Tempos difíceis, tempos estranhos. Estamos todos em casa (ou deveríamos estar) acompanhando o noticiário com apreensão, preocupados com nossos entes queridos, sem um joguinho de futebol para servir de alívio. O que fazer? Bom, se não há novos joguinhos de futebol, por que não assistir aos velhos? Seja pela primeira vez ou pela segunda (ou terceira, ou quarta). Nesta nova seção, trazemos sugestões a nossos leitores de jogos históricos, a maioria deles no acervo do ótimo Footballia, com nossos comentários, observações, pesquisas e relatos. Uma maneira de nos desligarmos um pouco de curvas, casos confirmados, isolamentos, escassez de equipamentos e mortes. A prioridade do momento é cuidar da saúde, e a mental é tão importante quanto a física.

Há algum jogo que gostariam que nós revíssemos e comentássemos? A caixa de comentário é toda de vocês.

Contexto

A chegada do Liverpool a esta final foi meio que uma aberração. Nem deveria ter passado da fase de grupos. Precisava vencer o Olympiacos por dois gols de diferença e foi ao intervalo perdendo por 1 a 0. A partida ainda estava empatada aos 36 minutos do segundo tempo. No mata-mata, não teve problemas contra o Bayer Leverkusen, fez um grande jogo contra a Juventus em Anfield e contou com uma defesa exemplar – e um gol que não foi gol – para passar pela Velha Senhora e pelo Chelsea. Seu time tinha um jogador de altíssimo nível, uns dois ótimos, alguns bons e outros que não sabiam exatamente como haviam chegado ali. O Milan, por outro lado, era um esquadrão. Se você tivesse carta branca naquela temporada para escolher 11 jogadores livremente, provavelmente pegaria quatro ou cinco da equipe treinada por Carlo Ancelotti. Tinha Dida, Cafu, Stam, Nesta, Maldini, Pirlo, Gattuso, Seedorf, Kaká, Shevchenko e Crespo. Era favorito – e aqui está o link se quiser rever o jogo antes, durante ou depois de ler o resto do texto.

Primeiro tempo

Era uma vez em Istambul. O Liverpool deu a saída, a bola chegou a Traoré, pela lateral esquerda. O lançamento foi interceptado por Pirlo, o Milan trocou passes e Seedorf abriu com Kaká. Marcado por dois, o meia brasileiro buscou o fundo e foi derrubado por Traoré. Pirlo foi para a bola. Maldini posicionou-se no semi-círculo, observado de perto por Luis García. A cobrança foi direcionada à entrada da área. Maldini atacou a bola, ainda observado de perto por Luis García, e pegou de primeira. Antes do primeiro minuto, o Milan estava em vantagem, e Luis García havia observado toda a ação muito de perto.

Os narradores lembraram que apenas uma vez na história das finais da Champions League ou da Copa dos Campeões havia acontecido um gol no primeiro minuto, “e foi bem no começo”. Realmente, bem no começo, com Enrique Mateos pelo Real Madrid contra o Stade Reims, em 1959. O Liverpool retornava a uma final europeia 20 anos depois da última, aquela noite trágica em Heysel, e praticamente começaram o jogo perdendo.

A primeira ação ofensiva dos ingleses foi uma jogada ensaiada parecida à do gol do Milan. Gerrard cobrou escanteio direto à entrada da área, onde Riise apareceu para pegar de primeira. A bola parou na defesa. Na sequência, Gerrard recuperou e cruzou para Hyppia, de cabeça, fazer Dida trabalhar pela primeira vez na Turquia.

O que se seguiu não foi muito bonito. Gerrard e Pirlo tentavam acelerar os procedimentos com lançamentos e destravar um jogo que alternava entre as intermediárias, sempre com a sensação de que o Milan estava a uma troca de passes correta de sair na cara de Dudek. O Liverpool praticamente chegava apenas pelos lados, tentando cavar faltas e escanteios. Os passes mais apurados do time – Gerrard e Xabi Alonso – estavam muito recuados.

