Em meio à pandemia do novo coronavírus, criamos a seção Assistimos na Quarentena, com jogos históricos revisitados. Muitos dos jogos você encontra no Footballia, outros tantos você acha no próprio Youtube. Quer ver um jogo específico aqui? Vá aos comentários e sugira. O espaço é seu. Nestes tempos de quarentena, é importante cuidar da saúde física e mental. Ver grandes jogos é sempre uma boa pedida.

Contexto

O Santos viva um imenso jejum. Desde a conquista do Campeonato Paulista de 1984, o clube da Vila Belmiro amargava a ausência de taças. O jejum incomodava e já tinha completado 10 anos. Além disso, o Peixe não vivia um bom momento, com dívidas e só podendo contratar desconhecidos. Foi o caso de Giovanni, que chegou da São Carlense em 1994, sem nenhum alarde. Chegou no final do ano, estreou em outubro, e pouco a pouco ganhou seu espaço.

O Campeonato Brasileiro de 1995 foi o primeiro valendo três pontos por vitória. Tinha 24 clubes e a fórmula de disputa se dividia em duas fases. Havia uma separação em dois grupos de 12 clubes. Primeiro eles se enfrentavam dentro do grupo, totalizando 11 jogos. Depois, jogavam contra os clubes do outro grupo, totalizando mais 12 jogos. Classificavam-se para a final os vencedores de cada turno. Assim, avançaram Cruzeiro e Fluminense, primeiros colocados das suas respectivas chaves, e depois Botafogo e Santos, primeiros colocados na segunda etapa. A partir daí, fizeram semifinais e finais em ida e volta.

O Santos abriu as semifinais no Rio de Janeiro, e tinha levado um sonoro 4 a 1 no Maracanã. Mesmo saindo na frente com Giovanni, o Santos tomou a virada com Renato Gaúcho, Ronald, Leonardo e Cadu. Pior: ainda teve dois titulares expulsos, Robert e Jamelli. O jogo aconteceu em uma quinta-feira, 7 de dezembro. A volta seria no dia 10, domingo, no Pacaembu.

Antes do jogo decisivo entre Santos e Fluminense, o Botafogo, um pouco mais cedo, O Botafogo garantiu a classificação à final com um 0 a 0 contra o Cruzeiro no Maracanã. Com dois empates, avançou o time da estrela solitária por ter melhor campanha. Assim, havia uma expectativa de uma final carioca, pela grande vantagem do Fluminense naquela eliminatória. O Santos, por ter melhor campanha, precisava de uma vitória por três gols de diferença para igualar o saldo de gols e avançar à decisão. Um pequeno milagre.

O time base do Santos no Campeonato Brasileiro de 1995 (Divulgação/Santos FC)

Primeiro tempo

O Santos já começou atacando, com Camanducaia pela esquerda e partindo para cima. Sofreu uma falta já nos segundos iniciais, que não rendeu nada. Mas o Santos dominava as ações. O Fluminense cadenciava a bola sempre que tinha a posse, mas era por pouco tempo. O Santos pressionava para recuperar a bola e partia de novo para cima.

O primeiro lance de perigo do Santos nasceu com Giovanni. O camisa 10 buscou jogo na intermediária, tabelou, tentou o passe no meio para Marcelo Passos, já dentro da área, mas a bola ficou mais para a zaga. Lima chutou para afastar, a bola explodiu em Marcelo Passos e foi para o goleiro do Fluminense, Wellerson, fazer a defesa sem problemas.  Logo depois, o próprio Marcelo Passos recebeu pelo meio, fintou para abrir espaço e chutou para mais uma defesa do goleiro do Fluminense.

Renato era o ponto focal do Fluminense. O time o procurava e ele tinha soluções elegantes em espaço curto, mas pouco conseguia fazer além de tentar passes longos, ou mesmo recebê-los. Carlinhos teve uma chance aos 15 minutos, em um lance que o Fluminense marcava bem, não dava espaço e chutar a gol de longe era a única opção do camisa 8. Carlinhos aproveitou o espaço e chutou forte, para boa defesa de Wellerson.

