Tempos difíceis, tempos estranhos. Estamos todos em casa (ou deveríamos estar) acompanhando o noticiário com apreensão, preocupados com nossos entes queridos, sem um joguinho de futebol para servir de alívio. O que fazer? Bom, se não há novos joguinhos de futebol, por que não assistir aos velhos? Seja pela primeira vez ou pela segunda (ou terceira, ou quarta). Nesta nova seção, trazemos sugestões a nossos leitores de jogos históricos, a maioria deles no acervo do ótimo Footballia, com nossos comentários, observações, pesquisas e relatos. Uma maneira de nos desligarmos um pouco de curvas, casos confirmados, isolamentos, escassez de equipamentos e mortes. A prioridade do momento é cuidar da saúde, e a mental é tão importante quanto a física.

Há algum jogo que gostariam que nós revíssemos e comentássemos? A caixa de comentário é toda de vocês.

O contexto

O Brasil era o atual campeão, mas não vinha encantando. Havia encerrado a campanha na fase de grupos com derrota para a Noruega, goleara o Chile e passara por certo sufoco contra a Dinamarca. Coletivamente, não era um time que funcionava muito bem e dependia demais de Ronaldo Fenômeno – na época, ainda Ronaldinho. Havia um número considerável de pedidos para que Edmundo assumisse a segunda vaga do ataque no lugar de Bebeto. A análise da Folha apontava que era pior defesa entre os quatro semifinalistas e que precisou apelar para as faltas para parar a Dinamarca, que chutava quase dez bolas a menos do que a Holanda. Reedição das quartas de final da Copa do Mundo anterior, decidida por aquele gol de Branco, e os holandeses vinham com mais moral por terem eliminado Iugoslávia e Argentina nas fases anteriores. Você pode ver o jogo completo, antes durante ou depois de ler nosso texto, aqui, em três partes: primeiro tempo, segundo tempo e prorrogação/pênaltis.

Primeiro tempo

Zé Carlos estava desempregado. Depois, acertou com a Matonense. Depois, acertou com o São Paulo. Depois, foi convocado à Copa do Mundo com o corte de Flávio Conceição e depois fez sua primeira partida contra a Holanda, pela semifinal, no lugar de Cafu, suspenso. Todo esse trajeto durou apenas dois anos, então foi natural que ele parecesse um pouco abaixo da ocasião no estádio Vélodrome de Marselha.

Mais de uma vez no primeiro tempo o propósito da troca de passes da Holanda era buscar Zenden nas costas do lateral direito que gostava mais de cruzar do que de defender. Algumas jogadas holandesas de perigo saíram por aquele setor, mas, no geral, foi uma etapa muito travada.

Depois de Kluivert acionar Bergkamp para um chute de fora da área por cima do travessão, Zenden recebeu o lançamento de Wim Jonk, o jogador mais recuado do meio-campo de Guus Hiddink, e cruzou com perigo. César Sampaio, meio no susto, cortou para escanteio. As duas primeiras jogadas de uma Holanda que começou a partida dominando a posse de bola.

O Brasil tinha sérias dificuldades para sair jogando. Os zagueiros Junior Baiano e Aldair frequentemente tocavam entre si e precisavam pensar bastante no que fariam com a bola. A busca era pelo contra-ataque e pelos lançamentos. Roberto Carlos foi acionado três vezes pela esquerda e, depois de dois cruzamentos sem sentido, conseguiu encontrar a cabeça de Bebeto, entre dois homens muito mais altos que ele. Para fora.

Ronaldinho deu seu cartão de visitas ao tabelar com Leonardo, colocar na frente, arrancar para dentro da área e tentar a batida cruzada de perna direita, bloqueada por Jaap Stam. O Brasil tinha apenas duas ideias: lançamentos e Ronaldinho correndo.

Percebendo essas dificuldades, a Holanda passou a marcar bem alto com seu trio de frente – Zenden, Kluivert e Bergkamp – e um lance ilustrativo foi quando Junior Baiano, após horas com a bola no pé sem saber o que fazer, recebeu o apoio de Dunga, que lançou para Rivaldo, que lançou para Bebeto, e a bola saiu pela linha lateral. Galvão Bueno notou o problema após duas vezes que Baiano precisou recuar para Taffarel: “Ele vai sufocar o Taffarel”, alertou o narrador da Rede Globo.

