Ato a ato, a eternização da lenda: como Pelé atingiu o ápice de sua grandeza na Copa de 70

As imagens em amarelo vivo, sob o sol forte do verão mexicano, grudam na retina. As fotografias mais icônicas de Pelé foram registradas na Copa de 1970. A imagem, ainda assim, se casa também com o ápice do Rei dentro de campo. Aquele Mundial serviu para sacramentar a lenda. Para tornar incontestável o craque que, mesmo chegando ao milésimo gol pouco antes, desembarcou no México contestado. Pelé, o míope, não era mais suficiente a alguns. O mesmo Pelé que faria qualquer um esfregar os olhos para acreditar se aqueles lances eram mesmo verdade.

Cinquenta anos depois, há quem veja o tricampeonato mundial e questione se Pelé foi mesmo o melhor jogador da Seleção. Jairzinho devastou defesas, Gérson mandou prender e soltar no meio, Tostão deu aulas de inteligência e futebol solidário. Os olhos de hoje, porém, não captam por si a aura dourada que existia ao redor do Rei em 1970. O Pelé lúdico, o Pelé total, o Pelé eterno. Celebrado por meia dúzia de jogos que serviram para confirmar tudo o que se sabia: não há quem repita o que Pelé fez.

O Pelé da Copa de 1970 é mais lembrado por aquilo que não concretizou. Pelas genialidades que ficaram a um triz de entrar e que mostravam como Pelé foi inigualável. O chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia é um sacrilégio por terminar fora da meta. A cabeçada que Banks parou se tornaria a defesa mais repetida da história. O drible de corpo em Mazurkiewicz parece colocar Pelé em outra dimensão, numa realidade paralela em que pensava diferente dos demais mortais, e que sequer precisava do gol para deslumbrar. A arte não era a bola nas redes, mas a imaginação de Pelé, o desafio aos limites que o Rei impunha, o balé com a 10 às costas.

O Pelé da Copa de 1970, acima do artista, foi mais operário que nunca. Porque se o garoto de 1958 brilhou por sua magia individual, o veterano de 1970 orquestrava os companheiros à excelência. Pelé não precisava enfileirar marcadores com seus dribles para levar o Brasil às vitórias. Um toque sutil bastava para desabar toda uma muralha defensiva e abrir caminhos aos demais craques da Seleção. Se contra a Suécia a cena marcada na retina traz o drible ousado do menino antes do gol, contra a Itália sua marca impressa na consagração foi o passe simples e perfeito que coroou todo o time no tento de Carlos Alberto.

Foi então que Pelé se eternizou. Podia nem ser a melhor versão do Rei aquela de 1970. Mas foi a mais completa. Unia a sabedoria de anos jogando no mais alto nível, a qualidade técnica de quem nasceu com um dom, a imposição física trabalhada arduamente no dia a dia. A última versão do Pelé em Copas – passados os dias fenomenais da Suécia, os dias dolorosos do Chile, os dias frustrantes da Inglaterra. O Pelé que chegou refutado para, três semanas depois, ninguém mais negar sua realeza.

Abaixo, relembramos jogo a jogo o que Pelé fez na Copa de 1970, destacando também o que falavam sobre o Rei na época. Os testemunhos, afinal, dimensionam ainda melhor como o Rei maravilhava seus súditos. A base deste texto tem como fonte o especial ‘Os 50 anos da Copa de 1970’, produzido aqui na Trivela em junho, com um diário sobre aquele Mundial.

Brasil 4×1 Tchecoslováquia

Aquela partida era um teste de fogo a Pelé. A miopia e outros problemas físicos sofridos às vésperas da Copa já não eram empecilho ao Rei, escalado por Zagallo como nome absoluto no ataque. Entretanto, o técnico tchecoslovaco chegou a acusar que o camisa 10 estava dopado para o torneio. Palavras que mexeram com o brio não apenas do atacante, como de todo o time. Aquela tarde no Jalisco guardaria uma aula de futebol ofensivo da Seleção, em que o placar de 4 a 1 dimensiona o baile, ainda que oculte as dificuldades que a defesa sofreu.

Pelé parecia flutuar em campo. Com simples toques, desenhava lindos lances. A Tchecoslováquia até abriu o placar, mas o empate saiu aos 24 minutos. Pelé sofreu falta que Rivellino cobrou com uma patada. Já pouco antes do intervalo, a virada quase veio naquele famoso chute do Rei no círculo central. O craque percebeu o goleiro Ivo Viktor fora de posição e não teve problemas para arriscar, numa pancada que passou rente à trave. A arte do quase.