Giovanni, principal jogador do time, não conseguia receber a bola com espaço. Era muito procurado, mas sempre tomava trancos pelo alto e por baixo, sem conseguir dominar. Acabou sofrendo duas faltas em bolas que recebeu de costas e imediatamente a marcação chegou firme. A torcida do Santos fazia seus gritos ecoarem por todo Pacaembu, tentando apoiar o time.

Só que o Fluminense finalmente conseguiu o contra-ataque que queria próximo dos 20 minutos de jogo. Marcos Adriano tocou de cabeça errado pelo meio e Valdeir interceptou, tocou rápido para Renato Gaúcho, mas Ronaldo Marconato conseguiu chegar antes em um carrinho. Valdeir aproveitou a sobra e lançou para Renato, na cara do gol. Na hora de chutar, acabou travado de forma precisa pelo lateral Marcos Adriano, que fechou precisamente pelo meio.

O lance animou o Fluminense, que passou a ter a bola mais no campo de ataque. Valdeir recebeu a bola dentro da área e tentou cavar um pênalti que o árbitro Sidrack Marinho não caiu. Logo depois, em um cruzamento por baixo de Ronald, Rogerinho não conseguiu dominar. Mas, ao menos, chegava ao ataque.

Em uma longa inversão de bola para o lado esquerdo, Camanducaia recebeu, dominou mal, mas conseguiu recuperar a bola de Ronald. Otacílio chegou na marcação e derrubou o camisa 11 do Santos. Sidrack Marinho nem titubeou: apontou a marca do pênalti. Giovanni pegou a bola e a colocou embaixo do braço. Um gesto simbólico. Eram 25 minutos do primeiro tempo.

Com os cabelos curtos e pintados de vermelho, o camisa 10 tinha as mãos na cintura, partiu para a bola e cobrou com precisão, no cantinho esquerdo. Wellerson foi muito bem na bola, chegou perto, mas não pegou. Era o gol que abria o placar: Santos 1 a 0 no Pacaembu. Como era de se esperar, o santista foi até o fundo da rede, pegou a bola e buscou para levar rápido ao meio-campo.

Foi o 15º gol de Giovanni em 23 jogos naquele Campeonato Brasileiro. Ele, que mal tinha conseguido aparecer até ali, muito bem marcado, não podia ser marcado em um pênalti e converteu um lance crucial para o seu time. A vantagem ainda era do Fluminense, que tinha feito três gols de diferença na ida. Poderia perder por até dois gols de diferença na volta que faria a decisão. Mas ainda tinha muito tempo.

Se Giovanni sofria com a forte marcação de Lima e Alê, os zagueiros tricolores, Renato também sofria muito, especialmente com Narciso, que não dava respiro ao camisa 10 do Flu. Giovanni, então, voltou para buscar o jogo. Tentou armar, virou o jogo, a bola foi longa, o Santos continuou com a bola.

Marcos Adriano retomou, tocou para Carlinhos, que aproveitou um buraco no meio-campo. Ele girou e ameaçou o chute, como já tinha feito antes no jogo, mas tocou para Giovanni. O camisa 10 mostrou um toque de gênio: em vez de dominar de costas e ser devorado pela marcação, ameaçou, dominou já tirando de Alê e, de frente para o gol, chutou de bico no canto do goleiro Wellerson: 2 a 0 para o Santos, aos 29 minutos. A vantagem do Fluminense de poder perder por dois gols já estava no limite. A torcida do Santos, empolgada, já gritava “Mais um, mais um”. O barulho aumentou no estádio: a torcida santista marcava presença no som ambiente.

O Fluminense teve a chance pouco depois. Renato carregava a bola, tomou um carinho embaixo que tirou a bola, que foi para a esquerda, os jogadores do Santos não conseguiram cortar e a bola sobrou para Valdeir, já dentro da área. O camisa 7 do Flu. Ele hesitou um momento, mas chutou. Edinho espalmou, a bola bateu em Marcos Adriano e foi para fora. A torcida gritou o nome do goleiro. Na cobrança do escanteio, uma bola perigosa que acabou afastada com um chutão por Giovanni, ajudando na defesa com seu 1,90 metro de altura.

