Um dos grandes problemas das crises é que há uma enorme vontade de achar um culpado. Alguém ou alguma coisa que justifique por que todos os problemas estão acontecendo. Depois de tomar um humilhante 6 a 1 para o rival Corinthians, torcedores, dirigentes e imprensa tentar achar a causa. A culpada já surgiu durante o jogo, na opinião de muitos: a falta de atitude. Um problema que até existe, mas é muito menor do que tantos outros que assolam o clube. E não falo apenas do caos político que fez o clube entrar na maior crise institucional da sua história. Em campo, há problemas muito sérios do time em termos de preparação que fazem com que outros problemas apareçam ainda mais.

LEIA TAMBÉM: Corinthians convidou o São Paulo e fez 6×1 no baile do hexa em Itaquera

O problema do time tem a ver muito mais com preparação. O São Paulo não tinha uma proposta de jogo eficiente. Atuou com uma tática antiga: um volante de marcação que vira zagueiro quando o time ataca para permitir que os laterais subam ao mesmo tempo. Uma estratégia antiga e batida, porque os jogadores de frente do Corinthians marcavam a saída dos laterais. Nem Lucca, nem Danilo davam espaços. Pior: ainda complicavam jogando nas costas deles. Quando Romero e Danilo mudaram de posição, o paraguaio passou a deitar e rolar. Veloz, fez Carlinhos, e depois Reinaldo, sofrerem. O segundo, aliás, viu os três gols do time saírem pelo seu setor no segundo tempo.

Logo após o jogo, o técnico interino Milton Cruz falou, na coletiva de imprensa, que Rogério Ceni fez falta pela liderança do grupo e que Paulo Henrique Ganso fez falta pela liderança técnica. Isso, claro, soa apenas como uma desculpa para um time que foi envolvido e vencido por um rival bem preparado, mesmo com os times reservas. Bem preparado como o São Paulo não estava. A ausência de dois jogadores do peso de Rogério Ceni e Ganso são importantes, claro, mas do outro lado também faltavam todos os principais jogadores e isso não foi um problema.

Ganso fez falta, mas não pelo que Milton Cruz disse. Em uma das muitas derrotas em clássicos que o São Paulo teve em 2015, contra o Santos, na Vila Belmiro, Ganso ajudou a minimizar o estrago. Naquela quarta-feira, 28 de outubro, o São Paulo tinha um discurso de que acreditava na classificação, mesmo tendo perdido no Morumbi por 3 a 1 no jogo de ida. Era um resultado muito difícil e o então técnico, Doriva, escalou um time cheio de jogadores ofensivos. A estratégia não deu certo e em 23 minutos o Santos vencia por 3 a 0. A eliminatória estava liquidada, mas havia muito jogo pela frente. E a perspectiva de uma goleada para o rival era enorme.

LEIA TAMBÉM: O São Paulo vem andando em círculos, e ressalta isso com a demissão de Doriva

Ganso passou a buscar mais a bola, segurar o jogo, fazer passes curtos e se apresentar para receber de novo. Esfriou o jogo. Não adiantava ir para o ataque desesperadamente mais. Ali, era preciso controlar os danos. Foi o que ele, junto com Michel Bastos, fizeram naquela partida. Ele é certamente o jogador são-paulino mais capacidade técnica para fazer isso. Se lembrarmos de 2010, na final do Paulista, Ganso já tinha feito isso. De lá para cá, o meia não se tornou o jogador genial que se esperava, mas ele continua tendo alta capacidade técnica. Naquele jogo, ajudou o São Paulo a evitar um problema ainda maior.

Ganso faz falta pela parte técnica, claro, porque não há substituto para ele no elenco. Isso é um ponto importante. Thiago Mendes tentou fazer a função dele, mas o grande mérito deste jogador é justamente jogar como volante. Como meia, é muito mais comum. E o time de Milton Cruz não tinha uma alternativa tática em campo. Pareceu um remendo, mal treinado (se é que foi treinado). E isso tende a ser determinante em um jogo contra um time que é o posto disse: com organização, posicionamento e estratégia clara.

A falta que Ganso fez tem a ver também com o fato de não ter nenhum jogador no São Paulo que soube esfriar um jogo que o rival era claramente superior e vinha com um ímpeto enorme para construir a goleada história. Cada vez que o São Paulo tinha a bola, tentava, quase desesperadamente, ir ao ataque, partia para jogadas individuais e via o Corinthians partir em contra-ataques perigosos a todo momento.

