Em meio à pandemia do novo coronavírus, criamos a seção Assistimos na Quarentena, com jogos históricos revisitados. Muitos dos jogos você encontra no Footballia. Quer ver um jogo específico aqui? Vá aos comentários e sugira. O espaço é seu.

Contexto 

A reconstrução do Barcelona estava em andamento. Era a segunda temporada de Frank Rijkaard à frente do clube, mas ainda faltavam algumas peças que seriam importantes no título europeu do ano seguinte. Havia passado pela fase de grupos com duas derrotas – para Milan e Shakhtar Donetsk -, mas conquistara a vantagem do empate ao vencer o jogo de ida das oitavas de final contra o Chelsea no Camp Nou por 2 a 1.

O Chelsea era o grande time da Inglaterra. Havia trazido José Mourinho, então o último treinador campeão europeu no ano anterior pelo Porto, e conquistaria a Premier League com muita folga – 12 pontos para o segundo colocado, em uma época pré-Manchester City e Liverpool quando 12 pontos ainda configuravam “com muita folga”.

O grande objetivo era conquistar a Champions League. Até por isso, a contratação do especialista Mourinho. Robben era desfalque por lesão, e Drogba estava suspenso porque havia sido expulso no Camp Nou – jogo completo no Footballia aqui.

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Primeiro tempo

A partida começou nervosa, com muitos erros de passes e lançamentos precipitados, mas a dinâmica rapidamente se tornou clara. O Barcelona era um time que buscava manter a posse de bola mesmo antes de Guardiola, talvez não com a mesma rigidez, e José Mourinho, embora em casa, havia armado seu time em um 4-4-2 para buscar os contra-ataques.

Tinha Joe Cole pela direita, Duff pela esquerda, Kezman e Gudjohnsen formando a dupla de ataque. Mordia bastante no meio-campo com Makelele e Lampard, que, aos oito minutos, bateu a carteira de Xavi e lançou Kezman pela direita. O atacante sérvio cruzou de primeira para o outro lado do gramado, onde Gudjohnsen driblou Gerard López e, caído, fez 1 a 0 para o Chelsea.

Aquele placar era suficiente para os ingleses, pelo gol anotado no Camp Nou, e a situação quase ficou mais confortável, minutos depois, quando Terry desviou o escanteio para Lampard, livre na entrada da pequena área. Lampard girou batendo de primeira e mandou por cima do travessão.

As subidas em velocidade do Chelsea pelas laterais funcionaram muito bem. Pela direita, Joe Cole passou por cima de Giovanni van Bronckhorst, levou à perna esquerda e bateu meio despretensioso. Um desvio na defesa, porém, enganou Valdés, que ainda conseguiu se recuperar e barrar a bola com uma das mãos. O rebote ficou limpo para Lampard estufar as redes.

O Barcelona, àquela altura, não sabia pelo que havia sido atingido. Dois minutos depois, Eto’o foi desarmado na intermediária ofensiva. O Chelsea armou o contra-ataque com toques de primeira. Kezman deixou para Lampard, que cortou a bola e emendou um lindo lançamento para deixar Duff na cara de Valdés. Um toque na saída, e o placar estava 3 a 0.

Apenas aos 23 minutos, os catalães conseguiram levar algum perigo a Petr Cech, com um chute de fora da área de Eto’o que o goleiro precisou espalmar a escanteio. Houve duas cobranças seguidas e, na última delas, Ronaldinho cabeceou com perigo. Até ali, o craque brasileiro pouco havia aparecido na partida, mas teria a chance de ouro de descontar depois de Paulo Ferreira dividir com Eto’o com o braço bem esticado. Pênalti que Ronaldinho converteu com um chute rasteiro.

Por volta dos 38 minutos, Deco testou os reflexos de Cech – estavam muito em dia – com uma bomba em cobrança de falta. A bola voltou ao Barcelona no meio-campo e chegou à entrada da área. Iniesta deixou com Ronaldinho que simplesmente parou diante de Ricardo Carvalho. Havia dois outros jogadores do Chelsea atrás do zagueiro português e outro se aproximando para pressionar o brasileiro.