O segundo gol, de qualquer forma, seria assinado por Pelé. Aos 14 do segundo tempo, Gérson deu um lindo lançamento ao Rei, que fez a bola dormir em seu peito e finalizou com toda a calma do mundo. Merecia aparecer no marcador. Jairzinho arrebentaria no restante do tempo, com dois belos tentos que deram números finais aos 4 a 1 no placar. Apesar disso, a maior parte dos comentários da época se direcionava ao camisa 10, ressaltando sua volta por cima e deixando uma promessa à sequência da Copa.

“Um senhor Rei: tudo aquilo que se possa imaginar ser possível a um jogador de futebol fazer foi o que fez Pelé no jogo de ontem. Perfeito em tudo, do início ao fim do jogo. Sem contar o seu gol, que foi de uma precisão inacreditável, bastaria a jogada em que ele encobriu Viktor e quase marca um gol para o Brasil com um chute de antes do meio de campo para mostrar ao mundo porque ele é o maior de todos e em todos os tempos”, avaliou o Jornal dos Sports, no dia seguinte à goleada.

Josef Marko, o treinador que o acusou de doping, se rendeu: “Quem tem Pelé em grande forma tem tudo para chegar ao título”. João Saldanha, o antigo treinador agora como colunista de O Globo, exaltava: “Se Pelé conquistasse aquele gol do chute de sessenta metros, quando Viktor estava adiantado, acho que até os reservas da Tchecoslováquia teriam obrigação de ir cumprimentá-lo. Pelo menos o árbitro deveria tê-lo feito”.

Já na concentração do Brasil quem falava era César Luis Menotti, futuro treinador da Argentina campeã em 1978, mas na época um ilustre ex-jogador do Santos que visitou o amigo para parabenizá-lo: “Quem joga um futebol como o seu deveria ser considerado campeão do mundo honóris-causa. Havia 80 mil pessoas no Jalisco, mas só Pelé sentiu que o goleiro estava fora do gol e lançou a bola. Sem agastar os outros, estou deslumbrado com a atuação de Pelé. Em futebol é assim, vale o que se faz no campo e não o que se diz por aí”.

Ídolo do Rei, Zizinho apontava no Jornal dos Sports: “Por falar em Pelé, ele mais uma vez provou que ’em um mundo de cegos, quem tem miopia é Rei’. Conversava com ele um dia antes do jogo e ele falava sobre os goleiros da Copa. Observava que, quando a bola estava no meio-campo, os goleiros europeus caminhavam até a linha da grande área, levados talvez pelo nervosismo da grande responsabilidade que é disputar uma Copa. Vejam bem o que Pelé armou. Placar de 1 a 1, duríssimo, quando Pelé recebe a bola no grande círculo, dentro do campo brasileiro. Esse ‘grande míope’ atirou de onde estava, num chute de 60 metros, cobrindo o goleiro que se encontrava adiantado. A bola passou a um palmo da trave, não querendo fazer justiça à mais brilhante jogada que vi em muitos anos. Se a bola entra, não seria tão somente o gol dessa Copa, mas de todas as Copas”.

De qualquer forma, nenhum elogio foi tão grande quanto o de Vavá, também no Jornal dos Sports: “Sou um fã de Pelé. Para mim, está avançado vinte anos em futebol. Ninguém ainda conseguiu entendê-lo como devia e fica esperando que ele entenda os outros. Como muita gente não consegue entender o Pelé, inventaram que ele estava acabado para o futebol. Este foi o maior absurdo que já escutei na minha vida, dito por muita gente com fama de entender de futebol, mas que não consegue entender o Pelé. […] Eu já vi Pelé assim, mas não melhor. Está um assombro. Fez jogadas de arrepiar. A bola que mandou do meio-campo brasileiro, antes da linha central, de cobertura, foi uma coisa de louco. Juro que fiquei todo arrepiado. Pensei: será que depois de tanto tempo de futebol, fazendo o que ninguém jamais fez, ainda tem tempo de inventar e executar uma jogada dessas? E o gol que marcou? Que beleza”.

Brasil 1×0 Inglaterra

A partida mais esperada da fase de grupos da Copa reunia as duas seleções que concentravam os últimos três títulos mundiais. E o diferencial de Pelé para encarar a Inglaterra estava em sua mentalidade, como enfatizou na véspera da partida: “Eles são os campeões mundiais e jogam muito bem. Jogarei contra eles como sempre, com o maior desejo de vitória, com total dedicação. Eu quero ganhar esta e todas as partidas da Copa, porque fiz uma carreira e tenho que encerrá-la bem. Consideram-me o melhor, portanto terei de honrar sempre esse compromisso”.

A primeira aparição decisiva de Pelé na partida, aos dez minutos, seria a batalha particular com Gordon Banks. Até então, a Inglaterra mandava no jogo. Pelé recebeu o cruzamento de Jairzinho no segundo pau e deu sua violenta cabeçada rumo ao chão, provocando a inigualável defesa do arqueiro inglês. Curiosamente, o árbitro nem marcou escanteio no lance, sequer acreditando na defesa. O susto levou os ingleses a recuarem e equilibrou o embate. O Rei se revezava com Tostão para recuar e construir as jogadas, mas a marcação implacável da zaga adversária dificultava as coisas.