Impressionante como se movimentava Shevchenko. Pela direita, pela esquerda, sempre saía da área para criar perigo, e Maldini, mesmo aos 36 anos, era uma ameaça quando apoiava o ataque. Fez, aliás, uma primeira etapa fabulosa. Travou todas as tentativas do Liverpool pelo seu lado e foi impecável com a bola nos pés, driblando, passando e carregando. Milan Baros, ao contrário, dominou menos bolas do que reclamou de faltas.

Luis García teve a chance de se redimir quando o escanteio da direita encontrou Crespo na primeira trave, antecipando-se a Gerrard. O jogador espanhol estava em cima da linha e conseguiu o corte meio no susto. Kaká, em seguida, deu um rolinho em Xabi Alonso que manifestou toda a superioridade técnica do Milan naquela partida. Os lançamentos italianos não estavam afiados, mas todos pareciam a apenas centímetros de causa sérios danos à meta de Dudek.

Aos 23 minutos, Rafa Benítez precisou fazer sua primeira substituição. Vladimir Smicer – guarde este nome – entrou na vaga do machucado Harry Kewell, um herói solitário pela ponta direita tentando criar alguma coisa, com pouca ajuda de Steve Finnan. Imediatamente, pareceu que Gerrard atuaria um pouco mais avançado, talvez com Luís García deslocado aos flancos, mas não muito tempo depois Smicer assumiu a ponta direita.

Stam e Nesta engoliam Milan Baros, dando um show de atuação defensiva. Após um passe errado de Luis García, Seedorf recuperou, acionou Kaká, que arrancou desde o campo de defesa e soltou rasteiro com Shevchenko, por trás da defesa. Gol do ucraniano, com um chute colocado de perna direita. Havia, porém, milímetros de impedimento.

Outro lançamento de Pirlo do meio-campo encontrou Shevchenko dentro da área. Traoré pressionou bem para dar tempo de Dudek recolher. No outro lado, uma bomba: Baros acertou sua primeira jogada. Gerrard virou para Riise, que emendou de cabeça para Baros, que emendou de cabeça para Luis García, livre na entrada da área. O chute foi bem ruim e saiu pelo lado. Em resposta, Kaká mais uma vez ficou de frente para a área do Liverpool, com a bola nos pés e visão completa do campo. Soltou com Crespo, por trás da defesa, impedido.


Essa rápida transição puxada por Kaká e os passes em profundidade estavam matando o Liverpool no primeiro tempo. Por milímetros e um bom exame oftalmológico do bandeirinha, o Milan não marcou com Shevchenko e teve um lance muito perigoso com Crespo. Aos 39 minutos, porém, não escaparia.

O lance, na verdade, começou com uma ótima chegada de Luis García no campo de ataque. Nesta deu carrinho para bloquear e acabou desarmando o espanhol com o cotovelo. Enquanto os narradores pediam pênalti, o Milan foi rapidinho para o outro lado do gramado. Pirlo quebrou a linha inglesa e achou Kaká. Novamente, de frente para a área, com a bola dominada e visão completa do campo. Soltou por elevação para Shevchenko pela direita, o cruzamento rasteiro chegou a Crespo e estava 2 a 0 para o Milan.

Não preciso nem dizer como saiu o terceiro gol, certo? Kaká recebeu, ainda no campo de defesa, e girou em cima da frouxa marcação de Gerrard. Seu passe atravessou o gramado até Crespo, lá no outro lado, na entrada da área. O toque de primeira do atacante argentino foi muito elegante. Meio de bico, colocou o efeito necessário para superar Dudek.


O primeiro tempo em Istambul foi na verdade um pouco estranho. O Milan conseguiu um gol muito cedo e controlou a partida, cadenciando quando queria, acelerando quando estava afim, mas não chegou a massacrar o Liverpool. Dudek sequer precisou fazer uma grande defesa. Mas quando acertou os passes, em duas estocadas, marcou duas vezes e foi aos vestiários ganhando por 3 a 0.