Ronaldinho nem se mexeu. Quer dizer, seus pés não se mexeram. Seus quadris, porém, foram de um lado para o outro, em uma rara ocasião no futebol em que um marcador foi driblado sem que o portador da bola precisasse de fato superá-lo. Sem nem armar o chute, sem nenhum movimento extravagante, Ronaldinho simplesmente deu um tapa na bola com o pé direito. Cruzado, quase à meia-altura, no único corredor que a levaria ao gol. Morreu no canto direito de Cech.

O golaço histórico de Ronaldinho recolocou o Barcelona na partida. Agora, eram os espanhóis que tinham a vantagem dos gols marcados fora de casa e quase conseguiram o empate com um passe de três dedos do brasileiro para Eto’o, que dominou erguendo a perna direita e emendou um chutaço com a esquerda, por cima do gol de Cech. Mas por pouco.

Antes do intervalo, o Chelsea ainda acertou a trave, com Joe Cole aproveitando a falha de Van Bronckhorst, e Valdés defendeu o rebote que caiu nos pés de Duff.

Segundo tempo 

Tudo começou de novo para o time de casa, que precisava ir em busca de pelo menos um gol, sem sofrer outro, para passar às quartas de final. Valdés precisou parar o cabeceio de Lampard quase em cima da linha, após cobrança de escanteio de Duff, e, no outro lado, Cech pulou para espalmar o chute cruzado de Belletti, de fora da área.

Eto’o, no segundo tempo, atuou praticamente como ponta esquerda, deixando Ronaldinho mais solto para rodar. Aos 15 minutos, disparou fazendo Ricardo Carvalho comer poeira. Entrou na área e, na hora que definiria o lance, Carvalho conseguiu se recuperar e o desarmou com um brilhante carrinho. Na cobrança de escanteio, Puyol pulou de peixinho e foi a vez de Cech defender em cima da linha.

Joe Cole estava impossível quando ganhava velocidade e cortava para o meio. Fez Valdés espalmar seu forte chute de fora da área, e Lampard, com uma cobrança de falta de muito longe, assustou o goleiro espanhol. Puyol fez um importante bloqueio em chute de Gudjohnsen, que recebeu a sobra livre na segunda trave.

A partida ganhava ritmo. Em uma rara aparição de Iniesta na partida, ele driblou Gallas, fez Duff passar reto e bateu de perna esquerda, no pé da trave. Glen Johnson tinha tudo para dominar o rebote, mas o deixou passar. Eto’o recebeu de frente, sem goleiro. Tinha o lateral direito bloqueando o caminho e tentou fazer com que a bola desviasse dele. Colocou mostarda demais e isolou uma chance claríssima.

Eto’o se arrependeria muito daquele erro porque, logo na sequência, Lampard tentou achar Gallas pela esquerda. Belletti conseguiu mandar para escanteio. Duff cobrou aberto, quase para fora da área. Terry se livrou da marcação e cabeceou cruzado. A bola passou por todo mundo e entrou no canto esquerdo de Valdés.

O Barcelona foi para a pressão. Basicamente com cruzamentos e bolas paradas. Frank Rijkaard mexeu duas vezes, com Giuly na vaga de Belletti e Maxi López (sim, aquele) no lugar de Iniesta. O narrador inclusive lembro que López havia mudado o jogo de ida, quando fez seu primeiro gol – e quase único, houve apenas mais um, em 2006, pela Copa do Rei – pelos catalães e deu o passe para o segundo, de Eto’o.

Desta vez, não houve mágica. Nem de Ronaldinho. Aos 47 minutos, o brasileiro, desaparecido no segundo tempo, fez fila na intermediária e sofreu falta. Deco bateu rasteiro. Não pegou muito bem na bola e viu sair pela linha de fundo a última chance do Barcelona.