Tudo isso é fruto de uma falta de preparo. Claro que tem atitude no meio. Evidentemente, jogadores que estão em campo podem ajudar a mudar um cenário desfavorável com sua atitude técnica. Mas só isso é pouco. Contra um adversário forte, o melhor do Brasileirão, teria poucas chances de sucesso. Não por acaso, lembra o jogo do Barcelona contra o Real Madrid. Ainda que o time merengue pudesse reagir depois de estar perdendo com talentos individuais, dificilmente isso seria suficiente diante de um time tão bem preparado e muito bem posicionado, com uma estratégia clara de jogo. O 4 a 0 acabou sendo até pouco diante do jogo e isso deveria ser chocante para os dirigentes do time de Madri.

LEIA TAMBÉM: Don Andrés Iniesta, aplaudido por torcedores rivais e ponto chave da medula do Barcelona

No São Paulo, esse deveria ser o choque. Como um time que gasta o que gasta o São Paulo, uma folha salarial milionária, é tão mal preparado? Tem a ver com os erros da diretoria, como contratações caras e equivocadas, com os mandos e desmandos que fizeram do São Paulo um clube pouco confiável, que atrasa salários e têm dívida enorme com bancos, além de um caldeirão político que complica a vida de todos os jogadores e de qualquer comissão técnica.

Soma-se a isso a troca constante de treinadores. Foram quatro ao longo do ano, com Milton Cruz tendo que assumir duas vezes o time, ambas interinamente. Falta de um padrão de treinamento e de estratégia do time. O São Paulo começou o ano com Muricy Ramalho, ficou com Milton Cruz até a chegada de Juan Carlos Osório e depois teve Doriva, quando o colombiano deixou o clube para assumir a seleção mexicana. Doriva não durou mais que sete jogos. Voltou Milton Cruz. Não há time que resista a tantas trocas. E os erros de marcação e de falta de uma estratégia de jogo, que mudou com todos os treinadores, inclusive com Milton Cruz, torna o time uma bagunça também em campo. Um reflexo mais apropriado do que o clube vive fora dele.

Dizer que falta “vergonha na cara” aos jogadores do São Paulo ajuda a construir um discurso que é facilmente assimilado pela torcida, que sempre pede “raça” nos jogos, mesmo quando o time se mata em campo, mas não consegue o resultado porque não está organizada, não tem plano de jogo e não sabe como vencer um rival minimamente competente em termos táticos. Já vimos esse filme se repetir em várias das últimas edições da Libertadores. Times estrangeiros com menos qualidade técnica, mas muito mais organização e estratégia, eliminam elencos estelares. O São Paulo vive algo parecido.

LEIA TAMBÉM: Oito momentos em que Alexandre Pato estava com a cabeça no mundo da lua

Essa não é culpa de Milton Cruz, especificamente, embora ele tenha errado tudo que fez no jogo contra o Corinthians, da escalação às substituições, passando pela estratégia de jogo. Tem a ver com erros de Carlos Miguel Aidar, de Ataíde Gil Guerreiro e com toda a diretoria, que conduz o São Paulo de forma absolutamente atabalhoada. Tem a ver inclusive com Leco, novo presidente, que continua distribuindo cargos e já recontratou e demitiu o executivo de futebol do clube, deu novamente o cargo de vice de futebol a Ataíde e não dá indícios de uma mudança efetiva no clube.

O clube estar disputando a vaga na Libertadores, com todo esse cenário, é um milagre. Mas continuar achando que o problema do São Paulo é falta de raça e de atitude dos jogadores só ajuda para que todo o caos do clube continue. Não quer dizer que o elenco não precise ser reformulado para tirar jogadores que não contribuem para o time. Quer dizer que reformular o time não será suficiente para fazer o time voltar a ser bem organizado e vencedor. Ficar falando de atitude é como achar que o 7 a 1 foi um apagão e que o problema da seleção brasileira na Copa de 2014 era emocional, e não de um time muito mal preparado contra outro que vinha pronto para jogar no mais alto nível. E a seleção não acordou ainda para esse problema. O São Paulo não parece que fará diferente.


Os comentários estão desativados.