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Uganda de 1978: o breve momento de maior brilho dos Grous na Copa Africana de Nações

Uganda contava com o maior craque de sua história e alcançou a decisão da CAN de maneira única, mas aquela geração se desmancharia pela instabilidade política

Pertencente a uma região tradicionalmente menos expressiva em termos de resultados dentro do futebol africano, Uganda viveu o ponto mais alto de sua história na Copa Africana de Nações de 1978, disputada em Gana. A seleção, que até então nunca tinha vencido uma partida sequer em suas quatro participações anteriores na fase final da competição, superou a fase de grupos e as semifinais, deixando pelo caminho equipes mais cotadas como Marrocos e Nigéria, até decidir o título contra os anfitriões, que ficaram com a taça. A instabilidade política no país, entretanto, impediu consagrações maiores à geração liderada por Phillip Omondi, maior craque a surgir em solo ugandês.

O panorama regional

Com 56 nações futebolísticas filiadas à confederação continental (sendo 54 delas membros da Fifa), o futebol africano se divide em termos de organização entre cinco sub-regiões (e seis zonas), cada qual com sua entidade responsável. Uma delas é o Conselho das Associações de Futebol da África Oriental e Central (Cecafa, na sigla em inglês), que reúne federações de 11 países (Burundi, Djibuti, Eritréia, Etiópia, Quênia, Ruanda, Somália, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia e Uganda), mais a da região autônoma de Zanzibar.

Por alguns motivos, essa região costuma ser apontada como a menos expressiva do continente: é a única em que nenhum de seus filiados disputou uma Copa do Mundo nem teve quaisquer de seus clubes conquistando a Liga dos Campeões africana, instituída em 1964. Já em relação à Copa Africana de Nações, quase todas as melhores participações da região remetem ao período inicial do torneio, quando o número de participantes ainda era restrito pelo próprio processo político de descolonização em andamento.

Assim, das dez participações da Etiópia na competição (incluindo seu único título, em 1962), sete estão compreendidas, de maneira consecutiva, entre a edição inaugural de 1957 e a de 1970. Nos quase 50 anos que se seguiram, o país voltou a disputar apenas três vezes, caindo na fase de grupos em todas. O mesmo ocorre com o Sudão, campeão em 1970 e vice em 1959 e 1962, mas que desde sua conquista só fez uma campanha de relativa expressão, ao alcançar as quartas de final (oitavo colocado) na edição de 2012.

Por tudo isso torna-se ainda mais significativa a campanha de Uganda como finalista do torneio em 1978 – mesmo ano, aliás, em que a Tunísia se tornaria, dali a alguns meses, a primeira seleção do continente a vencer uma partida de Copa do Mundo, ao bater o México por 3 a 1 no Mundial disputado na Argentina. Naquele fim da década de 1970, o futebol do continente vivia processo de rápido desenvolvimento, que desaguaria em campanhas marcantes nos principais torneios do planeta ao longo do decênio seguinte.

O contexto nacional

Levado por missionários britânicos à então colônia do Reino Unido, o futebol chegou a Uganda ainda em fins do século XIX, por volta de 1897. Entretanto, a seleção nacional, apelidada “The Cranes” (ou “Os Grous”, em referência à ave típica do país e que figura até na bandeira ugandesa), só entrou em campo pela primeira vez em 1926, enfrentando o vizinho Quênia. A independência veio em outubro de 1962, mas cerca de dois anos antes a federação nacional já havia se filiado à Fifa e à recentemente instituída CAF.

O país ficou, portanto, de fora das duas primeiras edições da Copa Africana de Nações, realizadas em 1957 e 1959 e disputadas apenas por Egito, Sudão e Etiópia. A estreia ugandesa viria em 1962, na terceira edição, quando, em meio ao já citado processo de descolonização no continente, o número de países inscritos subiu para nove, tornando necessária uma fase prévia eliminatória. Nesta etapa Uganda superou o Quênia, antes de ganhar o sorteio que valeria “pular” a segunda fase e avançar diretamente à fase final.

