Em meio à pandemia do novo coronavírus, criamos a seção Assistimos na Quarentena, com jogos históricos revisitados. Muitos dos jogos você encontra no Footballia. Quer ver um jogo específico aqui? Vá aos comentários e sugira. O espaço é seu.

Contexto

Milan e Barcelona eram dois dos principais clubes do mundo na época. Representavam timaços do futebol mundial e era também um duelo tático. O Barcelona teve o retorno de Johan Cruyff ao comando da equipe em 1988. Com o holandês no comando, o Barcelona voltou às glórias. Foram quatro títulos espanhóis consecutivos, de 1991 a 1994.

O time também voltou a brilhar na Europa. Primeiro, com a conquista da Recopa Europeia em 1988/89, primeira temporada de Cruyff no comando. Foi também o momento que o time conquistou, enfim, o seu primeiro título da Copa Europeia, antecessora da Champions League, em 1991/92 ao vencer a Sampdoria na final. Naquela temporada 1993/94, o time tinha em seu elenco simplesmente Romário, na sua fase mais avassaladora da carreira. Só naquela temporada, foram 47 jogos e 32 gols. Só no Campeonato Espanhol, foram 30 gols em 33 jogos.

O Milan vinha de anos de muito sucesso. Conquistou a Serie A em 1987/88, depois foi bicampeão da Copa Europeia em 1988/89 e 1989/90, todos com Arrigo Sacchi no comando. Depois do treinador sair dos rossoneri e assumir a seleção italiana, quem comandou o time foi Fabio Capello, que levou o time a conquistar o título da Serie A em 1991/92 e 1992/93. Naquela temporada, 1993/94, já tinha conquistado mais um título italiano. O terceiro consecutivo.

Era o duelo gigante entre dois clubes extremamente vitoriosos que se encontrariam na final de uma Champions League de muita repercussão. Em uma época que só se jogava um time por país no torneio, ou seja, era mesmo uma competição de campeões. Naquela época, o torneio era muito menor: havia duas fases preliminares, depois uma fase de grupos, semifinais em jogo único e depois a final.

Na semifinal, o Barcelona superou o Porto do técnico Bobby Robson, que tinha José Mourinho como seu tradutor e auxiliar, e que tinha Vítor Baía e o brasileiro Aloísio. O Milan derrubou o Monaco de Arsène Wenger, que ainda tinha Jürgen Klinsmann, Yuri Djorkaeff e Enzo Scifo. Como se dizia na transmissão, era “a final mais esperada dos últimos anos”. Em Atenas, no dia 18 de maio de 1994, os dois times entraram em campo no Estádio Olímpico de Atenas.

Primeiro tempo

Como era esperado, o Barcelona começou com mais posse de bola. Tocava com mais tranquilidade pelo meio-campo, mas quase sem chegar ao ataque. Romário era uma figura nula na partida nos primeiros minutos, sem nem conseguir receber a bola. O Milan, por sua vez, tinha uma verticalidade imensa a cada vez que pegava a bola. Era poucos toques para chegar ao campo de ataque, em geral tentando passes longos.

O Barcelona chegou com algum perigo pela primeira vez aos seis minutos, em um chute de fora da área de Hristo Stoichkov. Pouco depois, foi o Milan quem cercou a área do Barcelona com cruzamentos perigosos, que acabaram não dando em nada. Aos oito minutos, Dejan Savicevic foi puxado na ponta esquerda e foi marcada falta. Na cobrança, a zaga tirou e, no rebote, novo cruzamento que Christian Panucci tocou de cabeça e marcou 1 a 0, mas foi marcado impedimento. Panucci não estava impedido, mas havia um jogador impedido do Milan no meio e, naquela época, esse tipo de impedimento era marcado também.

O Barcelona chegou com perigo mais uma vez aos 10 minutos. Lançamento longo de Pep Guardiola para a direita, onde Stoichkov cruzou de primeira para o meio e Txiki Begiristain chegou batendo de primeira, mas mandou para fora. O Milan respondeu em seguida com mais uma bola rápida para Savicevic, muito acionado, e ele cruzou para a área. A defesa blaugrana tirou.

O Milan voltou a levar perigo aos 13 minutos. Daniele Massaro recebeu cruzamento da esquerda, dominou bonito e chutou forte, mas o goleiro Andoni Zubizarreta defendeu com segurança. Aos 19 minutos, Amor tabelou com Romário e chegou dentro da área com perigo, mas acabou travado na hora da definição por Galli.

