Ato a ato, a avassaladora consagração: como Maradona atingiu o ápice de sua genialidade na Copa de 1986

Quase 30 anos depois da conquista da Copa do Mundo, numa noite de Natal, Diego ganhou uma réplica da taça. Ali, voltou no tempo. E percebeu que não havia alegria maior. Que não teve maior presente possível a seus pais, orgulhosos naquele 1986, mas apenas saudades em 2015. Diego pôde fazer toda a sua gente festejar, todo o seu povo, todo o seu país. De certa forma, todo o futebol, já que poucas vezes se viu uma consagração com aquela magnitude. Poucas vezes se viu uma grandeza como a atingida por Diego Armando Maradona no Mundial do México.

O garoto de Villa Fiorito tinha o mundo a seus pés. Dos 14 gols da Argentina naquela Copa, Maradona marcou cinco e deu passes a outros cinco. Dos quatro restantes, ainda teve influencia menor em três. E as genialidades se repetiram muito além das vezes em que as redes terminaram estufadas, porque a melhor versão de Diego se mede mais em toques geniais, em dribles imparáveis, em mais pura vontade. Em paixão, de quem buscava a glória máxima aos 25 anos. Paixão, de quem afastou desconfianças e, capitão, lideraria a Albiceleste rumo ao bicampeonato mundial.

Trinta anos depois, Maradona recobrou suas memórias sobre aquela campanha no livro ‘Meu Mundial, minha verdade: Assim ganhamos a Copa’, escrito em parceria com o jornalista Daniel Arcucci. Fez questão de exaltar a importância dos companheiros e, embora com muitas críticas por conta de rusgas posteriores, também do técnico Carlos Bilardo na injeção de confiança que lhe ofereceu particularmente. Mas sem negar, claro, seu enorme protagonismo – algo que qualquer recorte daquele Mundial evidencia. “Tínhamos uma grande equipe. Uma boa equipe que se foi armando com as partidas, pela inteligência dos jogadores. E, sim, ficou muito melhor por minha presença. Por que vou mentir? Eu reconheço isso. Mas também estou convencido de que não ganhei o Mundial sozinho”, diria Diego, na publicação.

“Recordo que me preparei para voar. E voei. Cumpri com o que disse. E joguei limpo. Ainda que outros quisessem que eu jogasse sujo. Sabe que jogador teria sido eu se não tivesse tomado droga? Teria sido por muitos, muitos anos, esse do México. Foi o momento de maior felicidade dentro de campo. Ali, no México, eu coloquei minha vontade de ganhar a Copa acima de qualquer coisa. Deixei de lado o Napoli, deixei de lado meus gostos futebolísticos, fiz minha família entender que aquela era a oportunidade. Falei e falei com meus companheiros, para que todos sentissem o mesmo”, complementava. “Sobre mim, poderão dizer qualquer coisa. Mas quando ponho algo na cabeça, consigo. E, com a bola nos pés, sempre sentia que ia conseguir o que me propunha. Valdano me dizia que, quando eu tocava a bola, parecia que fazia amor. E algo disso existia…”.

Nesta semana em que Maradona completa 60 anos, relembramos seu momento de maior amor com a bola: a Copa do Mundo de 1986. A partir do livro de memórias, de publicações da época e dos vídeos dos jogos, recontamos os detalhes de seu apogeu. A construção de uma história que nunca se apagará.

O novo capitão e as Eliminatórias

Maradona marcado por Cerezo em 1982 (Foto: Imago / One Football)

Maradona não fez uma boa Copa em 1982, a primeira de sua carreira. Existiam enormes expectativas sobre o camisa 10 de futebol deslumbrante e magia já evidente no Boca Juniors, prestes a se transferir ao Barcelona. Entretanto, sem as melhores condições físicas, Diego não causou grande impacto no Mundial da Espanha. O craque anotou dois gols, ambos contra a Hungria na primeira fase. Quando chegou o momento decisivo, no triangular que valia vaga à semifinal, a Argentina seria derrotada por Itália e Brasil. A última imagem de Diego na competição foi a expulsão nos minutos derradeiros do clássico sul-americano, acertando um chute desleal em Batista, quando a derrota para os brasileiros estava praticamente consumada.

Sucessor de César Luis Menotti à frente da seleção após aquela Copa, Carlos Bilardo tinha conceitos de jogo totalmente distintos. A disputa do bilardismo contra o menottismo ainda era nascente, com uma ideia muito mais pragmática aplicada pelo novo comandante, a partir do fracasso em 1982. Bilardo, entretanto, tinha Maradona em sua conta. Ao assumir a Albiceleste, o treinador teve uma longa conversa com o camisa 10. Queria não apenas vê-lo com total liberdade em campo, central ao funcionamento da equipe, mas também o trataria como liderança. A braçadeira, até então de Daniel Passarella, ficaria com o camisa 10.

Maradona, embora tivesse mais apreço pelo estilo de Menotti, não demorou a comprar a causa de Bilardo. E a ideia de ser capitão tocou seu coração. “Se não morri de um infarto nesse momento, não morro mais. Até hoje, quando falam de que fui, de que sou, capitão da seleção, sigo sentindo o mesmo. É como ter nos braços meu neto Benjamin, é a mesma emoção”, declararia Maradona, sobre aquele momento, 32 anos depois. Sua primeira atitude foi conhecer a todos, se informar mais sobre os demais jogadores da seleção, entender melhor como jogavam. Ver vídeos, conversar com as pessoas. Um exemplo de liderança dado logo pelo craque, aos seus 22 anos.

Passaram-se dois anos entre o encontro com Bilardo em 1983 e o início da Era Maradona como capitão da seleção dentro de campo, em 1985. O craque atuava na Europa e seus clubes não tinham obrigação de liberá-lo aos amistosos da Argentina. Seriam anos de transformação a Diego. O armador decepcionou no Barcelona, com sérios problemas de lesão e péssima relação com os dirigentes. Já em 1984, transferiu-se ao Napoli e iniciaria a recuperação de sua melhor forma na Itália, em um clube de menor expressão, mas que se engrandeceu a partir da chegada de sua lenda.

Maradona contra a Inglaterra em 1980 (Foto: Allsport UK /Allsport via Getty Images / One Football)

“Digo que jogar no Napoli foi a melhor preparação possível para encarar o Mundial do México. A melhor. Primeiro, porque fizeram me sentir importante, porque fizeram me sentir necessário, coisa que já não acontecia no Barcelona. Segundo, porque me obrigava a estar fisicamente ótimo para superar as marcações de rivais supostamente superiores a mim e certamente superiores aos espanhóis. E terceiro, por jogar contra tudo e contra todos. No Napoli se sentia isso, contra tudo e contra todos”, refletiria Diego.

O retorno de Maradona à Albiceleste ocorreu apenas em maio de 1985, durante a preparação às Eliminatórias da Copa, que se desenrolariam nas semanas seguintes. Bilardo dizia publicamente que a Argentina era “Maradona e mais dez”. Isso, contudo, não criava crises de ciúmes à maioria no ambiente da Albiceleste, enquanto os demais estavam se esfolando em amistosos pouco empolgantes da seleção. Maradona, mesmo longe, seguiu capitão. O craque permanecia em contato com os demais jogadores da equipe nacional. Mandava telegramas, fazia ligações, dava declarações. Mantinha-se próximo, ainda que não estivesse em campo, o que não era visto de fora. Na Argentina, questionavam se Diego estava pronto para ser capitão – para ser um caudilho dentro de campo, tal qual Passarella, que tanto impunha respeito.

A volta de Maradona à Albiceleste, ao seu costumeiro estilo, teve uma briga. O Napoli não pretendia liberá-lo no início de maio de 1985, como desejava Diego, por causa da reta final da Serie A – no meio da tabela, o time no máximo poderia se classificar à Copa da Uefa, depois de brigar boa parte do tempo contra o rebaixamento. O camisa 10 bateu o pé e, já conhecendo a personalidade de seu craque, a direção celeste resolveu ceder, desde que ele conciliasse os compromissos do clube e da seleção.

Quem não estava disposta a garantir a concessão era a própria federação italiana, que mandou um telegrama aos napolitanos para que não dispensassem o meia – fariam o mesmo com a Fiorentina, em relação a Passarella. Maradona os peitou. Com o aval do Napoli, intercalou as duas últimas rodadas da Serie A com dois amistosos na Argentina. Foram quatro partidas e cinco travessias do Atlântico, com dois gols pelo clube e outros dois pela seleção, além de 80 mil quilômetros viajados. Na volta definitiva rumo à América do Sul, os napolitanos despediram-se com flores, gratos por aquele pequeno milagre da multiplicação de si.