Rivaldo atuava bem recuado, na altura do círculo central, como armador da seleção brasileira, enquanto Leonardo atuava em algum outro lugar que não era o Vélodrome. Mal foi visto no primeiro tempo. Eventualmente, Junior Baiano conseguiu um bom passe para Rivaldo, pela lateral esquerda do gramado. Pela intermediária, ele cruzou direto para Bebeto, marcado por Frank de Boer. Bebeto chegou a tocar na bola, sem direcioná-la.

Mais uma vez, Zenden atacou as costas de Zé Carlos, após passe rasteiro de Cocu, e cruzou com muito perigo para a segunda trave, onde Bergkamp estava pronto para marcar, não fosse a ação defensiva crucial de Roberto Carlos. Novamente pela ponta esquerda, Kluivert apareceu para o cruzamento que Roberto Carlos amorteceu de peito para Taffarel. Kluivert ainda conseguiu uma cabeçada por cima do travessão antes do intervalo.

Segundo tempo

O Brasil saiu com a bola e a levou a Aldair, pela esquerda. Ele deu um passe rasteiro para Roberto Carlos, que encontrou Rivaldo, um pouco para trás. Rivaldo dominou, levantou a cabeça e percebeu Ronaldinho se mexendo. O passe saiu para o famoso ponto futuro. Ronaldinho dominou com a perna esquerda e com ela mesma tocou entre as pernas de Van der Sar, apesar das tentativas de Philip Cocu de arrancar a sua camisa. O relógio ainda não havia marcado um minuto inteiro no segundo tempo.

Cenário dos sonhos para o Brasil. A vontade de contra-atacar era grande antes mesmo de ter vantagem no placar. Poderia, agora, intensificar sua estratégia, à medida em que a Holanda ficava mais nervosa. Bastava defender bem e matar o jogo quando tivesse a oportunidade, duas tarefas que o time de Zagallo não executou com tanto esmero assim.

Logo em seguida, Cocu ganhou o escanteio pela esquerda. Kluivert ganhou pelo alto – Kluivert ganhou todas pelo alto neste jogo, inclusive uma bem importante nos minutos finais – e desviou para Frank de Boer pegar de primeira. Taffarel fez uma excepcional defesa, e Rivaldo afastou para outro escanteio. Uma sequência de três cantos que começou a dar o tom da pressão holandesa na etapa final.

À Holanda faltou acelerar um pouco mais o jogo. A posse de bola era mantida com passes às vezes lentos demais, pensados demais, sem criar tantas chances. Tinha o controle. O Brasil tinha Ronaldinho. Cocu teve a moral de cometer uma reversão em cobrança de lateral. Zé Carlos cobrou dois seguidos, o segundo direto para Ronaldinho, que dividiu pelo alto. Bebeto ficou com a sobra e acionou o atacante, livre dentro da área. Van der Sar saiu para abafar. Ronaldinho ainda tocou a bola antes de o goleiro holandês ficar com ela.

Zenden continuava dando trabalho a Zé Carlos, que conseguiu bloquear o cruzamento com um carrinho. A cobrança de escanteio foi novamente direcionada a Kluivert, que conseguiu o desvio cruzado de cabeça, levando Galvão Bueno a agradecer os Deuses do futebol por terem movido a trave. Estava em grande forma Galvão Bueno neste jogo e na Copa inteira. Outra ótima jogada de Kluivert, tabelando com Bergkamp, terminou em uma bomba de fora da área, agarrada por Taffarel.

O Brasil ainda conseguia escapar. E frequentemente qualquer coisa saía dos pés de Rivaldo. Ele fez uma grande jogada no círculo central, levando da esquerda para o meio, e lançou Ronaldinho com a parte de fora do pé esquerdo. Ronaldinho ficou cara a cara com Van der Sar, mas Davids conseguiu a recuperação e o forçou a bater travado. A bola ainda rolou lentamente para fora, muito próxima à trave esquerda.

