O futebol é dinâmico, como sabemos bem. Em cinco anos, tudo pode acontecer, certezas podem ser obliteradas, novas forças podem surgir, da mesma forma que gigantes podem sucumbir diante da modernidade. Cinco anos é o tempo que o Ajax precisou esperar para voltar a levantar a salva de prata do Campeonato Holandês. Meia década. Tantos jogadores e técnicos depois, o fascinante clube de Amsterdã volta à posição dominante no seu país.

O ano era 2014, às vésperas de mais uma Copa do Mundo, por sinal, a última em que a Holanda esteve presente. Se alguém dissesse, em maio de 2014, que o Ajax ficaria cinco anos na amargura da fila, poucos acreditariam. Seria ainda menor o número de pessoas que botariam fé na previsão de que esse mesmo Ajax ficaria a alguns segundos de uma final da Liga dos Campeões. No Século XXI, os ajacieden enfrentaram um período de ostracismo continental, com campanhas irrelevantes e eliminações precoces. Isso quando não tinham de jogar a Liga Europa, pouco para um tetracampeão com tanta força até a década de 1990.

Continuamos em 2014. Contra o NEC Nijmegen, em Amsterdã, um empate por 2 a 2 serviu como despedida da temporada, que teve um vice na Copa da Holanda e uma trágica eliminação na fase de 16-avos de final da Liga Europa, contra o Red Bull Salzburg, por 6 a 1 no agregado. O que era para ser consolo de uma saída nos grupos da Champions virou vergonha absoluta.

E atente para o elenco titular dos Godenzonen em 3 de maio, no tal duelo com o NEC: Vermeer, Van Rhijn, van der Hoorn, Boilesen, Blind, Poulsen, Serero, Klaasen, Sigthórsson, Bojan e Kishna. No banco, ao lado do técnico Frank De Boer, estavam Cillessen, Veltman, Denswil, Ligeon, Siem De Jong, Andersen e Sana. Schöne não tinha sido relacionado. De toda essa turma, veja, apenas Blind (que voltou em 2018 após quatro anos no Manchester United), Schöne e Veltman são elementos em comum com o plantel hoje comandado por Erik Ten Hag.

O passado mandou lembranças. E o futuro chegou para ficar. Em 2019, depois de 24 rodadas correndo atrás do PSV, o Ajax tomou a ponta e não largou mais. Teve grandes atuações contra Willem II, Excelsior, sofreu com o Groningen, e depois puniu Vitesse e Utrecht marcando quatro gols em cada partida. Verdade seja dita, o título se resolveu no domingo. Com o tropeço do PSV em Alkmaar, o Ajax amassou o Utrecht e festejou em campo um título mais do que decidido. A matemática era a única barreira, sendo 14 gols a distância a ser superada no saldo pela equipe de Eindhoven.

Fora de casa, diante do De Graafschap, o Ajax entrou em campo com 33 títulos nacionais, 115 gols e 27 vitórias em 33 rodadas. E com a tranquilidade de saber que nem mesmo uma hecatombe tiraria a chance de título. Duas goleadas absurdas somadas dariam o troféu ao PSV, mas os Boeren levaram um gol do Heracles Almelo logo no início. Em pleno Philips Stadion, o atual campeão da Eredivisie deu à torcida uma nova frustração, que só amplifica o eco da temporada em branco, sem taça alguma.

Um golaço de falta de Schöne, aos 36, tratou de resolver do jeito que todos em Amsterdã esperavam. Uma cobrança perfeita, em que a bola caiu em arco no alto da meta do De Graafschap. Se faltava o primeiro gol para dar o tom da festa longe de casa, o dinamarquês patrocinou a celebração dos ajacieden. Como precisávamos de alguma emoção, o time da casa buscou o empate, com El Jebli, de cara com Onana na pequena área, três minutos depois. Antes do intervalo, porém, Tagliafico completou de maneira simples uma jogada característica de Ziyech, o homem que pensa poder driblar o mundo todo em uma arrancada. O marroquino pegou na faixa dos 35 metros e carregou até a linha de fundo, acionando o lateral, que apareceu de surpresa na área para marcar. Uma bela trama de um time fatal.

No segundo tempo, aos 69, De Jong ia fazendo um golaço para sacramentar o fim de sua passagem pelo Ajax, mas foi derrubado na grande área. Coube a Tadic, artilheiro do time, marcar de pênalti, com muita classe, seu 27º gol na liga. A missão, então, passou a ser dar mais um gol ao sérvio, queria pelo menos alcançar Luuk De Jong na artilharia.

Restando quatro minutos para o clímax, Tadic fez mais um, ao seu estilo. Um drible da vaca no marcador e uma porrada no meio do gol de Bertrams. Baita lance do camisa 10, encerrando com chave de ouro a goleada por 4 a 1 e a festa do 34º título, empatando com o camisa 9 rival no prêmio de maior goleador da Eredivisie. Foi o último dos 119 gols, (ainda) terceira maior marca da história da competição. Alguém falou em símbolos? Pois é, o número 34 tem algum apelo no atual contexto do clube amsterdanense: era usado pelo Appie Nouri, ex-atleta do clube que se recupera de um mal súbito e mais de um ano em coma, após um susto enorme de pré-temporada.

Pouco importava que o PSV havia virado o jogo contra o Heracles, vencendo por 3 a 1. Nada iria diminuir o entusiasmo dos ajacieden no campo do De Graafschap. Quando o árbitro apitou para o fim do jogo em Doetinchem, a comemoração foi completa, apenas um último alívio para consolidar a arrancada e a exuberância demonstrada na reta final. Se faltou a cereja do bolo na Europa, azar da Europa. A história de 2018/19 terminou bem para a juventude sonhadora do Ajax, que começa um novo ciclo reconquistando a Holanda. Quem sabe o que pode vir mais adiante?