Maradona como capitão nas Eliminatórias (Foto David Cannon/Allsport/Getty Images/Hulton Archive/One Football)

Era esse Maradona, ainda nascendo como ídolo em Nápoles, após sua primeira temporada na Serie A, que disputou as Eliminatórias para a Copa de 1986. Anotou dois gols num duro 3 a 2 sobre a Venezuela em San Cristóbal e também festejou os 3 a 1 sobre a Colômbia em Bogotá. De volta a Buenos Aires, a Argentina bateu os venezuelanos por 3 a 0 (mais um de Diego) e os colombianos por 1 a 0. Até que viessem os confrontos com o Peru, o principal oponente naquele quadrangular. Somando oito pontos, os argentinos lideravam com três pontos de vantagem e precisavam de um empate nos dois jogos finais para se confirmar na Copa – só o primeiro passaria direto. Não seria tão simples.

O Peru venceu a primeira partida, em Lima, por 1 a 0. Juan Carlos Oblitas marcou o gol, embora o pesadelo de Maradona tenha sido Luis Reyna. Com uma marcação implacável, o peruano encheu o craque de pancadas. Diego, que não estava 100% fisicamente, seguiria ao jogo decisivo com dores no joelho – após ser atingido no início das Eliminatórias, vejam só, por um torcedor venezuelano quando dava autógrafos em San Cristóbal. E a decisão no Monumental quase relegou a Albiceleste à repescagem. Pedro Pasculli abriu o placar, mas a Blanquirroja virou no primeiro tempo, com José Velásquez e Gerónimo Barbadillo. Poderia até ter feito o terceiro na volta do intervalo. Mas, a dez minutos do fim, numa noite apagada de Maradona, o herói foi Ricardo Gareca. O atacante anotou o gol do empate por 2 a 2, que levou os argentinos ao México.

“Gareca merecia ir à Copa por tudo o que havia dado a Bilardo quando eu não estava bem. Um dos que sustentou Bilardo foi Gareca, vamos dizer a verdade. Falo individualmente. Havia bons jogadores, mas o definidor que era El Flaco…”, recordaria Maradona. “Eu me lembro perfeitamente o que disse a Gareca então, quando já tínhamos a classificação na mão e havíamos nos tranquilizado um pouco, só um pouco, no vestiário do Monumental: ‘Flaco, assim vamos terminar na final. Sofrendo, mas ganhando'”.

A preparação ao Mundial e o racha com Passarella

Maradona durante a preparação na Cidade do México, em maio de 1986 (JORGE DURAN/AFP via Getty Images/One Football)

Apesar das recomendações para que operasse o joelho, Maradona teve uma recuperação milagrosa e viveu uma temporada ainda melhor em seu segundo ano com o Napoli. Só se ausentou de um jogo, com 11 gols em 29 aparições, e os celestes fecharam a Serie A com o terceiro lugar – igualando a melhor campanha do clube nos dez últimos anos. Foi naquela edição do campeonato, inclusive, que Diego anotou seu antológico gol de falta contra a Juventus no San Paolo, encerrando um jejum de 12 anos sem vitórias contra os rivais pela liga. O que não ia bem era a Argentina.

A classificação suada à Copa do Mundo aumentou as críticas sobre o trabalho de Carlos Bilardo. Não era um personagem exatamente querido por todos, representante do “antifutebol” em seus tempos de jogador com o Estudiantes, e muito menos fazia sua seleção jogar bem. A dois meses do Mundial, o presidente Raúl Alfonsín criticou o técnico publicamente e o próprio governo pensou em interferir, armando sua demissão. Representantes do ministério dos esportes ligaram a Maradona na Itália. E o craque respondeu que, se tirassem Bilardo, ele também sairia. Não o fizeram. Não seriam loucos de fazê-lo.

Os resultados nos amistosos preparatórios à Copa seguiam insatisfatórios, com derrotas para a França e para a Noruega – que sequer havia se classificado à competição. Além disso, a ideia de Bilardo em manter um grupo de 30 jogadores antes de fazer os cortes finais ao Mundial não agradava nem mesmo a Maradona. E o capitão não ficaria feliz com alguns excluídos – a exemplo de Gareca e Ubaldo Fillol, atletas que atravessaram todo o drama nas Eliminatórias, ou tipos “que se matavam trabalhando”, como o desafeto Ramón Díaz – algo afirmado por Diego 30 anos depois, embora existam versões de que o 10 coordenava um boicote contra o atacante.

Maradona em ação na final – Foto: Imago / One Football

Até Maradona era alvo de dúvidas da imprensa, afinal. Não bastou ter arrebentado com o Napoli, já que suas condições físicas voltavam a ser questionadas antes da Copa do Mundo. Diego tinha ainda mais ganas de se provar. “Eu estava convencido de que, se deixavam os jogadores em paz, se nos deixavam treinar como queríamos, íamos estar preparados para ganhar a Copa. Eu amava essa seleção. Amava-a particularmente. Sentia como minha. Era o capitão, havia um grupo de caras excepcionais. Alguma vez disse que nos faltava sorte. Mas não: o que nos faltava era o trabalho. E sentia que nos faltavam com o respeito. A nós, aos jogadores. E isso sim que eu não ia bancar”, recordou.

Durante a preparação, um momento importante aconteceu durante uma conversa entre os jogadores. Concordaram que o essencial na Copa não era o dinheiro da premiação. Que precisavam se esquecer dos clubes, da família, dos problemas. Estavam ali por algo maior. Para se entregarem ao máximo, para se entregarem uns pelos outros. “Eu me lembro como se fosse hoje. Parei no meio e comecei a falar. Olhava a todos nos olhos, sentia que o meu sangue fervia e que a veia da nuca saltava. Apertava tanto os dentes que pensei que eles iam quebrar. Acompanhava cada palavra com o punho fechado, como se fosse bater. Isso, isso eu queria. Bater com as palavras, mas bater bem. Chegar ao coração. Foi um juramento”, recontaria Diego.

Neste momento, os jogadores se rebelaram contra uma turnê pela Colômbia que faziam com Bilardo, em maio de 1986. Achavam que apenas se expunham às pancadas e às críticas em amistosos nada relevantes contra clubes locais, sem se preparar adequadamente. A revolta deu resultados e a Argentina chegou ao México antes das demais seleções, para se aclimatar e se adaptar à altitude. A federação montou sua base no CT do América, na Cidade do México. A discussão entre bilardistas e menottistas também se rompeu internamente, com os jogadores deixando as diferenças de conceitos de lado. O próprio Maradona, um menottista, teria rusgas com Menotti na época, apesar do seu apreço pelo antigo treinador da seleção e do Barcelona. Então comentarista às vésperas da Copa, El Flaco criticou Diego, duvidando de seu potencial. A resposta viria dentro de campo.

Maradona e a bola colada à canhota no México – Foto: Imago / One Football

Foi no mesmo período que Passarella se isolou do grupo. Segundo a versão de Maradona, o antigo capitão alimentava a divisão entre bilardistas e menottistas, bem como não aceitava ter perdido a braçadeira. Certa noite, na concentração, o zagueiro foi cobrar exemplo de Diego por ter chegado tarde. As intrigas do veterano acabaram expostas e, no fim, o elenco se fechou ao redor do novo capitão. Passarella seria um reserva de luxo no México, lesionado antes da estreia – no que é acusado de fingimento pelos colegas. Em seu lugar, entrou José Luis Brown, que sequer tinha contrato com um clube antes da Copa do Mundo. O substituto não tinha a qualidade técnica do “Kaiser”, mas não deixava de se empenhar jamais. Assim, ganhou o posto e o manteria com muitos méritos, independentemente da recuperação do antigo capitão. Acabaria como herói, sobretudo pela final.

Além da preparação feita com a seleção argentina no México, Maradona também se cuidou especialmente àquele Mundial. Meses antes, o craque esteve em Roma com Antonio Del Monte, um especialista italiano em medicina esportiva. Del Monte havia ajudado o ciclista Francesco Moser, campeão do Giro d’Italia em 1984, a quebrar o recorde de distância percorrida em cima da bicicleta ao longo de uma hora. Moser percorreu 50,8 mil quilômetros em 60 minutos, superando uma marca que permanecia imbatível desde 1972. E o feito do italiano aconteceu justamente na Cidade do México. Assim, Del Monte criou um plano físico para Diego chegar em seu melhor à Copa.

“Eu estava forte. Se você vê as fotos dessa época, pareço um boxeador, os braços marcados, o peitoral… Eu voava! Cheguei muito embalado, estava nas nuvens. Era minha Copa ou de Platini. E eu sentia que, fisicamente, no México ia poder tirar vantagem se estivesse bem. Mais que em outro canto. Poderiam me perseguir a nível do mar, mas não no México, se eu estivesse bem, isso de me seguirem por todos os lados complicaria os adversários. Ao final, a altitude me favoreceu”, apontou Maradona. Diego levou consigo ao México seu preparador físico pessoal e o massagista do Napoli. Não quis que ninguém da família o acompanhasse, para não se distrair, exceção feita ao pai Don Diego e ao sogro Coco – que integraram a delegação como ‘churrasqueiros oficiais’.