Quem comeu a bola

Frank Lampard foi segundo colocado na Bola de Ouro de 2005, atrás apenas de Ronaldinho, e fica fácil entender o motivo. Foi uma temporada explosiva do meia, com 19 gols, e, contra o Barcelona, ele mostrou todas suas armas. Teve chegada à área, cabeceio e passes muito precisos. Faltou o chute de fora da área, mas, no fim das contas, nem fez falta.

Atuação subestimada

O destaque individual do ataque deste Chelsea era Robben, desfalque por lesão, mas Joe Cole compensou muito bem a ausência do colega. Toda vez em que pegava a bola em velocidade pelas pontas teve facilidade para cortar para o meio e levar perigo com chutes muito precisos. Acertou a trave e fez a jogada do gol de Lampard. 

Quem pisou na bola

É uma escolha difícil entre Oleguer e Gerard López. Ficamos com o volante e, também, a lembrança de que esse time do Barcelona marcado por Ronaldinho, Eto’o e Deco tinha também jogadores como Oleguer e Gerard López – que deixaria o Camp Nou ao fim da temporada 2004/05. 

Momento decisivo

Se Eto’o tivesse baixado alguns metros o rebote da bola na trave de Iniesta, o Barcelona teria conseguido um heroico empate por 3 a 3 e deixaria o Chelsea precisando de dois gols em aproximadamente 15 minutos para se classificar. Não baixou e, logo depois, Terry fez o gol da classificação. 

Os melhores cinco minutos

Valer rever por volta de dez minutos entre o primeiro gol e o terceiro dos donos da casa, quando marcou com muita qualidade e saiu com rapidez e objetividade para o ataque, o melhor que aquele time de Mourinho tinha para apresentar. 

Pérolas da narração

O gol de Ronaldinho pegou o narrador um pouco de surpresa. Quando ele dominou a bola na entrada da área, disse: “Ele tentará algo esperto”. De fato. A bola já havia entrado há bons segundos quando ele emendou: “Está dentro! Que gol extraordinário. O tempo parece parar quando ele está com a bola”.

Prancheta

O Barcelona teve Xavi e Iniesta em campo, mas não era o Barcelona de Xavi e Iniesta. Xavi atuou bem recuado, quase sempre no círculo central, e pela esquerda. Tentava qualificar a saída de bola, sem tantas opções quanto viria a ter anos depois com Guardiola. E Iniesta foi um desperdício como ponta direita. Teve apenas uma boa jogada, embora tenha cruzado para o pênalti cometido por Paulo Ferreira. De resto, pouco apareceu.

Vestiários

Duff contou à FourFourTwo que Mourinho queria cruzar com o Barcelona:

“Nós os atropelamos. Isso era o que acontecia quando Mourinho se preparava. Ele nos disse que queria o Barcelona. Achamos que ele era louco porque eles tinham Ronaldinho, Eto’o, mas ele estava certo, como sempre. Foi legal ter feito um gol, mas Ronaldinho apareceu com um desempenho incrível”.

Ronaldinho chegou a pedir a Rijkaard, em algum momento, que ele contratasse Lampard:

“Eu disse a Rijkaard que ele deveria contratá-lo, mas ele não queria sair do Chelsea. Tenho certeza que eles não o deixariam sair, naquele momento ele era um dos grandes da Europa. Seu número de gols para um meia era o que realmente me impressionava”.

Nos livros de história

O Barcelona ainda não estava pronto para ser campeão europeu. Por outro lado, voltaria a conquistar o Campeonato Espanhol naquela temporada e, no ano seguinte, se vingaria do Chelsea, em outro duelo histórico da Champions League. O Chelsea era forte. Passaria pelo Bayern de Munique nas quartas de final, mas pararia na fase seguinte, quando o famoso gol fantasma de Luis García encerrou sua campanha europeia.