiu Michel Platini, presidente de janeiro de 2007 a outubro de 2015, quando foi suspenso do cargo, acusado de irregularidades. Em dezembro daquele ano, ele foi considerado culpado e banido do futebol até 2023. A escolha de Baku, portanto, é responsabilidade do atual presidente da Uefa.

“Este ano, o Azerbaijão irá sediar competições de prestígio em vários esportes e o sucesso ao receber esses eventos mais uma vez confirma que o Azerbaijão é um país esportivo”, disse a Ministra do Esporte e Juventude do país, Samaya Mammadova ao Azertag, no dia 20 de fevereiro. Ela afirmou ainda que o número de turistas que chegou ao Azerbaijão em 2018 aumentou três milhões e o país espera elevar as marcas ainda mais neste ano.

O presidente da Uefa se justificou, em entrevista à revista Der Spiegel, sobre a escolha de Baku. “Por quê [foi escolhida Baku]? Porque as pessoas vivem lá. Eles amam futebol. Nós temos que desenvolver o futebol em todos os lugares, não apenas na Inglaterra e Alemanha”, afirmou Ceferin.

“Aliás, eu fiquei sabendo que a Easyjet aumentou as passagens para os voos até Baku. Alguém perguntou a eles? Tudo parece que é sempre culpa da Uefa. Isso é populismo. Que tal vir com uma proposta construtiva, um fundo, que todos os clubes possam contribuir para apoiar os torcedores viajando para a final? É claro, Baku é bem longe de Londres. Mas quando nós decidimos o local da final, nós não sabíamos que os dois times viriam da Inglaterra”, afirmou o dirigente.

Contexto político

Ilham Aliev na eleição do Azerbaijão de 2003, quando assumiu o poder (Foto: Getty Images)

O Azerbaijão é uma ex-república soviética. Desde o fim da URSS, o país se tornou rico, especialmente por causa dos seus recursos naturais – petróleo e gás natural. O território é banhado pelo Mar Cáspio e faz fronteira com a Rússia ao norte, Geórgia e Armênia a oeste e Irã ao sul. Tem uma população de 9,7 milhões de pessoas, em uma área de 86.600 m². Tem como língua principal o azeri, mas também o russo, fruto de uma influência muito forte desde os tempos soviéticos e que permanece até os dias atuais.

O país é governado por Ilham Aliyev desde 2003. Sim, isso mesmo: ele está no poder desde 2003. Piora: ele sucedeu o pai, Heydar. Havia uma lei que não permitia que os presidentes tivessem mais de dois mandatos, mas ela foi derrubada em um referendo, em 2009. Com isso, ele se reelegeu em 2013.

Em 2016, mais um referendo aprovou mudanças constitucionais no país, que concentraram ainda mais o poder nas mãos do presidente. Um dos pontos de mudança é curioso: diminuiu a idade mínima para ser presidente, o que suscitou a muitos a ideia que Ilham prepara a sucessão para seu filho, então com 19 anos no momento da nova determinação. Quer mais controvérsia familiar? Em 2017, ele escolheu a esposa, Mehriban, como primeira vice-presidente.

Ainda em 2017, outro escândalo veio à tona: um esquema de US$ 2,8 bilhões foi deflagrado, com pagamentos a diversos políticos europeus para que tivessem “uma atitude positiva em relação ao país”. O dinheiro era pago via empresas de fachada no Reino Unido e saiu de um fundo secreto criado pelo governo azeri.

A denúncia, reportada pela BBC, é que havia um fundo usado pelo governo para suborno. O dinheiro foi direcionado a vários países, incluindo Alemanha, França, Turquia, Irã e Cazaquistão – não aos governos, claro, mas a políticos desses países. Em 2018, o presidente conseguiu uma nova reeleição, mas opositores – vivendo fora do país, em sua maioria – acusam de fraude nas urnas.

O país é muito criticado pela União Europeia, pelos Estados Unidos e por entidades de direitos humanos por manter prisioneiros os adversários políticos, além de acusações de corrupção generalizada e fraudes eleitorais. Não há oposição no país, nem críticas na imprensa. Os que se arriscam a falar contra o governo são normalmente acusados e presos, ou ficam fora do país.

