Quando um atacante vai reencontrar seu antigo clube pela primeira vez, a velha ladainha surge na imprensa: “Será que ele vai comemorar se balançar as redes?” A fútil querela se amplia quando o goleador em questão possui o status de ídolo. No entanto, se tornaria totalmente inútil nesta quarta-feira de Liga dos Campeões. Os torcedores do Liverpool conhecem Luis Suárez. Sabem o que ele pode fazer. E não diminuíram (ou não deveriam diminuir) nem um pingo de sua admiração pelo uruguaio, mesmo depois da estocada que abriu a vitória do Barcelona por 3 a 0 no Camp Nou. O Pistolero arreganharia os dentes e sairia em disparada com os braços abertos, comemorando o seu tento. Faz parte do instinto de Luisito. As felizes lembranças dos Reds, ao menos por algumas horas, se misturarão com o amargor da derrota que praticamente rompe o sonho nesta Champions.

O reencontro com o Liverpool guardava uma emoção especial a Luis Suárez. Um sentimento diferente ao centroavante, tão acostumado a destroçar defesas. Desta vez, veria do outro lado uma camisa que honrou. Teria contra si uma torcida que o amou. E se a adoração ao uruguaio é tamanha em Anfield, isso acontece também por sua autenticidade. Não seria hoje que o Pistolero renegaria seus princípios. Os Reds estavam cientes desta ameaça. Como temiam, o artilheiro viveu uma noite digna de seus melhores momentos, sobretudo pela intensidade. Demorou, mas finalmente rompeu seu jejum de gols nesta Champions.

Todas as características marcantes de Suárez pareceram vir à tona no Camp Nou. Todas as virtudes que o Liverpool se cansou de aproveitar. O atacante letal estava afiado. Queria jogo. Queria confusão, não se importando se um velho amigo vinha para a dividida. Queria, sobretudo, o gol. E suas arrancadas fulminantes para explorar os espaços incomodaram demais a defesa de Jürgen Klopp. O primeiro tempo acima da média do Barcelona contava com a agressividade do Pistolero, ponta da lança às trocas de passes inebriantes articuladas por Lionel Messi. Em 26 minutos, o uruguaio saciou as dúvidas de quem se questionava sobre a sua comemoração.

O primeiro gol do Barcelona é uma jogada típica de Suárez. O centroavante nunca desiste. E essa mentalidade, unida com a confiança absurda, terminaram nas redes. Jordi Alba merece os elogios pelo cruzamento cirúrgico. Uma tacada de sinuca, que encontrou a fresta na zaga do Liverpool. Todavia, a perfeição se tornou possível graças à insaciedade do Pistolero. O lateral sabia onde o centroavante estaria, o que faria, a forma como acreditaria. Talvez os jogadores dos Reds imaginassem que ninguém pegaria aquela bola. Engano fatal: o uruguaio deu o pique às costas de Virgil van Dijk e se lançou ao encontro da pelota. Deixou o melhor zagueiro do mundo no meio do caminho e completou o passe como dava – da maneira necessária, no contrapé de Alisson, no fundo da meta.

Luis Suárez comemorou. Luis Suárez é esse espírito competitivo. E nem por isso precisará do perdão dos torcedores do Liverpool. Não há como se decepcionar com quem, por tantas vezes, usou esta sede de gol a seu favor. O Pistolero seguiria incomodando e incomodando. Fez um ótimo primeiro tempo, assim como todo o setor ofensivo do Barcelona. Que os Reds não tenham jogado mal, o problema era lidar com esta associação praticamente telepática que acontece entre Suárez e Messi.

No segundo tempo, o Barça caiu de nível. Marc-André ter Stegen, o outro fora de série deste elenco, apareceu. Mas não dá para se descuidar de um time que possui Suárez e Messi. Não dá para confiar em uma reação quando, na mínima brecha, pode-se ampliar o pesadelo. Foi o que aconteceu. Luisito arrematou de joelho e mesmo assim foi um tiro praticamente fatal. Esbarrou no travessão. Quando já girava o corpo para correr ao meio da área e brigar pela jogada, a expressão no seu rosto se afrouxou. Viu que a sobra veio mansa a Messi e nem precisou esperar o companheiro finalizar para já abrir o sorriso, aguardando o abraço em nova celebração.

Suárez foi ainda espectador privilegiado na cobrança de falta antológica de Messi. E seguiu tentando o quarto gol, apesar dos desacertos nos contra-ataques. Se outro tento não veio, é mero detalhe. Já nos acréscimos, Ernesto Valverde realizou uma substituição sem grandes efeitos, apenas em forma de homenagem. Messi ganhou as manchetes, como sempre faz. Isso não impediu o Camp Nou de ovacionar o Pistolero, seu atacante sempre disposto a mais. Exaltação tão merecida a quem, mesmo como coadjuvante, se consagrou no Barça como um dos melhores de sua posição nas últimas décadas.

Vaidade não é uma palavra presente no vocabulário de Luisito. Algo que se percebe pela maneira como se esfola em campo, bem como pela parceria com Messi. O uruguaio tem plena consciência de que, ao seu lado, está um deus do futebol. E não é isso que anula seu papel como uma lenda – seja para elevar Messi, seja para suplantá-lo em outros desafios enormes aos blaugranas. É assim que também escreve a história, honrado como auxiliar perfeito ao argentino – e como o centroavante dos sonhos de tanta gente.

O auge de Suárez muito provavelmente ficou para trás. As oscilações se tornaram comuns ao artilheiro nas temporadas recentes, entre secas dolorosas e outros momentos prolíficos. Nesta quarta de Champions, ele resgatou o seu melhor. E o passado é que impõe respeito a qualquer defensor, avisados há anos de que não podem se descuidar do Pistolero, que ele representa um tormento. Por uma fresta, o camisa 9 ajuda o Barcelona a se aproximar da final da Champions. Uma taça que não apenas recobraria o respeito máximo ao clube, como também aumentaria o próprio tamanho do uruguaio na história. Ao lado de Messi, ele merece este reconhecimento. Os torcedores do Liverpool também sabem disso.