Argentina 3×1 Coreia do Sul

Maradona encara a marcação sul-coreana (Foto: Imago / One Football)

A Argentina estreou na Copa do Mundo sob desconfianças, mas contra um adversário que não inspirava grandes temores. A Coreia do Sul retornava aos Mundiais após 32 anos e pouco se sabia sobre os asiáticos, embora viessem com uma geração badalada nas categorias de base. Maradona esperava um embate difícil pelo preparo físico dos oponentes, mas também vislumbrava um caminho pelo alto, a partir dos cruzamentos. E foi assim que a Albiceleste construiu o triunfo por 3 a 1.

Maradona atuou mais recuado, para armar o jogo e partir com a bola dominada. A Coreia do Sul tinha uma tática clara: parar o camisa 10 com faltas. Diego não se cansou de apanhar ao longo do duelo, mas continuava com seu trabalho duro. As patadas, afinal, rendiam faltas. Cada drible do armador era correspondido com uma bordoada. E foi assim que a Argentina construiu sua vantagem logo cedo. Aos seis minutos, Maradona cobrou uma falta em cima da barreira e, no rebote, passou de cabeça a Jorge Valdano, que fuzilou. Aos 18 viria mais um, em nova cobrança de infração. Diego bateu direto, na cabeça de Oscar Ruggeri dentro da área, rumo às redes.

Ao longo da partida, Maradona não conseguiu arriscar muito a gol, com a Coreia do Sul fechando duas linhas à frente da bola. Em compensação, atraía os marcadores e entregava a bola aos companheiros. Não balançou as redes, mas serviu ainda sua terceira assistência na volta ao segundo tempo. Depois de um grande avanço pela lateral da área, deixando dois para trás, Diego cruzou de direita. A bola passou pelo goleiro e ficou fácil para Valdano escorar. Somente depois disso é que os sul-coreanos pressionaram, descontando com Park Chang-sun num chutaço de longe. Mesmo assim, a goleada poderia ser maior, com Valdano desperdiçando boas oportunidades à sua tripleta.

“Entrei em campo pensando que ia para um jogo de futebol, mas o que menos vi foi futebol. Eles vinham direto na minha perna, e não na bola”, diria um revoltado Maradona, na saída de campo, segundo o Jornal do Brasil. Quando foi perguntado se seguiria jogando sozinho num time fraco, retrucou: “Gostaria que você estivesse lá no campo para ver se pensava que a equipe é fraca. A Argentina fez a partida que todos esperávamos e a equipe funcionou bem”.

A avaliação do Jornal dos Sports destacava exatamente o espírito de Maradona, mesmo com a marcação violenta: “Com a categoria que lhe é peculiar e com a tranquilidade de todo jogador experiente, Maradona fez uma partida impecável e só não foi além devido às faltas que recebeu toda vez em que tentou fazer uma jogada individual. Ainda assim, o ídolo do futebol argentino conseguiu realizar uma grande partida”.

Argentina 1×1 Itália

Maradona e seu amigo Salvatore Bagni (Foto: Imago / One Football)

O sorteio guardou à Argentina um reencontro na fase de grupos: a Itália, que havia vencido o time de Menotti em 1982 e chegava ao México como tricampeã mundial. Não seria uma boa estreia da Azzurra, porém. Com um time envelhecido e sem render ao máximo no calor mexicano, só empatou com a Bulgária em sua primeira partida, por 1 a 1. E assim haveria um reencontro especial a Maradona, não apenas pelo Mundial da Espanha, mas também por aquilo que começara a viver no Napoli dois anos antes.

Diego não estava confirmado para o duelo em Puebla. As pancadas sofridas contra a Coreia do Sul ainda doíam e o camisa 10 era visto como dúvida. De qualquer maneira, o técnico Enzo Bearzot pregava muito respeito, ao Jornal do Brasil: “Como confia demais nas suas virtudes, Maradona se faz alvo frequentemente de faltas violentas, que nem sempre seus marcadores tiveram a intenção de cometer. Muitas vezes, os marcadores de Maradona, diante de sua imprevisível e fulminante mudança de ritmo e de sua capacidade de proteger a bola, só são levados, no desespero, a mudar bruscamente seus gestos e intenções. O ideal e mais eficiente seria impedir que ele pegue e domine a bola, porque, uma vez que a tenha em seus pés, a única coisa a fazer é esperar que a excepcional habilidade desse jogador seja prejudicada por um golpe de azar ou por um acidente no terreno de jogo”.

Maradona cercado pelos italianos (Foto: Imago / One Football)

Maradona não se ausentaria daquele jogo. E Maradona seria decisivo, apesar do empate por 1 a 1. A Itália abriu o placar logo aos seis minutos, num pênalti convertido por Alessandro Altobelli. Diego, então, chamaria mais a responsabilidade para si. Apesar da capacidade defensiva dos italianos, o camisa 10 tinha espaços para driblar e sofria menos com as faltas. Chegou a passar no meio de dois, em uma jogadaça, antes de ser travado na área. Além disso, também conseguia penetrar mais. Foi assim que garantiu o empate, aos 34. Num lindo passe por elevação de Valdano, Maradona passou às costas do capitão Gaetano Scirea e finalizou quase sem ângulo. Botou um efeito na bola, que saiu do alcance do goleiro Giovanni Galli antes de entrar.

Não seria a partida mais vistosa. Valdano perdeu a chance de virar antes do intervalo, enquanto a Argentina acabaria limitada às bolas paradas durante o segundo tempo. A Itália levaria mais perigo, inclusive com uma bola na trave de Bruno Conti. Maradona cairia de produção na etapa final, sobretudo pela marcação firme dos italianos. Seu companheiro no Napoli, Salvatore Bagni soube proteger a Azzurra das investidas do craque e saiu como um dos melhores em campo. E sem apelar para a violência, como fizera Claudio Gentile naquele embate de 1982.

“Maradona mais uma vez representou o melhor que se viu em campo. A exemplo do que fizera contra a Coreia do Sul, foi o destaque da Argentina e do jogo. Tabelou, tocou com inteligência e teve o lampejo do craque. Um belo gol, com um leve toque de perna esquerda. No segundo tempo, cansou e facilitou a marcação dos adversários”, analisaria o Jornal dos Sports.

Já o lendário João Saldanha, em sua coluna no Jornal do Brasil, salientou: “Até agora, os chamados grandes nomes da Copa, os grandes craques, não puderam mostrar seu melhor jogo. Talvez Maradona, na partida de ontem contra a Itália, seja uma exceção. Uma ligeira e pálida exceção. Mostrou sua classe no gol, embora Galli tenha dormido um pouco e se limitado a um gesto sem esforço. […] Mas, fora isso, Maradona, severa e lealmente marcado por Bagni, tampouco produziu algo que se possa esperar de um grande craque”.

Trinta anos depois, Maradona diria: “Foi muito lindo o gol e foi muito especial a partida. Levava quase duas temporadas na Itália, havia chegado fazia relativamente pouco tempo, mas já conhecia a todos. E eles me conheciam. Era especial. Eu sabia que tinha ido jogar num país onde se respirava futebol. Em uma cidade, Nápoles, onde o futebol era a própria vida. Quando cheguei, me pediam que ganhasse da Juve, do Milan, da Inter. E, depois, não apenas tinha que ganhar de todos, mas também o Scudetto. Como não ia ser especial essa partida contra a Itália? Mas, na verdade, nessa época a pressão não era tanta. Quando jogamos no México, não havia tanta pressão como em 1990. Aquilo sim foi distinto. […] Para os italianos, até havia simpatia em 1986. Claro, até ali eu não tinha tirado o Scudetto de nenhum dos grandes, eu caía bem”.

Argentina 2×0 Bulgária

Maradona e a multidão de búlgaros (Foto: Imago / One Football)

A Argentina encerrou sua participação na fase de grupos contra a Bulgária, um adversário que ainda não tinha vencido uma partida de Copa, mas que segurou o empate na estreia contra a Itália. Embora a igualdade beneficiasse as duas equipes, a intenção da Albiceleste era vencer e terminar o Grupo A na liderança, escapando de um possível encontro precoce com a França nas oitavas. Maradona, enquanto isso, vislumbrava outros oponentes. Em especial, João Havelange e a Fifa, ao reclamar publicamente do jogo ao meio-dia na Cidade do México e também da falta de rigor da arbitragem com a violência presente naquele Mundial. Durante a competição, o argentino chegou a se reunir com o presidente da Fifa, para discutir a criação de uma associação de atletas.

