O Aizawl tem uma história recente bonita e improvável. Em um espaço de três anos, saiu da segunda divisão indiana e se tornou campeão nacional, no último domingo, graças ao empate por 1 a 1 com o Shillong Lajong. E olha que foi vice-lanterna na temporada anterior, logo depois do acesso. No entanto, o clube da pequena cidade – para os padrões da Índia – de 300 mil habitantes pode não ter a chance de defender o seu título, e ameaça greve de fome se isso acontecer.

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O campeonato vencido pelo Aizawl, o único de sua história, é a primeira divisão oficial da Índia, organizada pela Federação Indiana e reconhecida pela Fifa. É quem fornece os representantes para as competições asiáticas e funciona no esquema de acesso e descenso com a segunda divisão. Paralelamente, existe a Superliga Indiana, torneio de franquias criado em 2013, mais rico e internacional, apoiado por empresários e que tem atraído grandes nomes do futebol mundial em fim de carreira, como Materazzi, Roberto Carlos e teve até Zico como treinador.

Conversas foram iniciadas para fundir as duas competições, transformando a Superliga na primeira divisão do país. O formato exato ainda está sendo discutido – como, por exemplo, se haverá acesso e descenso -, assim como o cronograma. A data mais provável, neste momento, é a temporada 2018/19. “É um trabalho em andamento e até conseguirmos colocar todas as peças juntas, não podemos revelar a natureza exata do torneio, mas estamos tentando arrumar tudo para o ano que vem”, afirmou o presidente da Federação Indiana, Praful Patel, ao Hindustan Times. “Os times da I-League contribuíram muito para o futebol indiano e gostaríamos que todos ficassem felizes”.

Será muito difícil que todos fiquem felizes. Os planos atuais são de manter as oito equipes da Superliga e acrescentar alguns da I-League. Provavelmente, os mais tradicionais e populares, como o Mohun Bagan e o East Bengal, que fazem o dérbi de Calcutá com média de 100 mil pessoas por jogo, ou o Bengaluru. “É difícil motivar o seu time se houver dúvida sobre o futuro. Se a I-League virar a segunda divisão, então isso é efetivamente um rebaixamento, mesmo se não terminarmos na segunda metade da tabela. Isso é injusto”, afirmou o dono do Minerva Punjab, Ranjit Bajaj, segundo a ESPN, em março. No fim, o Minerva Punjab foi vice-lanterna da atual temporada da I-League.

O Aizawl não é um clube grande do país e tem orçamento bem modesto. Não seria o mais atrativo integrante para a Superliga Indiana, em caso de fusão, apesar de ser o atual campeão indiano. Diante do que certamente seria uma injustiça – ganhar o título e ter que disputar a segunda divisão no ano seguinte -, o clube prometeu recorrer às autoridades e, em caso de negativa, ameaça protestos, piquetes e até mesmo uma greve de fome, “rapidamente até a morte”, segundo um comunicado publicado em seu Twitter.

“O Aizawl enviou um pedido formal à Federação Indiana para continuar na elite, mesmo depois da proposta fusão entre a atual primeira divisão e a Superliga. Se não houver resposta positiva da Federação Indiana, o clube irá abordar o Ministro dos Esportes, o Primeiro Ministro e o presidente da Confederação Asiática. Se nenhum desses passos for bem sucedido, o clube não terá outra opção a não ser recorrer para protestos internacionais, manifestações próximas aos escritórios da AFC e da Fifa, piquetes nos escritórios da Federação Indiana, e greves de fome”.

Ao Indian Express, uma fonte da Federação Indiana admitiu que o título do Aizawl colocou a entidade em uma sinuca de bico e afirmou que o assunto será discutido em uma reunião no próximo sábado. O dono do Aizawl, Robert Royte, segundo o Guardian, colocou mais pressão nas autoridades. “Como o atual campeão pode ser rebaixado à segunda divisão? Não vamos aceitar isso, de maneira alguma. Vamos disputar as competições asiáticas. O quão tolo seria se o campeão indiano jogasse competições asiáticas, mas, no âmbito nacional, não pudesse jogar a principal liga?”, questionou.

Em entrevista ao jornal DNA, o secretário da Federação Indiana, Kushal Das, afirmou que não seria o fim do mundo se o Aizawl tivesse que disputar a segunda divisão. “Veja, mesmo que o Aizawl não jogue na elite do país, não significa que a estrada terminou para eles”, disse. “Eles ainda podem jogar a segunda divisão e continuar o crescimento do clube nela. Vamos mostrar as partidas da segunda divisão ao vivo na televisão, não apenas da elite. Então, o Aizawl não precisa ficar irritado se não for parte da liga”.

Apesar de ter mais de um bilhão de habitantes, ser a terceira maior economia da Ásia e de ter o futebol como um de  seus principais esportes, atrás do críquete, o futebol indiano não consegue ser relevante no cenário mundial. Seus clubes nunca chegaram à final da Champions League asiática. Sua seleção nunca disputou a Copa do Mundo – apesar de ter se classificado para os primeiros Mundiais do pós-Guerra  – e teve uma única campanha interessante na Copa Asiática, com o vice-campeonato de 1964. A fusão, e a consequente injeção de dinheiro, pode ser benéfica para o futebol do país. Desde que seja bem feita.