A espetacular final do Campeonato Cearense, com três gols nos últimos minutos, terminou com 1.580 cadeiras quebradas, um prejuízo de R$ 500 mil, seis TVs danificadas, 20 ônibus vandalizados e dois policiais hospitalizados. Um grande jogo de futebol ofuscado por cenas de barbárie que remetem aos tempos em que o ser humano ainda não raciocinava direito. A Polícia Militar e parte da opinião pública não demoraram a colocar a culpa na ausência de um alambrado ou de um fosso entre as arquibancadas e o gramado, como se a solução para a violência fosse trancafiar todo mundo e também como se isso de fato tivesse algum efeito prático.

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Essas arenas modernas que confiam na educação das pessoas podem ser novidade no Brasil, mas invasões de campo certamente não são, muito menos conflitos entre torcidas. Sem precisar ir muito longe, há um belo e robusto alambrado em volta do gramado do Pacaembu, onde houve uma das maiores batalhas campais do futebol brasileiro, entre as torcidas de São Paulo e Palmeiras, na final da Supercopa de Futebol Júnior de 1995. Fosso? Dificultaria, mas Morumbi e Maracanã sempre tiveram um e nunca foi garantia de nada. Sem contar que invasão de gramado é apenas um sub-enredo das brigas de torcidas, que geralmente acontecem nas próprias arquibancadas, como em 2013, no Vasco x Atlético Paranaense em Joinville.

No mesmo final de semana da final do cearense, houve dois exemplos de invasão de campo em estádios engradados. Na Polônia, torcedores do Concordia Knurow pularam o alambrado para provocarem os rivais do Ruch Radzionkow, em um jogo da quarta divisão, e foram rechaçados pela polícia. Um dos oficiais acertou uma bala de borracha no pescoço de um homem de 27 anos, que morreu horas depois no hospital. Houve protestos e mais conflitos com os policiais nas ruas da pequena cidade de Knurow, com aproximadamente 40 mil habitantes.

Mas nem era preciso ir tão longe para achar um exemplo de como as grades não são garantia de nada. Em Natal, cerca de 450 km de Fortaleza, o América conquistou seu 35º título potiguar contra o ABC no Frasqueirão, no último domingo. Ao apito final, um punhado de torcedores americanos derrubaram o alambrado para comemorar a conquista dentro do gramado. Invadiram no estádio com grade como fariam na Arena das Dunas, sem grade. A Polícia Militar do Rio Grande do Norte precisou fazer um cordão humano para impedir novas invasões.

A geografia e os obstáculos físicos são pouco relevantes quando o assunto são homens crescidos que gostam de trocar socos. No gramado, colocam em risco a integridade física dos jogadores e dos árbitros. Se não houvesse invasão, a violência aconteceria nas arquibancadas, próxima de torcedores inocentes que querem apenas assistir a um jogo de futebol. Isso não para com reformas nos estádios, mas com educação, prevenção e punição. Já ficamos exautos de ouvir a polícia prometer que vai investigar o que aconteceu e identificar os culpados. Se conclui essas tarefas, não inicia a próxima, que deveria ser prendê-los. Porque também já está cansativo constatar quantas figurinhas repetidas aparecem em muitas brigas em pouco tempo.

Vocês dificilmente vão acreditar, mas sabe quem fez sentido falando sobre esse assunto? Andrés Sánchez. No dia em que o Corinthians fez o seu primeiro treinamento no Itaquerão, o hoje deputado federal e superintendente de futebol do clube disse que “uma ala de pessoas queria” alambrado, mas ele era contra. “Seria que nem o mal vencer o bem. Acredito na educação do povo. Se um dia puserem grade aqui, não venho mais para o jogo”, afirmou.

Depois da educação e da punição (diferente de repressão) falharem, o que resta às autoridades responsáveis pelo jogo de futebol é a prevenção. E isso falhou também em Fortaleza. Havia 160 policiais na área interna do Castelão, fora os seguranças particulares contratados pelo clube mandante, mas metade do efetivo público teve que ser deslocado para conter outra briga entre torcedores que havia eclodido na parte externa. O acesso ao gramado foi facilitado. Houvesse ao menos um policial em cada escada, os torcedores ficariam, pelo menos, um pouco inibidos.

O futebol reflete a sociedade. Não espanta haver esse tipo de exagero das torcidas se Fortaleza é considerada uma das cidades mais violentas do mundo. Segundo a ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, a capital do Ceará é a oitava colocada no ranking que considera municípios com pelo menos 300 mil habitantes. Em 2014, a cidade registrou 2.541 homicídios, uma proporção de 66,55 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

A violência de torcidas, no final da equação, é um problema de segurança pública e de educação, muito mais do que de futebol e de arenas modernas ou antiquadas. Em uma casa com piscina, não adianta colocar grades em volta dela para impedir que as crianças pulem na água. Caso elas não sejam ensinadas a nadar, um dia provavelmente vão se afogar.

(Foto: Reprodução/TV DN)