Aos 22 minutos, o Milan abriu o placar. Boban se antecipou na direita, tomou a bola e Savicevic fez uma linda jogada, saindo da marcação, entrando na área e cruzando para a segunda trave, onde Massaro estava livre para tocar para o gol, caindo, e marcar 1 a 0. Em um jogo que o Barcelona mantinha o seu estilo de jogo de boa qualidade técnica e passes, o Milan, mais perigoso, conseguiu sair em vantagem.

Pouco depois do gol, Stoichkov foi lançado pela direita, tentou passar pela marcação e o goleiro Rossi acabou chegando antes. Depois, reclamou que o atacante búlgaro deixou o pé para machucá-lo.

O Barcelona tinha dificuldade para abrir espaços na defesa italiana. Aos 34 minutos, depois dos dois pontas do time catalão invertem de lado, Stoichkov, pela esquerda, brigou pela bola, conseguiu jogar para o meio e Begiristain finalizou, mais uma vez de fora da área, mais uma vez para fora. A área era um território quase desconhecido para o time de Cruyff.

O Barcelona levou muito perigo aos 39 minutos. Romário recebeu um passe na frente, com espaço para chutar, e ele finalizou com perigo. A bola desviou de leve na marcação e passou perto, mas foi fora. A melhor chance do Barcelona no primeiro tempo.

Só que o primeiro tempo teria um último ato. O Milan tocava a bola enquanto o relógio já passava dos 45 minutos. A torcida rossonera gritava olé. Parecia um pouco cedo, mas a empolgação dos italianos era grande. Em uma jogada pela esquerda de Donadoni, ele passou pela marcação, foi à linha de fundo e, com a cabeça levantada, tocou rasteiro para trás, com classe. Massaro chegou enchendo o pé de esquerda e mandou no canto: 2 a 0 em Atenas e os italianos em vantagem de dois gols antes do intervalo.

Segundo tempo

Logo no início do segundo tempo, uma falha acabou sendo crucial. Em uma bola lançada por Albertini na direita, Nadal tentou afastar e errou, a bola ficou com Savicevic, que rapidamente tocou por cima do goleiro Zubizarreta. O goleiro foi imediatamente cobrar o zagueiro pela falha. Aos dois minutos do segundo tempo (47’ no tempo somado), o Milan chegava a 3 a 0. Tornava o jogo dificílimo.

O zagueiro Miguel Ángel Nadal perdeu a cabeça aos nove minutos. Em uma bola antes do meio-campo, Savicevic recebeu a bola e o zagueiro chegou com violência, levantando o camisa 10 do Milan. Tomou cartão amarelo. Poderia ter sido até vermelho. Savicevic, brilhando no jogo, tomou outra falta e causou outro cartão, se Sergi, aos 10, e Albert Ferrer, aos 13. O Barcelona foi ficando todo amarelado.

O Milan teria um lance de perigo com Massaro, dentro da área, que acertou a trave. Só que logo depois, na recuperação da bola, Albertino tocou para Marcel Desailly, livre, pegando a defesa do Barcelona saindo. Chutou com categoria, no alto, marcando um belo gol e estabelecendo um placar inacreditável: 4 a 0 para os italianos.

O gol era uma pá de cal na partida. Para quem chegava com toda pompa que o time catalão chegava, foi um duro golpe. E isso pareceu pesar. O Milan passou a ficar com a bola mais tempo do que vinha fazendo no resto do jogo. O Milan era quem dava as cartas. Aos 19 minutos, Savicevic teve tempo e espaço para finalizar de fora da área e levou até algum perigo, mas Zubizarreta defendeu bem.

O Barcelona, mesmo com as mudanças, pouco conseguia fazer em campo. E era o Milan que chegava com mais perigo. Tanto que aos 38 minutos, em mais uma excelente jogada de Donadoni, Savicevic, com muita liberdade pelo lado direito, finalizou de primeira com o seu pé preferido, o esquerdo, mas errou o alvo. Poderia ter feito 5 a 0.

No fim, o apito final fez com que os jogadores do Milan e comissão técnica entrassem em campo, celebrando a enorme vitória. Um título que marcaria para sempre e norme história dos rossoneri.

Quem comeu a bola

Savicevic, do Milan, foi o grande nome do jogo contra o Barcelona

Dejan Savicevic foi o dono do jogo. O camisa 10 do Milan foi o jogador mais perigoso em todos os momentos, do começo ao fim do jogo. Participou bem do ataque e teve participação direta em dois gols. Quando ele pegava a bola, ainda mais quando conseguia virar de gente para a defesa, o Barcelona sofria.

Habilidoso, era perigoso caindo pelos do campo e também quando recuava para receber a bola. O camisa 10 foi o grande jogador, imarcável e ainda pressionou os adversários para tentar criar jogadas perigosas. E marcou um dos gols mais bonitos das finais de Champions na história.