Pelé não fez um grande primeiro tempo, sofrendo muitas faltas, mas entrou de vez no jogo durante o início da segunda etapa. Isso seria fundamental para que a Seleção se incendiasse. Uma linda arrancada do camisa 10 parecia virar a chavinha brasileira. O gol, então, saiu aos 14 minutos. Tostão foi o grande nome no lance, mas Pelé também brilhou ao receber o cruzamento do companheiro. O craque recuou para buscar a bola e foi inteligentíssimo, mesmo fazendo o simples. Dominou e, com a marcação dupla, passou para Jairzinho fuzilar. Foi a combinação perfeita entre técnica, raciocínio e força, que tanto marcaram aquele esquadrão.

Apesar da pressão da Inglaterra, o Brasil segurou o resultado e até poderia ter feito mais nos contra-ataques. O placar magro, de qualquer forma, bastou ao resultado enorme. A imagem ao apito final, de novo, seria de Pelé. O camisa 10 cumprimentava Bobby Moore, monstruoso naquela partida. Todavia, uma brecha bastou para que o Rei saísse vitorioso. “No final do jogo o Moore me disse que esperava jogar novamente conosco e que lamentava profundamente que tivéssemos jogado nestas circunstâncias, procurando a classificação, pois o ideal era o Brasil e a Inglaterra disputarem a final”, contaria Pelé.

Ao jornal O Globo, Pelé também falou sobre a defesa de Banks: “Banks eu já conheço de algum tempo. É um grande goleiro. Tem firmeza e extraordinária colocação. Quando saltei para cabecear, ele também correu para o lado em que sentiu que a bola ia e fez uma grande defesa. Pelos tapes que vi, considero que ele até agora é o melhor goleiro da Copa, principalmente por ter sido o mais exigido tanto no nosso jogo quanto na estreia contra os romenos”.

Em sua avaliação, o Jornal dos Sports elogiou a partida de Pelé contra os ingleses: “Na Copa de sua vida, ele foi simplesmente o mago que os ingleses temiam. Não se perturbou com a marcação de Moore e Labone. Correu o campo todo nos calcanhares dos adversários, rolou uma bola arrepiante para Jair marcar e no final quase fez um gol de cobertura, quando viu Banks adiantado”.

Enquanto isso, o célebre técnico Helenio Herrera destacava a entrega defensiva de Pelé naquela tarde em Guadalajara: “O Brasil jogou com muita inteligência. Sabendo fraca a sua defesa, reforçou-a com Pelé, que jogou um magnífico segundo tempo, correndo muito e voltando para o meio-campo, orientando inclusive a posição de seus companheiros e atacando cada vez que era possível. Foi um jogo bonito: a Inglaterra trocou sua marcação por zona pela marcação homem-a-homem para conter os brasileiros, mas será muito difícil contê-los nesta Copa”.

Na sequência da semana, Pelé ainda receberia a visita de Bobby Charlton e Bobby Moore na concentração da Seleção. Os dois ídolos ingleses foram pedir que o Rei cedesse alguns de seus pertences, como a bola do milésimo gol, para uma exibição organizada por Sir Matt Busby que visava angariar fundos à construção de campinhos para crianças carentes. “Pelé foi muito gentil e disse que eu poderei ter não só a bola, como qualquer outro troféu que necessite”, diria Charlton, satisfeito com a promessa.

Pelé e a chuteira sem listras

Pelé em ação em 1970 (Foto: Imago / One Football)

A história de Johan Cruyff usando camisas da seleção holandesa com duas listras na Copa de 1974, para não fazer propaganda à Adidas, é famosa. Pelé viveu algo parecido em 1970. A Seleção levou ao México dois tipos de chuteiras: algumas de fabricação nacional, com travas removíveis de plástico ou fibra, e outras de fabricação alemã, tanto da Puma quanto da Adidas, com travas de borracha fixas. Segundo o Jornal dos Sports, quase todos os jogadores do Brasil tinham contratos de publicidade com as duas marcas alemãs para usar os calçados. A exceção era Pelé, que exibiu chuteiras sem listras contra Tchecoslováquia e Inglaterra. Existia até mesmo um trato entre as companhias para não brigarem pelo Rei.

