Aos 44 minutos do segundo tempo, o placar do Estádio da Luz, em Lisboa, marcava 1 a 0 para a Atalanta. Não era só o placar: a atuação do time de Bérgamo era ótima, melhor do que a do PSG, o poderoso adversário nas quartas de final da Champions League. Neymar, apesar do bom jogo que fazia, tinha perdido boas chances no primeiro tempo e parecia caminhar para outra eliminação. Só que eis que tudo mudou aos 44 minutos do segundo tempo. Em dois lances, o brasileiro foi decisivo, participou dos dois gols, assim como o camaronês Eric Maxim Choupo-Moting, e o PSG virou o jogo nos acréscimos para conseguir uma classificação histórica.

É a primeira vez desde a temporada 1994/95 que o PSG chega à semifinal da Champions League. Naquela ocasião, o time acabou parado pelo Milan, de Fabio Capello, que acabaria campeão atropelando o Barcelona de Johan Cruyff e Romário na final. Naquela época, os parisienses tinham no seu time Raí e George Weah, mas acabou derrotado nos dois jogos.

Coletivamente, a Atalanta foi superior o jogo todo. O time atuou bem em toda a partida, deu poucos espaços e poucas chances para o PSG. Fez um bom primeiro tempo, mas caiu de rendimento no segundo tempo. Mesmo assim, conseguia complicar as coisas para o time francês. Perdeu o ímpeto ofensivo e acabou sofrendo mais pressão, até sofrer a virada no final.

Os grandes destaques do PSG foram Neymar, que foi quem mais chamou o jogo, errou muito, mas acabou acertando no final dois lances que foram decisivos, Kylian Mbappé, que entrou bem e melhorou o time, e Eric Choupo-Moting, que entrou no lugar do apagado Icardi e, desacreditado, acabou participando dos dois gols da virada do time francês.

O jogo

A Atalanta não tinha em campo um dos seus principais jogadores na temporada, Josip Ilicic, com um problema pessoal. Sem ele, o técnico Gian Piero Gasperini colocou Mario Pasalic ocupando a mesma faixa de campo, no ataque. Na zaga, José Luis Palomino não tinha condições de jogar a partida inteira. Berat Djimsiti ocupou o seu lugar na linha de três zagueiros.

O PSG tinha desfalques importantes também. Mbappé começou no banco, ainda sem condições físicas pela lesão que teve na final da Copa da França. Marco Verratti e Ángel Di Maria ficaram fora e fizeram muita falta ao time de Tuchel. No meio-campo, foram escalados Marquinhos, Ander Herrera e Idrissa Gueye. O time perdeu muito em qualidade de passe e em criatividade. Tudo ficou nas costas de Neymar, que atuou no ataque ao lado de Sarabia e Mauro Icardi, mas sempre recuando muito para receber a bola.

Logo a dois minutos, Duvan Zapata dominou pela esquerda e achou Papu Gómez pelo meio. Ele finalizou cruzado, mas o chute saiu fraco e Keylor Navas defendeu. Foi a primeira chance do jogo. Logo depois, o PSG teve uma grande chance. Neymar pegou uma bola longa, tocou para Icardi, que fez a parede no círculo central, e Neymar teve campo aberto para correr até ficar frente a frente com o goleiro Marco Sportiello. O brasileiro tocou para fora. O goleiro saiu bem do gol, mas é uma chance que raramente Neymar perde.

Neymar chuta e perde chance contra Atalanta (Reprodução/Uefa)

A Atalanta chegou com perigo aos 11 minutos. Papu Gómez fez um ótimo lançamento para o lado direito, onde o ala Hans Hateboer chegou para tocar de cabeça e exigir grande defesa de Navas. Pouco depois, no rebote do escanteio, a bola sobrou para Mattia Caldara, que tocou de cabeça, de costas, e só não fez o gol porque Navas fez uma grande defesa. O lance acabou anulado por impedimento do zagueiro.

O PSG buscava aproveitar os espaços com uma intensa movimentação dos seus atacantes. A Atalanta tentava envolver em toques rápidos, alternando jogadas pelo meio e acionando os lados do campo com os alas. Aos 18 minutos, em uma arrancada pela esquerda, Neymar foi para dentro da área e, entre cruzar ou chutar, não fez nenhum dos dois e desperdiçou a chance.

Em uma bola pelo meio, Zapata dividiu e bola sobrou no pé de Pasalic na direita. O croata bateu de canhota, no ângulo, e pegou Navas no contrapé. Golaço da Atalanta em Lisboa: 1 a 0. Um gol similar ao que vimos algumas vezes ser feito por Ilicic na temporada.

Mario Pasalic comemora o gol da Atalanta contra o PSG (Reprodução/Uefa)

A resposta veio rápida. Neymar fez uma linda jogada, colocou entre as pernas de Pasalic, avançou pelo meio, tirou da marcação e, na meia lua, abriu espaço para chutar forte, cruzado, mas a bola rasteira saiu à direita do gol. Uma boa chance perdida pelos parisienses.

O brasileiro era o principal jogador do PSG. Em um recuo errado da defesa da Atalanta, Neymar pegou a bola e, com liberdade, chutou de pé esquerdo, mas mandou muito longe do gol. Outra grande chance desperdiçada pelo atacante. Depois, Neymar cobrou uma falta com muito perigo, exigindo uma ótima defesa do goleiro Sportiello. No primeiro tempo, foram quatro finalizações do PSG no jogo. Todas de Neymar, sendo três para fora e uma no alvo.