O Santos chegou perto do terceiro gol em uma longa bola de Marcelo Passos da esquerda par a direita na direção de Macedo. O camisa 7 pegou de primeira, bonito, e explodiu no travessão. Ele colocou as mãos na cabeça, lamentando. Eram 35 minutos do primeiro tempo. A torcida santista, que já acreditava no 0 a 0, via a classificação como algo absolutamente possível. Mas o jogo ainda era perigoso. O Fluminense tinha desperdiçado as chances que teve, que poderiam tornar a tarefa bem mais difícil.

Giovanni continuava recebendo faltas pelo meio e desta vez, já na reta final do primeiro tempo, ela era frontal. O lateral Marquinhos Capixaba ajeitou com cuidado e bateu com esmero. A bola passou perto, mas foi para fora. O jogo era muito picado com as faltas que o Fluminense fazia. O Santos tentava aproveitar o embalo para tentar chegar ao terceiro gol antes do intervalo.

Em um dos ataques rápidos que o Fluminense tentou fazer, Renato, o craque do Flu, partiu com a bola e tomou uma entrada dura de Carlinhos, que tentou se recuperar na marcação. O camisa 8 do Santos tomou o primeiro cartão amarelo do jogo. Antes da cobrança da falta, Valdeir parecia pedir substituição, puxando a perna para caminhar. Foi o que Tino Marcos falou em sua intervenção na transmissão

O Santos ainda teve outra chance. Camanducaia recebeu de frente para Ronald, partiu para cima do lateral já dentro da área e chutou forte, já com o ângulo bem fechado por Wellerson. A bola bateu no pé da trave e saiu. Logo depois, Valdeir foi ao chão, machucado e para gastar o tempo. O técnico do Flu, Joel Santana, colocou Leonardo, que já aquecia antes, pensando no segundo tempo. Entrou antes mesmo do intervalo.

Com o apito de Sidrack Marinho dando fim ao primeiro tempo, uma cena surpreendente: o time do Santos não desceu para o vestiário. Os jogadores se reuniram no centro do campo, sentaram e ficaram tomando água, recebendo atendimento e instruções de Cabralzinho ali mesmo, em campo. Nada de vestiário. A torcida seguia cantando, apoiando o time, que já via no horizonte a classificação. Faltava só um gol.

Segundo tempo

O segundo tempo começou com o Santos tentando impor o mesmo ritmo do primeiro, pressionando, mas o Fluminense começou bem e conseguia sair da pressão da marcação do Santos. Não demorou para que o jogo voltasse ao panorama do primeiro tempo: Santos atuando mais no campo de ataque, com posse de bola, tentando abrir espaços. O Fluminense vivia de contra-ataques.

Em um desses contra-ataques, Ronaldo Marconato entrou duro em Leonardo, que recebeu de costas. Aliás, uma tônica do jogo: quem recebia de costas sempre tinha a marcação chegando de forma dura. E o jogo estava difícil, mas o Santos arranjou o espaço.

Gallo abriu pela direita, Marquinhos Capixaba ganhou de cabeça pela direita e Lima teve a chance de fazer o corte. Mas o zagueiro afastou mal, a bola caiu nos pés de Marcelo Passos, que acionou Giovanni na entrada da área. O camisa 10 tocou para Macedo, já dentro da área, e o camisa 7 dominou rápido, indo para o meio, e chutou forte de esquerda, aos cinco minutos de segundo tempo: 3 a 0 para o Santos.

Só que a torcida do Peixe mal teve tempo de comemorar. Logo depois, em uma cobrança de falta, a bola ficou pipocando na área, chute forte, a bola bateu no travessão e voltou. Rogerinho, de peixinho, tocou para o fundo da rede: 3 a 1. O Fluminense voltava a ter um placar que o classificava para a final, aos sete minutos do segundo tempo. Joel Santana há preparada a entrada de Gaúcho, segundo informou Tino Marcos, para tornar o time mais ofensivo. O gol de Rogerinho fez o treinador desistir da ideia, ao menos naquele momento.

O Santos pressionou. Giovanni recebeu com um pouco de espaço e acionou Macedo, pela direita. Desta vez a bola veio no seu pé direito e antes que a marcação chegasse, ele chutou. Wellerson fez a defesa, em um lance muito perigoso. O Fluminense respondeu em uma cobrança de falta. Um cruzamento longo da direita para a segunda trave e Leonardo tocou com certa liberdade, mas mandou para fora.