Segundo tempo

Rafa Benítez mexeu, porque precisava mesmo mexer, porque precisava tentar tirar algum coelho da cartola para tentar a virada que ninguém nunca havia conseguido. Foi até corajoso. Mudou para um 3-5-2, com Dietmar Hamman na vaga de Steve Finnan. Agora, a linha de zagueiros do Liverpool tinha Carragher, Hyppia e Traoré, pela esquerda. Smicer era o ala direito, Riise continuava aberto pelo outro lado, com um pouco mais de responsabilidade defensiva. Xabi Alonso e Hamman faziam a contenção, e Gerrard, enfim, havia sido avançado para a mesma altura de Luis García.

Imediatamente, os dois meias-atacantes combinaram em uma tabela que Luis García devolveu mal. Ainda assim, Gerrard foi até o fim e dividiu perto da linha lateral. O jeito dele passar aos companheiros e à torcida a mensagem de que o jogo ainda não havia terminado. Dudek, porém, quase matou a parada ao tentar agarrar um cruzamento fácil de Cafu e deixar o rebote com Crespo, que fez a parede para o lateral direito brasileiro carimbar a defesa vermelha.

A primeira vez que as coisas realmente pareceram diferentes para o Liverpool foi quando Xabi Alonso soltou um foguete de muito, muito longe e a bola passou pertinho da trave direita de Dida. Foi o primeiro susto real que o Milan levou na partida. Mas Traoré quase colocou tudo ao perder ao falhar na altura do meio-campo e permitir que Kaká arrancasse, de frente para a área, com a bola dominada e visão completa do campo. O Liverpool realmente deveria dar um jeito para ele parar de dominar a bola de frente para a área e com visão completa do campo.

O brasileiro estava prestes a sair na cara de Dudek quando Hyppia fez a famosa falta tática e o derrubou na entrada da área. Nem levou o amarelo, embora devesse, e Shevchenko cobrou ensaiado para ótima defesa de Dudek.

Só que aí Riise recebeu pela esquerda e tentou o cruzamento. Bloqueado. Recebeu o rebote e cruzou de novo. Gerrard estava na marca do pênalti e sabe-se lá como conseguiu direcionar o cabeceio ao ângulo esquerdo de Dida para descontar. Baros, enfim parecendo um jogador de futebol, tabelou com Luis García, travado dentro da área. O auxiliar levantou a bandeira, mas ou o árbitro não viu ou decidiu ignorá-la. A jogada seguiu. O Liverpool recuperou no meio-campo e arrancou um lateral pela esquerda. Xabi Alonso dominou a cobrança e rolou para Hamman. Hamman rolou para Smicer. Smicer abriu para a direita e bateu. Dida ainda tocou na bola antes de notar que a vantagem do seu time estava desaparecendo.

O Milan claramente sentiu. Passou a ficar mais nervoso. A defesa que estava saindo com passes conscientes, muita calma e elegância, errou duas rebatidas seguidas de cabeça. O Liverpool ganhou o escanteio, e Gerrard tentou outra cobrança ensaiada para a entrada da área. Xabi Alonso não pegou muito bem. O Milan reagiu tentando algo pela direita, com Cafu, quase sem espaço para lançar. Houve a recuperação. Carragher saiu do trio de zagueiros pela direita e, da intermediária, acionou Baros dentro da área com um passe curto. O toque de calcanhar deixaria Gerrard na cara do gol, não fosse a intervenção de Gattuso.

