Atalanta x Valencia, em Milão, pode ter sido vetor para tornar Bérgamo cidade mais afetada pelo coronavírus

Há a suspeita que o jogo, último disputado antes da suspensão dos jogos em Milão, tenha sido um dos grandes vetores que deixou Bérgamo em situação de calamidade

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O mundo está em colapso e a crise do coronavírus é algo que ainda não conseguimos medir o impacto e nem a extensão. Há um mês, no dia 19 de fevereiro, a Atalanta enchia o San Siro para o seu primeiro jogo eliminatório de Champions League. Venceu de forma incrível o Valencia por 4 a 1. O que ninguém sabia é que aquele seria o último jogo realizado em Milão em muito tempo. Porque três dias depois, no dia 22, foi anunciado o adiamento de todos os jogos na Lombardia, região onde fica Milão e Bérgamo. Passado um mês, a situação está crítica e ainda é difícil ver uma luz no horizonte.

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A Itália viveu uma semana terrível. Na quarta, 18, houve 475 mortes no país, o recorde em um só dia. Nem no pico de crise na China houve tantas mortes. Na quinta, 19, o total de mortes do país passou o da China. Segundo dados da Johns Hopkins University, são 3.405 mortos na Itália até o fechamento deste texto. A China tem 3.253 mortos, com 81.250 casos. Os números da China, porém, são bastante questionados. De qualquer forma, o número de mortos na Itália assusta.

Um virologista alemão, Jonas Schmidt Chanasit, do Instituto Berhard-Nocht, em Hamburgo, acredita que a temporada não será retomada. “É irreal pensar que a temporada irá terminar. Porque potencialmente as pessoas poderia se reunir nas suas casas para assistir às partidas. Então não, mesmo com portões fechados. O futebol só irá recomeçar no final de tudo, porque ele teve um impacto forte na dinâmica de disseminação do vírus”, afirmou o médico, de 40 anos.

Há quem acredite que o futebol teve um papel importante também para tornar a cidade de Bergamo ainda mais dramática. Um especialista acredita que a partida entre Atalanta e Valencia, no dia 19 de fevereiro. Foi o último jogo em Milão antes do início dos adiamentos, que começou no dia 22 de fevereiro. De lá para cá, os adiamentos foram substituídos pela suspensão de todo o campeonato.

“Passou um mês desde esse jogo. Milhares de pessoas se juntaram e estiveram a centímetros umas das outras. Houve manifestações de euforia, com gritos e abraços que podem ter favorecido a propagação do vírus”, disse Francesco Le Foche, professor de Reumatologia e Ciência Biomédicas na Universidade La Sapienza, de Roma, em entrevista ao Corriere dello Sport. “Estamos a falar de um jogo histórico. Mesmo quem já sentia sintomas juntou-se à festa”.

O médico também acredita que o retorno do futebol em junho é bastante otimista. “Eu duvido fortemente. No contexto que o futebol é um agregador social e enfatizo que o futebol é a antítese doso comportamentos que devemos ter em uma emergência de vírus. Uma ameaça por definição”.

A situação de Bérgamo é aflitiva. Tem faltando capacidade aos crematórios para dar conta do alto número de mortes. Caminhões do exército foram chamados de modo emergencial para a cidade e fizeram um comboio triste de caminhões com caixões, levando os mortos para outras cidades que possam dar conta da cremação. E sem que as pessoas possam velar o corpo dos seus entes queridos. Além disso, o Valencia, o time do outro lado naquela noite, tem 35% do seu elenco infectados com o coronavírus.

Possibilidades para retomar o futebol

Com tudo isso, é possível pensar em retomar o futebol? Bom, quem vive dessa indústria precisa pensar, ainda que a prioridade seja, evidentemente, a saúde. Mas diante da situação de emergência, é preciso imaginar diversas soluções e cenários. Não se sabe quando o futebol poderá voltar. O presidente da FIGC, a Federação Italiana de Futebol, Gabriele Gravina, considera a possibilidade de retomar a liga no dia 2 de maio, no cenário mais otimista. Também sabe que é um cenário ainda improvável e trabalha com a possibilidade dos jogos se estenderem até 17 de julho.

