O jogo entre Atlético de Madrid e Barcelona, pelo Campeonato Espanhol Feminino, entrará para a história. Foi o jogo com mais público da história do futebol de clubes feminino, com 60.739 pessoas no estádio Wanda Metropolitano, casa Colchonera. O Barcelona venceu por 2 a 0, diminuindo a diferença para o Atleti, que lidera a liga. A partida, porém, foi muito além do resultado e suas implicações para a disputa da liga feminina. Foi um grande marco do futebol feminino espanhol.

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Significa dizer que o estádio Wanda Metropolitano estava praticamente lotado para o jogo. Com capacidade para 67.829 pessoas, tinha 60.739 pessoas presentes nas arquibancadas, que foram para ver não Antoine Griezmann, Koke e Diego Costa, mas sim a camisa 7 Angela Sosa, a artilheira da liga, Jennifer Hermoso com a camisa 23 e a brasileira Ludmila com a 8. Do outro lado, não estavam Luis Suárez, Ousmane Dembélé e Lionel Messi, mas sim Alexis Putellas com a camisa 11, Aitana Bonmati com a histórica camisa 14 e a atacante holandesa Lieke Martens, melhor do mundo eleita pela Fifa em 2017, com a camisa 22. A brasileira Andressa Alves, camisa 10 do Barça, começou no banco e entrou durante o jogo.

O recorde de público em jogo de clubes do futebol feminino tinha 99 anos. Foi no Goodison Park, em 1920, quando 53 mil pessoas assistiram Dick, Kerr Ladies e Helen’s Ladies. Foi em um jogo que teve a histórica Lily Parr no Dick, Kerr Ladies, um símbolo da luta do futebol feminino para existir. Em nível de seleções, o recorde de público é o jogo entre 90.185 pessoas para Estados Unidos x China, na Copa do Mundo Feminina de 1999, no estádio Rose Bowl, em Pasadena, região metropolitana de Los Angeles. Alguns consideram o chamado Mundial de 1971, no México, com a final Dinamarca 3×0 México sendo a partida com mais público, já que tinha 110 mil pessoas. O problema é que o torneio não é considerado oficial por grande parte das seleções. A Fifa também não considera este um torneio oficial.

O recorde de público é mais um sinal do aumento de interesse no futebol feminino. Há pouco mais de um mês, 48.121 pessoas estiveram no estádio San Mamés para o duelo entre Athletic Bilbao e Atlético de Madrid, pela Copa. As colchoneras, naquele jogo, venceram por 2 a 0. Desta vez, porém, o time que é uma potência no futebol feminino foi derrubado pelo Barcelona na sua casa.

Tanto Barcelona quanto Atlético de Madrid alimentaram o entusiasmo pela partida, com a expectativa de quebra do recorde de público. Os preços mais acessíveis que o futebol masculino também ajudaram. O Atlético de Madrid chegou a anunciar, no sábado, que não havia mais ingressos disponíveis para o jogo deste domingo. Mesmo assim, centenas de pessoas estiveram nos arredores do estádio em busca de ingressos, sem sucesso. O entusiasmo tomou conta do bairro, que viveu um dia de clássico, como acontece no masculino. Milhares de pessoas carregando orgulhosas as cores do Atlético, com gritos de exaltação ao clube.

O Atlético de Madrid ainda tratou de tornar o jogo ainda mais especial. Levou a uma tribuna de honra jogadoras que fizeram ao menos 100 jogos pelo clube e as homenageou antes do jogo. Amanda Sempedro (102 jogos), Silvia Meseguer (101) e Ángela Sosa (101) receberam as honras. O clube ainda preparou uma bandeira para ser levada pelas jogadoras quando entraram em campo com os dizeres “Adelante Atlético Femenino” (Avante Atlético Feminino).

Foi por pouco que a brasileira Ludmilla quase abriu o placar para o Atlético, no início do jogo, mas a defesa do Barcelona salvou. No Barcelona, já no primeiro tempo Asisat Oshoala, atacante nigeriana, era quem mais causava problemas e quem levava o Barcelona ao ataque. O jogo, porém, foi para o intervalo empatado em 0 a 0. A igualdade era boa para as mandantes, que lideram o Campeonato Espanhol com 66 pontos. O Barcelona, com 60, queria tirar a diferença, ainda sonhando com o título.

No segundo tempo, o Barcelona conseguiu o gol. Aos 20 minutos, a goleira do Atlético, Lola Gallardo, saiu mal do gol em um escanteio e Oshoala aproveitou para marcar 1 a 0. O Atlético precisou sair do campo de defesa, onde tinha se entrincheirado à lá Diego Simeone no segundo tempo, para tentar o empate. Deixou os espaços que o Barça castigou. Aos 35 minutos de jogo, Esther acertou uma cabeçada na trave e a bola sobrou para a inglesa Toni Duggan, que marcou 2 a 0. Curiosamente, ela tinha entrado no lugar da autora do primeiro gol, Oshoala, sete minutos antes.

O resultado permite ao Barcelona sonhar. Depois de 24 jogos, o Atlético segue como líder com 66 pontos, mas o Barcelona chegou a 63. A liga tem 30 jogos, então restam seis rodadas para o fim. Os dois times estão bem à frente dos demais. O Levante, terceiro colocado, tem 51 pontos, 12 a menos que o segundo colocado Barcelona. Os dois primeiros da liga espanhola vão à Champions League feminina, competição que nunca teve um campeão espanhol. É um sonho dos dois times.

O resultado de 2 a 0 para o Barcelona é importante para o Campeonato Espanhol, que segue aberto, mas é muito menor que o tamanho que esse jogo tem na história. Para sempre se lembrará do jogo com o Wanda Metropolitano lotado. Ficam também boas lições de como é possível fazer com que o futebol feminino seja do povo, talvez até mais do que o futebol masculino, que já tem preços muito excludentes. O futebol feminino permite que muitos que não são habituais torcedores presentes ao Wanda estejam no estádio. Um dia, quem sabe, será possível ver um jogo no Camp Nou cheio para futebol feminino.