Durante as últimas cinco décadas, Portugal e Uruguai fizeram suas melhores campanhas em Copas do Mundo de maneira consecutiva. Eusébio se consagrou no Mundial de 1966, quatro anos antes dos uruguaios pararem apenas diante do Brasil nas semifinais de 1970. E quando a boa equipe lusitana repetia o feito em 2006, após eliminar Holanda e Inglaterra, a Celeste vivia a sua caminhada épica em 2010, sob o brilho de Luis Suárez e Diego Forlán. Nunca, porém, as duas equipes haviam se cruzado em Copas. Aliás, até o jogo pelas oitavas de final neste sábado, tinham se enfrentado apenas duas vezes. Às vésperas do Mundial da Inglaterra, os tugas bateram os charruas por 3 a 0, em amistoso preparatório. Já em 1972, se cruzaram no quadrangular semifinal da Taça Independência, que comemorava os 150 anos da Independência do Brasil. Empataram por 1 a 1, diante de 50 mil no Maracanã.

Assim, os jogos mais importantes entre os dois países aconteceram com outras cores e com outras camisas, embora tenha juntado jogadores notáveis das duas seleções. Em 1961, o Benfica conquistou pela primeira vez a Copa dos Campeões. Era a gênese do esquadrão que rompeu a hegemonia continental do Real Madrid e daria frutos à Seleção das Quinas justamente cinco anos depois, preparando a geração que elevaria o patamar da equipe nacional. Na decisão do Mundial Interclubes (ou Copa Intercontinental, como queira), encararam justamente o Peñarol, dominante na Libertadores naquelas duas primeiras edições e base da seleção uruguaia. Os carboneros, aliás, serviam de ponte entre os remanescentes do Maracanazo em 1950 e os futuros semifinalistas em 1970.

Ambos os times eram treinados por lendas. O uruguaio Roberto Scarone teve uma carreira de andarilho como técnico, mas viveu o ápice à frente do Peñarol, entre 1959 a 1962. Foi campeão nacional e bi da Libertadores, em sucesso que o projetou para integrar a comissão técnica da seleção uruguaia na Copa do Mundo de 1962. Já o Benfica ainda contava com seu gênio húngaro, Béla Guttmann, capaz não apenas de levar inovações táticas aos encarnados, mas também de lapidar os grandes talentos da geração.

Em campo, aliás, sobravam lendas. O Benfica tinha a espinha dorsal que abrilhantou a sala de troféus do clube nos anos 1960 e se refletiria na seleção em 1966. Ídolos do porte de Mário Coluna, Antônio Simões, José Augusto e Eusébio. Às vésperas de completar 20 anos, o centroavante estourava como um fenômeno dos encarnados. Não tinha participado da decisão da Champions meses antes, contra o Barcelona, e dava os seus primeiros passos como titular no forte time benfiquista.

Já do outro lado, o Peñarol não ficava atrás em seus emblemas. A defesa contava com William Martínez, que não participou do Maracanazo, mas integrava o elenco do Uruguai campeão do mundo em 1950. O meio-campo possuía Néstor Gonçalves, sucessor Obdulio Varela na liderança, assim como o incisivo Luis Cubilla, que disputou três Copas como jogador, inclusive em 1970. Mais à frente, dois estrangeiros que não disputaram o Mundial, mas estiveram entre os melhores do continente nos anos 1960: o artilheiro equatoriano Alberto Spencer e o habilidoso ponta peruano Juan Víctor Joya.

Em uma época na qual a Copa Intercontinental se disputava em jogos de ida e volta, o primeiro duelo aconteceu em Lisboa. Diante de 40 mil espectadores no Estádio da Luz, o Benfica fez as honras da casa. Mário Coluna anotou o gol na vitória por 1 a 0. A esquadra lusitana, afinal, não era muito conhecida na América do Sul e surpreendeu pela potência de seu jogo. Já no reencontro em Montevidéu, os benfiquistas tiveram que aturar a pressão de 56 mil no Centenario. Tomaram um baile. O Peñarol goleou por 5 a 0, com todos os gols saindo antes dos 15 minutos do segundo tempo. Joya e Spencer brilharam, com dois tentos cada, enquanto Juan Sasía completou a festa.