Atuação subestimada

Muito se falou da ótima atuação de Demetrio Albertino dando as cartas no meio-campo, o que é verdade. Mas outro jogador foi fundamental naquele partida: Roberto Donadoni. O meio-campista, atuando aberto pela esquerda, foi muito bem nos dois lados do campo. Defendendo, fechando os espaços em um lado que começou com Stoichkov, mas principalmente na sua função, ofensiva, causando perigo em muitas chegadas, com um bom passe, tranquilidade que o fez acertar muito mais que errar.

Quem pisou na bola

Miguel Ángel Nadal não conseguiu lidar bem com o ataque milanista. Seu erro, no começo do segundo tempo, foi muito importante no desenvolvimento do jogo. Os 3 a 0 forma um imenso balde de água fria para um time que tinha uma missão já muito complicada naquela época. Em nenhum momento foi bem na partida. O ataque do Milan acabou superando o zagueiro por diversas vezes. Ao contrário do seu companheiro de defesa, um pouco melhor, mesmo que também não tenha feita um grande jogo.

Momento decisivo

O primeiro tempo já estava no fim, com a torcida do Milan até gritando olé de lado a lado. O placar de 1 a 0 parecia muito favorável para um time que era menos favorito. Só que Donadoni fez uma jogada excelente pela esquerda, mostrou muita técnica e deixou a bola perfeita para Massaro finalizar com força e, nos acréscimos, colocar um 2 a 0 no placar. A vantagem de dois gols deu muito mais ânimo ao Milan. E tornou a tarefa do Barcelona bem mais complicada no intervalo.

Os melhores cinco minutos

Dejan Savicevic, do Milan

Entre os 47 minutos do primeiro tempo e os dois minutos do segundo, o Milan fez dois gols que acabaram por ser cruciais. O primeiro para que os catalães fossem para o intervalo com uma desvantagem bem maior. O segundo para ampliar a vantagem para um imenso 3 a 0, o que seria difícil para qualquer equipe virar, inclusive para o Dream Team de Cruyff com Romário, Stoichkov e Guardiola.

Prancheta

Era um duelo de duas ideias bem diferentes. Na transmissão em espanhol, o duelo foi destacado como de times antagonistas: um Milan que defendia muito bem e atuava forte nos contra-ataques, bastante estruturado, contra um Barcelona que tinha como proposta um futebol intenso e ofensivo, de muita movimentação e fluido.

O Barcelona vinha com o seu esquema tático tradicional, um 4-3-3, com um triângulo alto: Guardiola ficava à frente defesa, carimbando a saída de bola, com Bakero e Amor um pouco mais à frente. No ataque, Stoichkov partia da direita para o centro, enquanto Begiristain saía da esquerda para dentro. Romário era o centroavante.

Na transmissão italiana, se falava também da juventude de Guardiola, mas da sua inteligência tática. Não por acaso Guardiola era considerado o jogador que dava o estilo ao time de Cruyff. Era o primeiro volante, distribuindo o jogo com muita qualidade. No triângulo de meio-campo, ele era o mais recuado.

O Milan era um 4-4-2, com duas linhas de quatro e dois atacantes. O desenho, porém, era variável. Em alguns momentos, Savicevic recuava fechando pelos lados do campo, aumentando a linha de meio-campo para cinco jogadores. No geral, Savicevic era quem mais tinha liberdade para jogar, se movimentar e cair pelos dois lados. Na defesa, dois desfalques importantes: Franco Baresi e Alessandro Costacurta não estavam disponíveis. Jogaram Galli e Maldini, deslocado da lateral para o centro da defesa, com a entrada de Christian Panucci na lateral esquerda.

O time do Milan tinha muitos desfalques. Além dos dois zagueiros, Costacurta e Baresi, não tinham também Marco van Basten, machucado, Gianluigi Lentini, então o jogador mais caro do mundo (€ 9,55 milhões em julho de 1992, o que equivaleria a € 16 milhões em 2020), Florian Raducioiu, Jean-Pierre Papin e Brian Laudrup.

Isso porque naquela época a Uefa só permitia três jogadores estrangeiros por clube entre os 16 relacionados. Os escolhidos foram Boban, Desailly e Savicevic. O mesmo, aliás, aconteceu no Barcelona, que deixou de fora um dos seus melhores jogadores, Michael Laudrup. O dinamarquês, que já tinha conflitos com Cruyff, nunca mais jogou pelo clube. Dias depois da final, anunciou a sua transferência para o Real Madrid.