A volta para o segundo tempo teve a Atalanta no ataque nos primeiros minutos. Foi só aos cinco que o PSG conseguiu reagir, com uma arrancada de Neymar do meio-campo que Hateboer segurou o brasileiro para impedir o ataque e tomou o cartão amarelo. Na cobrança, o brasileiro bateu de longe, ganhou o escanteio e o PSG levantou a bola na área, mas a Atalanta conseguiu afastar.

Alterações que mudaram o jogo

Os dois técnicos mexeram no time. Gasperini trocou Papu Gómez, machucado, por Ruslan Malinovskyi e tirou Berat Djimsiti por José Luis Palomino, sem as condições ideais, mas com experiência. No PSG, Tuchel colocou em campo, enfim, Kylian Mbappé no lugar de Pablo Sarabia. As mudanças aconteceram com 15 minutos do segundo tempo.

Sem Papu Gómez, a Atalanta perdeu muito da sua criatividade. O argentino, além de uma intensa movimentação, levava perigo com passes, chutes e combinações, encostando no ataque. Malinoviskyi, mesmo com ótimo chute de longe, não conseguiu dar a mesma dinâmica ao time, que sofreu.

Mbappé chamou o jogo, tentou criar jogadas pela esquerda e passou a levar mais perigo. Já causou preocupações no time italiano que, aos 21 minutos, foi segurado por Rafael Tolói, que tomou o amarelo. A dificuldade, porém, continuava sendo grande para os parisienses.

Gasperini fez outra mudança aos 24 minutos. Tirou Mario Pasalic, autor do gol, e colocou Luis Muriel. Com isso, manteve dois atacantes finalizadores e fortes no ataque. No PSG, Leandro Paredes substituiu Idrissa Gueye, tentando dar mais qualidade ao meio-campo. Também levou a campo Julian Draxler no lugar de Ander Herrera. Duas alterações que colocaram o time mais no ataque. O goleiro Navas também parecia estar sentindo e Sergio Rico ficou preparado, ao lado do campo, pronto para entrar. Mas o costarriquenho conseguiu continuar em campo.

O PSG conseguiu uma boa escapada aos 28 minutos. Bola em velocidade na ponta esquerda para Mbappé, que correu com a bola e, quase sem ângulo, finalizou, para defesa do goleiro Sportiello. Foi a melhor chance até ali do PSG, que criava menos que na primeira etapa.

Aos 30 minutos, o PSG chegou pelo meio, com Neymar conseguindo entrar na área com a bola, algo raro na partida e mais ainda no segundo tempo. Na hora de finalizar, porém, o brasileiro bateu fraco e facilitou o trabalho de Sportiello.

Navas teria que ser substituído aos 33 minutos. Rico entrou para o resto da partida. Além dele, veio a campo também o atacante Eric Maxim Choupo-Moting no lugar do centroavante Mauro Icardi. O PSG seguia tentando empatar e apostando muito em Mbappé. Foi o camisa 7 que recebeu uma bola pela esquerda com uma surpreendente liberdade. Só que antes que o francês conseguisse finalizar, Palomino chegou para travar e mandar a bola para escanteio.

No lado da Atalanta, Gasperini fez mais duas mudanças. Timothy Castagne no lugar de Robin Gosens, um ala por outro, além de Jacopo da Riva, meio-campista, no lugar do atacante Duván Zapata.

O PSG continuava buscando o gol. Na base do abafa, Choupo-Moting levantou a bola na segunda trave, Neymar dominou tocou para o meio e Marquinhos completou para o gol para empatar, aos 44 minutos do segundo tempo: 1 a 1 em Lisboa.

Marquinhos comemora o gol de empate do PSG em Lisboa, contra a Atalanta (Reprodução/Uefa)

Parecia que levaria o jogo para a prorrogação. Só que o PSG seguiu indo para cima. Veio Neymar pelo meio, achou um bom passe para Mbappé, na esquerda. O camisa 7 avançou em grande velocidade, tocou para o meio e Choupo-Moting completou para o gol: 2 a 1 e virada do PSG, aos 48 minutos.

No final, Muriel ainda ganhou um presente no ataque, teve a chance, mas se enrolou com a bola, acabou travado por Marquinhos e o lance não deu em nada. Não houve tempo para mais qualquer lance. O árbitro apitou o fim da partida. O PSG, de Neymar, avançou à semifinal, com um jogo cardíaco. Será preciso jogar melhor para não passar tanto sufoco na próxima fase. Seja quem for o adversário, RB Leipzig ou Atlético de Madrid, será preciso mostrar um pouco mais de futebol.

Neymar foi muito bem, o melhor em campo, e acabou sendo decisivo. Será preciso ter um pouco mais de Atalanta, com um jogo mais coletivo, para não deixar tanto o peso de decidir nos pés de Neymar, que foi quem buscou isso o tempo todo. Apesar dos problemas claros de desequilíbrio no elenco, o PSG pode ter o retorno dos seus titulares na próxima fase e com Verratti e Di María o time é outro. Resta saber se ambos terão condição de jogar. Neymar pode continuar sendo decisivo, mas a tendência é que o nível de exigência aumente a cada degrau.