O Fluminense se posicionava bem atrás, dando espaço para o Santos sair jogando com muita tranquilidade. Do meio-campo para frente, o Tricolor das Laranjeiras não dava espaço. O jogo continuava picado com faltas, o que gerava chances de cruzamentos para a área.

O perigo do Santos vinha sempre com Giovanni. Desta vez, o camisa 10 foi lançado pela direita, mas Alê estava inteiro na bola. Só que o zagueiro bobeou, Giovanni tomou a bola, entrou na área pela direita, tentou o toque para o meio e a bola bateu no goleiro, bateu no zagueiro Alê, e sobrou limpa para Camanducaia, quase em cima da linha, tocar para o gol: 4 a 1 para o Santos. O Peixe devolvia o placar do Maracanã. Eram 17 minutos do segundo tempo.

Logo depois do gol, Joel Santana sacou o zagueiro Alê e colocou o centroavante Gaúcho. Foi Vampeta quem recuou alguns passos em campo para fazer a função de zagueiro. O Fluminense ia para cima, precisando desesperadamente de um gol.

Pouco depois, Ronaldo Marconato entrou com violência em cima de Leonardo, em um carrinho por trás. O árbitro mostrou o segundo cartão amarelo para o camisa 2, consequentemente o vermelho. Cabralzinho pediu que Gallo fizesse a função de zagueiro até poder mexer no time.

Cabralzinho tirou o atacante Macedo e colocou o lateral Marcos Paulo, mexendo em toda defesa: Marcos Adriano saiu da lateral esquerda para a direita, Marcos Paulo entrou na lateral direita e Marquinhos Capixaba virou zagueiro. O jogo esquentava, com o Fluminense avançando o time e, consequentemente, dando mais espaço ao Santos.

Giovanni recebeu uma bola pela direita aos 22 minutos e o camisa 10 deu um desfile de habilidade. Vampeta, volante recuado para zagueiro, sofreu com o craque santista, que conseguiu ir à linha de fundo e tentar o cruzamento, que foi desviado e acabou nas mãos do goleiro Wellerson.

Eram 25 minutos e o panorama do jogo era completamente diferente do início. O Santos valorizava a posse de bola, não tinha pressa, e o Fluminense já sentia o desespero. Sidrack Marinho deu um cartão amarelo para Marcos Adriano por chutar a bola para longe e retardar o reinício de jogo.

Com a bola, o Fluminense tinha Vampeta como volante, se apresentando para o jogo. Só Lima era efetivamente zagueiro no time carioca. O Flu, porém, sentia a pressão. Tinha um jogador a mais, tentava achar espaço, mas não conseguia trabalhar as jogadas. Então, a melhor chance era mesmo a bola longa, com lançamento para Gaúcho, especialista na bola a área, ajeitando para Renato tentar a finalização, que foi travada pela defesa santista.

Em um lance que mostrava que o dia não era do Fluminense, Renato recebeu pela ponta esquerda e tinha até algum espaço. Giovanni estava na sua marcação. Camisa 10 com camisa 10. Só que o dia era do 10 de branco. O tricolor tentou avançar e tropeçou, caiu sozinho e viu a bola ir para a linha de fundo.

Tino Marcos avisava na transmissão: Joel Santana queria que o time tocasse maia a bola para tentar as jogadas. Mas o Flu tinha dificuldades. Buscava resolver as jogadas rapidamente, sem trabalhar a bola. O Santos mantinha a vantagem e o time do Rio de Janeiro jogava bolas na área.

Cabralzinho fez uma substituição para segurar o time. Sacou o atacante Camanducaia e colocou o zagueiro Batista, fechando ainda mais o time lá atrás. Renato tinha total liberdade e, em um lance que a bola sobrou na direita, perto do jogador do Flu, ele tentou jogar para dentro da área. Não conseguiu. A bola foi direto pela linha de fundo. O Flu usava muito o lado direito com Ronald e forçava os cruzamentos.

