Raríssimos países possuem jogadores de futebol tão politizados e conscientes de sua classe quanto o Uruguai. A união dos futebolistas charruas é histórica, e se reconta desde décadas atrás – pleiteando melhores salários, melhores condições, proteção aos seus direitos. E, nos últimos meses, os membros da seleção assumiram a briga contra a Tenfield, detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Uruguaio, que também agia como intermediária em alguns contratos da federação. Liderados pelo capitão Diego Godín, os atletas proibiram o uso de seus direitos de imagem, até que ganhassem uma fatia do bolo. Vitória essa cujo significado é maior: o primeiro recebimento do dinheiro não vai para o bolso das estrelas, e sim para os jogadores da segunda divisão nacional. Segundo o zagueiro, será uma ação pontual, diante dos atrasos nos pagamentos.

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“Isso não é um simples convênio, é um feito histórico. A relação da federação com os jogadores se aproxima e se profissionaliza, como deveria ser há anos. Temos que trabalhar juntos”, declarou, à emissora Del Sol. O valor doado será relativo a 16% dos direitos de imagem negociados pela federação uruguaia, fatia que a partir de agora pertencerá aos jogadores da seleção. “Para as próximas Eliminatórias, queremos vender os direitos televisivos e também os amistosos. Os jogadores cedem suas imagens e se cobra por isso, mas também queremos mais direitos e mais retribuições da federação. Isso será para melhorar nosso futebol, é o que queremos”.

Ao todo, a segunda divisão uruguaia receberá US$ 640 mil. Cada um dos 15 clubes ganhará US$ 43 mil, equivalente a pouco mais de cinco meses dos direitos televisivos pagos pela Tenfield. Além disso, em média, os jogadores devem embolsar US$ 2 mil. O valor é três vezes maior o salário mínimo disposto à segundona. A única questão será quanto à data do pagamento, uma vez que a federação tem parte de seus créditos congelada. O depósito relativo aos direitos de transmissão das Eliminatórias não caíram, por conta do envolvimento da empresa Full Play com o escândalo de corrupção da Fifa.

Godín, de qualquer maneira, reiterou o desejo dos jogadores da seleção em seguirem na linha de frente na luta pelos direitos dos futebolistas uruguaios. Eles planejam até mesmo a criação de uma associação entre os selecionáveis: “Queremos que seja um veículo e uma ferramenta para canalizar essas cobranças. O dinheiro de nossa imagem nós geramos, ele nos pertence e, quando recebermos, escolheremos para quem destinar”.