Pelé não terminaria a Copa do Mundo sem contrato, porém. Diante da Romênia, ele voltou a usar chuteiras sem qualquer detalhe, inteiramente pretas. Já nos três duelos dos mata-matas, as fotografias ressaltam a faixa branca transversal que servia de símbolo à Puma. A marca resolveu ignorar o pacto com a Adidas e, por intermédio do representante Hans Henningsen, jornalista que cobria o futebol brasileiro, fechou com o Rei por US$25 mil – mais US$100 mil nos quatro anos posteriores, além de 10% por cada par vendido com seu nome. Aquele modelo da chamada “Puma King” se tornaria icônico. Quando o Brasil tinha a saída de bola, no início do jogo ou do segundo tempo, Pelé costumava se agachar e amarrar as chuteiras. Era seu marketing para ser filmado pelas câmeras e exibir a marca na TV.

Brasil 3×2 Romênia

A Romênia se provou mais forte do que os prognósticos iniciais da Copa de 1970 diziam. E deu certo trabalho ao Brasil, numa atuação mais relaxada da Seleção, com sua classificação encaminhada. A vitória por 3 a 2 contou com momentos intermitentes de pressão dos brasileiros para buscar o resultado. E a participação de Pelé seria central, numa tarde em que Zagallo não pôde contar com força máxima.

Num começo de jogo sufocante do Brasil, Pelé marcou o primeiro tento aos 19 minutos. Sofreu falta e mandou uma bomba à meia altura, que passou no buraco aberto pelos companheiros na barreira romena. Logo depois, Jairzinho ampliaria, aproveitando jogadaça de Paulo Cézar Caju. A Romênia descontou e incomodou, especialmente pelas pancadas que davam nos jogadores brasileiros. Pelé sofreu com as entradas duras e chegou a tomar um carrinho por trás, que deveria ter culminado em pênalti.

No segundo tempo, o espírito de luta seria marcante a Pelé. O Rei não se importava com sua majestade, ao batalhar por cada lance e recuar para auxiliar no combate defensivo. Seria dele o terceiro gol, aos 22. Depois de uma cobrança de escanteio, Jairzinho cruzou e Tostão desviou de calcanhar, para que Pelé completasse de carrinho. No fim, a Romênia voltou a encostar no placar, mas não passaria disso. Numa versão mais aguerrida do camisa 10, o time de Zagallo confirmava os 100% de aproveitamento rumo aos mata-matas.

Segundo o Jornal dos Sports, Pelé foi o melhor em campo de novo: “Descendo novamente de sua realeza para combater junto aos outros jogadores e liderando o time mais uma vez, Pelé não foi o melhor somente pelos dois gols que marcou, mas por todo um novo show na Copa. No final, deixou de marcar mais um gol para que Tostão fizesse o seu, mas acabou não acontecendo”.

E a exigência física sobre o Rei, afinal, ia além dos 90 minutos. Segundo um jornalista mexicano que acompanhava a seleção brasileira, Pelé tinha distribuído 20 mil autógrafos àquela altura da Copa do Mundo. Somava também o período de preparação do Brasil, contabilizando 500 autógrafos do Rei por dia.

Brasil 4×2 Peru

Ao longo da Copa de 1970, muito se discutiu sobre a fragilidade da defesa do Brasil, em comparação com a força do ataque. Pelé assumia o papel de liderança e defendia os companheiros: “Compreendo o time como um todo. Para mim, não existe essa fronteira entre o ataque e a defesa. Antes de pensar em fórmulas para fazer gols no Brasil, os adversários devem se preocupar com esquemas para evitar nossos gols. Vencemos os três jogos da fase de grupos. Assim, podemos vencer os três jogos que restam. Mas para chegar até o título a luta é dura, não admite descuido. Se não fazemos mais, é porque não podemos”.

Se existia algum temor quanto ao Peru, até pelo encontro com o técnico Didi, Pelé tratou de mostrar quem mandava em campo. O craque estava com tudo, dando uma série de toques de efeito e passes de calcanhar. No primeiro bom ataque, Gérson mandou um daqueles lançamentos magistrais no peito do Rei, que passou a marcação e invadiu a área, mas acabou parando na trave. O camisa 10 ainda aproveitaria a sobra e daria um toque invocado a Tostão, que mandou para fora. O entendimento entre os dois atacantes, aliás, chegaria ao seu ápice naquela partida, com tabelinhas perfeitas.

Rivellino e Tostão marcaram os dois primeiros gols em 15 minutos, enquanto só as faltas pareciam suficientes para brecar Pelé. Os peruanos descontaram aos 28 e, na saída de jogo, Pelé tentou outra vez marcar do círculo central – mas sem passar tão perto quanto contra a Tchecoslováquia. Pelé acertaria a trave mais uma vez antes do intervalo. Já no segundo tempo, ele participaria do terceiro. Jairzinho passou ao Rei, que deu um toquinho na finalização. A bola bateu na zaga e sobrou para Tostão guardar.