Não havia muito motivo para Gerrard cair naquela situação, e realmente houve um toque de Gattuso, mas ele também deu uma desabadinha. Engraçado foi ver os dois times reclamando com a arbitragem ao mesmo tempo, um deles pedindo cartão vermelho, outro reclamando do pênalti assinalado. Xabi Alonso devia ser um monstro nos treinamentos. Havia acabado de chegar da Espanha, tinha 23 anos e caiu em suas costas a responsabilidade de empatar a final da Champions League. Por que não Gerrard? É curioso. Ele queria, e vinha cobrando, mas Benítez havia decidido, antes da final, que Xabi Alonso bateria. Gerrard, porém, teria a responsabilidade de fechar a disputa posterior à prorrogação – o que não precisou fazer.

Ah, sim, dois detalhes importantes: era o primeiro pênalti que Xabi Alonso cobrava em sua carreira e ele enfrentaria Dida, um dos maiores defensores de penalidades em todos os tempos.

Dida venceu o duelo, e espalmou a cobrança cruzada e rasteira, mas Nesta não conseguiu reagir a tempo de Alonso pegar o rebote e estufar o teto da rede. Se o Liverpool havia praticamente começado o jogo perdendo, o Milan havia praticamente começado o segundo tempo empatando.

Não é que o Liverpool quase virou na sequência, mas Riise recebeu de Gerrard e tinha bastante espaço para assustar Dida com um potente chute de canhota. O goleiro brasileiro espalmou em direção aos céus e, pela primeira vez, foi audível na transmissão da ITV que o estádio de Istambul havia sido tomado por gritos de You’ll Never Walk Alone.

Aquela sequência e a aparição do mítico cântico do Liverpool pareceram empolgar o time vermelho, que de repente acreditava que poderia marcar de qualquer lugar e em qualquer situação. Um atrás do outro, Gerrard, Smicer e Luis Garcia arriscaram chutes de fora da área e todos eles passaram mais perto de Ankara do que do gol de Dida. Shevchenko havia sumido um pouco da partida, mas foram dele duas ótimas jogadas que exigiram cortes perfeitos de Carragher para que o quarto gol do Milan fosse evitado.

Por volta dos 40 minutos, os técnicos se mexeram para renovar as pernas para a prorrogação. Benítez colocou Cissé no lugar de Baros, e Ancelotti trocou Crespo por Tomasson, e Seedorf por Serginho, testemunho de quão boa vinha sendo a partida do vovô Maldini. Antes do apito final, Stam desviou o escanteio na primeira trave na direção de Kaká. Foi tão rápido que o brasileiro não conseguiu direcionar a bola. Apenas raspou nela, na entrada da pequena área, e a viu sair pela linha de fundo.

Prorrogação e pênaltis

Jerzy Dudek nunca foi um excepcional goleiro. Ao longo da final, mostrou insegurança mais de uma vez, cometeu falhas que não foram aproveitadas. Tanto que Rafa Benítez já tramava a chegada de Pepe Reina para assumir a titularidade. Adorava contratar um espanhol, esse Rafa Benítez.

O Liverpool fechou ainda mais a casinha, com Gerrard substituindo Smicer como ala direito para tentar marcar melhor o fresco Serginho, o que se mostrou uma decisão sábia quando o tcheco caiu no chão com câimbras. Gerrard fez o que pode, mas saiu dos pés de Serginho o melhor do Milan durante o tempo extra.

Tomasson, porém, não conseguiu alcançar um cruzamento no primeiro tempo e, na etapa seguinte, Carragher esticou-se duas vezes para fazer cortes importantes. Na primeira delas, caiu no chão cheio de dores. Na segunda, havia acabado de voltar a campo após cair no chão cheio de dores.

E é claro que foi de Serginho o cruzamento do lance mais inacreditável da partida e olha que foi uma partida em que um time fez 3 a 0 no primeiro tempo e o outro time fez 3 a 0 no segundo tempo.

Shevchenko apareceu na marca do pênalti com uma cabeçada certeira, ao fim do cruzamento do lateral esquerdo, e Dudek executou um milagre. Acontece que o rebote ficou flutuando na boca do gol, a não mais de 30 centímetros da linha fatal, e Shevchenko foi com fome para ter o seu momento de glória. Estufaria as redes com toda a força e correria para o abraço. Não contava, porém, que Dudek conseguiria, ainda não se sabe como, fazer outra defesa e mandar a bola aos céus.