Dentro de campo, a Argentina fez a sua parte. Logo aos três minutos, José Luis Cuciuffo ganhou a bola na ponta direita e mandou um cruzamento perfeito para a cabeçada de Valdano, abrindo o placar. Maradona fazia estrago na defesa com grandes jogadas individuais, chegando por duas vezes a driblar três adversários em sequência, mas não finalizava da melhor maneira. O camisa 10 também encantava por lances mais simples, com passes de mágica, especialmente acionando os companheiros com o calcanhar.

O placar mínimo se seguiu durante o segundo tempo, com o domínio da Albiceleste, sem tanto ímpeto. Maradona buscava a sua assistência e chegou a dar alguns presentes aos companheiros, inclusive a um gol de Valdano anulado por impedimento. Até que o triunfo por 2 a 0 ganhasse números finais aos 32. Diego arrancou pela ponta esquerda e aplicou um drible da vaca em Andrey Zhelyazkov, antes de cruzar. Bola na medida a Jorge Burruchaga, que invadia a área e testou às redes.

No Jornal dos Sports, apenas Diego se salvava das críticas ao enfadonho jogo: “Rigorosamente, apenas um jogador tratou a bola com carinho: Maradona. Mesmo assim, sem o requinte habitual. Bem que Maradona tentou contribuir para melhorar um pouco o nível do jogo, mas foi difícil. Corria, abria espaço, se colocava para receber, tudo em vão. […] Maradona não teve a sua genialidade posta em prática, tal a ruindade do jogo”.

Para Maradona, aquele foi um jogo importante para que a Argentina acertasse sua forma de atuar. E não por Bilardo, que não deixava os jogadores treinarem, segundo Diego. “Pedi outra reunião com os jogadores, das pesadas. Fui claro, direto… ‘Rapazes, as coisas saem bem quando jogamos como queremos, não? Assim, se Bilardo nos diz para nos defendermos, vamos para atacar. Ou que caralho somos, Burkina Faso? Vamos jogar para ganhar, porque agora vêm os mata-matas. Se ganham da gente agora, tudo o que fizemos não serve para nada’. Até Passarella estava de acordo comigo”, recontou o 10, no livro.

Argentina 1×0 Uruguai

Maradona acelera contra o Uruguai

A fase de grupos se encerrou com a Argentina na primeira colocação, contando com um dos melhores jogadores da competição até então, mas devendo coletivamente. E o compromisso das oitavas de final seria uma prova de fogo à Albiceleste. Pelo caminho, estaria o Uruguai. A Celeste sofreu na primeira etapa do Mundial, sobretudo ao ser atropelada pela Dinamarca, e abusou da violência. O clássico do Rio da Prata prometia um duelo muito mais parelho, e também perigoso aos argentinos, considerando a qualidade individual que ainda tinham os uruguaios.

“Sempre que jogam Argentina e Uruguai, o jogo acaba virando uma batalha campal. Os uruguaios não gostam de perder e, às vezes, usam de muita energia. Eu diria até demais, para um artista da bola. Enfim, não podemos evitar essa partida e temos obrigação de derrotá-los”, dizia Maradona, segundo o Jornal do Brasil. “Sei que devo receber algum tipo especial de marcação e espero que isso aconteça, porque aí haverá mais oportunidades para meus companheiros. Quanto à violência, prefiro apenas dizer que não estou acostumado a responder violência com violência”.

O Argentina 1×0 Uruguai foi o único jogo daquela Copa em que Maradona não contribuiu diretamente com gol ou assistência. Ainda assim, é considerada por alguns como a melhor atuação de Diego no México, inclusive pelo próprio craque – superior até mesmo ao que fez contra a Inglaterra.

Maradona precisou de poucos minutos para ludibriar os uruguaios com sua canhotinha. O camisa 10 era mais rápido que os marcadores, mais inteligente que os marcadores, mais habilidoso que os marcadores. Assim, abria espaços na retranca celeste. E faltou pouco para que o gol argentino saísse logo nos primeiros minutos. Valdano chegou centésimos atrasado para completar o cruzamento de Diego na medida, mesmo sozinho na área. Pouco depois, a cobrança de falta do camisa 10 estalou o travessão do goleiro Fernando Álvez. O armador encarava dois ou três marcadores de uma só vez. Mesmo sem tanta violência quanto o esperado, as faltas eram um recurso para os charruas controlarem o Pibe.

Maradona e a marcação dupla dos uruguaios

O gol da vitória saiu aos 42 minutos. Maradona esteve presente no começo da jogada. Encarou a marcação do capitão Jorge Barrios, dando um drible de corpo, antes de entregar à passagem de Sergio Batista. O meio-campista acionou no lado direito Burruchaga, que acelerou. Bem cercado, Valdano não conseguiu dominar o passe, mas a sobra ficou com Pedro Pasculli no meio da área e, totalmente livre, o atacante apenas deslocou Álvez, batendo no contrapé do goleiro.

Via-se também um Maradona que brigava por cada bola, que não desistia. E as brechas se tornaram até maiores no segundo tempo, com Diego caindo pelas pontas, enquanto o Uruguai precisava do empate. Em mais uma daquelas jogadaças nas quais desmontava uma defesa inteira, o gênio deixou os perseguidores comendo poeira e rolou ao lado, na saída de Álvez, mas Pasculli não conseguiu completar. Pouco depois, Diego abriu novo rombo na marcação e Pasculli serviu Burruchaga, mas a bola acabou salva em cima da linha.

Álvez também parou alguns chutes de Maradona e, quando o goleiro não pôde fazer nada, batido num rebote, a arbitragem anulou o tento do craque alegando uma solada – que não existiu. Faltou o seu, mas a missão estava cumprida. O Uruguai esboçou uma pressão e teve suas chances principalmente nos minutos finais. O goleiro Nery Pumpido seria também herói, ajudando a segurar o resultado com uma ótima defesa diante de Rubén Paz, ainda dividindo a sobra nos pés de Enzo Francescoli. Sob uma forte chuva e ventos incessantes, os argentinos comemoravam o triunfo na batalha do Prata.

“Diego Armando Maradona não é só destaque do jogo contra o Uruguai, mas o astro maior de toda a Copa do Mundo, mesmo que a Argentina seja desclassificada e não chegue às finais do violento funil que é a competição. É um astro. A arte que surge de seus pés brinda qualquer um com o prazer de se ver jogar futebol. Sua arma é a perna esquerda. Com ela dribla, lança, chuta e faz gols. Dela saem obras-primas, perfeitas concepções de movimento inteiramente – e intensamente – surpreendentes. Uma jogada no segundo tempo deu exemplo disso. Dois jogadores uruguaios batidos e o passe com a perna esquerda. Detalhe: a jogada era pela extrema direita”, escreveria o Jornal dos Sports, no dia seguinte.

“Contra o Uruguai, joguei minha melhor partida de toda a Copa, de longe. Primeiro, porque não perdi um mano a mano; ganhei de todos os uruguaios que se puseram na minha frente. O meio de campo deles, e ali estava a chave, não me alcançou nunca. Inclusive escutei que Flaco Francescoli, em uma vez que nos cruzamos no campo, disse aos companheiros: ‘Agarrem-no, mesmo que seja a camiseta’. Assim, tal qual. Um fenômeno, Enzo. Já nos dávamos bem naquela época. Mas era um Argentina x Uruguai, e um Argentina x Uruguai se joga com a faca entre os dentes, sem entregar nada”, relembrou Maradona, em seu livro.

“A esta altura, recordo as imagens da Coreia e comparo com as do Uruguai, e não são duas partidas distintas. São duas Copas distintas! Jogamos ao máximo essa partida. Não tínhamos jogado tão rápido contra Coreia e contra Bulgária. Isso se passa nos Mundiais. Você vai acelerando, os jogadores ganham confiança. E há uma motivação especial. Distinta. As Copas se jogam assim: é uma questão de vontade, de estar bem, de se sentir importante, de saber que representa seu país. E veja que a esta altura não sentíamos o respeito de todos os que nos haviam criticado”, complementou.

Argentina 2×1 Inglaterra

Maradona encara três ingleses de uma só vez (STAFF/AFP via Getty Images/One Football)

A Inglaterra seria a próxima adversária da Argentina. A Inglaterra que, quatro anos antes, não havia sido adversária na Copa do Mundo, e sim na Guerra das Malvinas. O assunto era recorrente antes do jogo pelas quartas de final, ainda que os personagens das equipes evitassem o embate político. Maradona não queria o clima bélico, mas pretendia a revanche na bola. Na véspera, Diego se recusava a responder qualquer pergunta que envolvesse o tema.

“Se fosse pelos argentinos, tínhamos que sair com uma metralhadora cada um e matar Shilton, Stevens, Butcher, Fenwick, Sansom, Steven, Hodge, Reid, Hoddle, Beardsley, Lineker. Mas nós nos distanciamos dessa discussão. Eles eram apenas nossos rivais. O que eu sim queria era dar chapéus, canetas, chamá-los para dançar, fazer um gol com a mão e outro mais, o segundo, que foi o maior gol da história”, reconstruiu Maradona, em seu livro sobre a Copa.

