A Ligue 1 se tornou o primeiro campeonato nacional do futebol europeu a encerrar a sua temporada de maneira antecipada, por conta dos desdobramentos da pandemia de coronavírus. O governo francês proibiu eventos esportivos no país até o início de setembro e, já no fim de abril, a Liga de Futebol Profissional (LFP, responsável por organizar a competição) decidiu pelo cancelamento da campanha. Obviamente, nem todos concordam com a definição, e a pressão se torna maior diante da retomada das outras grandes ligas ao redor do continente. Presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas é o principal porta-voz da oposição.

O Lyon é um dos clubes mais prejudicados pelo cancelamento da temporada. Ocupando a sétima colocação na tabela e a nove pontos da zona de classificação às copas europeias, os Gones deverão ficar de fora até mesmo da Liga Europa, o que não acontecia desde 1997 – a não ser que conquistem a Copa da Liga, em decisão contra o PSG sem previsão de data. Além disso, sem ritmo de jogo, a equipe deverá enfrentar a Juventus na partida de volta pelas oitavas de final da Champions League. Ainda há muitas dúvidas sobre a real efetividade dos protocolos médicos adotados até o momento e se as demais ligas encerrarão suas disputas sem novos entraves. De qualquer maneira, avaliando a França na contramão de outros países, Aulas preferiu vociferar.

“Nos últimos dois meses, os dirigentes espanhóis trabalharam em conjunto com a Uefa. É paradoxal que Tebas [o presidente de La Liga] tenha assistido às mesmas reuniões que Quillot [diretor geral da LFP]. A Uefa pediu a todos que fossem pacientes. Quando vemos nossos líderes, que participaram da assembleia com as federações e tomaram conclusões tão diferentes, nos sentimos idiotas”, declarou Aulas, em entrevista ao L’Equipe, usando o Campeonato Espanhol como principal comparativo.

“É paradoxal que um país como a Espanha, que se viu mais afetado que a França pela pandemia, tenha refletido e encontrado respostas. A Uefa, inclusive, chegou a publicar um protocolo médico que nem sequer estudamos na França. É um escândalo absoluto”, complementou o presidente do Lyon. A Espanha registra 282 mil casos da COVID-19, com 28,7 mil vítimas fatais. A França, por sua vez, teve 182 mil positivos e 28,3 mil óbitos. Com 20 milhões de habitantes a mais que os vizinhos, os franceses também possuem médias menores por milhão de habitante. Em compensação, enquanto a Espanha tem 57,1 mil casos ativos da doença, na França restam 89,6 mil pacientes.

Através de uma nota oficial, o Lyon ainda reforçou o seu posicionamento ao colocar La Liga como parâmetro à Ligue 1: “Javier Tebas considerou que uma paralisação definitiva do Campeonato Espanhol seria um pesadelo, e não serviria nem mesmo para aqueles que desejam uma paralisação definitiva. Decidiram de forma satisfatória, ao seguir as recomendações da Uefa, após reuniões nas quais o futebol francês também esteve presente”.

A prioridade na pauta da França foi a de evitar ao máximo os riscos de contágio, mas a preocupação óbvia de Aulas é com a situação econômica do futebol. A Ligue 1 fala em prejuízos de €600 milhões, enquanto o presidente do Lyon calcula esta cifra em €900 milhões. Os clubes também receberam auxílio do governo, exonerados de encargos e com a possibilidade de renegociação de dívidas. O próprio Lyon acessou o programa que prevê o pagamento de parte de seus salários pelo estado. A maior perda de receitas se refere à televisão: dono dos direitos ao lado da BeIN Sports, o Canal Plus declarou que não pagará uma parcela de €110 milhões à LPF.

Aulas tenta reunir os clubes para pressionar a retomada da Ligue 1, mas falta adesão, além de encontrar resistência na administração do esporte na França e no próprio governo. Enquanto isso, o Lyon é o único além dos rebaixados a acionar a justiça por seus direitos. Depois do Amiens, o Toulouse anunciou na última sexta-feira que entrará com um processo para evitar o descenso. “Se eu tomei essa decisão, é acima de tudo para reforçar a igualdade esportiva, já que 30 pontos ainda deveriam ser disputados”, justificou Olivier Sadran, presidente do Toulouse.

Em contrapartida, também na sexta, o Tribunal Administrativo de Paris já havia recusado a apelação feita pelos clubes e restará apenas uma instância: o Conselho de Estado, responsável pela regulação de entidades com jurisdição nacional. O campeonato não deve terminar tão cedo, com a batalha nos tribunais, embora pareça improvável que os times amotinados tenham algum sucesso nesta empreitada.