Jamie Carragher chamou Dudek de lado para passar algumas instruções. A mais relevante foi lembrar a história de Bruce Grobbelaar, que usou as “pernas de espaguete” – ficar balançando as pernas em cima da linha como um maluco – para desconcentrar os batedores da Roma na final da Copa dos Campeões de 1984. Disse ao goleiro que ele precisava fazer qualquer coisa para tirar a concentração dos jogadores do Milan.

Contra Serginho, Dudek balançou os braços para cima e para baixo e pulou de um lado para o outro. E o brasileiro isolou. Hammann teve a frieza do inverno da Rússia para bater cruzado e colocar o Liverpool à frente. Pirlo levou uma vaia danada enquanto caminhava lentamente em direção à marca do pênalti. Dudek mais uma vez pulou como se tivesse formiga no calção e se adiantou pelo menos uns dois passos antes de defender a cobrança hesitante do volante italiano. Cissé fez 2 a 0 para o Liverpool.

Tomasson, enfim, não deu a mínima para as doideiras de Dudek e mexeu o placar a favor do Milan. Dida deu alguma esperança aos italianos defendendo a batida rasteira de Riise. Dudek tentou as pernas de espaguete contra Kaká, que se importou e empatou o placar, em 2 a 2, com um pênalti batido a menos para o Liverpool.

Smicer restaurou a vantagem inglesa com muita firmeza, e agora o Liverpool tinha duas possibilidades para ser campeão: ou Dudek defendia a batida de Shevchenko ou Gerrard acertava a sua.

Dudek defendeu a batida de Shevchenko.

Quem comeu a bola

Dudek foi decisivo, Gerrard foi um líder, mas a atuação que mais chamou a atenção na final foi a de Kaká. Causou danos ao Liverpool todas as vezes em que pegou a bola no primeiro tempo com algum espaço para correr. Deixou seus atacantes na cara do gol duas vezes – ambas em impedimento – antes de dar o passe brilhante para a jogada que deveria ter matado a partida, pouco antes do intervalo. Caiu de rendimento a partir do segundo tempo, mas, se este tivesse sido um jogo normal, teria feito o bastante para ser eleito o craque da partida.

Atuação subestimada 

Jamie Carragher foi uma coisa de outro mundo. Ele fez pelo menos dois cortes decisivos no segundo tempo e outros dois na prorrogação, um deles tendo acabado de voltar ao gramado, ainda sentindo dores. Não quis saber: esticou-se novamente para bloquear outro cruzamento de Serginho. Literalmente se jogou no chão pelo Liverpool e ainda deu uma dica muito importante para Dudek antes das cobranças de pênalti.

Quem pisou na bola 

Se o Liverpool tivesse colocado qualquer outro tcheco de 1,84 metros no comando do seu ataque, a diferença seria marginal. Baros não estava à altura de uma final de Champions League. Fez duas boas jogadas de pivô no segundo tempo, uma delas no lance do pênalti sobre Gerrard, mas não passou disso. Sua atuação na etapa inicial foi pavorosa. No máximo, cavou algumas faltas que não compensaram os erros relativamente simples de domínio e passe. A única finalização do centroavante do Liverpool bateu no lustre. Não à toa, jogou apenas mais duas vezes, como substituto, no começo da temporada seguinte, antes sair para o Aston Villa.

Momento decisivo 

Curioso que em um jogo de seis gols o momento decisivo seja uma defesa. A cabeçada de Gerrard que deu início à reação foi importante, mas todo o trabalho do Liverpool teria ido por água abaixo não fosse a defesa dupla de Dudek contra Shevchenko na prorrogação.

