Quando a revista Der Spiegel e o Football Leaks divulgaram os planos secretos dos grandes clubes europeus para criarem a sua almejada Superliga, os dirigentes trataram de negar publicamente tal iniciativa e manifestaram o seu comprometimento em fortalecerem a Liga dos Campeões. Pois bem. Meses depois, a Associação Europeia de Clubes pensa que o público já se esqueceu das revelações. Ao que parece, a ideia agora é se apropriar da Champions e transformá-la na própria Superliga. Nesta quinta-feira, a entidade publicou uma carta de intenções, com uma série de propostas drásticas. Vale lembrar que o presidente da ECA é Gianni Agnelli, mandatário da Juventus e também citado nominalmente pelo Football Leaks.

A ECA anunciou sua reunião marcada para junho, na qual discutirá o formato das competições europeias a serem realizadas a partir de 2024. A entidade deseja discutir “de uma maneira construtiva” suas propostas para a Uefa. Também declara que pretende conduzir o processo de forma “transparente, direta e engajada”. A Uefa já possui o formato de suas copas definido até a temporada 2023/24. A partir de 2021/22, a Liga Europa será reduzida e uma terceira competição de clubes ocupará o calendário. A intenção da associação é pensar além. E em propostas que parecem beneficiar os grandes, mais uma vez.

A lista de pautas defende: mais jogos entre os principais clubes do continente; um sistema piramidal, que significaria o acesso e o rebaixamento nas competições continentais; a continuidade e a oportunidade para os clubes se desenvolverem dentro deste novo sistema; o aumento do ambiente competitivo nos torneios da Uefa; e a simbiose com os campeonatos nacionais. Segundo a ECA, isso seria positivo “a torcedores e sociedade, através do desenvolvimento cultural, esportivo e financeiro”. A entidade também encampa que a continuidade oferece a oportunidade para mais clubes crescerem. Além disso, promete uma plataforma “inclusiva, baseada na meritocracia, não no privilégio histórico”. Palavras utópicas, mas que é difícil de imaginar se revertendo na prática.

Não há dúvidas que esta nova competição pode ser mais interessante e equilibrada para os principais clubes da Europa. Mas questiona-se muito do idealismo carregado no anúncio. A tendência é criar uma “super-elite”, tão ou mais cristalizada do que na Champions, com outros clubes tentando se tornar coadjuvantes. Além disso, a promessa de meritocracia sobre desempenho histórico não cola muito, ao pensar que a tradição só costuma ser quebrada pela “meritocracia” dos magnatas que resolvem investir pesado em clubes periféricos – vide PSG, Manchester City e Chelsea. As possibilidades comerciais, sem dúvidas, se expandem e isso pode diminuir algumas diferenças entre as ligas. Mas é difícil crer em um sistema tão benevolente. Ainda assim, por tudo que se desenha, a pressão indica que este é um processo próximo. E que, de fato, causará uma mexida em ligas nacionais que perdem sua relevância.

A ECA já sabe que enfrentará resistência. A principal, da Premier League, que tende a perder terreno com tais mudanças. Os ingleses foram rápidos ao se posicionar sobre o comunicado da associação continental. A liga nacional mais forte do planeta, em teoria, é a que tende sofrer os maiores impactos negativos diante da nova Champions. Não irão ceder, ao menos neste primeiro momento.

“Todos os 20 clubes da Premier League discutiram suas preocupações significativas diante das propostas reportadas para mudar o formato e os critérios das competições europeias. Todos os clubes, de maneira unânime, concordaram que é inapropriado criar planos que alteram estruturas, calendário e competitividade das ligas nacionais. Eles irão trabalhar juntos para proteger a Premier League. […] Temos uma combinação fantástica de futebol competitivo e torcedores comprometidos, que iremos defender vigorosamente. As estruturas do futebol doméstico são determinadas pelas ligas e suas respectivas federações. Iremos agir com a FA e outras ligas para assegurar que os organismos europeus entendam isso e sua obrigação de manter a saúde e a sustentabilidade do futebol nacional”, afirmaram. Uma briga longa, que certamente verá outras ligas nacionais engajadas, a despeito de alguns de seus principais clubes.