Aliyev acumula o cargo de presidente do Novo Partido do Azerbaijão, além de presidente do Comitê Olímpico do país. O modus operandi do país tem sido tentar receber eventos esportivos como forma de vender a imagem, pensando em turismo e tentando amenizar as muitas críticas.

A BBC já relatava em 2015 que muitas mentes brilhantes, que eram contrárias ao regime autoritário do país, foram colocadas atrás das grades. Entre eles Intigam Aliev, advogado de direitos humanos, que levou centenas de casos de violações ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos. O local onde essas pessoas eram mantidas presas, Kirdalhany, tinha sido sugestivamente apelidado pelos governantes como “a universidade”, porque todos os intelectuais do país considerados ameaças ao regime estavam detidos ali. Uma ironia cínica.

A capital do Azerbaijão sediou seus primeiros eventos internacionais em 2005, quando recebeu o Mundial de Ginástica Rítmica. Depois, em 2007, foi palco do Campeonato Europeu de Ginástica Rítmica, o Mundial de Wrestling (que inclui luta greco-romana) e o Europeu de Taekwondo. Em 2009, o país recebeu também a Challenge Cup, um torneio europeu de vôlei, esporte que é forte no Azerbaijão. Em 2010, sediou o Europeu de Wrestling e em 2011 o Mundial de Boxe Amador.

Todos eventos esportivos internacionais, mas nenhum deles de grande porte. As coisas mudaram justamente em 2011. O investimento em propaganda cresceu. Montamos uma linha do tempo com os principais eventos que a cidade recebeu para entender o processo.

2007: Candidaturas Olímpicas

Baku foi candidata a sediar os Jogos Olímpicos de 2016, que acabaram indo para o Rio de Janeiro. A falta de histórico olímpico, os problemas estruturais, os conflitos que afetavam a região e a falta de equipamentos esportivos de alto padrão acabaram fazendo com que a cidade fosse eliminada e nem chegasse ao processo de concorrência final. Em 2011, Baku se organizou novamente para concorrer a sediar os Jogos Olímpicos de 2020, mas, novamente, acabou eliminada na primeira fase de seleção, sem sequer chegar às finalistas.

“Ao se candidatar, você aumenta a sua experiência e constrói uma rede. Você está construindo uma fundação para futuros processos de candidaturas”, afirmou o Elkhan Mammadov, que era membro do comitê de Baku. Para ele, os altos investimentos feitos para os Jogos Europeus e para a Eurocopa 2020 ajudam, já que o Comitê Olímpico Internacional prioriza candidatos de baixo risco e baixo custo.

As empreitadas olímpicas não deram certo, mas ajudaram, de fato, a ganhar experiência. Baku pensava em se candidatar a sediar o evento em 2024 e 2028, mas não conseguiu chegar a tanto (2024 ficou com Paris e 2028 com Los Angeles). O país ganhou experiência para entender como funciona o processo de escolha em grandes competições. E também para perceber que seria preciso primeiro se tornar uma cidade conhecida no mundo para ter alguma chance, a ponto de ter alguma simpatia. Isso não foi em vão.

2012: Eurovision

Logo do Eurovision de 2012, realizado em Baku (Foto: Getty Images)

O primeiro grande evento internacional de Baku foi uma disputa, mas não esportiva. O Eurovision foi realizado na capital do Azerbaijão em 2012, depois dos representantes do país conseguirem a vitória na edição anterior, com a dupla Ell e Nikki. Desde 1981, o país vencedor do Eurovision recebe o evento no ano seguinte.

Por isso, a vitória de 2011 da dupla azeri abriu espaço para que Baku fosse a sede. Naquela edição, assim como aconteceu na Liga Europa, os participantes armenos desistiram de comparecer por questões de segurança. O evento foi organizado com sucesso, com vitória da sueca Loreen, com a música “Euphoria”. Esta foi considerada a primeira grande experiência internacional que Baku conseguiu promover, com um equipamento completamente novo.

2013/14: Atlético de Madrid

Diego Costa, do Atlético de Madrid, em 2014 (Foto: Getty Images)

A temporada 2013/14 foi de uma enorme surpresa em La Liga. O Atlético de Madrid de Diego Simeone e de Diego Costa fez uma campanha espetacular e, em uma última rodada dramática com um empate diante do Barcelona, se sagrou campeão espanhol. Como se não bastasse, o time ainda foi até a final da Champions League, mesmo que tenha acabado derrotado pelo rival Real Madrid, naquela decisão em Lisboa.