Naquele quadrangular decisivo, disputado em formato de mata-mata em Adis-Abeba, na Etiópia, a campanha ugandesa foi discreta: a seleção perdeu na semifinal para o Egito (então conhecido como República Árabe Unida) por 2 a 1 e sofreu derrota maior, por 3 a 0, para a Tunísia na decisão do terceiro lugar. Os Grous voltariam a se classificar em 1968, 1974 e 1976, mas sempre com resultados fracos, somando apenas um ponto em nove partidas – pelo empate em 2 a 2 com a Costa do Marfim na edição de 1974.

A campanha fraca em 1976, com derrotas para Etiópia (2 a 0), Egito (2 a 1) e Guiné (2 a 1), aliada às exigências consideradas inviáveis pela federação ugandesa feitas pelo técnico David Otti, levou à demissão do treinador após o torneio continental. Seu substituto seria Peter Okee, ex-lateral-direito da seleção na década anterior e que vinha fazendo bom trabalho no Prisons FC (também chamado de Maroons FC), clube ligado ao sistema penitenciário nacional. Junto com ele chegava também o auxiliar Bidandi Ssali.

Dentro de alguns meses o trabalho já rendia frutos: em novembro de 1976 a seleção de Uganda já conquistava a Copa Cecafa (a qual já havia levantado três anos antes). Na edição realizada em Zanzibar, os Grous ficaram em segundo lugar no Grupo A da primeira fase – atrás de Zâmbia e à frente da Somália e dos donos da casa – e passaram às semifinais, quando derrotaram o Malawi por 2 a 1. Na decisão, tiveram a oportunidade da revanche contra os Chipolopolo e enfim levaram a melhor, vencendo por 2 a 0.

O começo da ascensão

No ano seguinte, a seleção teria o calendário cheio, com eliminatórias para a Copa do Mundo da Argentina, para a Copa Africana de Nações de 1978 (a ser realizada em Gana), para os Jogos Pan-Africanos (a serem disputados em Argel) e outra edição da Copa Cecafa. A primeira competição seria a etapa classificatória para o Mundial, em fevereiro. Entrando direto na segunda fase por sorteio, Uganda teve Zâmbia pela frente: venceu por 1 a 0 em Campala, mas acabou eliminada ao perder por 4 a 2 na prorrogação na volta.

A compensação veio em junho, com a confirmação da vaga na fase final da CAN. Após avançar na etapa anterior sem precisar enfrentar a Tanzânia, Uganda superou a Etiópia com um empate em 0 a 0 fora de casa e uma vitória por 2 a 1 em casa na volta. Já as duas últimas competições viriam em novembro e dezembro. Derrotados pelo Egito no Cairo na decisão do torneio classificatório, os Grous ficariam de fora dos Jogos Pan-Africanos. Mas logo em seguida celebrariam na Somália mais uma conquista na Copa Cecafa.

O time de Uganda para a estreia na CAN 1978

Na primeira fase, a seleção oscilou: estreou perdendo de maneira surpreendente para Zanzibar por 1 a 0, recuperou-se batendo o vizinho Quênia por 3 a 1 e passou em segundo no grupo (atrás dos próprios quenianos) ao arrancar dos anfitriões somalis o empate em 1 a 1 na última rodada, levando a melhor no saldo de gols. No mata-mata, o roteiro foi muito semelhante ao de 1976: vitória por 2 a 1 no Malawi na semifinal e a taça sendo conquistada após superar Zâmbia – desta vez nos pênaltis, após empate em 0 a 0.

Naquele momento, a base da seleção já era formada pelos jogadores do Kampala City Council FC, conhecido pela sigla KCC, um clube fundado em 1963 por funcionários da prefeitura da capital e que viveu ascensão meteórica a partir de 1973, quando conquistou o acesso à elite nacional. Logo se estabeleceria como força: seria vice-campeão em 1974 e 1975 e conquistaria o bicampeonato em 1976 e 1977. No segundo título, a campanha foi irretocável: em 26 jogos, venceu 21 e perdeu só dois, anotou 74 gols e sofreu 17.