Pelé era persistente em busca de seu gol e incomodava bastante. Apesar disso, o Peru voltou a encostar no placar. Foi só aos 30 minutos que a vitória se estabeleceu, num lindo lançamento de Rivellino para Jairzinho fazer. Mesmo passando em branco, o Rei tinha sido muito participativo para o triunfo. “Pelé foi muito bom na ligação entre o meio-campo e o ataque. Recebia sempre a marcação de dois adversários e, mesmo assim, produziu jogadas para todo o ataque. Infeliz nas conclusões, apesar da classe”, analisava o Jornal dos Sports.

Já do outro lado, Didi aplaudia Pelé após a eliminação: “Gostei muito de ver o empenho com que o Pelé está disputando esta Copa. Para mim, ele não tem mais aquela explosão magnífica dos tempos em que ganhamos o bicampeonato, mas está jogando um futebol muito mais técnico e eficiente, jogando muito mais para o time. O seu recuo para o meio de campo depois que o Gérson saiu foi providencial e anulou nossas tentativas de reação”.

Por fim, em sua coluna no jornal O Globo, Nelson Rodrigues definia: “O ataque brasileiro não tem igual. E convém não esquecer um fato importantíssimo: Pelé, o maior jogador do mundo, está empenhado de corpo e alma na conquista da Copa. Jamais seu dinamismo foi tão impressionante: jamais deu tanto de sua alma e de seu gênio. Por outro lado, Tostão, outro gênio do futebol brasileiro, desafia todos os riscos e todos os sacrifícios. E assim Rivellino e assim Jairzinho. Todos se preparam para a guerra”.

Brasil 3×1 Uruguai

A partida de 1970 carregava seus fantasmas de 1950. Existia todo um discurso de revanche na imprensa, com as histórias do Maracanazo replicadas. E essa tensão se refletiria no time de Zagallo, apesar de sua superioridade técnica sobre a Celeste. Os uruguaios, mordidos com a mudança do local do jogo do Azteca ao Jalisco, o que beneficiava os brasileiros, também queriam ganhar na força e na mente. Tanto é que conseguiram o primeiro gol, até a virada canarinho na volta ao segundo tempo.

A marcação sobre Pelé foi bastante cerrada na semifinal, com o Uruguai focando seu jogo nessa solidez. A defesa rígida anulou o ataque brasileiro durante os primeiros minutos, com perseguições individuais, e Luis Cubilla abriu o placar aos 18. Depois disso, a Celeste até cresceu. O Brasil se via limitado às bolas paradas e Pelé reclamava – de uma pancada na barriga, de um pênalti negligenciado. Foi só na reta final do primeiro tempo que o Brasil ressurgiu, com as tabelinhas fluindo. E o gol saiu nos descontos, numa excelente jogada entre Tostão e Clodoaldo, responsável por balançar as redes.

O empate deu novas energias à Seleção, que voltou bem melhor ao segundo tempo. Foi quando Pelé também entrou no jogo. O Rei sofria com a marcação dupla, até que passasse a encontrar a melhor forma de jogar. Ainda alternou lances arrojados e erros inacreditáveis. Exemplo disso veio em uma arrancada desde o campo de defesa, entortando os adversários e parada só com falta no limite da grande área, que antecedeu uma cobrança horrível do Rei rumo às arquibancadas. Logo depois, Pelé se reergueu em outro lance famoso daquela semifinal: Mazurkiewicz bateu mal o tiro de meta e o camisa 10 quase fez do meio da rua, emendando um chute de primeira, que parou na recuperação do goleiro.

A virada pintou aos 31, com Pelé fazendo seu simples genial. Em um contra-ataque, o Rei recebeu o passe de Jairzinho e deu um toque sutil para o lado, abrindo caminho a Tostão. Seu passe desmanchou a defesa e o camisa 9 acertou uma enfiada cirúrgica para Jair assinalar. E o camisa 10, que tanto apanhara, também descontou na porrada. A cotovelada em Dagoberto Fontes, seu marcador canino, também figura entre seus principais momentos no México.

O Brasil correu o risco de tomar o empate, mas confirmou a vitória com o terceiro gol no apagar das luzes. De novo Pelé serviu de coadjuvante. O atacante puxou o contragolpe até a entrada da área e foi muito bem ao esperar a aproximação de Rivellino. Entregou a bola só no momento certo, para o canhotaço do camisa 11. E que restassem poucos minutos, sobrou tempo para o último lance espetacular de Pelé. Depois da tacada de sinuca de Tostão, o camisa 10 deu seu desconcertante drible de corpo sobre Mazurkiewicz quando o goleiro saiu em desespero. Pegou a bola do outro lado, com o arqueiro vendido, mas o chute passou lambendo a trave. Uma pena à genialidade, que mesmo assim não a impediu de ficar marcada na memória.