Foi uma temporada mágica e que jamais será esquecida pelos torcedores do clube. Nem pelo governo do Azerbaijão. O patrocínio na camisa dos Colchoneros era “Azerbaijão – Land of Fire” (“Terra do Fogo”, em inglês). Segundo o governo, o patrocínio de € 12 milhões por temporada foi paga por um rico empresário local com dinheiro privado. Nós temos todas as razões para desconfiar que não foi bem assim. Seja como for, o secretário-geral da Federação Azeri de Futebol na época, Elkhan Mammadov, disse que “foi uma poderosa ferramenta para aumentar o perfil do país entre torcedores comuns”.

2015: Jogos Europeus

Cerimônia de abertura dos Jogos Europeus, em sua primeira edição, em Baku, 2015 (Foto: Getty Images)

O estádio Olímpico de Baku foi construído pensando neste evento, os Jogos Europeus, um equivalente aos Jogos Pan-Americanos, que reúne 50 países e 30 esportes, sendo 15 deles olímpicos. A competição leva os comitês olímpicos dos países para uma disputa continental.

A escolha da capital azeri para ser sede foi uma grande vitória para o governo do país, que fez todos esses eventos anteriores para ganhar notoriedade. Fundamental também para uma cidade que pensa em sediar os Jogos Olímpicos no futuro.

O Ministro dos Esportes em 2015, Azad Rahimov, falou sobre o evento de forma que deixou clara a intenção. “Depois dos Jogos Europeus em Baku, pessoas por todo o mundo irão saber que o Azerbaijão é na Europa”. Era, portanto, uma estratégia de marketing, antes de tudo. Ser reconhecido era importante e ajudaria em muito mais do que viria pela frente.

Os custos para isso foram enormes. O gasto oficial era de US$ 1,2 bilhão, mas a estimativa é que o gasto real com os jogos foi muito maior. Só o estádio Olímpico de Baku, onde será disputada a final da Liga Europa, custou mais de US$ 600 milhões.

“A maioria dos azeris está achando difícil ser possível bancar os custos. Todas essas despesas extravagantes estão realmente irritando as pessoas”, afirmou Arastun Orujlu, chefe do centro de pesquisa Leste-Oeste, com sede em Baku, à BBC ainda em 2015. “Para o governo, o assunto Jogos Europeus são a mais alta prioridade. Isso é relações públicas para o governo. Mas do ponto de vista econômico, os jogos são completamente não rentáveis”.

A escolha de Baku foi bastante controversa não apenas por questões econômicas – como a localização afastada de países mais ricos, por exemplo. Um dos pontos que causou mais revolta ainda é bastante falado: o país é notório por não respeitar direitos humanos, algo alertado pela Anistia Internacional em março de 2015. “O Azerbaijão pode ser um país seguro para os atletas que participam nos 100 metros, mas defender os direitos e a liberdade de expressão é um jogo perigoso aqui. Aqueles que os defendem recebem assédio e sentenças de prisão em vez de medalhas”, diz o texto no site da Anistia Internacional.

Em junho de 2015, o Guardian afirmou que seus repórteres foram impedidos de entrar no país para cobrir os jogos. O Human Rights Watch (Observatório dos Direitos Humanos) diz, na reportagem, que identificou “a pior repressão que o país tem visto na era pós-soviética”. A controvérsia foi grande, a ponto da maioria dos líderes governamentais se recusarem a participar da cerimônia de abertura. As Nações Unidas também criticaram as violações do Azerbaijão.

Os nomes dos governantes que aceitaram participar da cerimônia dizem muito por si só: Vladimir Putin, da Rússia; Recep Tayyip Erdogan, da Turquia; Aleksander Lukashenko, de Belarus; Boyko Borisov, da Bulgária; Victor Ponta, da Romênia. Ponta e Borisov sofreram críticas em seus países por terem aceitado participar da cerimônia.