Desponta o maior craque do país

Foi nesse período de ascensão e em meio às múltiplas conquistas do clube que despontou por lá aquele que ainda hoje é considerado o maior jogador ugandês de todos os tempos: o atacante Phillip Omondi. Filho de quenianos, nascido em 1957, começou sua vida esportiva no boxe, mas ainda garoto trocou de modalidade, passando ao futebol. Chegaria ao KCC em 1973 pelas mãos de Bidandi Ssali, então treinador do clube de Campala, precisamente no momento da guinada de competitividade da equipe.

A habilidade que encantava os torcedores e treinadores locais se combinava com a valentia e a vontade de vencer vinda dos tempos do boxe. E já em 1973, enquanto o KCC ainda disputava a segunda divisão nacional, Omondi estreava na seleção marcando duas vezes numa goleada sobre a Somália. Pouco depois, ajudaria os Grous a conquistarem a primeira Copa Cecafa. Sua escalada rumo ao auge da carreira só seria interrompida – temporariamente – por uma grave lesão sofrida num jogo do clube em abril de 1976.

Phillip Omondi, o maior craque da história de Uganda

O KCC enfrentava o Kilembe Mines quando, num lance casual, Omondi chocou-se com o goleiro adversário e sofreu ruptura do pâncreas. Precisou passar por quatro cirurgias, a última delas na Inglaterra. Acreditava-se que nunca mais jogaria futebol. Ou pior: chegou a ser declarado morto em pelo menos duas ocasiões. Mas dentro de pouco mais de um ano, em junho de 1977, já estava de volta aos gramados. E em janeiro de 1978, conduziria seu clube a uma conquista internacional: a da Copa de Clubes da Cecafa.

Omondi já estava, portanto, inteiramente restabelecido quando a seleção de Uganda se reuniria para a disputa da Copa Africana de Nações em Gana. No Grupo B, ao lado de Marrocos, Tunísia e Congo, os Grous eram os azarões. Os marroquinos, do veterano artilheiro Ahmed Faras, eram os atuais campeões. Os tunisianos representariam o continente no Mundial argentino, no qual fariam campanha histórica. E os congoleses, do craque François M’Pélé (do Paris Saint-Germain), haviam levantado a taça em 1972.

O time-base

Entre os treinos preparatórios realizados em Campala e a estreia na competição, a equipe sofreu duas baixas importantes. Primeiro, ainda em Uganda, o experiente e talentoso ponta-esquerda Denis Obua foi cortado por indisciplina. Depois, já em solo ganês, uma lesão afastaria outro ponta, desta vez do lado direito, Stanley “Tank” Mubiru, que aliava força física e habilidade. Ainda assim, com a defesa coesa, o meio-campo dinâmico e o ataque insinuante, os Grous surpreenderiam adversários mais qualificados.

A escalação da defesa (goleiro e quatro zagueiros) não mudou durante a competição e começava com o goleiro Paul Ssali, que defendia o Simba (clube do exército e uma das potências do país) e compensava sua pouca estatura com agilidade e bons reflexos. Nas laterais, Eddie Ssemwanga, incansável e de chute forte, atuava pelo lado direito, enquanto o experiente Sam Musenze – cujos 13 anos ostentando a braçadeira no KCC lhe renderiam o apelido de “capitão vitalício” no clube – operava pela esquerda.

Mas o jogador mais destacado entre os defensores era o talentoso líbero Jimmy Kirunda. Capitão da seleção, era chamado de “Kaiser” numa alusão ao alemão-ocidental Franz Beckenbauer, sua inspiração na posição. Firme na marcação, aproveitava também sua boa técnica para se lançar com frequência ao ataque (seria o artilheiro do campeonato em 1978, com espantosos 38 gols). E formava com o igualmente sólido Tom Lwanga uma dupla entrosada no coração das defesas tanto da seleção quanto de seu clube, o KCC.

