As noites europeias têm um capítulo especial quando falamos de Anfield. O estádio do Liverpool é um palco com uma imensa história nas competições continentais, com times que entraram na história e um ambiente que torna a vida de qualquer adversário muito difícil. E como o estádio está acostumado, foi uma daquelas noites. Só que desta vez, não como os torcedores da casa estão acostumados. O Atlético de Madrid jogou à sua maneira, com um risco enorme, uma pressão imensa do Liverpool, que jogou muito bem, criou muitas chances, mas nada disso adiantou. Foram os Colchoneros que viveram uma noite memorável. Saíram de um 2 a 0 (com o segundo gol já na prorrogação) para uma virada para 3 a 2, que classificou o time com contornos dramáticos. Uma vitória tão incrível quanto dramática. Os atuais campeões estão eliminados da Champions League.

O famoso Anfield Road era uma arma do Liverpool para tentar a virada. A presença de Jordan Henderson em campo também. O time de Jürgen Klopp contou com quase todos seus jogadores. A única ausência foi o goleiro Alisson, substituído por Adrián. Fabinho, que não foi bem nos últimos jogos, ficou no banco. Entrou Alex Oxlade-Chamberlain.

No Atlético, a grande novidade foi o atacante Diego Costa, que entrou no lugar de Álvaro Morata. Ángel Correa e Saúl Níguez foram os jogadores de lado no meio-campo, com Thomas Partey e Koke pelo centro. Felipe e Stefan Savic formaram a zaga, com José Giménez no banco.

Com 13 segundos, o Atlético arrancou e teve uma chance com um passe de João Félix para o atacante Diego Costa, que recebeu e chutou, com perigo, mas para fora. Pode ter assustado a torcida presente no estádio, mas o barulho continuou intenso.

O Liverpool dominava a posse de bola, como era de se esperar, mas não havia uma pressão sufocante nos primeiros minutos. O primeiro lance que arrancou suspiros das arquibancadas veio em um chute forte de Oxlade-Chamberlain, pela direita. Ele bateu, o goleiro Jan Oblak espalmou para o lado e a bola foi para a esquerda, com a bola recuperada novamente pelos Reds.

O Liverpool trocava passes, tentava chegar, mas o cadeado estava bem fechado. Em uma perda de bola na lateral direita, Mohamed Salah tomou a posse de bola, tocou para o meio e Sadio Mané, com liberdade, chutou fraco, no meio do gol. O goleiro Oblak defendeu, ainda que em dois tempos.

A pressão aumentava. O Liverpool chegou mais uma vez aos 35 minutos, em um cruzamento da direita, que Roberto Firmino tentou o toque e, aparentemente, não conseguiu mais do que só raspar de leve na bola. Oblak fez uma grande defesa para impedir o gol. O Atlético conseguiu uma boa escapada aos 38 minutos, mas Henderson fez a falta para impedir o ataque. O árbitro não deu o cartão, mas poderia ter dado.

A trava do Atlético foi quebrada aos 42 minutos. Jogada trabalhada pela direita, com Oxlade-Chamberlain recebendo na linha de fundo, cruzando para a área e Georginio Wijnalgum, de cabeça, tocou para marcar: 1 a 0 para os Reds. A torcida em Anfield aumentou o volume. O barulho do estádio era forte.

No começo do segundo tempo, Salah teve uma chance, mas o chute foi muito fraco, em cima do goleiro Oblak. Aos cinco minutos, mais uma chance: Mané recebeu nas costas da zaga e finalizou, para fora. Mas o jogador estava impedido. Caso a bola entrasse, o gol seria anulado com o uso do VAR.

Diego Simeone resolveu mudar o time aos 55 minutos (10’/2T). Saiu Diego Costa, entrou Marcos Llorente. O atacante hispano-brasileiro não gostou nada da substituição e saiu falando poucas e boas, chutando garrafinha e tudo mais. Torcedores próximos ao banco do Atlético provocaram o atacante, que só olhou feio, mas não respondeu. Sentou-se, acolhido por companheiros.

O Atlético teve duas chances, ambas nos pés de João Félix. A primeira foi um chute murcho, tranquilo para Adrián. O segundo, novamente com Féliex chutando, o goleiro do Liverpool defendeu, mas espalmando para o lado e Correa quase chegou. O goleiro dividiu e agarrou a bola.

O Liverpool se posicionava no campo de ataque, até que errou um passe aos 61 minutos (16’/2T) e, Saúl Ñíguez, retomando a bola, foi ousado. Vendo o goleiro Adrián adiantado, mal dominou a bola e já chutou a gol, tentando surpreender o goleiro. Mandou para fora, mas assustou.

O segundo gol do Liverpool parecia próximo. Aos 21 minutos, Salah recebeu dentro da área, passou pela marcação e finalizou com o pé mais fraco, o direito. O goleiro Oblak defendeu, o lateral Robertson, no meio da área, tocou de cabeça, pressionado, e a bola tocou no travessão. A pressão continuava. Oxlade-Chamberlain chutou de fora da área, o goleiro Oblak espalmou e no rebote Robertson chutou, para nova defesa do goleiro do Atlético.

Os ingleses, mesmo melhores, continuavam perdendo chances. Em uma jogada trabalhada a partir de escanteio curto, Alexander-Arnold cruzou rasteiro para trás e Robertson chegou batendo, mas mandou longe do gol, aos 35 minutos. O Liverpool seguia rondando o Atlético, que se mantinha firme. O placar de 1 a 0 para os ingleses levava o jogo para a prorrogação.