Os melhores cinco minutos

Na verdade, foram mais ou menos seis. Entre os 9 e os 15 minutos do segundo tempo, quando o Liverpool atacou e atacou, colocou o Milan nas cordas e construiu uma reação que parecia impossível. Tudo começou com a cabeçada de Gerrard e, principalmente, sua atitude de retornar levantando os braços, chamando a torcida, chamando seus companheiros, para a virada que acontece apenas uma vez por geração.

Pérolas da narração  

A transmissão da ITV teve pico 13,9 milhões de espectadores, comandada por Clive Tyldesley e Andy Townsend. Durante a prorrogação, Townsend deu uma batidinha em Dudek ao dizer que ele estava “all over the place”, inglês para “jogando mal para caramba”. Tyldesley emendou com a informação de que o Liverpool preparava a chegada de Reina do Villarreal. Quando Dudek fez a defesa dupla contra Shevchenko, Townsend não teve escolha: “Jerzy, me desculpe!”.

Prancheta

Os dois times abusaram dos lançamentos, uma mistura de ter dois excelentes jogadores nesse atributo – Pirlo e Gerrard – e de terem enfrentado defesas tão fortes. Muitas vezes, faltaram detalhes ou centímetros para os atacantes dominarem o passe longo em ótimas situações. A maneira como Kaká conseguia sair entre as linhas de meio-campo e defesa do Liverpool também foi um destaque. O meia brasileiro se posicionava muito bem para receber o passe, muitas vezes de Pirlo, girar e arrancar. A alteração tática de Benítez para o segundo tempo foi importante, com Hamman reforçando o meio-campo, a mudança para três zagueiros e a liberdade para Gerrard. O espanhol também foi esperto ao deslocar Gerrard para marcar Serginho na prorrogação, no lugar do muito cansado Smicer.

Vestiários

Djibrill Cissé contou ao RMC Sport detalhes da atuação de Gerrard – nos vestiários:

“Nunca esquecerei a conversa de Gerrard no intervalo durante a final da Champions League de 2005. Benítez entrou no vestiário, deu sua palestra de treinador, que não deveríamos desistir e que precisávamos marcar rapidamente. Steven levanta e pede que a comissão técnica inteira saia do vestiário porque ele queria ficar sozinho com os jogadores. Toda a comissão foi embora, até os fisioterapeutas que estavam tratando os jogadores.

Steven levanta e diz que o Liverpool é tudo que ele tem. É o seu clube, tudo que ele conhece e que não quer entrar na história da Champions League como uma piada. Ele diz que se o respeitamos e o amamos como capitão, temos que levantar a poeira e voltar à partida.

Ele marca o primeiro gol, ele sofre o pênalti. Ele fez um extraordinário segundo tempo, terminando o jogo como lateral direito. Ele fez um jogo maluco – mas seu discurso no intervalo continuará marcado na minha mente para sempre”.

Jerzy Dudek relatou uma conversa interessante com o irmão ao telefone:

“Meu irmão me ligou pela manhã e disse: ‘Você já viu na televisão?’. Eu disse que não tinha visto e ele disse que eu precisava ver, que no rebote, no segundo chute, foi a ‘Mão de Deus’, porque, do nada, aparece a sua mão e evita o gol. Eu disse que não sabia como havia feito aquilo”.

E Gerrard disse o que todo torcedor do Liverpool queria ouvir:

“Como posso pensar em sair do Liverpool depois de uma noite desta?”

As especulações sobre uma transferência ao Chelsea continuaram durante aquele verão europeu, mas o capitão acabou ficando.

Nos livros de história

Final de Champions League é sempre um jogo grande e provavelmente veremos novamente vários nesta seção. Por si, é uma ocasião histórica. Este marcou o retorno do Liverpool ao principal palco do futebol europeu de clubes, 20 anos depois da tragédia de Heysel, e a segunda decisão da Era Ancelotti no Milan, campeão em 2003 contra a Juventus. Marcou, também, uma virada improvável e rara, quase única, que não por acaso entrou para a história como o Milagre de Istambul.