O capitão Kirunda rechaça um ataque ganês (Foto revista Mondial)

O meio-campo prescindia de um volante puramente defensivo. Moses Nsereko, habitualmente o homem mais recuado, conciliava a potência física com um excelente técnica e visão de jogo – era apelidado “Master Planner” – e podia se aventurar mais à frente com desenvoltura. Assim como Mike Kiganda, que na seleção atuava como segundo homem do setor, mas podia cumprir com igual eficiência as funções de cabeça-de-área ou ponta-de-lança. Era chamado de “Computador” pela precisão milimétrica dos passes.

Nos dois primeiros jogos, o técnico Peter Okee escalou um terceiro armador, Timothy Ayiekho, jogador de características semelhantes aos outros dois meias já citados. Mas da última partida da fase de grupos em diante, ele daria lugar ao mais ofensivo Abdulla Nasur, que podia atuar pelas duas pontas ou pelo centro do ataque – nesse time, ele seria fixado do lado direito do setor. Outra troca feita a partir da terceira rodada teve menos impacto tático: um ponta-esquerda, Barnabas Mwesiga, deu lugar a outro, Eric Isabirye.

Outra alteração – esta, feita do primeiro para o segundo jogo – aconteceu na troca do parceiro do craque Phillip Omondi no centro do ataque. Lesionado na estreia, o talentoso Polly Ouma cedeu seu posto a Godfrey Kisitu, um meia-direita de origem, mas que tinha facilidade de atuar deslocado como centroavante por ser exímio cabeceador. Essa constante troca de posições do meio para frente, aliada à capacidade de os atletas desses setores exercerem várias funções que favorecia a flexibilidade do sistema tático.

O começo da campanha

O Grupo B, no qual estava Uganda, seria disputado em Kumasi, segunda maior cidade de Gana, e teria início no dia 6 de março, um dia após a abertura da competição. Depois do empate em 1 a 1 entre Marrocos e Tunísia, chegava a vez de Uganda entrar em campo contra o Congo. E o craque Phillip Omondi precisaria de apenas 45 segundos para deixar sua marca no torneio, abrindo o placar para os Grous. Ainda no primeiro tempo, aos 31 minutos, o lateral Ssemwanga ampliaria a contagem em cobrança de falta. 

Na etapa final, o placar só voltaria a ser movimentado a dez minutos do fim, quando o reserva Jacques Mamounoubala diminuiu para os congoleses. Mas logo na saída de bola os ugandeses retomariam a vantagem de dois gols quando outro jogador saído do banco, Kisitu, concluiu para as redes, fechando a contagem em 3 a 1 – resultado que fazia os Grous terminarem a primeira rodada na liderança da chave. Mas mais importante: era a primeira vitória da história do país numa fase final da Copa Africana de Nações.

Na segunda rodada, no entanto, o grupo pareceu ter voltado a cumprir as expectativas: depois de o Marrocos vencer o Congo por um apertado 1 a 0, a Tunísia bateu Uganda por 3 a 1 e a dupla árabe assumiu a liderança por pontos. No confronto de 9 de março, os tunisianos saíram na frente com gol do zagueiro Mohsen “Jendoubi” Labidi e dois minutos depois ampliaram com o ponta-esquerda Abderraouf Ben Aziza. Na etapa final, Musenze descontou para Uganda, mas de novo Ben Aziza fez o terceiro e fechou o placar.

O goleiro Paul Ssali pula para fazer a defesa em lance da CAN 1978 (Foto revista Mondial)

Assim, não havia outra opção aos Grous: qualquer outro resultado que não fosse a vitória diante do Marrocos na última rodada, no dia 11, significaria a eliminação. Na outra partida, a Tunísia só precisaria de um empate contra um Congo já fora da briga – e ele veio na forma de um 0 a 0 que não entusiasmou o público. No jogo de fundo, porém, os torcedores de Kumasi presenciariam atuação histórica dos ugandeses contra os marroquinos, numa vitória categórica por 3 a 0 que despachou os então detentores do título.