“A verdade é que os ingleses tinham matado muitos garotos, mas se os ingleses são culpados, também são os argentinos que mandaram esses garotos enfrentarem sem recursos a terceira potência mundial. […] Não joguei a partida pensando que íamos ganhar a guerra, mas que íamos honrar a memória dos mortos, dar um alívio aos familiares dos rapazes e tirar a Inglaterra do plano mundial… do plano mundial futebolístico. Deixá-los fora da Copa, nesta instância, era como fazê-los se renderem”, complementou.

Maradona sofre falta de Terry Fenwick (Allsport/Getty Images/Hulton Archive/One Football)

Antes de entrar em campo, Bilardo fez referência a esse tributo na preleção. “Nós, quando falamos sobre a partida contra a Inglaterra, falamos sobre o jogo em si, mas Bilardo foi muito inteligente: nós estávamos representando os mortos. Mandaram os argentinos à morte. Nós acreditamos que os ingleses apertaram um só botão e mataram a todos. Então nós tínhamos que entrar em campo e jogar futebol pensando que se tirássemos a Inglaterra da Copa, teríamos vencido uma guerra futebolística. Isso era o que nos motivava”, conta também Diego, no filme ‘Maradona por Kusturica’. Foi naquela partida que o treinador faria trocas essenciais na equipe titular e acertaria a formação ideal até o título. Passaria a atuar com três zagueiros. A escalação contava com: Pumpido, Cuciuffo, Brown, Ruggeri; Giusti, Burruchaga, Batista, Enrique, Olarticoechea; Maradona, Valdano.

A Inglaterra vinha em recuperação no Mundial. Perdeu a estreia contra Portugal e só empatou diante de Marrocos, antes de assegurar a classificação ao vencer a Polônia e também passar por cima do Paraguai nas oitavas. Gary Lineker já despontava como artilheiro do torneio, assim como outros bons valores estavam à disposição – como Peter Shilton, Glenn Hoddle e Peter Beardsley. Já o técnico Bobby Robson evitava de falar em uma marcação individual sobre Maradona, embora temesse uma dose de otimismo exacerbado entre os ingleses durante aquele embate. A cautela era fundamental.

Seria um primeiro tempo bastante travado no Azteca, sem muitas chances de gol. A Inglaterra chegou a assustar após um escorregão de Pumpido, mas Beardsley não aproveitou a saída desesperada do goleiro e bateu ao lado de fora da rede. Já a Argentina, como sempre, dependia da faísca de Maradona. Mesmo que suas ações não terminassem no alvo, Diego logo mostrou do que seria capaz. Cada arrancada era seguida por uma perseguição desatinada dos adversários. Cada avanço deixava pelo menos dois ou três pelo caminho. Ainda assim, andava difícil destrancar a área inglesa e bater de frente com Shilton.

Maradona diante de Shilton, no Gol do Século – Foto: Imago / One Football

O melhor que Maradona conseguia para criar ocasiões de gol era sofrer faltas no limite da grande área – sem tanta violência, até porque um cartão amarelo aos nove minutos inibiu os britânicos. Foi este o meio de evitar que o Gol do Século se concretizasse na primeira etapa. Em uma dessas cobranças, Diego carimbou a barreira. Na outra, mandou ao lado da trave. Além do mais, com a defesa dos Three Lions cerrada, muitos dos passes de Maradona não rendiam tabelas – mesmo entregando um sem fim de efeitos nos toques aos companheiros.

O segundo tempo é que, de fato, guardaria a história. E bastariam cinco minutos para que ela começasse a ser escrita. A ‘Mão de Deus’ apareceu ali. Cabe lembrar, contudo, que o tento mais polêmico das Copas nasceu a partir de uma genialidade de Maradona. O camisa 10 fintou três adversários, antes de entregar para Valdano. Quando o atacante tentou devolver, Steve Hodge cortou para o meio da área. Foi aí que Diego entrou rasgando, se antecipando a Shilton, para o toquezinho de punho fechado que só os árbitros não viram.

“‘Essa é minha’, pensei. ‘Não sei se vou ganhar, mas eu tento. Se fora pra marcarem a falta, marcarão’. Saltei como uma rã e isso foi o que não esperava Shilton. Ele pensava, creio, que eu ia me chocar com ele. Mas saltei como uma rã, veja as fotos; isso é o que fala como estava meu corpo. Ganhei de Shilton porque fisicamente estava feito uma fera. Ele saltou, sim, mas eu saltei antes, porque vinha olhando a bola e ele fechou os olhos. […] Se você olha as fotos, a diferença que há de Shilton a mim em relação à bola é grande. Shilton nem aparece. E, se você olha os pés, já estou no ar, sigo subindo, e ele continua no chão”, recontaria Maradona, em seu livro.

Maradona e a mão de Deus (Allsport/Getty Images/One Football)

“Olhei ao árbitro, que não tomava nenhuma decisão. Olhei ao bandeira, o mesmo. E fui correndo comemorar. Decidi o que eles não se animavam a decidir. Bennaceur, depois me contou, olhou ao bandeira. E o bandeira, que era um búlgaro, ficou esperando o árbitro. […] Depois eles brigaram por isso, creio, porque um disse que o outro era culpado. Eu segui correndo, sem olhar para trás. Chegou Batista antes de todos, mas muito lento, como se pensasse para não anularem. Eu queria que viessem mais, mas só vieram Valdano e Burruchaga. Bilardo tinha proibido de irem os meio-campistas festejar o gol, porque não queria que se cansassem. Mas desta vez precisava, precisava… Creio que eles não queriam olhar para trás, com medo de que anulassem. Batista me perguntou se foi com a mão e pedi para que fechasse a boca, que seguisse festejando”, continuaria.

A Inglaterra ainda estava grogue pelo tento irregular quando, apenas quatro minutos depois, nasceu o Gol do Século. O mais puro momento do Maradona genial que eclodiu em 1986. Surgiu então o ‘barrilete cósmico’, como alcunhou magistralmente para sempre o narrador Victor Hugo Morales, que inglês nenhum conseguiria parar. Um lance estupendo no maior dos palcos, que mais parecia uma peripécia nos campinhos de terra batida aprontada por um garoto. O Pibe, de Oro, Maradona. Sua imaginação foi capaz de antever o zigue-zague estonteante na defesa dos Three Lions. Só seus pés dominariam a arte de concretizá-lo. Os dois primeiros adversários para trás, num giro, antes da linha central. A arrancada pela direita, entortando o terceiro. O quarto, no vácuo, até que Shilton ficasse caído diante dos pés da lenda. E quando Terry Butcher tentou freá-lo num carrinho duro, nada mais impediria o caminho da bola às redes. De Diego à plena memória.

“Esse gol para mim tem uma música. E a música é a narração de Víctor Hugo Morales. Esse gol me fizeram ver e escutar em inglês, em japonês, em alemão. Até, um dia, me fizeram um vídeo no qual a bola ia para fora. Mas a narração de Víctor Hugo é única. Volto a me emocionar, como da primeira vez. […] Essa narração e as palavras do meu pai, depois, foram um prêmio. Um prêmio como a Copa. Meu velho nunca foi de fazer elogios. Mas, depois da partida, ele me deu um abraço e me disse que fiz um golaço. E me contou que se desesperava enquanto via a jogada, porque pensava que eu não ia chutar nunca, que eu ia cair ou que iam me derrubar. Então, terminei de tomar consciência do que havia feito, seguro de que tinha sido algo muito grande”, recontou Maradona, em seu livro. Para ele, gols mais bonitos podem vir. Mais importantes à Argentina, impossível – quatro anos depois da guerra e naquele contexto.

Houve um jogo além disso. E um jogo muito difícil à Argentina. Os ingleses passaram a chegar mais firme em Maradona, de tornozelo inchado por causa do carrinho de Butcher e que precisou de atendimento médico por uma pancada na nuca. O camisa 10 passaria a jogar mais rápido, soltando a bola aos companheiros com toques de inteligência. Porém, a Albiceleste também precisou lidar com a pressão em sua área. Liderada por Ruggeri, a zaga continha os cruzamentos. Pumpido realizou grande defesa em cobrança de falta de Chris Waddle. E o sufoco aumentou com a boa entrada de John Barnes, a 15 minutos do fim.

Seria de Barnes a jogada ao gol que descontou a diferença à Inglaterra, aos 35, num avanço pela esquerda desferindo o cruzamento para Lineker cabecear. A Argentina quase fez o terceiro na sequência. De novo, conduzida pela habilidade de Maradona. O camisa 10 deixou dois adversários falando sozinhos, com um lindo giro sobre a bola, e passou a Carlos Daniel Tapia quando outros dois fechavam seu caminho. A tabela permitiu ao substituto avançar à entrada da área e bater rasteiro, mas carimbou o poste.