“Nós temos trabalhado popr muitos dias com a ideia de começar novamente no dia 2 e 3 de maio, porque com algumas rodadas no meio da semana, nós podemos terminar no dia 30 de junho. Eu não descartaria ir até o dia 10 a 17 de julho também”, afirmou Gravina. “Nós iremos trabalhar nisso e ativar todos os mecanismos possíveis com o governo e autoridades”.

A Serie A, porém, está em uma situação de calamidade. São 12 jogadores da liga que já testaram positivo para o novo coronavírus. Os clubes, tal qual a população, ainda vivem uma situação de quarentena, sem sequer poderem treinar. Autoridades do país, porém, acham que a Itália pode estar chegando ao pico e, depois disso, será uma diminuição do número de casos.

“Os especialistas fazem previsões, certamente é certo fazê-las, mas nós temos que ver se elas são confirmadas pelos fatos. Talvez o pico não chegue na próxima semana, mas uma depois”, disse Angelo Borrelli, chefe de proteção civil em entrevista à Radio Rai 2. “Todo mundo diz que nós estamos chegando ao pico e nós esperamos que seja o mais breve possível”.

“Otimismo e esperança devem vir de comportamentos que nossos compatriotas estão adotando. Nós precisamos de prudência absoluta, nós devemos sair o menos possível. É fundamental conter as infecções. Nós temos que evitar contatos humanos e sairmos o menos possível. Evitar sair se não for estritamente necessário. Epidemiologistas nos dizem que se nós levarmos uma vida absolutamente normal, a porcentagem de pessoas afetadas pelo coronavirus será muito maior”, disse ainda Boorrelli.

Só que as restrições podem aumentar ainda mais. O governador da Lombardia, Attilio Fontana, enviou um pedido ao Primeiro Ministro da Itália, Giuseppe Conte, que aumente ainda mais as proibições. No pedido, ele quer o uso do exército, fechamento de escritórios públicos e privados, interrupção de obras e ainda mais limitações nas atividades comerciais. A requisição foi feita depois da alta do número de mortes na região nesta semana.

Bonucci: “Ficar em casa é um dever”

Jogadores também se manifestaram. “Nós temos apenas este dever, de ficar em casa e apenas deste modo nós podemos vencer esse inimigo invisível. Nós temos que jogar como um time, todos unidos, mas distantes”, afirmou o zagueiro Leonardo Bonucci, da Juventus. “Nesses dias, eu continuo treinando, mas obviamente o trabalho é menos intenso e a nutrição se torna muito importante: eu como de forma saudável, eu aconselho vocês a fazer o mesmo”.

“Na Itália, a situação não é segura e é impensável continuar treinando nos centros de treinamentos, porque seria muito arriscado”, afirmou o ex-jogador Fabio Cannavaro à Radiosport, direto da China, onde ele é técnico do Guangzhou Evergrande. “Eu não gosto de pensar em quando começar novamente com o campeonato porque o tempo será muito mais longo do que nós estamos planejando por enquanto”.

“Aqui a quarentena é dura, o governo chinês proibiu sair de casa, felizmente eles me trazem as compras aqui. Quando eu me mudei para Dubai com o time, nós tomamos todas as medidas de segurança, tanto no começo quanto no retorno”, continuou o ex-zagueiro. “Nós limpamos e testamos o sangue de todos. De volta à China, estávamos em quarentena. Eu tenho minha família em Nápoles e tenho medo por eles. Quem pensa que é super-homem corre o risco de ficar entubado”.

Vivemos uma situação difícil de saber o que fazer, como proceder. Ainda é muito nebuloso como vamos proceder, quando a vida voltará ao normal, se é que voltará um dia. É possível que estejamos vivendo uma mudança definitiva de paradigma. Não que a quarentena será eterna, mas que teremos que mudar muita coisa. Talvez o calendário também. Não só na Itália, mas também no Brasil. Estamos em uma situação distante de uma solução. Por enquanto, como disse Bonucci, o nosso dever é ficar em casa.