Giovanni fazia um jogo completo. Na defesa, deu um chutão quando o Fluminense pressionava. No ataque, segurava a bola e sofria faltas que picavam o jogo. O camisa 10 atuava mais atrás nessa situação de jogo, podendo receber a bola com muito mais espaço e quase sempre acabava tomando a falta. O Fluminense tinha dificuldade em lidar com o craque adversário.

Em um dos lances que Giovanni recebeu de costas, era marcado por dois jogadores. Ele, com a calma que lhe era peculiar, tocou de calcanhar. Marcelo Passos saiu com espaço atrás, avançou, foi para cima de Lima, balançou o corpo e puxou para o pé direito. Ele, que sempre chutou bem, mandou no canto, bonito, colocado, e sem chance de defesa de Wellerson: 5 a 1, aos 38 minutos. Mais um lance de gênio de Giovanni que parecia definir o jogo.

Só que dois minutos depois, uma bola sobrou dentro da área depois de cruzamento de Ailton e da defesa do Santos não conseguir cortar. Rogerinho, esperto, girou rápido e chutou de primeira, no cantinho de Edinho: 5 a 2, aos 39 minutos. O Fluminense estava vivo. Só precisava de um gol. E  foi para cima.

Cabralzinho tirou Marcos Paulo, que ele mesmo tinha colocado, para colocar em campo o volante Pintado. O Fluminense seguia na estratégia da bola longa e, em uma dessa, Narciso dormiu, como disse Galvão, mas a bola foi nas costas de Gaúcho, que não estava bem posicionado e não pareceu esperar a falha de Narciso. O Fluminense tinha cinco minutos para tentar um gol que o levaria à final. Como era de se esperar, o jogo era pelas laterais e com cruzamentos.

O Santos tentava manter a posse de bola no final, enquanto o Fluminense tentava trabalhar a bola, sem muito sucesso. Sabendo que Sidrack Marinho marcava muitas faltas, tanto Giovanni quanto Renato cavaram faltas no final. E o árbitro nem deu muito acréscimo: aos 46 minutos e 30 segundos, apitou o fim do confronto. O Santos comemorou demais a vitória, a classificação, o milagre que seu Messias entregou. A festa não parou em campo, com as arquibancadas com uma loucura.

Quem comeu a Bola

Giovanni, o Messias. O camisa 10 fez tudo que podia. Mesmo muito bem marcado pelo Fluminense na maior parte do tempo, toda vez que recebia a bola levava algum perigo. Nem que fosse pelas muitas faltas que sofreu, mas especialmente porque mesmo bem marcado, o jogador mostrava que bastava alguns centímetros de vantagem para fazer valer a sua qualidade.

Foi assim no segundo gol. Foi assim no terceiro gol, quando acionou Macedo. Foi assim no quarto, quando aproveitou um segundo de vacilo do zagueiro para tomar a bola e ir para dentro da área. Foi assim no quinto gol, quando, cercado de marcadores, achou um passe de calcanhar que deixou Marcelo Passos com liberdade para avançar e chutar. Foi um craque. Se sua atuação recebesse uma nota, seria o número da sua camisa: 10.

Giovanni comandou o Santos contra o Fluminense (Reprodução)

Atuação subestimada

Carlinhos foi muito bem no jogo. O volante do Santos era um jogador técnico, de muita chegada ao ataque, e ele conduziu muitos ataques do Santos. Sua dinâmica ajudou o time a criar mais um jogador no campo de ataque para abrir espaços na defesa muito fechada do Fluminense. Foi um jogador importante também na marcação, sempre muito rápido para tentar recuperar a bola com a rapidez que o time queria.

Quem pisou na bola

Renato Gaúcho era um craque, mas no jogo, errou basicamente tudo que tentou. Quem assistisse a apenas esse jogo do jogador do Flu, não imaginaria o tamanho do seu talento e sua capacidade de decisão. Tentou jogadas correndo com a bola, mas sempre era interceptado. Tentou adiantar, mas não conseguiu alcançar. Teve uma grande chance no primeiro tempo, mas demorou e acabou engolido pela marcação.

No segundo tempo, errou domínios, caiu sozinho, não conseguia dar continuidade a jogadas que normalmente ele partiria como um trator. Aos 33 anos, era um veterano, mas ainda um craque que decidia. Naquele ano mesmo tinha sido o jogador decisivo do Fla-Flu da final do Campeonato Carioca, em um chute de Aílton, outro que esteve em campo e não conseguiu ter boa atuação. De Renato, porém, se espera sempre um lance decisivo. Ele não conseguiu fazer.