Com Oxlade-Chamberlain cansado, Klopp o substituiu e levou a campo James Milner, aos 82 (37’/2T). O camisa 7, experiente, é também um excelente cobrador de pênaltis, caso se chegue a tanto. Foi a primeira mudança de Klopp. Os dois técnicos só tinham feito uma substituição até este momento do jogo.

Veio mais uma chance para o Liverpool aos 38 minutos. Em um cruzamento da esquerda para a área, Wijnaldum ajeitou de cabeça para Mané, com liberdade, dar um chute de voleio, mas errou por muito. Pegou mal na bola, que foi longe do gol. As oportunidades se empilhavam. Pouco depois, aos 86 minutos (41’/2T), Salah recebeu, passou pela marcação de Koke e, dentro da área, finalizou de pé esquerdo, buscando o ângulo. A bola foi fora.

O Atlético estava encurralado nos minutos finais. A pressão era gigantesca. Os Reds chegavam pelos dois lados, tentando e com os Colchoneros evitando finalizações no último momento. Em uma delas, Salah recebeu cruzamento de Robertson, ajeitou de primeira para trás e Alexander-Arnold chegou enchendo o pé. Foi travado no último momento.

A torcida do Liverpool foi parar na boca nos acréscimos. Renan Lodi cobrou falta da intermediária, Saúl Ñíguez tocou de cabeça, livre, leve e solto e colocou no ângulo. Só que o assistente imediatamente levantou a bandeira, anulando o gol. O replay mostrou que o camisa 8 do Atlético estava, de fato, claramente impedido. A celebração do Atlético acabou interrompida. O jogo foi encerrado logo em seguida. Com chuva em Anfield, o jogo teria mais 30 minutos com a prorrogação.

O primeiro lance da prorrogação já oi com Oblak aparecendo mais uma vez. O goleiro interferiu em um lance trabalhado pelos Reds, com Wijnaldum tocando para Alexander-Arnold, que devolveu em um passe inteligente, e o holandês chutou forte, cruzado. O goleiro do Atlético impediu.

Só que a pressão eventualmente venceu a muralha sob as traves. Mais uma vez em uma jogada trabalhada, Wijnaldum, na direita, cruzou perfeitamente na cabeça de Roberto Firmino. Ele tocou, a bola foi na trave, e no rebote, ele mesmo tocou para o fundo da rede: 2 a 0. Loucura em Anfield.

Só que o Liverpool viu um drama antigo se repetir. Em uma bola recuada, fácil, Adrián saiu jogando mal, João Félix interceptou, tocou para Marcos Llorente, que dominou e tocou no cantinho: gol do Atlético e 2 a 1 no placar. Isso significava que os colchoneros passaram a ter vantagem do gol fora de casa no placar agregado – sim, na Uefa, ele vale inclusive na prorrogação. O Liverpool, então, precisava de mais um gol para avançar.

O time da casa tentou não desanimar, tocando a bola no ataque. Só que em uma bola recuperada, o Atlético fez um impensável. Em um contra-ataque, Álvaro Morata, que tinha entrado no lugar de João Félix, puxou o ataque e tocou para Marcos Llorente, pelo meio, que estava com liberdade. Ele ajeitou e finalizou, no cantinho, de fora da área: 2 a 2 no placar. Loucura do técnico Diego Simeone, comemorando à beira do gramado, e os jogadores.

Com o fim do primeiro tempo da prorrogação, Klopp conversou com seus jogadores, com muita veemência, para incentivá-los. Ainda fez duas mudanças: saíram Jordan Henderson e Georginio Wijnaldum e entraram Fabinho e Divock Origi. O Atlético de Madrid sacou Koke e colocou o zagueiro José Giménez.

Como era de se esperar, o Liverpool foi todo para o ataque. O Atlético tentava jogar com o relógio. Os jogadores do Atlético pareciam cansados, mas mantinham a linha defensiva bem posicionada. Os Colchoneros se colocavam bem atrás, preenchendo o setor defensivo e tirando o espaço. O Liverpool tentava sufocar, tocando a bola ao redor da área. Não tinha espaço. O time de Simeone marcava palmo a palmo.

Os minutos passavam e o Liverpool parecia sem saída. Não mais conseguia jogar, nem trabalhar as jogadas. Era só na base do abafa, mas sem a mesma precisão de movimento que vimos ao longo do jogo. Klopp ainda tirou Firmino e colocou Takumi Minamino, já aos 113 minutos (8’/2TP).

Só que o Atleti gastou o tempo, segurou a bola, conteve o ímpeto de um Liverpool que já não conseguia mais se armar. Morata fez a famosa cena no canto do campo, segurando a bola, procurando confusão com Alexander-Arnold. E, quem poderia imaginar, veio ainda um golpe de misericórdia já nos acréscimos do segundo tempo.

Marcos Llorente, o homem do jogo, tocou em profundidade para Morata, com campo para correr. Ele dominou, avançou e tocou na saída de Adrián: 3 a 2, virada em Anfield e classificação às quartas de final carimbada. Diego Simeone saiu em loucura para comemorar virado para a sua torcida, que estava ali atrás do gol onde Morata mandou a bola para as redes. As famosas noites europeias de Anfield ganharam mais um capítulo incrível. Desta vez, triste para os torcedores dos Reds, muitos com lágrimas nos olhos. Não haverá um bicampeão da Champions League. Os detentores do título estão eliminados. O Atleti, sofrido, vai mais uma vez às quartas de final, em um jogo à imagem e semelhança do seu técnico.