Contexto 

Era o terceiro ano de trabalho de Fabio Capello e o anterior havia sido fantástico. A Roma havia conquistara seu primeiro scudetto em 18 anos e estava mais uma vez forte na briga pelo título. Com 25 rodadas disputadas, aparecia em terceiro lugar, com 50 pontos. A Juventus, segunda colocada, tinha 51. A Internazionale, líder, 52.

A Lazio era sétima colocada e havia perdido o jogo do primeiro turno, como visitante, por 2 a 0. A Roma não perdia desde a derrota para o Piacenza, na terceira rodada, mas vinha tropeçando demais, com cinco empates nas últimas sete partidas pela Serie A.

A vitória seria importante especialmente porque Internazionale e Juventus se enfrentariam naquela 26ª rodada.

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Primeiro tempo

Demorou um pouco para o jogo engrenar. Para os padrões do dérbi da capital, não foi um primeiro tempo muito violento ou faltoso. Mas começou travado e com as marcações se sobrepondo aos ataques. Apenas aos nove minutos houve a primeira boa chance, quando Francesco Totti decidiu testar se Peruzzi estava esperto. Ele estava e caiu no seu canto direito para espalmar o chute rasteiro de fora da área do capitão.

Por volta dos 13 minutos, a Roma já dominava a partida. Pelo menos, territorialmente. Era quem mais ocupava o campo de ataque. Totti recebeu a bola bem na ponta esquerda, quase grudado na linha lateral. Recebeu marcação dupla e limpou a jogada com um toque de calcanhar para Vincento Candela. O cruzamento saiu de Trivela para Montella se antecipar e marcar o primeiro gol da partida de cabeça.

Francesco Totti era o comandante das jogadas da Roma e, logo em seguida, descolou um belo cruzamento para Del Vecchio, na segunda trave. Atrapalhado, o atacante não conseguiu finalizar. A Lazio, no geral, não defendia muito bem, o que ficou escancarado quando Cafu recebeu um lançamento direto da defesa completamente livre, aproveitando uma linha de impedimento meio torta do adversário, e tentou achar Montella com um cruzamento rasteiro, desviado pela defesa.

No ataque, dependeu da bola parada de Mihajlovic. Fernando Couto e Giuseppe Pancaro tiveram cabeçadas perigosas, mas o dia era de Totti e Montella e não era de Nesta.

Aos 30 minutos, Totti arrancou do meio campou. Passou por Fiore, driblou Giannichedda, limpou também Fernando Couto e bateu. Peruzzi espalmou. O rebote caiu para Nesta, que demorou para carregar o chute e não percebeu a aproximação de Montella. Rápido, esperto, o atacante romanista deu um toque na bola para as redes vazias.

As chegadas de Cafu foram muito importantes para a Roma. Em uma delas, marcado por dois jogadores, foi derrubado por Dino Baggio. Preparava-se para a cobrança quando Totti apareceu para assumi-la. Não se diz não para Totti no time da Roma. Cafu afastou-se da bola. O capitão nem pensou muito antes de cobrar com certa curva em direção ao bico esquerdo da pequena área. Montella venceu a marcação de Nesta e desviou mais uma de cabeça para fazer o terceiro.

Depois de Mihajlovic mais uma vez levar perigo na bola parada, com uma cobrança de falta que exigiu linda defesa de Antonioli, Cafu mais uma vez teve liberdade para cruzar. Encontrou Montella livre na marca do pênalti, nas costas de Nesta, mas cabeceou por cima.

Nesta não voltaria para o segundo tempo.

Segundo tempo 

Zaccheroni fez duas substituições no intervalo. Foi misericordioso com Nesta e também sentou Dino Biaggio. Respectivamente, entraram Guerino Gottardi e Karel Poborsky. A tentativa de voltar para o jogo funcionou até certo ponto. A Lazio atacou mais, exerceu certa pressão contra a Roma e, aos oito minutos, Stankovic recebeu de costas para o gol. Girou e, do meio da rua, emendou um chutaço no ângulo de Antonioli.

Era a senha para a Lazio se animar. Outra falta venenosa de Mihajlovic encontrou a direção certa de Simone Inzaghi, que fazia o movimento de cabeceio quando Panucci tirou o doce da sua boca. A Roma não chegava a estar acuada, mas defendia mais. Precisava de algum desafogo. Encontrou Montella na intermediária. Ele dominou e tentou fazer o trabalho de pivô, mas, marcado por dois, deixou a bola escapar.