O final do jogo poderia ter rendido a suspensão de Pelé à final da Copa. O Rei estava irado com o árbitro por conta das faltas que não apitou e da violência que não coibiu. Ao apito final, o atacante preferiu não trocar sua camisa com o uruguaio Atilio Ancheta porque queria dar ao apitador espanhol José María de Ortíz Mendibil, em sinal de afronta. O preparador físico Admildo Chirol é que mudou a história, ao segurar o craque e convencê-lo de que causaria tumulto à toa.

No dia seguinte, o Jornal dos Sports falava sobre a atuação de Pelé: “Depois de Jairzinho, o melhor do ataque, na ligação entre o meio-campo e o ataque. Merecia um gol para coroar sua atuação”. Nelson Rodrigues, por sua vez, exaltava a abnegação do Rei: “Pelé, o sublime. Seu espírito de luta é o de um cabeça de bagre. Parece um perna de pau lutando por um lugar no time. Nunca se viu nada parecido com Pelé. Seu gênio está em pleno fulgor”.

Zagallo, aliás, teve sua importância para abrir a mente de Pelé nesta função: “Não foi difícil convencê-lo. Bastou uma conversa. Disse a Pelé que não podíamos jogar apenas com três homens de meio-campo. Talvez necessitássemos de quatro ou cinco em certas circunstâncias. Como Jair ficaria preparado para os lançamentos longos e velozes, mesmo como ponta-de-lança Pelé teria que voltar. Ele nem discutiu. Quem quer vencer uma Copa do Mundo tem que agir assim. Pelé quer mais do que todos”.

Neste sentido, Pelé demonstrava sua consciência sobre o que o tricampeonato poderia significar à sua história: “Eu não sou o jogador mais velho, mas sou o mais veterano. Tinha uma vontade especial de disputar esta Copa até o fim e de ganhá-la, se possível, pois sei que será minha última. Por isso procurei contribuir para o time também como um conselheiro, e não só como um simples jogador”.

Observador técnico da Fifa e um dos maiores treinadores da história da Alemanha, Dettmar Cramer arrematava essa concepção: “Conheço Pelé desde o começo de sua carreira. Falo com a autoridade de 12 anos. Nunca vi Pelé como agora e nem creio que sua forma atual vá demorar mais de um ano. Ele simplesmente está em seu apogeu. E isto só acontece uma vez, e por um breve período. Nenhum jogador do mundo jamais foi o que Pelé é agora. Ele floresceu em todas as qualidades. Física e tecnicamente ele está excelente, mas não é só nisso que falo. Quero me referir ao seu amadurecimento, a consciência de cada mínimo gesto seu em campo. Nunca o vi jogar tanto de primeira como agora, nunca o vi se dedicar tanto a uma equipe”.

A primorosa coluna de Armando Nogueira no Jornal do Brasil

Pelé é festejado pelos companheiros (Foto: Imago / One Football)

“Tenho 12 anos de Pelé. Sou do tempo em que ele matava no peito e, antes de fulminar o goleiro sueco, ainda arranjava um lençol no beque mais próximo. Conheço o de mil tabelinhas: quando não havia Pagão, ele tabelava com Coutinho – quando não havia Coutinho, ele tabelava com Tostão – quando não havia ninguém, ele tabelava com as pernas do próprio adversário. Pelé dos gols de placa, dos dribles verticais, oblíquos, horizontais. Pelé das antevisões criadoras de espaços impressentidos. Pelé, ao mesmo tempo arco e flecha, acionando e alvejando”.

“Quantos gols de cabeça, Pelé? Pelé, milagre de equilíbrio a romper estaturas individuais e coletivas no terreno congestionado da grande área. Quanta coisa bonita inventaste pelos campos deste mundo, amigo Pelé: a paradinha, não sei por que proibida; o drible incisivo, aplicado com o pé em faca; a falsa hesitação que aterra o beque; o soco no ar, superlativo do próprio gol”.

“Cheguei ao Mundial de 70 espiritualmente preparado para aplaudir um novo Pelé-futebol-reflexão. Pelé de 30 anos, futebol de fita métrica. E, de fato, ele aí está maduro, precioso, calculista. Mas, como a face do líder não sacrifica o gênio do artista, ele aí está também, imaginoso como sempre, irresistível como nunca”.

“A bola da Copa não é branca, nem amarela, nem preta-e-branca, nem Adidas, a bola da Copa é aquele imenso lençol de Pelé contra o goleiro tcheco, na fase de grupos. A bola da Copa é aquele bate-pronto de Pelé, puro improviso que eu aplaudi, vendo o goleiro uruguaio fazer a mais aflita acrobacia para evitar o gol. A bola da Copa é o gesto sem bola de Pelé, aplicando em Mazurkiewicz maravilhoso corta-luz-clarão de inteligência que a memória dos meus olhos não esquecerá jamais”.