Só tinha um porém: naquela época, a diferença no placar agregado não servia para decidir a taça. Apesar dos 5 a 0 favoráveis aos aurinegros, uma nova partida aconteceu. Em teoria, o reencontro deveria ocorrer em campo neutro. Porém, para não se gastar muito dinheiro ou não se perder tempo, os uruguaios propuseram um novo duelo dois dias depois, em Montevidéu mesmo. O Benfica aceitou, com uma condição: gostaria de inscrever um novo jogador que estava na delegação, mas não havia atuado em nenhuma das duas partidas. Seu nome? Eusébio.

O terceiro jogo seria mais apertado. Sasía abriu o placar aos cinco minutos, com uma cabeçada imparável, mas Eusébio logo se tornou conhecido aos uruguaios e mostrou como poderia ser decisivo. Anotou o belo gol de empate aos 35 minutos. As esperanças dos encarnados, todavia, se esvairiam rapidamente. Cinco minutos depois, o árbitro argentino José Luis Praddaude assinalou um pênalti favorável aos carboneros. Sasía converteu e decretou a vitória por 2 a 1. Diante de 60 mil, os aurinegros se consagravam como campeões mundiais de clubes pela primeira vez. A equipe repetiria a conquista em 1966 (desta vez com ídolos como Ladislao Mazurkiewicz, Pablo Forlán, Julio Abbadie e Pedro Rocha, além do técnico Roque Máspoli) e em 1982. Já os lisboetas teriam nova chance em 1962, sucumbindo ao eterno Santos.

Curiosamente, o primeiro título de Portugal no Mundial Interclubes aconteceu em cima do Peñarol. Em 1987, o Porto vinha de sua inédita conquista na Champions e pegou os uruguaios, que acumulavam seu quinto título na Libertadores, depois da dramática final contra o América de Cali. A vitória por 2 a 1 foi definida apenas na prorrogação, com o gigantesco Rabah Madjer decidindo outra vez. Já no ano seguinte, por muito pouco não aconteceu um Nacional x Benfica no Japão. Os pênaltis foram o lamento dos encarnados na final da Champions contra o PSV, mas a glória aos tricolores, que bateram os holandeses na marca da cal.

O que esperar do jogo da Copa de 2018?

Portugal e Uruguai não devem fazer o duelo mais vistoso nestas oitavas de final, mas talvez seja o mais equilibrado neste início de mata-matas. São duas equipes bastante reativas, que aguardam os adversários em seu campo para atacar em velocidade, que dependem bastante dos medalhões em suas defesas e contam com as estrelas em seu ataque. Será um confronto de encontros individuais bastante interessantes.

O Uruguai pode não ter encantado no Grupo A, mas fez uma senhora campanha, seguro em suas virtudes. Contou com uma defesa fortíssima, liderada pelo monstruoso Diego Godín e por boas aparições de José María Giménez. O meio-campo se modificou e deve manter a formação da vitória sobre a Rússia, com três na contenção e Rodrigo Bentancur se aproximando dos atacantes. Lucas Torreira deve ser fundamental por sua distribuição, enquanto Nahitan Nández foi bem na direita. Enquanto isso, Luis Suárez não tem sido tão infernal, mas decidiu duas vezes. E Edinson Cavani, apesar da seca, faz uma boa Copa por sua participação. Maestro Tabárez merece a menção honrosa, pela maneira como conduz talvez o período mais estável em uma belíssima trajetória à frente da Celeste.

Pelo lado de Portugal, a segurança começa com Rui Patrício, um dos melhores goleiros do Mundial até o momento. A defesa continua contando com a solidez de Pepe, que cresce na competição e foi crucial nas duas últimas partidas. Resta Raphael Guerreiro, uma peça importante, se sobressair um pouco mais na esquerda. William Carvalho é o esteio do meio-campo, mas virou dúvida e os lusitanos precisam de mais dos seus companheiros de setor. E se Cristiano Ronaldo não foi bem contra o Irã, segue com um moral imenso pela maneira como ainda pode chamar a responsabilidade e decidir em um lance. Falta mais apoio dos meias, que descompensam o craque em alguns momentos.

A Portugal, uma vitória é a reafirmação da geração que conquistou a Euro 2016 e que tem talento para almejar mais, embora não venha correspondendo muito além dos veteranos. Cristiano Ronaldo, quem sabe, estará em seu último Mundial e já mostrou sua fome contra a Espanha. O Uruguai, afinal, também vive uma passagem de bastão. Este deve ser o último ato da geração de 2010 e de Óscar Tabárez. Lutarão bastante pelo máximo de dignidade, seja qual for o destino dos charruas.