Ao longo do jogo, o meio-campo rossoneri mastigou o Barcelona. Guardiola tocou muito na bola, mas quase sempre sem espaço para criar. Pelos lados do campo, o Milan deitou: Donadoni e Boban foram muito bem. O Milan aproveitou muito bem os espaços nas costas dos laterais do Barcelona, que subiam muito para construir o jogo. E foi mortal.

Vestiários

Antes do jogo, Johan Cruyff tinha dado entrevistas na semana do jogo exaltando o favoritismo do seu time. “O Barcelona é favorito. Nós somos mais completos, competitivos e experientes que na final em Wembley [em 1992, primeiro título do Barcelona]. O Milan não é nada de outro mundo. Eles baseiam o seu jogo na defesa, nós baseamos o nosso no ataque”, afirmou o técnico do Barcelona.

Cruyff ainda foi além. Disse que o mesmo dinheiro que o Barcelona gastou para contratar Romário, o Milan usou para contratar Marcel Desailly. E isso, claro, repercutiu no vestiário do Milan. “As palavras de Cruyff foram inapropriadas e realmente atingiram o time”, contou Costacurta. “Se ele não tivesse dito isso, talvez as coisas fossem diferentes”.

Depois do jogo, Cruyff admitiu que as coisas foram bem ruins. “Não é que nós jogamos mal, nós não jogamos”, disse o holandês. “Quando o terceiro gol aconteceu, nós sabíamos que tinha acabado”, admitiu Andoni Zubizarreta, anos depois, ao Guardian. “Aquela foi pior noite da minha carreira”.

“Eu levarei três coisas para casa comigo. Os dois gols e a camisa de Hristo Stoichkov, ele é um ídolo para mim”, disse Daniele Massaro depois do jogo. Ele foi um dos destaques do time do Milan. “Isto é perfeição”, disse o técnico Fabio Capello. “Nós jogamos uma partida perfeita, onde nunca deixamos o Barcelona entrar no seu ritmo”.

“Mais do que tudo, nós jogamos com grande intensidade, pressionando e uma tendência a sermos perigosos a qualquer momento que tivéssemos posse de bola. Eu gostaria de dar uma nota 10 a todos os jogadores do Milan”, continuou o treinador rossonero.

Anos depois desse jogo, em entrevista para o livro “Capello: o homem por trás do sonho da Copa do Mundo da Inglaterra”, de Gabriele Marcotti, ele descreveu Savicevic de modo muito honesto. “Sem dúvida, Savicevic foi o jogador que eu mais tive conflitos. Ele dificilmente treinava, ele dificilmente trabalhava.  E, quando ele estava em campo, todo mundo tinha que trabalhar dobrado para compensar por ele. Mas ele tinha um talento excepcional. E nós o transformamos em uma superestrela”.

Nos livros de história

Aquele acabou sendo considerado o fim do Dream Team de Johan Cruyff. O técnico e o clube entraram em uma rota de conflitos muito maior, Romário nunca voltou de fato da Copa extraordinária que faria nos Estados Unidos com o tetra do Brasil, e aquele time desmoronou. Nas duas temporadas seguintes, Cruyff entrou em conflito com o presidente Josep Lluís Ñúñez e não conseguiu ganhar títulos. Deixou o cargo em 1996.

O Milan já tinha chegado à final da Champions League em 1993, quando perdeu do Olympique de Marseille, e conquistado o título em 1993/94. Em 1994/95, novamente os comandados de Capello foram finalistas, mas perderam do Ajax de Louis van Gaal por 1 a 0. Curiosamente, Fabio Capello também deixou o Milan em 1996, depois de conquistar o título italiano em 1995/96.

Romário teria sua vingança contra vários daqueles italianos que estavam em campo. Naquele mesmo verão do hemisfério norte, Romário foi representar o Brasil na Copa do Mundo. Daquele time do Milan, Paolo Maldini, Mauro Tassotti, Demetrio Albertini, Roberto Donadoni e Daniele Massaro estavam na seleção da Itália que enfrentou o Brasil na final. Isso além de Antonio Costacurta e Franco Baresi, que não jogaram aquela final de Champions, mas estavam na Copa do Mundo. E de todos eles, Baresi, Maldini, Albertini, Donadoni e Massaro foram titulares na final.

O Brasil ganharia a primeira final nos pênaltis da história e seria o primeiro tetracampeão mundial. Romário seria eleito o melhor jogador do mundo naquele ano, especialmente por sua atuação na Copa e na temporada 1993/94 pelo Barcelona. Um trovão que passou rapidamente para voltar ao Brasil em janeiro de 1995.