“Pelé, do repertório inesgotável, legenda de mil gols e, em cada gol, um gesto nas arquibancadas: lágrimas, risos, rezas, morte, talvez”.

“Mas, não sei: eu sempre senti Pelé o símbolo do futebol, nunca a encarnação de um time de futebol. Ele podia fazer sozinho a obra de um time inteiro, mas não sabia ser parcela do time. Entende, leitor? Ele é tão bola, tão futebol, que seu destino nunca foi jogado na mesma parada de sua equipe”.

“Por isso, muito prazer, Pelé-equipe: ‘Hoje’, dizia ele na manhã da estreia contra a Tchecoslováquia, ‘hoje, cada um de nós vai ter que correr por dois’. E desde então, Pelé tem vivido, com a firmeza de um líder, cada minuto sua Seleção. Ele inventa, como artista, um gesto sublime e, no instante seguinte, atira-se aos pés do rival para tomar-lhe a bola. Ele corre o campo inteiro, atento a tudo e a todos: aplaude a falha do colega, esbraveja na violência do adversário, concilia com o árbitro, dá a tônica da bravura e da humildade”.

“Vocês se lembram daquela que contei, depois do jogo com a Inglaterra: os fotógrafos estavam querendo arrumar a equipe para uma fotografia pretensiosa. Pelé, que estava lá em baixo trocando a camisa com Bobby Moore, veio correndo e expulsou o próprio time do campo: ‘Não é hora de fotografia, não. A Copa ainda não acabou’”.

“Não faz um drible a mais, nem um drible a menos: é a conta certa de quem joga com a disciplina de um soldado. Até nos clarões, Pelé está funcionando com absoluto realismo. Ele não retoca o chute, não requinta o drible, não enfeita o passe e nem recusa o combate. Dá-se integralmente ao destino da equipe, merecendo, por isso, o respeito profundo de todos os companheiros”.

“No gol de Cubilla, vi lá de cima alguns jogadores levarem à cabeça as mãos do desespero. Mas vi no mesmo instante Pelé acenando, gestos largos a recomendar calma: ‘Calma, pessoal, que nós vamos lá’. E foram mesmo. Não tendo em Pelé a salvação, mas tendo nele um precioso estímulo à salvação”.

“É porque Pelé deixou de ser o time para ser do time. É que ele chega à final de 70 como o mais decisivo líder de equipe neste Mundial. Pelé, cidadão do mundo, cidadão do Mundial”.

Brasil 4×1 Itália

Dois bicampeões do mundo se enfrentavam, e apenas um ficaria com a Jules Rimet em definitivo. O Brasil havia sobrevivido a uma batalha contra o Uruguai, mas a Itália tinha vencido o Jogo do Século contra a Alemanha Ocidental. E a decisão no Azteca prometia, outra vez, altíssimo nível técnico por tudo aquilo que se via nos mata-matas do Mundial. Os finalistas honraram as expectativas. Foi uma partidaça disputada com muita qualidade, entre dois times de estilos bastante distintos, ainda que o preparo físico dos brasileiros tenha preponderado e alargado o placar acima do equilíbrio que aconteceu em boa parte do duelo. Pelé era a face da vitória.

Desde os primeiros minutos, a Itália empreendeu uma marcação individual sobre o Brasil. Pelé era acompanhado por Tarcisio Burgnich, mas tantas vezes a barreira dobrou com o auxílio de um dos volantes. O repertório da Seleção era limitado pelo pragmatismo da Azzurra. Mas, aos 18 minutos, o placar se abriu a favor dos brasileiros. A movimentação de Tostão foi essencial, antes que o centroavante cobrasse um lateral rápido. Rivellino cruzou de primeira, em direção a Pelé no segundo pau. O Rei pairou no ar, vencendo Burgnich no alto mesmo atrás do defensor e cabeceando no canto de Albertosi. Fulminante. Soberano.

Se andava difícil superar a defesa italiana pelo chão, a impulsão de Pelé virou um caminho na final. O Brasil cruzava muitas bolas na área e o camisa 10 se impunha, apesar da marcação dura de Burgnich – que brecava bem as tentativas de drible do craque. E num primeiro tempo difícil, a Itália se aproveitou de um erro para empatar aos 37, com Roberto Boninsegna. A Seleção, sem se abalar com o gol, insistiu no segundo gol antes do intervalo. Pelé sairia na bronca: quando um cruzamento chegava ao camisa 10, livre no segundo pau, o árbitro Rudi Glöckner apitou o fim da primeira etapa enquanto a bola estava no ar.

