Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, e quinta é dia da Fuoriclasse, com informações e análises sobre o futebol italiano. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

Como um time como a Atalanta consegue chegar às oitavas de final da Champions League? Não é uma tarefa simples e nem é um milagre. Os milagres acontecem por um golpe de sorte, uma intervenção divina, algo inusitado. O caso da Atalanta tem muito mais a ver com um modelo clássico de fazer futebol: bons olheiros, investimentos inteligentes, um técnico com boas ideias e paciência. Muita paciência. Porque nem sempre os resultados acontecem rápido e nem sempre serão como um sonho. Mas aconteceu com a Atalanta.

O time não tem sequer a 10ª maior folha da Itália, com cerca de € 36 milhões por ano. Não é um clube que tem como dono um bilionário, como Roman Abramovic, ou mesmo seus concorrentes da Lombardia, com a Inter sendo comandada por chineses, e o Milan, que é de um fundo de investimento americano. Também não tem um Estado por trás financiando, tal qual Manchester City e PSG. O seu principal acionista, que é também o presidente, é Antonio Percassi, que ocupa a cadeira de mandatário do clube de Bérgamo pela segunda vez.

Sua primeira passagem pelo cargo foi de 1990 a 1994, quando ele tentou iniciar o processo de montagem das bases para que o clube se estruturasse. Foi uma passagem que teve um grande fruto: a chegada de Mino Favini, que assumiu como diretor das categorias de base. Só que o time, em campo, não ia bem e ele deixou o cargo em 1994. Só voltaria em 2010, desta vez com mais condições de fazer o que queria.

Percassi investiu no centro de treinamento do clube e também no estádio, Atleti Azzurri d’Italia. O estádio, aliás, acabaria se tornando um trunfo muito bem feito: em 2017, o clube negociou com a prefeitura da cidade para comprar o estádio. Passou, assim, a ser um dos poucos clubes italianos a serem donos do estádio onde jogam.

Por isso também passou a fazer reformas na sua casa, o que impediu o time de disputar a sua primeira Champions League no local, rebatizado de Gewiss Stadium em julho de 2019. Pouco antes, em abril, começaram as obras de reforma do estádio, previstas para durarem até 2021, a um custo de € 40 milhões por temporada.

Além do Centro de Treinamento e do estádio, outro ponto crucial para o clube, as categorias de base, rendiam bons frutos. Não só pelos bons resultados, mas porque passaram a formar jogadores. Faltava, porém, o último passo: conseguir fazer com que os jogadores da base conseguissem chegar ao time de cima e jogassem. O clube vinha falhando nesse aspecto com os técnicos Stefano Colantuono e Edy Reja.

Quando chegou Gian Piero Gasperini, em 2016, não era uma contratação óbvia. Ele comandava o Genoa desde 2013. Nas três temporadas no comando do clube, conseguiu sair de um time que estava na zona do rebaixamento para levá-lo à classificação para a Liga Europa. Em 2015, ele chegou a renovar o seu contrato até 2017, com prolongamento automático para 2018. Salvou o time do rebaixamento com tranquilidade naquela temporada 2015/16. O técnico foi responsável por fazer o time de Gênova terminar em quinto lugar na tabela, ficando próximo de levar à Champions League.

O próprio Gasperini admitiu que a sua história no Genoa foi o que criou as bases do sucesso que viria a acontecer na Atalanta. Em setembro de 2019, em entrevista ao Secolo XIX, ele afirmou que foi o Genoa que o moldou como técnico. “As pessoas de Bergamo mexeram comigo, mas se estou atingindo o sucesso hoje, eu devo isso aos meus anos no Genoa. As fundações da minha carreira estão lá”, disse. Ele se refere à primeira passagem, de 2006 a 2010.

Na temporada 2008/09, Gasperini comandou o Genoa que empatou em pontos com a Fiorentina no quarto lugar da Serie A, mas perdeu a posição nos critérios de desempate e não foi à Champions League. De lá, foi para a Inter, mas sua aventura durou pouco: anunciado em junho, com a temporada começando em agosto, foi demitido em setembro, depois de passar cinco jogos sem vitória, com quatro derrotas.

Acertou a sua ida para a Atalanta em 2016 e, desde então, parece um casamento perfeito. Um técnico que dá espaço para jogadores da base, que desenvolve bons nomes, que aprecia a sua versatilidade e casa com um jeito de jogar do time nas categorias de base. Tanto que o time é ofensivo, tem um ataque forte e não tem qualquer medo de jogar contra times maiores e mais ricos.

Com Gasperini, a Atalanta aproveitou levas de bons jogadores, sejam formados em casa, seja contratados por bons olheiros, como Frank Kessié (atualmente no Milan), Mattia Caldara (que foi para Juventus e Milan e voltou à Atalanta), Roberto Gagliardini (na Inter), Leonardo Spinazzola e Bryan Crystante (ambos na Roma).

O modelo da Atalanta é de um futebol antigo e talvez por isso mesmo seja algo que encante. Usa bons olheiros, consegue boas contratações observando o mercado, desenvolve seus jogadores e tem paciência para desenvolver o trabalho. O Centro de Treinamento é hoje uma referência na Europa, o seu estádio é próprio e está sendo reformado e modernizado e o time tem uma categoria de base que é referência na Itália.

O trabalho vem sendo feito por Antonio Percassi desde 2010. Chega em 2020 dando resultados que chamam a atenção. Sem paciência, o caminho nunca teria sido percorrido. Por isso, o trabalho da Atalanta tem que ser valorizado. Não é simples nem de chegar a este patamar, e menos ainda de manter.

A Atalanta encantou contra o Valencia. Tem tudo para chegar às quartas de final da Champions League. Mas a história continua sendo escrita.