A Holanda continuava pressionando, mas as principais chances eram brasileiras. Novamente Rivaldo tocou para Denílson, que havia entrado no lugar de Bebeto. Pedalada para lá, pedalada para cá, Denílson bateu cruzado e reencontrou Rivaldo, que se enrolou com a bola e caiu. Do chão, ainda conseguiu finalizar para boa defesa de Van der Sar.

Paulo Roberto Falcão não gostou de ver o Brasil, com vantagem no placar, em semifinal de Copa do Mundo, nos minutos finais da partida, levar um contra-ataque. Mas estava difícil parar Kluivert. Ele recebeu no meio-campo, girou, abriu com um toque de classe para Van Hooijdonk e recebeu livre dentro da grande área. Bateu de primeira com a perna esquerda, mas isolou uma excelente oportunidade.

Aos 42 minutos do segundo tempo, Frank de Boer lançou do meio-campo direto para a área brasileira. A bola não foi bem afastada e chegou a Ronald de Boer pela direita. O cruzamento foi bom, a movimentação de Kluivert para se antecipar a Junior Baiano, melhor ainda. A cabeçada desta vez tomou exatamente a trajetória que o atacante holandês queria e morreu no fundo das redes de Taffarel. Partida empatada. Prorrogação.

Prorrogação e pênaltis 

Rivaldo mais uma vez encontrou um bom passe, Roberto Carlos recebeu pela esquerda e invadiu a área. Estava em boa posição para bater, mas preferiu o passe, cortado pela defesa holandesa. Roberto Carlos ainda tinha muito gás na prorrogação e teve outras duas boas chegadas. Na última, Van der Sar espalmou, e Ronaldinho virou uma bicicleta meio torta que Frank de Boer precisou cortar quase em cima da linha.

Ninguém mais tinha muita perna e era morte súbita. Gol de ouro. Qualquer erro poderia ser fatal e, nesse cenário, o Brasil foi melhor na prorrogação, mais perigoso e incisivo. E com um craque. Ronadinho colocou a bola debaixo do braço e tentou decidir a parada com duas lindas jogadas individuais – que precisaram ser individuais porque ele estava completamente isolado no campo de ataque. A primeira parou em uma boa defesa de Van der Sar no canto esquerda. A outra, com direito a deixar Frank de Boer comendo poeira e um lindo drible em Stam, foi bloqueada por De Boer que conseguiu uma milagrosa recuperação.

A tentativa mais contundente da Holanda para evitar os pênaltis saiu de duas das armas mais utilizadas nesta partida: o lançamento e as costas de Zé Carlos. Kluivert apareceu por ali, entrou na área e bateu cruzado de perna esquerda, muito, muito, muito perto da trave.

Chegou a hora dos pênaltis e, durante as cinco primeiras cobranças, tudo certo: Ronaldinho bateu alto, Frank de Boer teve firmeza, Rivaldo cobrou cruzado, Bergkamp foi gelado para colocar no canto e Emerson não quis arriscar e jogou no meio. Cocu também tentou cruzar, mas Taffarel defendeu. Dunga colocou o Brasil em ótima situação. Se Ronald de Boer perdesse, a Holanda estaria eliminada.

De Boer andou devagar, deu uma leve paradinha e tentou deslocar Taffarel. Taffarel não foi deslocado. Taffarel saiu do gol. A bola era de Taffarel.

Quem comeu a bola

Com atuação apagada de Bergkamp, Patrick Kluivert foi praticamente o ataque inteiro da Holanda sozinho. Saiu da área para tabelar, entrou na área para finalizar, ganhou todas pelo alto e fez o gol de empate quando seu time já estava fazendo o check-in. Foi ameaça constante e, no mano a mano, ganhou o duelo com Ronaldinho, que passou longe de atuar mal, mas não conseguiu produzir tanto quanto o então atacante do Milan, que estava prestes a se transferir ao Barcelona.

Atuação subestimada

Não se fala tanto desta partida como uma das maiores de Rivaldo com a camisa da seleção brasileira, mas praticamente tudo saiu de seus pés. Não estava em sua posição favorita, muito recuado, mas buscou o jogo com lançamentos no primeiro tempo, deu o passe para o gol de Ronaldinho, deixou-o na cara de Van der Sar mais uma vez e quase sempre conseguia encontrar os companheiros em boas situações. 