Tommasi, que havia acabado de entrar no lugar de Delvecchio, recolheu pela direita e devolveu para Montella. De fora da área, ele armou o chute de canhota e acertou o ângulo de Peruzzi. A bola ainda raspou na trave antes de morrer no fundo da rede, no que seria o gol mais bonito da noite se Totti não estivesse extremamente inspirado.

A jogada foi construída de pé em pé a partir da esquerda e chegou ao capitão, alguns metros antes da entrada da área. Totti dominou, ajeitou e deu uma espiadinha para perceber que Peruzzi havia se adiantado além do limite da pequena área. Não precisou de mais de meio segundo para decidir o que faria. Deu um toque por cima, cheio de categoria, e apenas observou a parábola da bola antes de comemorar.

A partida, praticamente resolvida no quarto gol de Montella, morreu de vez. Montella saiu aplaudido por volta dos 30 minutos para a entrada de Antonio Cassano, e Cafu bateu a carteira de Mihajlovic, invadiu a área e tentou marcar, quase sem ângulo, com uma de suas bicudas características. Peruzzi fez a defesa, mas, àquela altura, fez pouca diferença.

Quem comeu a bola

É uma briga difícil entre Totti e Montella. O capitão participou ativamente dos três primeiros gols, com lapsos de genialidade, mas este clássico leva o nome de Montela. Ele havia passado 12 rodadas machucado e marcado apenas uma vez antes do dérbi. Os quatro tentos diante da Lazio lhe recuperaram confiança suficiente para fazer mais oito nas oito rodadas finais do Campeonato Italiano.

Atuação subestimada

O esquema tático da Roma permitia que Cafu subisse quanta vezes quisesse ao ataque com a segurança de que suas costas estariam protegidas. Tranquilo, foi o terceiro jogador mais perigoso da Roma no ataque. Cruzou, cavou faltas, apoiou e sempre proporcionou muita força pelo lado direito.

Quem pisou na bola

Alessandro Nesta marcou Montella no primeiro tempo. Acho que basta? Foi superado pelo alto no primeiro e no terceiro gol, falhou no segundo e quase levou um quarto nas suas costas, pouco antes do intervalo. Não foi à toa que nem voltou para o segundo tempo.

Momento decisivo 

O terceiro gol foi o que colocou o jogo além do alcance da Lazio. Apesar do esboço de reação no começo do segundo tempo, o seu único gol da partida foi marcado graças a um momento de brilhantismo de Stankovic e nunca houve uma real ameaça de que a mandante do clássico conseguisse empatar depois de estar três gols atrás no placar.

Os melhores cinco minutos

Um período um pouco maior entre 18 minutos e os 27 minutos do segundo tempo no qual a Roma marcou dois golaços de fora da área que entraram para a história.

Prancheta

Os dois times entraram com a mesma formação. Três zagueiros, dois alas, dois volantes e um meia armador atrás de dois atacantes. No caso da Roma, foi Totti. No da Lazio, Dejan Stankovic. Foi uma partida muito igual em termos de posse de bola e ocupação territorial. Evidentemente, a qualidade dos jogadores da Roma prevaleceu muito mais, especialmente de Totti e Montella, aproveitando muito bem o péssimo jogo de Nesta.

Vestiários

Montella, anos depois, questionado sobre sua melhor lembrança do clássico, naturalmente lembrou-se dos quatro gols:

“Não esperava fazer um poker (termo para quatro gols em um mesmo jogo) naquele dérbi. Saí de campo atordoado, embora agora perceba que que o mais atordoado foi Nesta”.

Nos livros de história

Foi a segunda maior goleada do Dérbi da Capital, atrás apenas dos 5 a 0 que a Roma aplicou lá em 1933, em partidas pela Serie A. Como Juventus e Internazionale empataram o confronto direto, a Roma assumiu a liderança, com os mesmos 73 pontos da Inter. O bicampeonato, porém, não foi possível por causa da derrota para os nerazzurri, duas rodadas depois, e empates contra Venezia e Milan. Acabou ficando em segundo lugar, a um ponto da Velha Senhora.

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