O placar foi definido ainda na etapa inicial: Kisitu abriu a contagem logo aos 13 minutos, Nsereko fez o segundo aos 32 e Omondi anotou o terceiro, para que não houvesse mais dúvidas, aos 36. Muito celebrada no país, a vitória folgada valeu ainda a primeira colocação do grupo, superando a Tunísia por um gol de saldo. O adversário da semifinal, mais uma vez em Kumasi, seria a Nigéria, segunda colocada em um Grupo A liderado pelos anfitriões de Gana e no qual foram eliminados Zâmbia e Alto Volta (atual Burkina Faso).

Um gol antológico a caminho da final

Embora ainda não tivesse conquistado o título continental ou mesmo disputado uma Copa do Mundo, a Nigéria chegara ao torneio como aposta para ir longe naquela edição, credenciada por um bom terceiro lugar na de 1976 e pela geração talentosa que reunia, na qual se destacavam o meia Muda Lawal e o ponta Segun Odegbami – ambos decisivos na primeira conquista dos Super Águias no torneio, que aconteceria dali a dois anos. Mas naquela semifinal do dia 14 de março, a estrela que brilharia seria a ugandesa.

Um gol de Abbey Nasur aos 11 minutos faria os Grous saírem para o intervalo em vantagem no placar. Mas na etapa final, logo aos nove, os nigerianos empatariam com Eyo Mon Martins. Foi quando Phillip Omondi colocou a bola debaixo do braço e, com um lance genial, botou Uganda de novo em vantagem, marcando o gol que decidiria o jogo: após fazer fila pela defesa adversária, tinha pela frente só o goleiro Emmanuel Okala, um dos melhores do continente. Um drible, dois dribles, três dribles e a bola nas redes.

“Nós também nos tornamos espectadores quando Omondi driblou toda a defesa nigeriana e fez o goleiro pular três vezes antes de empurrar a bola para o gol vazio”, relembrou o zagueiro Tom Lwanga em entrevista ao jornal ugandês The Observer. Era um tento que coroava as excelentes exibições do craque no torneio, que valeria a ele (e a aquela seleção de Uganda) a admiração da torcida local – entre eles um jovem ganês chamado Abedi Pelé, que assistiu aos jogos e anos mais tarde o apontaria como um de seus ídolos.

Mike Diku, zagueiro que integrou o elenco, explicou a boa recepção dos ugandeses no país-sede da competição. Em primeiro lugar, havia o atraente jogo de passes, que cativou o público. Além disso, o fato de ser, a exemplo dos ganeses, uma ex-colônia britânica num grupo contra três antigos territórios franceses valeu o apoio local na primeira fase. Já nas semifinais, a rivalidade histórica entre Gana e Nigéria levou o público a apoiar os Grous. Só mesmo na decisão, contra os donos da casa, é que houve torcida contra.

Os capitães de Gana e Uganda trocam flâmulas antes da final (Foto revista Mondial)

Liderada pelo talentoso meia-armador Karim Abdul Razak (que no ano seguinte deixaria o Asante Kotoko, um dos gigantes locais, para atuar ao lado de Franz Beckenbauer e Carlos Alberto Torres no New York Cosmos), a seleção ganesa se impôs jogando em casa diante de cerca de 40 mil torcedores no Accra Sports Stadium. Controlou a final do primeiro ao último minuto e venceu por 2 a 0, gols de Opoku Afriyie, um em cada tempo, levantando seu terceiro caneco da Copa Africana de Nações, o que era então o recorde.

Mas, além da campanha histórica, caberia a Uganda o feito de Omondi: artilheiro da competição com três gols, empatado com o ganês Afriyie e o nigeriano Odegbami – ou quatro para algumas fontes de época, que creditaram a ele o gol contra a Tunísia atribuído pela súmula a Musenze. Porém, aquela participação simbolizando a afirmação de uma geração que poderia levar os Grous a proezas maiores não duraria, interrompida bruscamente pelo momento conflituoso atravessado pelo país naquele fim da década.