Os minutos finais veriam um Diego abnegado, prendendo a bola nas pontas e gastando o tempo. Mas também dependeu da fé dos argentinos, aos 42, quando Barnes cruzou e Lineker não conseguiu pegar em cheio na bola, mesmo a meio metro do gol. A nuca de Julio Olarticoechea salvou. Era o alívio da vitória albiceleste, com sabor de revanche além do futebol.

“O gênio deslumbrante. O jogador único, que só por estar em campo delata as limitações dos demais. Várias jogadas de classe suprema. Um gol de vivo e outro para a história do futebol. Capaz de deixar definitivamente todo o estádio em apoio de sua equipe por admiração e agradecimento. E o mais importante, talvez, terminar com a velha dúvida: ser grande nas horas mais difíceis. Mandou quando se precisava e desequilibrou quando se precisava, como vem fazendo e vem demonstrando desde que começou este Mundial”, eram as palavras da revista El Gráfico, depois do jogo.

“Mais uma vez, Diego Maradona foi o dono da festa. Além de ter sido uma grande atuação, confirmando também sua condição de grande líder dentro do campo, ele marcou um gol de placa. Era o gol do gênio, do melhor jogador da Copa no momento. Maradona mostrou grande experiência também no lance do primeiro gol, que marcou com a mão, ao sair comemorando o lance como se tivesse sido legal. O árbitro correu para o centro do campo e confirmou, apesar dos protestos dos ingleses. No final, a seleção inglesa acabou reconhecendo que, para ser um craque completo como Maradona, é preciso ter muita malícia e esperteza”, analisou o Jornal dos Sports.

“Genialidade e esperteza. Com essas armas, Diego Maradona não só levou a Argentina às semifinais, deixando desesperados os ingleses todas as vezes em que dominava a bola, como consolidou a condição de maior jogador desta Copa. Do esperto foi o gol de mão – num lance tão rápido que iludiu o juiz e o bandeirinha. Do gênio, o gol que decidiu a partida – uma jogada rápida, com dribles desconcertantes em três adversários e um toque perfeito para o fundo das redes”, apontava o Jornal do Brasil.

Maradona festeja no Azteca – Foto: Imago / One Football

Bilardo salientava na época a entrega de Maradona: “A Argentina tem a felicidade de ter estas duas coisas ao mesmo tempo: a genialidade de Diego e um sentido de conjunto extraordinário. Maradona, hoje, tem qualidades de homem inigualáveis. Vocês precisam privar da sua intimidade para saber o que isto significa para o grupo de jogadores da Argentina. Ele coloca o seu talento mágico a serviço da coletividade, de uma causa comum. Nunca em seu próprio benefício. Aí reside o segredo”.

Sir Bobby Robson, do outro lado, também se rendia: “De vez em quando o mundo produz jogadores como Maradona. Foi um dos gols mais bonitos que já vi em toda a minha carreira. O Maradona enganou até a mim, que estava no banco. É um gol que vai entrar para a história do Mundial. Pena que tenha sido contra a Inglaterra. A Argentina não depende apenas do Maradona. O time está muito bem arrumado. Por isso, não quis fazer uma marcação especial sobre Maradona. Tinha certeza de que não adiantaria de nada”.

Maradona mantinha uma dose de humildade, mas com sua ironia: “A vitória pertence a todos, não só a mim, e a dedico também aos que criticam a nossa seleção. Em 1980, em Wembley, também contra a Inglaterra, fiz uma jogada parecida, mas perdi o gol por vacilar no último drible. Desde então, meu irmão menor me cobra esta jogada. Ele dizia que eu devia ter dado mais um drible. Quando peguei a bola neste jogo e vi que poderia fazer a mesma jogada, lembrei-me do meu irmão. Ao driblar o número 14 deles, pensei comigo mesmo: essa não tem jeito. E não teve mesmo. Já o outro gol foi feito um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”.

Por fim, em seu livro, Maradona deixou para trás qualquer tipo de mágoa: “Aquilo era uma partida de futebol e assim interpretamos todos. Porque os ingleses foram cavalheiros conosco. Inclusive depois que ganhamos, foram nos saudar, trocamos camisetas nos vestiários. Te digo: querem me fazer inimigo da Inglaterra e não sou”.

Argentina 2×0 Bélgica

Maradona celebra a classificação à final (STAFF/AFP via Getty Images/One Football)

Com França e Alemanha Ocidental de um lado das semifinais, a Argentina não era vista coletivamente como a melhor equipe da Copa do Mundo. Porém, a forma irresistível de Maradona reforçava o favoritismo da Albiceleste. E o time manteria essas condições contra a Bélgica, por uma vaga na decisão. Os Diabos Vermelhos tinham um conjunto fortíssimo e com boa dose de experiência, estrelado por Jean-Marie Pfaff, Eric Gerets, Enzo Scifo e Jan Ceulemans. Fez uma fase de grupos morna, mas eliminou nos mata-matas União Soviética e Espanha, dois oponentes em ascensão. De qualquer maneira, o temor sobre aquilo que poderia fazer Diego era maior entre os belgas.

“A Argentina tem um grande time, que não vive apenas do Maradona. Existem outros muito perigosos, como Valdano e Burruchaga. Mas o Maradona é sempre Maradona e com ele não se pode brincar”, dizia Pfaff, considerado um dos melhores goleiros do mundo, ao Jornal do Brasil. O que complementava Scifo: “Ele não pode ficar livre um instante sequer, porque mostrou contra a Inglaterra que um descuido pode ser fatal. Temos que vigiá-lo atentamente, enquanto a partida durar”.

O primeiro tempo no Estádio Azteca veria uma Argentina mais solidária. Maradona teve suas arrancadas geniais, mas valorizava mais o jogo da equipe com toques rápidos e tabelas. A Albiceleste se mostrava mais confiante nas jogadas, com os companheiros se apresentando cada vez mais. O principal lance da equipe, ainda assim, dependeu de Diego. O craque mandou um petardo de fora da área e Pfaff espalmou com dificuldades. Valdano até completou para dentro no rebote, mas usou o braço. Não era Maradona e o tento foi anulado. Já do outro lado, a Bélgica apostava na velocidade. Seu melhor avanço veio num contragolpe, três contra um, mas a marcação errada do impedimento ajudou os argentinos.

Maradona jogava um pouco mais pelo meio, e era por lá que o craque fazia suas jogadas sensacionais, com lindos passes para acionar os companheiros e dar fluidez ao ataque. Logicamente, também avançava e deu ótimos serviços a finalizações não tão boas dos colegas. Os belgas tentavam apertar a marcação, muitas vezes dobrada, mas andava difícil anular o gênio naquele Mundial. E seria impossível, a partir do segundo tempo.

Maradona anota seu gol contra a Bélgica (STAFF/AFP via Getty Images/One Football)

Maradona abriu o placar aos seis minutos. O toque especial, desta vez, seria de Burruchaga. O camisa 7 descolou um passe fantástico, com a parte de fora do pé. Diego se infiltrou na área e, mesmo acompanhado por dois, conseguiu dar um toquinho na saída de Pfaff, antes de correr para o abraço. A Bélgica chegou a ter a chance do empate logo depois, mas a Argentina era bem mais agressiva, com Olarticoechea forçando um milagre de Pfaff. Aos 18, Maradona trataria de concluir o placar. Cuciuffo deu o passe ao 10 na intermediária, com três à sua frente. Diego deu um jeito de encontrar a mínima fresta e passar pelo meio da barreira humana. Escapou de mais um adversário e, diante de Pfaff, tirou do alcance do goleiro.

“Não, por favor. Não me venham comparar o gol contra os ingleses com esse contra a Bélgica. Eu disse ao meu irmão, que foi o primeiro a comparar, e a todos: não me digam que esse gol é melhor. O gol contra os belgas é lindo, mas é um gol que pode se fazer em qualquer partida. Arranca por potência das pernas, com isso desequilibra o marcador e depois crava no segundo pau. Eu estava demasiado rápido, demasiado, e não necessitava nem sequer simular uma falta, porque matava a todos com a velocidade que tinha. Por isso, não há segredo neste gol. Ou sim, um só: a esta altura da Copa, quando chegou a hora de jogar a semifinal, nos sentíamos invencíveis. E não sabíamos, neste momento, que estávamos jogando contra a melhor Bélgica da história”, disse Diego, em seu livro.

Aquele segundo tempo teve muito mais de Maradona. Chapelou os belgas. Chegou a dominar uma cobrança de escanteio dos adversários com o peito. Emendou dribles. A bola não saía de seus pés nem quando era derrubado, levantando-se e infernizando um pouco mais os defensores. Quase fez o terceiro num lindo lance pela esquerda, em que tirou tinta da trave. E só não deu assistência porque, depois de um avanço até à linha de fundo à direita, quando Pfaff estava em seus pés, Valdano errou o alvo com a meta escancarada. A vaga na final, de qualquer forma, estava consumada.