Quem pisou na bola 

Difícil não citar Zé Carlos. Convocado improvável para ser reserva de Cafu, quis o destino que sua oportunidade aparecesse logo em uma semifinal contra um dos melhores times daquela Copa do Mundo. A Holanda logo percebeu que as suas costas eram a melhor aposta para chegar ao ataque e criar situações de perigo. Esteve abaixo da ocasião, mas não se pode criticar o seu esforço. Deixou tudo no gramado do Vélodrome.

Momento decisivo 

A arrancada de Ronaldinho no segundo tempo da prorrogação foi uma coisa de outro mundo. Ele saiu do meio-campo com um tapa que deixou Frank de Boer para trás. Os dois apostaram corrida em direção à grande área. O brasileiro ainda fez um desvio para driblar Stam e mesmo assim conseguiu chegar antes do capitão holandês. Se De Boer não tivesse se recuperado para travar o chute de Ronaldinho, tudo provavelmente acabaria ali. 

Os melhores cinco minutos

Os primeiros da prorrogação são uma boa pedida. Foi um dos melhores momentos do Brasil no jogo, com Roberto Carlos invadindo a área pela esquerda seguidas vezes, Ronadinho tendo uma bicicleta cortada em cima da linha e depois fazendo jogada individual, sozinho contra uns três holandeses, e batendo para bela defesa de Van der Sar.

Prancheta

Zagallo desenvolveu uma tática sofisticada, complexa, cheia de variáveis e meandros, que exigiu anos de estudos e semanas de treinamento: botar o Ronaldinho para correr. Foi impressionante como o Brasil não teve meio-campo. Dunga e César Sampaio marcavam muito recuados e só de vez em quando auxiliavam na saída de bola. Rivaldo precisava se posicionar na altura do círculo central e sabe-se lá qual era a função de Leonardo. Se era não tocar na bola, ele foi brilhante. Antes e depois de abrir o placar, o que o Brasil mais tentou fazer foi colocar Ronaldinho em situação de mano a mano com os defensores holandeses, com campo para ele colocar velocidade. Não deu tão certo, embora o gol tenha saído justamente de um passe de média distância de Rivaldo para Ronaldo aparecendo entre zagueiros. 

Pérolas da narração

Em certo momento, Roberto Carlos antecipou-se na intermediária defensiva para afastar um dos muitos lançamentos da Holanda e tentou um sem pulo. Seu taco, porém, espirrou, o que levou Galvão Bueno a dizer: “Essa coisa do Roberto Carlos de dar bicicleta, de chegar e dar de sem pulo, é tão simples chegar e dar um toque na bola”. Ele mal esperava o que aconteceria na final contra a França. 

Vestiários

Taffarel contou nem pensou na hipótese de o Brasil fazer o Gol de Ouro e decidir a parada. “Torci para a prorrogação acabar logo e ir para os pênaltis”, disse, segundo a Folha. Contou que Zico, auxiliar de Zagallo, cobrou, meio brincando, que ele precisava melhorar seu percentual de defesas: “Respondi que defenderia na hora certa: está aí”. E rechaçou que fosse especialista em cobranças de pênaltis – embora fosse. “Não tenho uma técnica especial. É mais intuição e a benção de Deus mesmo”, disse, humilde. “Não sou herói. Sou apenas um cara iluminado”. 

Nos livros de história  

Foi um dos jogos que marcaram a carreira de Taffarel na seleção brasileira, junto, claro com a disputa de pênaltis contra a Itália em 1994. Desta vez, ele defendeu duas cobranças e foi absolutamente decisivo. Encerrou a história de uma geração brilhante da Holanda em Copas do Mundo, derrotada pela camisa verde e amarela tanto nos Estados Unidos quanto na França. E colocou o Brasil em sua sexta final, com a oportunidade de abrir vantagem de dois títulos para Itália e Alemanha. Bastava passar pela anfitriã França no Saint-Dennis.