A guerra que atravessou a consagração

Uganda vivia desde fevereiro de 1971 sob regime militar liderado pelo controverso Idi Amin, que, no início daquele ano de 1978 e em meio a uma crise de apoio no Governo, destituiu o general Mustafa Adrisi, vice-presidente do país, de seus cargos de ministro da Defesa e do Interior. O ato acirrou rivalidades dentro dos escalões militares ugandeses, com divergentes se amotinando e deixando o país para se refugiar na vizinha Tanzânia, presidida por Julius Nyerere, com quem Idi Amin mantinha rivalidade pessoal.

Após meses de conflito na fronteira entre os dois países, Nyerere contra-atacou em janeiro de 1979 e suas tropas tomaram Kampala em abril, forçando Idi Amin a renunciar e deixar o país para o exílio. A saída deste, porém, não representou estabilidade política. E o futebol também sofreu com isso. Não só pelo fato de o novo Governo ter banido a seleção de participar de competições até 1983, como também pelas perdas físicas, com muitos daqueles jogadores da equipe de 1978 sendo mortos, presos ou exilados.

Fred Isabirye, o ponta-esquerda daquele time, é o caso mais emblemático do primeiro: militar do exército de Idi Amin, foi morto no conflito com a Tanzânia em abril de 1979. Outros atletas do Simba, time do exército, passaram alguns anos no cárcere, como o goleiro Paul Ssali, o atacante Godfrey Kisitu e o zagueiro reserva Meddie Lubega (que em 1981, após libertado, foi sequestrado e dado como desaparecido). Outros, como Timothy Ayiekho e o craque Phillip Omondi, migraram para o Quênia ou o Oriente Médio.

Lance da decisão da CAN 1978 entre Gana e Uganda (Foto revista Mondial)

No mesmo ano do conflito que retirou Idi Amin do poder, o pequeno Nakivubo Boys, fundado apenas quatro anos antes, conquistaria o acesso à primeira divisão de Uganda. Pouco depois, o clube seria rebatizado Nakivubo Villa e, em 1981, Sports Club Villa. Discretamente, despontava ali o time que se tornaria hegemônico no país até a metade dos anos 2000. Seria o Villa a primeira e única equipe de Uganda a alcançar, nos anos 1990, finais de taças continentais de clubes desde o feito do vice-campeão Simba na Copa dos Campeões de 1972.

Além de conquistar nada menos que 16 vezes o título nacional entre 1982 e 2004, o Villa chegaria à final da Copa dos Campeões Africanos em 1991, perdendo para o Club Africain, da Tunísia, após ter deixado pelo caminho forças como o Al Ahly egípcio e o Iwanyanwu Nationale nigeriano. No ano seguinte, voltaria a uma decisão continental, agora na extinta Copa CAF (equivalente local à Copa da Uefa), sendo batido na final pelo Shooting Stars, da Nigéria. A seleção, no entanto, sofria para obter resultados expressivos.

Além da dificuldade em formarem gerações tão talentosas quanto aquela de 1978, os Grous tinham ainda de enfrentar crises internas, como clubes negando a cessão de jogadores ou os próprios atletas se recusando a defender a seleção, e ainda casos de jogadores que deixavam o país para aceitarem outros empregos no exterior, desiludidos com a desorganização e a falta de estabilidade no jogo do país. Com isso, Uganda vivenciou um limbo de quase 40 anos no cenário internacional, que só terminou em 2017.

O retorno à Copa Africana de Nações valeu como experiência. A equipe somou apenas um ponto na fase de grupos, mas vendeu caro as derrotas para os favoritos Gana e Egito (ambas por 1 a 0) e chegou a abrir o placar contra o Mali no jogo que terminou empatado em 1 a 1. A seleção voltou a se classificar para a edição seguinte, em 2019, e desta vez com resultados melhores: avançou em segundo no Grupo A, vencendo a República Democrática do Congo na estreia (2 a 0), e foi eliminada nas oitavas de final pelo Senegal.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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