Um acidente de ônibus ainda chamou muito a atenção. Um motorista confundiu o freio com o acelerador e atropelou uma delegação de austríacos, dentro da Vila Olímpica. Vanessa Sahinovic, de 15 anos, sofreu “múltiplas lesões” no acidente e precisou ser colocada em coma induzido.

Segundo relatos ouvidos pela BBC na época, havia a suspeita de que o motorista estava sob efeito do álcool. A adolescente ficou tetraplégica com o acidente. O motorista, Veli Ahmadov, foi indiciado, assim como a empresa pela qual ele trabalhava. O policial que entregou as imagens de uma câmera de segurança do local acabou demitido, o que mostra um pouco do caráter autoritário do país.

2016: F1

GP do Azerbaijão em 29 de abril de 2018 (Foto: Getty Images)

Uma das grandes conquistas do governo do Azerbaijão foi levar a Fórmula 1 para Baku. Assim como a Uefa, a F1, sob o comando de Bernie Ecclestone, nunca se importou com questões de direitos humanos. Muito menos com questões logísticas. Tradição esportiva também não é uma prioridade. A cidade se mostrou capaz de criar um circuito interessante, produz belas imagens e, principalmente, gera um bom dinheiro. Motivos mais do que suficientes para receber a categoria mais badalada do automobilismo mundial.

Em 2014, o então chefão da F1 assinou contrato com o Azerbaijão para sediar corridas no país. Havia a possibilidade até de sediar em 2015, mas acabou acontecendo só em 2016, primeiro como Grande Prêmio da Europa e depois como GP do Azerbaijão. Assim como a Fifa, a Fórmula 1 não tem uma tradição de ligar para como as instalações são construídas, ou com que dinheiro. É importante apenas que elas estejam lá.

O acordo com o Azerbaijão, na época, foi facilitado por Flavio Briatore, antigo executivo da Renault, banido do esporte depois do escândalo protagonizado no GP de Singapura, em 2008, quando Nelson Piquet Júnior teria batido de propósito, pelos interesses da equipe – Fernando Alonso acabaria ganhando a prova como consequência. O acerto foi fechado, assinado e em 2016 a prova foi disputada pela primeira vez em Baku.

Em setembro de 2016, a Liberty Media comprou a F1 e tirou das mãos de Ecclestone. Em 2017, Greg Maffei, presidente e diretor-executivo do grupo, declarou que Bernie Ecclestone havia deixado de legado para a F1 corridas que aportavam apenas dinheiro, não tradição, e que fazem pouco para estabelecer a marca F1 a longo prazo. E, como exemplo, falou de Baku, como relata o Grande Prêmio. Virou um incidente diplomático e houve um pedido de desculpas depois.

E parece que a Liberty também não se importou muito com as controvérsias da cidade.  Em 2019, o GP do Azerbaijão renovou seu contrato com a Fórmula 1 até 2023. O evento se tornou lucrativo para a Fórmula 1, atrai turismo e, bom, faz o que mais o governo azeri quer: populariza a cidade e o próprio país. Baku é uma cidade linda e gera ótimas fotos, mas a F1, como o futebol, parece discutir pouco sobre as questões que vão além do esporte e fazem parte da responsabilidade que ambos carregam.

Eurocopa 2020

Michel Platini, então presidente da Uefa, anuncia Baku como uma das sedes da Eurocopa 2020 (Foto: Getty Images)

Conquistar o direito de sediar a final da Liga Europa é um feito para Baku, mas um maior ainda veio antes disso. Em 2014, a cidade se candidatou a ser uma das sedes da Eurocopa de 2020, que não terá país fixo. Ganhou a chance de receber três jogos de fase de grupos e um jogo de quartas de final. Acabou sendo beneficiada pelo plano de Michel Platini de expandir o torneio por várias partes da Europa.

Será o principal passo para a visibilidade que o país quer. E, certamente, será alvo de novas controvérsias por ter problemas que os dirigentes das grandes entidades esportivas parecem continuar ignorando, fingindo que não têm nada com isso.

A final da Liga Europa é mais um passo para que Baku e o Azerbaijão sejam conhecidos internacionalmente. Nesta quarta-feira, às 16h, os olhos da Europa (e de parte do mundo) estarão voltados a Baku para um duelo entre dois times de muita repercussão.