“Maradona nunca me deu trabalho. Sempre cumpriu os horários, não se queixa de nada. Maradona está no auge de sua forma, tanto física como técnica, e hoje é um homem que sabe muito bem o que quer, luta para conseguir seu objetivo”, diria Bilardo, ao final do dia. Guy This, o comandante da Bélgica, era categórico: “Se tivéssemos Maradona, estaríamos na final. Ele é, de fato, o melhor do mundo. Qualquer time que tenha Maradona leva uma enorme vantagem. Sozinho, ninguém consegue pará-lo”.

“Maradona foi irrepreensível. O toque de gênio que a Copa precisava. Seus dois gols premiaram o futebol. Criou quase todas as jogadas da Argentina, soube sair da marcação, recuando para o meio do campo ou caindo pelas pontas, e mostrou uma enorme consciência ao brigar pela bola quando sua equipe era atacada. Uma exibição primorosa. Se Valdano concluísse com precisão os lances que ele criou, a Argentina poderia ter saído de campo com uma goleada”, avaliava o Jornal do Brasil.

No Jornal dos Sports do dia seguinte, se exaltava: “Maradona e mais 10. Maradona desequilibra. Maradona vai levar a Argentina ao título. Todas essas frases, ditas durante os primeiros jogos da Copa, foram repetidas quando o craque argentino liquidou a Bélgica, no Estádio Azteca, levando sua equipe para a final com a Alemanha Ocidental, domingo. Ninguém sabe o que acontecerá na decisão. No entanto, uma coisa já é certa: Maradona é o craque do Mundial de 1986”.

“Tínhamos feito dois na Bélgica. Eu queria fazer mil! Não por eles, mas por todos os demais, por aqueles que nos haviam matado sem piedade. A esta altura, a Alemanha de Rummenigge estava eliminando a França de Platini e o Brasil de Zico já estava em Copacabana. Faltava uma partida para demonstrar o que sentia, que era o melhor. Tinha uma confiança bárbara, para ganhar de qualquer um. […] Eu queria dar mais, cada dia mais, aos argentinos. E nesse Mundial eu estava conseguindo. Faltava a mim, a nós, um passinho. Nada mais, nada menos”, contaria Maradona, em seu livro.

Argentina 3×2 Alemanha Ocidental

Maradona e a taça -Foto: BONGARTS / Imago / One Football

Maradona não teria seu encontro particular com Michel Platini, desafeto da Serie A, contra quem não fazia questão de esconder as diferenças. A França caiu diante da Alemanha Ocidental na outra semifinal. A Mannschaft tinha uma equipe que mesclava bem experiência e juventude, com algumas claras lideranças. Além disso, vinha mordida pelo vice-campeonato quatro anos antes. Treinada por Franz Beckenbauer, não encantou, mas mantinha sua eficiência. Todavia, diferente do que se via na Argentina, não era um elenco unido o suficiente nos bastidores. E não tinham Maradona, apesar de todo o reconhecimento ao veterano Karl-Heinz Rummenigge.

“Nossa equipe, admito, tem menos preparo físico, mas é um time brilhante, que sabe fazer de seu futebol um instrumento perigoso. Estou convencido de que só o esforço físico não é suficiente para derrotar a Argentina. É preciso, também, uma centelha de gênios, e essa nós temos. A Alemanha é o rival mais temível, porque tem individualidades e, também, uma força de conjunto que, pelo que demonstrou contra a França, parece indestrutível”, diria Maradona, antes da decisão, segundo o Jornal dos Sports.

No Jornal do Brasil, Diego seria até profético: “Sei como será a marcação. Para a Argentina, vai ser ótimo. Eles me marcam, e Valdano e Burruchaga vão lá e fazem os gols necessários para que conquistemos o título. O ideal até era que fosse um gol de Pumpido. A Argentina não é favorita coisa nenhuma. Saímos de lá criticados por todos. Chegamos aqui e não éramos, nem contra a Coreia. Agora, vários jornalistas mudaram o conceito sobre a gente. Mas nós vamos continuar jogando nosso futebol humilde e provar que a Argentina estava preparada para conquistar esse título desde o início. Quem falou mal agora tem que voltar atrás”.

Maradona cumprimenta Rummenigge – Foto: Imago / One Football

Craque da Alemanha, Rummenigge garantia que Diego teria seu jogo mais difícil: “Ele fez gols sensacionais, foi o melhor, sem dúvida. Mas sua tarefa foi facilitada pelos adversários, que tentaram marcá-lo por zona, o que é impossível. Maradona precisa de uma férrea marcação homem a homem, precisa ser anulado. Eu sei como ele tem problemas no Napoli, onde é submetido a uma estrita marcação pessoal. É isso que vamos fazer”. Beckenbauer, por sua vez, armava a equipe para mais: “Acredito que possamos anular Maradona, mas é lógico que apenas isso não será suficiente. A seleção argentina conta com um goleiro excelente e uma defesa dura, quase violenta. Mas estamos muito tranquilos e aguardamos a hora do jogo sem qualquer impaciência, sem qualquer tensão”.

Uma das lideranças da Argentina, Valdano não economizava elogios: “Pode ter alguns jogadores que se sintam constrangidos em admitir que, sem Maradona, nosso time cai mais de 50%. Mas eu não me sinto nem um pouco envergonhado. Ainda bem que ele joga na minha seleção. Sem ele, nosso time não seria a mesma coisa”. O que endossava Batista: “Ainda bem que ele joga do meu lado. Já pensou se eu fosse alemão e tivesse que marcá-lo na decisão? Seria terrível. O Maradona é simplesmente fantástico. Não existe nada igual e todos nós temos que dar vivas porque ele nasceu argentino”.

Mas não que Diego estivesse tranquilo na noite anterior à finalíssima. “Quando minha esposa Claudia viajou a Buenos Aires para ter Dalma, soube o que era estar nervoso. Mas aquela noite, a noite prévia à final, não podia dormir. Nunca havia acontecido comigo antes e nunca mais me passou depois: a mim, o futebol nunca deixou nervoso. Por que ia estar nervoso se eu sabia o que tinha que fazer? No futebol, a coisa é fácil: ou o rival te tira a bola ou você o dribla. E eu estava convencido naquele momento de que não havia um só rival que podia me tirar a bola. Mas do mesmo jeito não podia dormir. Não havia maneira”, contou Maradona, em seu livro. “Eu não tinha medo. Tinha vontade que a partida começasse já, o quanto antes. Não queria me cansar esperando. Havíamos esperado tanto por esse momento, havíamos lutado tanto para chegar ali. Não, não era medo de perder. Era medo de que a hora de jogar não chegasse nunca. Pelo menos para mim”.

A Argentina campeã: Batista, Cuciuffo, Olarticoechea, Pumpido, Brown, Ruggeri e Maradona; Burruchaga, Giusti, Enrique, Valdano (Bongarts/Getty Images/One Football)

No Estádio Azteca, Argentina e Alemanha Ocidental fizeram uma partida pegada. As maiores emoções no início do jogo vinham em bolas paradas, com as defesas travando os ataques. E seria assim que a Albiceleste deu um passo à frente no placar, aos 23, num avanço pela direita em que Maradona deu de calcanhar a Cuciuffo e o zagueiro foi derrubado. Burruchaga se encarregou da cobrança da falta e meteu no segundo pau. Toni Schumacher não achou nada e o talismã Tata Brown cabeceou à meta escancarada. A Mannschaft não ameaçaria tanto o empate durante o primeiro tempo, no máximo em uma bola esticada a Rummenigge, que pegou mal.

Maradona não era exatamente discreto naquela primeira parte da decisão, mas não era o mesmo furacão dos três jogos anteriores. O craque via uma marcação bem mais colada de Lothar Matthäus, com o líbero Ditmar Jakobs o espreitando na sobra. “Aos três minutos, me fizeram a primeira falta. E em seguida me dei conta que ia ter Matthäus em cima. Não era uma marcação individual comum. Não era Rolff, que mandaram sobre Platini. Não, o meu sabia jogar. Lothar tinha um físico tremendo, mas não era grande. Rápido, era muito vivo para marcar e, se roubava a bola, dava redonda a um companheiro. Podia jogar de 10, de 8, e terminou a carreira de líbero. Um craque. E um amigo, também. Mas, naquela tarde, era meu inimigo, meu principal inimigo”, diria Diego, em seu livro.

