A Colômbia tem a sua primeira campeã da Libertadores. O Atlético Huilia venceu o torneio neste domingo, depois de empatar com o Santos por 1 a 1 e vencer nos pênaltis por 5 a 3. Entrou para a história do torneio ao sagrar-se como a primeira equipe colombiana a levantar a principal taça de clubes do continente no futebol feminino. O time não era o favorito, ainda mais com a disputa acontecendo na Arena Amazônia, em Manaus. As vitórias contra Iranduba, o time local, e o Santos, ambas nos pênaltis, levaram as colombianas às glórias. Um título que ajudou as colombianas a darem voz a uma reclamação contra os dirigentes e para que a liga local seja preservada.

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O empate por 1 a 1 foi conquistado a duras penas. Logo a dois minutos de jogo, o Santos abriu o placar com um gol de Brena. Mais do que isso, dominava a partida, a bola, e criava chances. Perdeu diversas oportunidades de matar o duelo, com Alanna, Ketlen e Maria. O segundo gol não saía e as colombianas tentavam primeiro se defender e, depois, tentar atacar.

O Atlético Huila o empate depois de escanteio cobrado por Yoreli Rincón, uma saída errada da goleira santista, Nicole, e Gavy Santos aproveitou para marcar. Empate por 1 a 1, disputa nos pênaltis e vitória por 5 a 3, com a última cobrança sendo de Yoreli. Título colombiano, com bandeira também argentina.

A principal jogadora do time é a colombiana Yoreli Rincón, que leva um sobrenome que já fez história no futebol, embora não tenha nada a ver com aquele Rincón famoso no futebol masculino. Atual camisa 10 da Colômbia, a jogadora tem uma história de superação que é típica do futebol feminino. Aos 11 anos, foi observada pelo talento pelo técnico Víctor Hugo González, que propôs que ela jogasse entre os homens. Sem poder ter futuro atuando assim, passou a procurar times femininos. Foi para o Tolima, onde passou em um teste e passou a integrar a equipe feminina.

Em 2007 foi campeã nacional com o Tolima, foi convocada à seleção sub-17 e tinha a estrela que brilharia na sua carreira. Jogou o Sul-Americano da categoria, no Chile, e classificou o time ao Mundial daquele ano, na Nova Zelândia. “Essa foi uma alegria muito grande, sempre sonhei em estar em um Mundial e conseguir isso era algo muito importante, é algo indescritível”, afirmou à jogadora ao jornal El Tiempo.

Ela jogou no Brasil, defendendo o XV de Piracicaba. Jogou por diversos times, no Malmö na Suécia, no New Jersey Wildcats, nos Estados Unidos, no Torres, da Itália, no Avaldsnes, na Noruega, voltou à Colômbia para jogar pelo Patriotas. Neste ano, em 2018, passou a defender o Atlético Huila, conquistando esse título histórico. Jogou pela seleção colombiana sub-17, em 2008, pela sub-20, em 2010, mesmo ano que estreou no time principal. Aos 25 anos, é a camisa 10 da seleção.

Outra das estrelas do time é Carmen Rodallega, outra que carrega um nome representado também no futebol masculino. Aos 35 anos, a lateral traz a experiência para o time colombiano. Na seleção desde 2010, é companheira de Yoreli Rincón na seleção do país. Se com a companheira o nome é só uma coincidência, no caso de Carmen há um parentesco: ela é prima de Hugo Rodallega, atualmente com 33 anos e que joga no Trabzonspor, da Turquia. É formada em esportes pela Escuela Nacional de Deporte.

Liana Salazar, de 26 anos, é outra jogadora importante na conquista. Meio-campista colombiana, ela também joga pela seleção e brilhou jogando nos Estados Unidos, pela Universidade de Kansas. Jogou também no Santa Fe, clube da sua cidade, Bogotá. É mais uma da seleção colombiana, do qual o Huila é parte importante.

Nem só de colombianas vive o time. A goleira, Daniela Solera, teve um torneio para se consagrar. Nascida em Alajuela, na Costa Rica, ela também jogou com homens, algo muito comum na trajetória das jogadoras. A goleira viveu um momento terrível em 29 de abril, quando teve que sair de campo com uma convulsão, em um jogo contra o Cúcuta, pela liga feminina colombiana. Na Libertadores, em Manaus, foi fundamental para vencer o Iranduba e o Santos, na final, quando defendeu o quarto pênalti das brasileiras e o time colombiano ficou com a taça.

O time tem três jogadoras argentinas, Eliana Stábile, Fabian Vallejo e Aldana Cometti, todas que cobraram penalidades e marcaram na disputa final. Além delas, Lucia Martellí, outra argentina, marcou o gol do time colombiano na semifinal contra o Iranduba, 1 a 1, que depois foi vencido nos pênaltis.

O futebol feminino na Colômbia ainda está em risco e só recentemente a liga conseguiu garantir mais uma edição em 2019. O Huila levou muito a sério a preparação para chegar bem a esta competição e conseguiu surpreender, saindo do Brasil como campeã. E o êxito levou Yoreli Rincón a um desabafo.

“Muitos nos tratam como loucas, não davam um centavo por nós, não acreditavam que poderíamos ser campeãs continentais. Com a seleção, os resultados não se deram e não acreditavam em nós. Mas uma das razões foi quando os queridos dirigentes passaram recursos do futebol feminino ao masculino, assim, tínhamos que mostrar com feitos, porque com palavras não acreditariam em nós”, disse a jogadora ao programa Kick Off, depois do jogo.

“Se em seis meses de competição temos um campeão continental, isso mostra que precisamos seguir apoiando”, afirmou ainda a jogadora, em referência ao torneio feminino, que é de curta duração. Ela dedicou o título de modo especial. “Isto é para as mulheres, porque lutamos em muitos ambientes em que não somos valorizadas. Dedicamos isto aos dirigentes e até o presidente Duque, que administra os recursos. Eles sempre saem com camisas da seleção, mas com os homens, e não conosco. Se acaba a liga, como muitos querem, ficarão muitas mulheres desempregadas. Por isso precisamos de apoio”, declarou ainda a jogadora.

Como uma grande e importante representante do futebol feminino, ela foi ainda mais longe e fez um pedido. “Queremos uma liga decente de seis ou oito meses no mínimo, não queremos contratos de três meses como muitas jogadoras têm hoje em dia, com isso não podemos pagar nossos gastos”, desabafou Yoreli.

A jogadora ainda não sabe qual será o seu futuro. “Tenho sonhos muito grandes, no último ano fui campeã da liga e continental, mas ontem [domingo] foi um dos meus últimos jogos com o Huila, espero aproveitar agora e nos próximos dias decidirei, há várias propostas”, afirmou a jogadora.

Ela fez o seu papel. Briga para que a liga colombiana exista, seja duradoura. Haverá nove times competindo na liga feminina colombiana em 2019. Será obrigatória a participação de clubes que participam em competições da Conmebol no masculino, como um dos itens exigidos pela entidade. Segundo informação do Futbol Red, o calendário será definido ainda neste mês, no dia 19. Que o título do Atlético Hulia inspire dirigentes a buscarem uma forma de manter as jogadoras em atividade. Com o título, certamente a visibilidade melhora. É tempo de aproveitar.