Liverpool e Atlético de Madrid entraram em campo no dia 11 de março, no jogo de volta das oitavas de final da Champions League. O mundo já vivia um estado de alerta por causa do coronavírus. Foi naquele dia, aliás, que a OMS declarou que o espalhamento do vírus em diversos países caracterizava uma pandemia. Só que o jogo, em Anfield Road, aconteceu normalmente, com 52 mil pessoas presentes, sendo três mil delas torcedores do Atlético de Madri. E há a suspeita que o jogo tenha feito com que os casos da COVID-19 na cidade tenham aumentado.

O prefeito de Liverpool, Joe Anderson, pediu que o novo diretor de saúde, Matthew Ashton, para investigar se há alguma conexão entre o jogo e o aumento de casos. A Espanha, na época, já vivia um fechamento parcial, com algumas cidades já em quarentena. Não seria o primeiro caso. O jogo entre Atalanta e Valencia, pela Champions League, no dia 19 de fevereiro, pode ter sido vetor para espalhamento do vírus em Bérgamo.

Na mesma semana do jogo entre Liverpool e Atlético em Anfield, outros jogos foram realizados, mas com portões fechados, temendo pelo espalhamento do coronavírus. No dia anterior, 10 de março, o Valencia recebeu a Atalanta sem público. E naquele mesmo dia, 11 de março, o PSG recebeu o Borussia Dortmund, também sem público. O Liverpool acabou eliminado para o Atlético de Madrid, que venceu o duelo após a prorrogação por 3 a 2.

“Eu pedi a Matt Ashton e sua equipe que conduzam uma investigação completa em qualquer potencial ligação entre aquela partida e a situação com o coronavírus na cidade. “Nós queremos saber se aquela decisão teve um impacto nas pessoas desta cidade e eu pedi a Matt para trabalhar com as universidades para ver se os dados podem nos dar uma indicação disso”.

Ashton contou ao Guardian, no início de abril, que a partida não deveria ter acontecido. “Embora nunca iremos saber, o jogo do Atlético de Madrid pode ter sido um dos eventos culturais e reunião de pessoas que influenciaram o aumento em Liverpool”, disse o prefeito naquele momento.

“É definitivamente algo que precisa ser incluído na lista para entender e para um inquérito futuro, assim as organizações podem aprender e não cometer erros similares”, afirmou ainda o prefeito de Liverpool. “Os torcedores do Atlético receberam permissão para vir para o Reino Unido e ir à partida quando seu próprio estádio estava fechado para prevenir o espalhamento do vírus”.

“A prefeitura de Liverpool, junto com parceiros na Universidade de Liverpool e a Universidade John Moores, que concordaram em explorar qualquer impacto na COVID-19 como resultado do jogo do Atlético de Madrid em Anfield, no dia 11 de março. A equipe de saúde pública da prefeitura de Liverpool, junto com seus parceiros, está atualmente avaliando o tamanho e o escopo do projeto. Uma vez que o foco atualmente está em lidar com a pandemia, não foi estabelecida uma data para o trabalho ser completado e quando será reportado”, disse um porta-voz da prefeitura de Liverpool.

“É nossa prioridade absoluta proteger a saúde das pessoas e nosso conselho sobre o coronavírus é resultado de consulta direta e contínua com especialistas médicos. Esta partida aconteceu dentro das orientações da Saúde Pública da Inglaterra na época”, disse um porta-voz do governo federal. Na época, o governo de Boris Johnson era criticado para demorar a agir e não levar a sério suficiente a pandemia do coronavírus.

Falando ao Liverpool Echo, o prefeito Joe Anderson foi bastante crítico com a forma como o jogo foi conduzido. “Eu disse na época que o fato dos torcedores de Madrid não poderem ir a jogos na cidade onde moravam, mas poderem viajar para ir a um jogo em Liverpool era absurdo, mas o governo e a Uefa decidiram que este jogo deveria acontecer”, disse. “Agora nós queremos descobrir qual foi o impacto daquilo na nossa cidade”.

O prefeito de Madri também criticou a decisão. José Luis Martínez-Almeida afirmou que foi um erro e não fazia qualquer sentido permitir que milhares de torcedores do Atlético fossem a um jogo, dada a alta taxa de infeção na Espanha na época. O próprio país não podia ter jogos com publico na época e, logo em seguida, os jogos foram paralisados por causa da pandemia.

Segundo o Guardian, 246 pessoas morreram de coronavírus nos hospitais da NHS (o sistema de saúde britânico) em Liverpool. Diversos relatos mostram que os números começaram a aumentar muito na região de Liverpool uma semana depois do jogo, tempo suficiente para que o vírus se manifeste.