O Atlético de Madrid concretizou aquela que é uma das maiores contratações da história do futebol. Pagou € 126 milhões, valor da multa rescisória, para contratar o atacante João Félix, do Benfica, de apenas 19 anos. O Atlético de Madrid quebra o seu próprio recorde de transferências, superando Thomas Lemar, na temporada passada, que custou € 70 milhões. E este é justamente o maior risco da aposta em João Félix: os colchoneros não podem errar. Não pode se dar ao luxo de um novo Lemar, no sentido de sua maior contratação não render o esperado.

A cifra paga pelo português se torna a quarta maior transferência da história em valor absoluto, atrás de Neymar (€ 222 milhões para deixar o Barcelona para ir ao PSG, em agosto de 2017), Philippe Coutinho (€ 145 milhões do Liverpool para o Barcelona, em janeiro de 2018) e Kylian Mbappé (€ 135 milhões do Monaco para o PSG, em julho de 2018).

Como o Atlético se tornou capaz de concorrer por um jogador como João Félix, sendo que ele atraía interesse de tantos outros clubes da Europa? O clube ainda conta com a venda de Antoine Griezmann, que anunciou a sua saída e deve deixar a equipe da capital espanhola pelo valor da cláusula, € 120 milhões – basicamente o que foi pago por João Félix. Na prática, é quase como se os colchoneros trocassem um pelo outro. Algo que, em teoria, faz todo sentido.

Além disso, outro jogador irá deixar o Atlético pelo valor da cláusula: o meio-campista Rodri deixará o clube para ir ao Manchester City por € 70 milhões, algo que foi anunciado nesta quarta-feira. Ou seja: o time de Diego Simeone passou a ter mais caixa ainda para poder garantir a contratação de João Félix antes de qualquer outro clube. O Atlético coloca muitas fichas no jogador português, uma estrela ascendente do continente.

João Félix anunciado pelo Atlético de Madrid (divulgação)

Uma vez que Griezmann iria mesmo sair, pensar em João Félix é uma excelente alternativa. Só que por esse valor, é sempre um alto risco. Barcelona e PSG são clubes que podem ser dar ao luxo de contratar jogadores por essa quantia absurda e, por assim dizer, errar. O Barcelona levou Ousmane Dembélé, do Dortmund, por € 125 milhões. Um jogador que, por diferentes razões, como lesões e adaptação, não rendeu tanto quanto se esperava.

Mesmo assim, seis meses depois gastou mais € 145 milhões para levar Coutinho ao Camp Nou. E um ano e meio depois, já cogita negociar Coutinho para levar de volta Neymar à Catalunha, pagando novamente uma quantia que deve passar dos € 100 milhões, além de enviar jogadores. O Barcelona, pela receita que consegue ter, consegue continuar gastando – e errando também.

O Atlético de Madrid é um dos times mais ricos do mundo hoje, mas não está na primeira categoria, como estão Barcelona, Real Madrid, Manchester United ou times com donos com bolsos sem fundo, como PSG e Manchester City. Em termos de receitas, o Atlético de Madrid é apenas o 12º na lista da Forbes, atrás também de clubes como Bayern de Munique, Liverpool, Chelsea, Arsenal, Tottenham, Juventus e Borussia Dortmund.

Contratar um jogador por € 126 milhões é uma sentença que o negócio precisa render, seja como for. É um negócio que leva uma grande parte do orçamento do Atlético no ano – não só o designado para transferências. A receita do clube na temporada 2017/18 (ainda não há o balanço da temporada 2018/19) foi de € 304 milhões.

João Félix mostra talento há algum tempo, mas esta foi a sua primeira temporada efetivamente no time principal do Benfica. O atacante fez 26 jogos pelo Campeonato Português e marcou 15 gols. No total, contando Liga Europa, Champions League e Copa de Portugal, fez 43 jogos e 20 gols e 11 assistências, o que é algo espetacular considerando a sua juventude. Na sua primeira temporada, já levantou duas taças: a do Campeonato Português pelo Benfica e da Liga das Nações pela seleção portuguesa na sua primeira convocação.

Versátil, habilidoso e tecnicamente excelente, o jogador pode atuar em basicamente qualquer posição do ataque, seja pelas pontas, pelo meio, como principal atacante ou ao lado de outro atacante. Nisso, se assemelha a Griezmann. A principal posição que atuou ao longo da temporada foi como segundo atacante, seguido por ponta esquerda e meia ofensivo central.

João Félix vestirá a camisa 7 no Atlético de Madrid, que era de Griezmann (divulgação)

João Félix assinou um contrato de sete temporadas com o Atlético, até 2026. Chegará com uma etiqueta de preço grande nas costas, mas também com uma grande boa vontade. Como quase todo garoto prodígio (ou “puto maravilha”, como dizem em Portugal), já traz naturalmente uma simpatia dos torcedores e uma paciência maior.

Há muitos fatores que podem ajuda-lo a render. Primeiro que no Atlético muitas vezes o time usou um sistema 4-4-2, com dois atacantes, em certos aspectos similar ao que o Benfica usou na temporada passada. Segundo, Diego Simeone. É um treinador de alto nível, capaz de fazer com que a individualidade seja usada em prol do coletivo. E será importante que assim seja. Porque o Atlético de Madrid não poderá se dar ao luxo de ter outro Thomas Lemar – que, aliás, ainda pode se recuperar. E certamente será importante para o clube que assim seja.

As demais contratações do Atlético nesta temporada tem sido mais discretas. Nesta quarta-feira mesmo o clube anunciou um novo meio-campista, o mexicano Hector Herrera, que estava no Porto e chega de graça, já que ficou sem contrato com os portistas. Além dele, o clube trouxe o meio-campista Marcos Llorente, do Real Madrid, por € 30 milhões, o zagueiro Felipe, do Porto, por € 20 milhões, e o lateral esquerdo Renan Lodi, do Athletico Paranaense, que ainda não foi oficializado, mas os clubes já anunciaram um princípio de acordo pelo lateral esquerdo.

O Atlético perdeu Diego Godín, que foi para a Internazionale; Filipe Luís (que ficou sem contrato e ainda não acertou novo clube); Lucas Hernández, que foi para o Bayern de Munique; além de Rodri, que vai para o Manchester City. Deixa o clube também Juanfran, jogador histórico, que deixa o clube sem contrato, mas já era um reserva.

Depois de João Félix, é de se esperar que as próximas apostas do Atlético de Madrid não sejam desse mesmo patamar do Português. É mais provável que sigam a linha das demais contratações, com valores mais modestos e buscando mineirar talentos, e não comprar na joalheria, como foi desta vez.