Não fez falta. No segundo tempo, o Brasil cresceu. A forma física da Seleção passou a preponderar, com o time ganhando terreno no campo de ataque e demonstrando cada vez mais confiança. Gérson orquestrava o time, que passou a sufocar e abriu a vitória a partir dos 21, com um canhotaço do Canhotinha. Já o terceiro, cinco minutos depois, teria a participação de Pelé. Gérson cruzou e o Rei desta vez cabeceou para o meio da área, servindo Jairzinho. A coletividade preponderava. O tal Pelé-equipe.

Os 20 minutos derradeiros, enfim, guardariam o suprassumo da Seleção de 1970. Contra uma Itália esgotada, o Brasil fazia estrago, com excelente movimentação e busca direta pelo gol. Pelé, é lógico, sobrava. O Rei sempre parecia antecipar as jogadas para criar espaços. O camisa 10 não fez o quarto depois de uma tabela com Tostão porque Enrico Albertosi operou um milagre. Também poderia ter dado a assistência a Everaldo, numa linda inversão, mas de novo o goleiro italiano salvou.  O melhor estaria guardado àquele último tento, que tanto simboliza o time tricampeão, sob a melodia de ‘Cielito Lindo’ nas arquibancadas.

Tostão já tinha roubado a bola. Clodoaldo já tinha feito fila. Rivellino já tinha esticado para Jairzinho, que causou mais um pouco de bagunça, até entregar ao Rei. Pelé, então, agiu como o catalizador do esquadrão. Prendeu as atenções de todos enquanto segurou a bola, antes de oferecê-la como um presente ao lado direito. Uma assistência premonitória, para que Carlos Alberto passasse como um relâmpago e pegasse na veia, rumo às redes. O grand finale a uma Copa estupenda do Brasil, e de Pelé, o craque que engrandeceu craques.

Pelé, carregado nos braços, era o mais festejado ao apito final. Durante a entrega da taça, os aplausos foram mais longos quando o Rei apareceu no palco montado no Azteca. A Jules Rimet era do Brasil, a história era sua. Três vezes campeão, do menino genial ao gênio completo.

“Agora sou um homem realizado no futebol e se já tivesse que encerrar minha carreira, poderia me sentir bastante tranquilo. O Brasil provou mais uma vez que tem futebol em nível muito superior aos demais países. Outra vez a tranquilidade foi fator importante para o sucesso da nossa equipe. Realmente nos preparamos com espírito de equipe e de outra forma não poderíamos ter alcançado nem metade do que conseguimos nessa tarde inesquecível. Nesse jogo, nem que um de nós ou todos nós tivéssemos que sair cuspindo sangue, a vitória não poderia faltar”, diria Pelé, após a vitória.

As avaliações sobre Pelé depois da final

Jornal dos Sports: “Esta Copa talvez tenha sido a melhor entre todas as disputadas por Pelé. Incumbido de um trabalho de preparação das jogadas, saiu-se tão bem como só os gênios podem fazer. E ele é um gênio”.

Folha: “Fora de série, feiticeiro, taumaturgo, a estrela que falta em nossa bandeira nacional. Pelé. Comendador Edson Arantes do Nascimento. Pelé. Quando terminou o jogo, o povo, a torcida endoidecida, pegou-o nos braços, colocou-o nos ombros e ele foi carregado em triunfo, com um colorido sombreiro na cabeça. Pelé, o torso nu, cuja camisa fora arrancada como sempre. A camisa verdadeira de Pelé é a camisa da humanidade, as sete cores do arco-íris juntas. O sol”.

Estadão: “Justificando as opiniões dos jornalistas do mundo inteiro, que o apontaram como o maior jogador do certame, Pelé fez a sua melhor partida desta Copa: defendeu, armou, atacou e até catimbou o jogo quando o Brasil precisava esfriar a Itália, que esboçava uma reação. […] Nos seus passes todos sentiram a certeza de que no momento oportuno os gols surgiriam para garantir a conquista definitiva da Copa. No seu trabalho incessante, estava a garantia de que o time era o melhor preparado física, técnica e psicologicamente, porque ainda lhe sobrava a determinação de ganhar a qualquer custo o título”.

Jornal do Brasil: “Pelé, outro grande em campo. Pela renúncia, pela personalidade e pela clarividência. Abriu o marcador com um gol de cabeça, igual ao que perdeu contra a Inglaterra. O fecho do jogo e da vitória foi também ele quem deu. Só este lance basta para fazer compreender por que Pelé é o único jogador tricampeão mundial”.

E o resumo da Copa feita pelo Rei, outra vez, viria de Didi: “Sobre Pelé, acompanhei aquela onda da miopia. Nessa agora dos 4 a 1, quem usa óculos não pega aqueles centros matemáticos de cabeça e não dá a bola na medida como fez para Carlos Alberto marcar o gol. Pelé desequilibra qualquer jogo. Vale por 11. Isso é covardia”.