Momento decisivo

Com o placar em 4 a 1, o Fluminense tentava um gol que mudaria a classificação de lado. Giovanni segurava a bola, sofria muitas faltas e dava trabalho à defesa do adversário no Pacaembu. Em um desses lances, aos 37 minutos, o camisa 10 recebeu de costas, na lateral do campo, e parecia um lance morto. Só que um toque de genialidade decidiu tudo. Um passe de calcanhar que abriu o campo, deixou Marcelo Passos com caminho aberto para avançar, fintar e finalizar bonito. Um belo gol. Decisivo, àquela altura, mesmo com o Santos sofrendo outro gol depois.

Giovanni comemora seu gol pelo Santos (Reprodução)

Os melhores cinco minutos

O Fluminense marcava o Santos muito bem e o time da Vila tinha bastante dificuldade de fazer o goleiro Wellerson trabalhar. Foram cinco minutos que mudaram tudo no jogo. Aos 25 minutos, um pênalti sofrido por Camanducaia, que Giovanni bateu muito bem. Depois, aos 30, ele recebeu uma bola pelo meio, deu um drible de corpo lindo no zagueiro e finalizou de bico, mas com uma classe própria aos craques. Os 2 a 0 no placar mudaram completamente o jogo.

Pérolas da narração

A transmissão era peso pesado, ao menos aos olhos de hoje. Galvão Bueno era o narrador, com Mauro Naves cobrindo o Santos e Tino Marcos o Fluminense. Curiosamente, não havia comentarista, só o de arbitragem, Arnaldo Cézar Coelho.

O narrador fazia chamadas para o Fantástico, que viria em seguida. Uma delas, muito curiosa: o consumo de ecstasy, “a pílula do amor”, como descreveu o narrador. Tem também a chamada de “O país que mais cresce no mundo”, uma reportagem de Paulo Henrique Amorim, sim, aquele, para o programa dominical da Globo.

No terceiro gol do Santos, Galvão ainda criticou Wellerson, dizendo “Parece que dava para Wellerson”. O narrador também atuou como comentarista depois de ver um lance de Camanducaia sobre Ronald. “O técnico Joel Santana, que dirige tão bem o Fluminense, já devia ter colocado alguém ali para ajudar Ronald na marcação de Camanducaia”. Antes, ainda no primeiro tempo, ele já tinha criticado que se deixasse o atacante santista no mano a mano com Ronald, teria vantagem em todas.

Em mais um lance que Renato Gaúcho não conseguiu dar continuidade no jogo, Galvão não perdoou. “Tá mal o Renato. Tá mal o Renato. Tá nitidamente sem condição física, algo que é muito importante para o futebol dele”. Galvão, voando, podia narrar e comentar o jogo com muita tranquilidade.

Prancheta

Sem Jamelli e Robert, o técnico Cabralzinho escalou Camanducaia e Marcelo Passos no time titular. Era praticamente um 4-2-4, já que tanto Camanducaia quanto Marcelo passos eram muito mais atacantes, se juntando a Giovanni e Macedo.

Na disposição em campo, Macedo era ponta direita, Camanducaia ponta esquerda, Marcelo Passos e Giovanni pelo meio. Carlinhos também chegava muito e por vezes o meio-campo do Santos só tinha Gallo recuado para marcar.

Giovanni, por vezes, funcionava como um centroavante na bola longa, por sua altura e capacidade de segurar a bola. Mas ele também tinha total liberdade para recuar e agir onde tivesse espaço.

O Fluminense jogava em um 4-4-2, com Renato Gaúcho e Valdeir no ataque, e Rogerinho, pela esquerda, e Aílton, pela direita, fechando a linha de meio-campo que tinha Vampeta e Otacílio pelo meio na marcação. Renato, porém, era um jogador com total liberdade para circular pelos dois lados do campo, recuar, abrir pelas pontas e também entrar muito na área.