Maradona precisava voltar demais para escapar da perseguição e não tinha tanta penetração. Também recebeu um cartão amarelo logo aos 17 minutos, por reclamação. Apesar disso, foram duas boas chances para Diego balançar as redes na primeira etapa, além da participação na falta que gerou o gol. Viu que, caindo às pontas, tirava Matthäus do raio central e abalava as estruturas da defesa alemã. Pouco depois do tento, o meia ganhou uma cobrança de falta frontal. Arriscou no canto do goleiro e Schumacher encaixou. Já nos minutos anteriores ao intervalo, Maradona protagonizou uma linda tabela com Ricardo Giusti, que botou o gênio de frente para o crime com um bolão de calcanhar. Schumacher, entretanto, se antecipou e chutou a bola contra as pernas do argentino.

Maradona contra Matthäus na decisão (STAFF/AFP via Getty Images/One Football)

O segundo tempo começou com a Argentina acelerando. Maradona era mais um, entre os companheiros que estavam a mil – em especial Burruchaga, Enrique e Valdano. A defesa alemã-ocidental travava como podia. Durante os primeiros minutos, Tata Brown também foi personagem, ao deslocar o ombro e seguir em campo heroicamente, improvisando uma tipoia com um furo no centro da camisa. Nem isso atrapalharia a Albiceleste em seu segundo gol, aos 11. Maradona deu início ao lance, ao girar no meio e acionar Enrique. O meia disparou, com as opções de Burruchaga e Valdano mais à frente. Enquanto Burru abriu a marcação à direita, Valdano recebeu com liberdade à esquerda e ampliou.

Neste momento, Maradona passou a ter mais campo para arrancar, com a Alemanha Ocidental se mandando ao ataque. A defesa, ainda assim, mantinha um tempo de bola perfeito para marcá-lo – sobretudo os dois zagueiros, Karlheinz Förster e Hans-Peter Briegel. E o Nationalelf reagiria. Rudi Völler já tinha entrado no intervalo, enquanto Dieter Hoeness aumentaria a presença de área depois do segundo tento. Foi com eles que os alemães renasceram no Azteca. Aos 29, depois de uma cobrança de escanteio, Völler desviou no primeiro pau e Rummenigge completou de carrinho. Já aos 38, a jogada se repetiria. Desta vez Andreas Brehme mirou o segundo pau e Thomas Berthold ajeitou para Völler mandar para dentro.

“Quando eles fizeram o segundo gol, eu me lembrei do meu pai e isso do sangue dos alemães, que precisa matar e rematar para ganhar deles. Mas, a verdade? Jamais me passou pela cabeça que a partida escaparia da gente quando empataram. Se eu já pedia a bola, comecei a pedir em dobro. Tinha que inventar algo, mas diante de mim havia 11. Nós tínhamos que parecer 22. E isso aconteceu. O time deu a cara”, relembraria o 10.

Era de se imaginar que a Alemanha pudesse virar, até por estar motivada pela reação. Aí se concentrou seu erro. O time partiu para cima, na tentativa de resolver a decisão no tempo normal. A Argentina sabia que precisava de um golpe fatal o quanto antes. Não se abalou. E teve, pela última vez, um Maradona decisivo. Não aquele Maradona que carregava o time adversário inteiro em seus calcanhares, mas sim o companheiro, que sabia confiar no potencial de quem estava ao seu lado. Como anteviu às vésperas do jogo.

Maradona logo fez estrago na defesa alemã-ocidental. Driblou três e só foi parado com falta. Aquele ato, certamente, deixou os adversários de sobreaviso. Então, ao receber uma bola de Enrique no círculo central, Diego foi mais esperto. Três oponentes o cercavam, enquanto havia um quarto na sobra. De primeira, o camisa 10 já lançou cirurgicamente Burruchaga. O meia avançou sozinho, com Valdano como opção ao lado e Briegel desesperado tentando alcançá-lo. Pôde invadir a área e, na saída de Schumacher, finalizar por baixo do goleiro. O gol da consagração, aos 41. O gol de Burru, com passe do supermarcado Maradona, ainda desequilibrando. “Burru era o cara que tinha que pegar a bola quando eu não fazia isso. E ele conseguiu. Foi, como todos, crescendo à medida que avançava a Copa. Na sétima partida, era uma maravilha”, diria Diego, no livro.

O tento esfriou a Alemanha Ocidental. Não Maradona, que ainda queria aprontar das suas. Passou no meio de dois, resistindo à falta, e quando entrou na área foi derrubado por Schumacher. O árbitro Romualdo Arppi Filho negou a vantagem e o pênalti, marcando a infração no primeiro lance, fora da área. Diego cobrou e Schumacher buscou no cantinho. Depois, ainda daria uma enfiada magistral de calcanhar a Enrique, mas o companheiro bateu mal na tentativa de encobrir o goleiro. Bastava. Com os 3 a 2 no placar, a Argentina era campeã do mundo. A taça acabava nas mãos do capitão, do 10, do craque. Do ovacionado Diego Armando Maradona, incontestável.

Maradona comemora o apito final – Foto: Imago / One Football

Mesmo na saída de campo, Diego foi equipe, e não indivíduo. “O mais importante é que nosso time soube se impor e vencer a Alemanha com um futebol solidário. Eu não pude fazer o gol, que poderia me tornar artilheiro da Copa, porque estive todo o tempo muito marcado. Faltou espaço para jogar, mas não faz mal. A Argentina mostrou que tem um time de futebol coeso, que joga para o conjunto. As individualidades não existem. Eu não sou absolutamente nada sem Valdano, Burruchaga, Pasculli, Brown e outros. Acho que todos os jogadores da Argentina são os melhores do mundo, porque somos campeões”, comentou, na época.

No dia seguinte, o Jornal do Brasil escreveu: “Diego Armando Maradona é campeão do mundo e a Argentina também. A dupla marcação alemã sobre Maradona não deixou espaços para que o grande craque desta Copa do Mundo repetisse as prodigiosas atuações individuais com as quais deslumbrou o mundo nas inesquecíveis partidas contra a Inglaterra e a Bélgica. Mas Maradona talvez tenha realizado a sua mais inteligente e importante partida em toda a Copa. Nunca foi tão decisivo conduzindo menos, para que a seleção se afirmasse em campo como uma equipe e chegasse ao título com a justiça que também assinala os méritos da Alemanha”.

“Implacavelmente amarrado pela marcação individual, Maradona resolveu jogar para a equipe. E assim não foi um campeão individual, submetendo o resto da equipe à humilhação de não merecer o título. O número 10 andou por todo o campo arrastando o seu marcador e alargando brechas para as infiltrações de Valdano e Burruchaga. Curioso é que a expectativa que se foi adensando como uma moldura para encaixar Maradona como o rei absoluto e indiscutível da Copa em nenhum instante desaguou na frustração”, completava a página de esportes do JB.

Maradona apaixonado pela taça – Foto: Imago / One Football

Em sua coluna no mesmo jornal, Sandro Moreyra era mais incisivo: “Desde a Copa de 1962, quando Garrincha praticamente ganhou o título sozinho para o Brasil, não vejo um jogador desequilibrar tanto uma Copa e, como Garrincha, ganhá-la sozinho para seu time. Maradona fez isso. Ele deixou a lembrança de gols e jogadas, autênticas obras-primas. Ganhou por unanimidade o título de melhor jogador do mundo e, na verdade, desde Pelé não se via um craque tão completo. É o novo rei do futebol”.

Maradona caiu de joelhos no gramado, antes de festejar com os companheiros e subir às tribunas para receber a taça. Segundo suas próprias palavras, “agarrou o troféu como se fosse um filho e o apertou contra o peito”. Sentindo-se um menino, o Pibe de Oro, dedicou aquela conquista a todas as crianças. Depois, na concentração do América, os argentinos chegaram a dar uma volta olímpica particular no campo de treinamentos. Já em Buenos Aires, a comemoração seria em grande estilo, na sacada da Casa Rosada. Diego, ainda assim, voltaria a Villa Devoto. Retornaria à casa onde seus pais viviam. Uma multidão fez vigília no local por dias, para saudar o seu herói. Ali, ficava claro o valor da conquista à sua gente.

“Esse foi o momento mais sublime da minha carreira, não há nada que se possa comparar. Pela forma, além do mais. Terminamos invictos, fizemos 14 gols, ninguém nos superou. Não foi apenas minha Copa sonhada: foi o verdadeiro Mundial dos argentinos. Dou muito mérito à seleção de 1978, porque sem Menotti e sem esse título, nós seguiríamos sendo campeões morais com vitrines vazias. Mas o mais lutado, o mais sentido, o mais merecido e o mais indiscutível é o nosso, o do México em 86. Falo dessa Copa e meu rosto se ilumina. E continuará se iluminando até o dia em que eu morrer”, finaliza Diego, 30 anos depois de eternizado. “Muitos anos depois, dou conta que ser feliz é fazer felizes os demais. E creio que os argentinos foram felizes com o que fizemos no México”. Indubitavelmente.