Um clube não se dimensiona por aquilo que conquista, e sim por aquilo que representa. Mesmo passando três décadas sem erguer taças, não dá para excluir o Athletic Bilbao da lista de maiores clubes da Espanha. Afinal, o simbolismo dos leones vai além, especialmente por sua força no País Basco. E os alvirrubros não se diferenciam apenas nos ideais, mas também nas atitudes. Por exemplo, os bilbaínos lançaram em setembro o projeto do Athletic Club de Lectura.  Ele envolve jogadores e outros membros do clube, que farão eventos públicos de leitura para incentivar o gosto pela literatura entre os torcedores.

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Nesta semana, Bilbao recebe a sexta edição do festival Letras y Fútbol, organizado pelo próprio Athletic. “Queremos que os jogadores participem, que sejam parte do projeto. Por exemplo, durante o festival de cinema Thinking Football, depois da exibição de um filme sobre imigração, foi o próprio atacante Iñaki Williams quem falou sobre o tema”, explicou Galder Reguera, chefe do setor de responsabilidade social do clube, em entrevista ao jornal El País. “Muitas vezes a leitura se identifica como um ato solitário, como algo que faz quando não tem mais opções de lazer, e nós queremos converter isso em algo compartilhado”. Em 2014, o clube já havia distribuído 60 mil contos sobre futebol nos ônibus e metrôs de Bilbao.

Os membros do Athletic escolherão um texto para declamar aos torcedores. E a iniciativa começou com José Ángel Iríbar, lenda dos leones e considerado um dos maiores goleiros da história da Espanha. Escolheu justamente um capítulo de ‘Futebol ao sol e à sombra’, de Eduardo Galeano, que fala sobre o seu ofício. Além disso, ganhou a companhia de Gorka Iraizoz, Iago Herrerín e Ainhoa Tirapu, goleiros atuais dos times masculino e feminino. “Eu me sinto como uma criança, muito deslumbrado. Em minha época de jogador, os escritores abandonavam um pouco o futebol. Agora há muito mais textos”, afirma o veterano. Um clássico e uma justa homenagem.

O goleiro

Também chamado de porteiro, guarda-metas, arqueiro, guardião, golquíper ou guarda-valas, mas poderia muito bem ser chamado de mártir, vítima, saco de pancadas, eterno penitente ou favorito das bofetadas. Dizem que onde ele pisa, nunca mais cresce a grama.

É um só. Está condenado a olhar a partida de longe. Sem se mover da meta aguarda sozinho, entre as três traves, o fuzilamento. Antigamente usava uniforme preto, como o árbitro. Agora o árbitro já não está disfarçado de urubu e o arqueiro consola sua solidão com fantasias coloridas.

Não faz gols. Está ali para impedir que façam. O gol, festa do futebol: o goleador faz alegrias e o goleiro, o desmancha prazeres, as desfaz.

Carrega nas costas o número um. Primeiro a receber? Primeiro a pagar. O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito. Quando qualquer jogador comete um pênalti, quem acaba sendo castigado é ele: fica ali, abandonado na frente do carrasco, na imensidão da meta vazia. E quando o time tem um dia ruim, quem paga o pato é ele, debaixo de uma chuva de bolas chutadas, expiando os pecados alheios.

Os outros jogadores podem errar feio uma vez, muitas vezes, mas se redimem com um drible espetacular, um passe magistral, um tiro certeiro. Ele, não. A multidão não perdoa o goleiro.

Saiu em falso? Catando borboleta? Deixou a bola escapar? Os dedos de aço se fizeram de seda? Com uma só falha, o goleiro arruína uma partida ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e o condena à desgraça eterna. Até o fim de seus dias, será perseguido pela maldição.