Vestiários

O goleiro Edinho elogiou a participação da torcida no jogo do Pacaembu. “Nunca tinha visto algo assim”, afirmou o camisa 1 do Peixe, em entrevista aos repórteres depois do jogo, como relatado pela Folha de S. Paulo. “Mesmo a torcida do Corinthians não grita tanto como a nossa”. O capitão do time, Gallo, também mencionou a participação da torcida. “A gente deu a vida em cada disputa de bola. O Fluminense sentiu o peso da torcida e tremeu”.

Quem também falou foi o presidente do Santos, Samir Abdul Hak, mais um que elogiou a torcida. “Eles deram uma energia incrível”. O dirigente ainda revelou que recebeu uma proposta para levar o jogo decisivo para o interior. A proposta veio de Ribeirão Preto, a 319 quilômetros de São Paulo. “O Pacaembu virou a nossa casa”. O técnico Cabralzinho falou sobre a inusitada permanência em campo no intervalo. “Não é usual, mas os jogadores quiseram agradecer o apoio da torcida”, contou o treinador.

O craque do jogo, Giovannni, então com 23 anos, também falou com a imprensa. Ele foi perguntado sobre o segredo da vitória. “A garra, a determinação de todo mundo. O Santos entrou com tudo em campo. Era ganhar ou morrer. E a gente ganhou. O time todo está de parabéns. Faz tempo que o torcedor não vê um jogo tão bonito como o de hoje”.

A modéstia também ficou de lado, compreensivamente. Giovanni foi perguntado se tinha sido a sua melhor partida pelo Santos. “Foi a melhor partida do Santos desde que o Pelé parou. Pelo menos em termos de emoção, valeu. Estamos resgatando a alegria do futebol. Foi por isso, também, que eu pintei o cabelo. Foi uma forma de promover mais as semifinais, mas muita gente não entendeu”, disse Giovanni.

“A imprensa achou que a gente estava de salto alto, quando não era nada disso. Disseram que a gente já se considerava campeão, que o time não respeitou o Fluminense. Agora, quando o Renato tira uma foto beijando um peixe está tudo bem. Por que o Santos não pode festejar? Para todos que disseram que o Santos estava de salto alto, a resposta está aí”.

Rogerinho também falou sobre os seus gols, que acabaram não servindo para nada. “No primeiro tempo, não jogamos nada. Ficamos vendo o Santos tocar a bola. Só jogamos no segundo tempo”, afirmou o camisa 11 do Fluminense na partida. Ele foi perguntado se o time subestimou o Santos. “Não acho. Todo mundo lutou, mas não jogamos bem. Além disso, o Giovanni conseguiu superar a nossa marcação”.

Perguntado sobre a pressão da torcida, Rogerinho admitiu que o Fluminense sentiu. “Sentimos. Não esperávamos que a torcida, depois do 4 a 1 no Rio de Janeiro, pudesse reagir assim. Mas isso não pode ser usado como desculpa”, continuou.

Ele ainda admitiu que a classificação acabou sendo merecida. “Pelo que eles jogaram, sim. Eles se classificaram mais por seus méritos do que por erros nossos. Mas o Fluminense, pelo que jogou no Brasileiro, merecia ir para a final. A desclassificação foi uma infelicidade”, disse o atacante. Ele ainda falou sobre os gols que fez. “É frustrante. Fiz os gols, mas não adiantou nada. Foi inútil. Só que o interessava era a classificação”.

“Foi uma catástrofe total”, disse o técnico do Flu, Joel Santana. “O time tinha a fama de ser a melhor defesa do Brasil, mas não a honrou”.

Nos livros de história

Aquele campeonato entrou para a história e Giovanni foi eleito o Bola de Ouro, da revista Placar, o melhor jogador do torneio. A campanha marcante do Santos resgatou a torcida, tão machucada por tantos anos de times pouco competitivos, sem chance de título. Aquela campanha acabaria de forma frustrante na final, com erros decisivos do árbitro Márcio Rezende de Freitas no jogo de volta da decisão. Mesmo assim, ao contrário do que dizem, não só os vencedores entram para a história. Aqueles que jogaram muita bola deixam para sempre uma herança de bom futebol. E ninguém jamais esquecerá Giovanni e sua atuação de Pelé naquele domingo.

Assista ao jogo completo no Footballia, ou então no Youtube, abaixo: