Contexto

O feito de Camarões em 1990 estava igualado e, na primeira Copa do Mundo na África, Gana tinha a chance de se tornar a única seleção africana a se classificar às semifinais. Os cruzamentos lhe haviam sido favoráveis. Em segundo lugar no grupo da Alemanha, apenas no saldo de gols à frente da Austrália, poderia ter cruzado com a Inglaterra, mas os EUA acabaram liderando o Grupo C graças aos gols marcados.

E o Uruguai passou às oitavas de final como primeiro colocado do Grupo A, da anfitriã África do Sul e da França, que era a favorita, mas teve uma campanha terrível, afundada por desavenças internas. O time treinado por Óscar Tabárez chegara ao mata-mata do Mundial pela primeira vez desde a Itália e, ao bater a Coreia do Sul nas oitavas, já fazia sua melhor campanha desde 1970.

Era para todos os efeitos uma partida equilibrada. Gana teria o apoio da torcida, mas estava sem Jonathan Mensah e André Ayew, suspensos. O Uruguai tinha mais jogadores decisivos. Forlán pintava como um dos destaques individuais da Copa do Mundo, formando um trio ofensivo com os artilheiros de Palermo e Ajax, respectivamente, os jovens Edison Cavani e Luis Suárez, ambos com 23 anos – jogo inteiro no canal da Fifa aqui.

Também assistimos na quarentena: 

Primeiro tempo

Forlán foi o craque daquela Copa do Mundo e começou a partida cheio de gás. Arrancou pelo meio, puxando contra-ataque, e abriu na direita para Álvaro Fernádez. O passe foi um pouco forte demais e Fernández acabou recolhendo-o já encostado na linha de fundo. O cruzamento não foi bom, mas passou perto do gol de Kingson.

Aos cinco minuto, Forlán tentou marcar um gol olímpico, cobrando escanteio da esquerda bem fechado e rasteiro. Samuel Inkoom, porém, estava esperto e conseguiu fazer o corte na primeira trave. No outro lado, Asamoah pegou o rebote de uma falta cobrada na área com a perna esquerda, fraco e sem direção. Seria a única chegada de Gana na partida durante um bom tempo.

O Uruguai dominou a primeira metade da etapa. Não controlava posse de bola, mas marcava pressão alta, conseguia forçar o erro e a combinação entre a qualidade de Forlán em cobranças de falta e escanteio e as curvas que a Jabulani fazia causavam dificuldades. Qualquer infração no campo de ataque era mandada direto para a área pelo craque uruguaio.

Anthony Annan teve a carteira batida por Cavani, que recuperou e lançou Suárez – “jogando bem na Eredivisie”, segundo o narrador – pela esquerda. Suárez deu seu característico drible, no qual puxa a bola para um lado e muda rapidamente de direção, dando uma elevadinha na bola, e passou, meio na sorte, meio na força, por Isaac Vorsah antes de bater forte. Defesa de Kingson.

Kingson levou um susto danado em uma cobrança de falta de bem longe de Forlán. Teve tempo o bastante para calcular a trajetória da bola e agarrá-la, mas, em cima da hora, decidiu socá-la para cima. O rebote poderia ter causado problemas, mas o árbitro português Olegário Benquerença havia marcado falta.

Aos 18 minutos, outro escanteio de Forlán pela esquerda. Cavani apareceu para desviar na primeira trave. A bola bateu no peito de John Mensah e se dirigia para o gol. Kingson mostrou bom tempo de reação para fazer a defesa. Em outra bola recuperada por Cavani no campo de ataque, Forlán arriscou de fora da área, sem muito perigo.

A maré do primeiro tempo começou a mudar quando Vorsah atacou uma cobrança de escanteio na entrada da pequena área, entre Lugano e Cavani, e ameaçou o gol de Muslera. Aos 31 minutos, Mensah cortou as linhas uruguaias com um passe rasteiro. Encontrou Kevin-Prince Boateng, que deu uma meia-lua no marcador antes de rolar para Asamoah Gyan pegar de primeira da entrada da área. Perto da trave.

O capitão uruguaio Diego Lugano precisou sair machucado, aos 38 minutos, para a entrada de Andrés Scotti. E Gana continuava crescendo porque conseguia trocar um pouco mais de passes, ter mais tranquilidade para construir as jogadas. Muntari teve uma boa cabeçada na segunda trave, e Boateng quase emendou um golaço de bicicleta em cruzamento de Inkoom pela direita.

No momento em que o árbitro se preparava para apagar as luzes do primeiro tempo, Mensah outra vez começou a jogada do campo de defesa. Asamoah Gyan deixou de primeira para Muntari, que primeiro girou para a direita. Não encontrou resistência. Girou novamente de volta ao meio. Não encontrou resistência. Confortável, preparou o chute potente de perna esquerda que morreu no canto de Muslera, e Gana foi aos vestiários ganhando por 1 a 0.

Segundo tempo 

Óscar Tabárez voltou do intervalo com sua segunda alteração. Nicolás Lodeiro entrou no lugar de Álvaro Fernández, o que obrigou Cavani a trocar de lado no meio-campo, da esquerda para a direita. Mas foi no lado de Lodeiro que Fucile fez a jogada, levou para o meio e sofreu uma forte falta de John Paintsil, no bico da grande área. Forlán, familiarizado com as curvas da Jabulani, bateu direto para o gol. A bola parecia se dirigir à centro-esquerda do gol, mas tomou uma curva e abriu para a direita. Kingson foi pego no contrapé. Nada conseguiu fazer.

Rapidamente, o Uruguai havia empatado a partida. Kevin Prince-Boateng tentou comandar a reação imediata dos africanos achando Asamoah Gyan, pela esquerda. A batida rasteira foi espalmada por Muslera e caiu com Muntari que, porém, conseguiu apenas um escanteio – e Gyan estva impedidaço no começo da jogada.

Não havia mais tempo para respirar. Nenhum dos dois times estava disposto a valorizar a posse de bola ou ter paciência. Era aceleração e passes verticais, o que deixou o jogo animado, mas também gerou muitos erros e facilitou o trabalho das defesas.

Suárez teve a chance de matar a parada para o Uruguai ainda no tempo normal. Na verdade, teve três. Forlán o achou na segunda trave com um lindo cruzamento de canhota que passou por cima de Kingson. O então atacante do Ajax colocou a chapa de primeira na bola, mas mandou para fora. Depois, Fucile e Lodeiro conspiraram pela ponta esquerda e deixaram Suárez em diagonal, dentro da área. A tentativa foi uma bicuda reta, que Kingson espalmou por cima do travessão.

A excepcionalmente perigosa bola parada de Forlán encontrou Suárez, agachado, na primeira trave, após uma cobrança de falta pela lateral direita. A bola se dirigia ao cantinho, mas Kingson fez outra boa defesa.

Sempre se menciona, para valorizar os feitos do Uruguai, que o país tem aproximadamente apenas 3,5 milhões de habitantes e todos eles ficaram furiosos com Maxi Pereira, que recebeu nas costas da defesa, atrasou a jogada, ainda conseguiu o drible e mandou para fora, embora tivesse Forlán livre pela direita, Suárez livre pelo meio e Loco Abreu, que havia entrado na vaga de Cavani, livre pela esquerda.

Prorrogação e pênaltis 

Talvez toda a emoção tenha sido reservada para os minutos finais da prorrogação porque o primeiro tempo teve a dinâmica típica de dois times cansados e preocupados de que qualquer erro pode ser fatal. Arévalo Rios escapou por pouco, ao entregar a bola para Asamoah Gyan, na entrada da área. Foi salvo pela cobertura crucial de Scotti.

Enquanto o Uruguai teve mais iniciativa na etapa inicial da prorrogação, Gana dominou a segunda. Gyan teve uma perigosa cabeçada na primeira trave e fez Scotti trabalhar muito bem novamente. Tentou girar para cima do zagueiro e estava ganhando vantagem, mas o substituto de Lugano conseguiu afastar, mesmo deitado no chão, e Maxi Pereira completou a jogada defensiva impedindo que Boateng pegasse o rebote.

Boateng teve uma boa oportunidade de marcar o gol da vitória de Gana. A cobrança de lateral da direita foi direto à área. Fucile, sabe se lá por que, desviou para trás, em direção à sua própria pequena área. Boateng apareceu cabeceando a bola na direção do gol, mas o errou por poucos centímetros.

O caos começou com uma bola rasteira lançada para Adiyiah pela direita. Fucile o derrubou, no fim da intermediária, quase no bico da grande área. Tinha cartão amarelo desde os 20 minutos, mas não teve vergonha de reclamar com o bandeirinha. O árbitro aproximou-se pra mandá-lo se acalmar. Ele foi pra o meio da grande área, enquanto Paintsil calculava o que fazer com a chance que surgia para Gana nos minutos derradeiros da prorrogação.

Sua decisão foi cobrar mais curto, em direção a Boateng, que cabeceou para trás. Muslera saiu do gol para afastar de soco. Praticamente garantiria a disputa de pênaltis, não tivesse espirrado o taco. A bola sobrou na pequena área para Appiah afundar as redes com a canhota. Suárez cortou em cima da linha com as pernas.

A bola subiu de volta à entrada da pequena área, onde todo mundo tentava encostar na bola e alguma maneira. Quem conseguiu fazer contato com ela primeiro foi o mesmo Adiyiah que havia sofrido a falta que deu início a esta espetacular sequência de eventos. A cabeçada foi firme e reta, à queima roupa. Estavam dois jogadores uruguaios em cima da linha. O primeiro deles era Fucile, que tentou espalmar para cima com a mão esquerda e não passou nem perto.

O segundo era Suárez. A bola foi quase diretamente em sua direção e ele a espalmou com as duas mãos para a frente. Muslera agarrou-a, mas o árbitro, sem hesitar, assinalou pênalti e deu cartão vermelho para o atacante.

O relógio marcava 30 minutos de prorrogação há bastante tempo. Este seria o último ato da partida. Caso Asamoah Gyan conseguisse fazer um gol com um chute de bola parada a 11 metros de distância, Gana seria a primeira seleção africana nas semifinais da Copa do Mundo.

Gyan olhava para a bola, enquanto Suárez deixava o gramado chorando, com a camisa cobrindo o rosto. O árbitro autorizou. Gyan não tomou um segundo para pensar mais do que já havia pensado. Assim que o apito soou, correu para a bola e soltou a perna direita. A ideia, suponho, era bater alto e no meio do gol.

No meio do gol: ok. Alto: ok. Porém, alto demais. Gyan levou as mãos ao rosto ao notar que seu chute havia balançado o travessão, enquanto, simultaneamente, Benquerença encerrava a prorrogação. Muslera pulou pra socar o travessão em êxtase. Milovan Rajevac, treinador de Gana, não acreditava no que havia acontecido. Suárez vibrava, quase na entrada do túnel. O Uruguai estava vivo.

Se há um fator psicológico na disputa de pênaltis, ele estava todo a favor do Uruguai. Com muita calma, Forlán fez 1 a 0. Rajevac não deu nenhum tempo pra Asamoah Gyan remoer o erro e o colocou pra bater o primeiro de Gana. Talvez porque, se ele errasse, haveria tempo para se recuperar. Gyan, porém, bateu como se quisesse provar que sabia cobrar pênalti muito bem. Chapou a bola no ângulo de Muslera.

Victorino, Appiah e Scotti converteram seus chutes, mas Mensah, que havia feito uma grande partida, sequer tomou distância, telegrafou sua batida e mandou praticamente no meio do gol. O sonho de qualquer goleiro. Muslera defendeu. No entanto, Maxi Pereira pegou muito mal. Isolou. Adiyiah teve a chance de empatar, mas Muslera caiu à esquerda e fez a defesa com uma única mão.

À medida em que Loco Abreu se aproximava da bola, o narrador da Fifa falava sobre a sua experiência com a seleção uruguaia. Era acertar aquele pênalti para colocar o time nas semifinais da Copa do Mundo. E como Abreu não ganhou seu apelido à toa, decidiu fazer isso com uma cavadinha no meio do gol. Kingson caiu para o canto direito. A bola morreu graciosamente entre as redes. Fim da linha para Gana.

Quem comeu a bola

Com a bola rolando, Forlán não criou tanta coisa, embora tenha deixado Suárez na cara do gol com um bonito cruzamento. Mas talvez ninguém tenha dominado a rebeldia da Jabulani quanto ele. Todas as bolas paradas que batia, principal arma do arsenal do Uruguai, eram perigosas. Kingson sofreu para decifrar o que o craque uruguaio faria e foi enganado pela curva da bola no gol sul-americano. Por atuações como esta, foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo.

Atuação subestimada 

Andrés Scotti não teve uma carreira muito brilhante. Os 13 minutos contra o México na fase de grupos eram seus únicos antes de entrar em uma fogueira danada, precisando substituir Diego Lugano ainda no primeiro tempo das quartas de final. E foi uma rocha. Fez cortes essenciais na prorrogação para manter o Uruguai na disputa e teve muita frieza para acertar o seu pênalti. 

Quem pisou na bola

Ninguém jogou particularmente mal. Gyan, claro, não deveria ter errado o pênalti, mas era um momento de muita pressão. A honra fica com Arévalo Rios que cometeu um erro bobo no primeiro tempo da prorrogação que poderia ter causado a eliminação de Uruguai, não fosse a cobertura excelente de Scotti. 

Momento decisivo

Para não ficar no hors concours, se Maxi Pereira tivesse tido um pouco mais de presença de espírito no final do segundo tempo para acionar um dos três atacantes mias bem posicionados, talvez a partida nem fosse à prorrogação. 

Os melhores cinco minutos

Certamente os últimos cinco minutos da prorrogação, não apenas por causa do pênalti, mas porque ele surge ao fim de um momento de pressão de Gana, com um belo corte de Scotti e uma cabeçada para fora de Boateng. 

Pérolas da narração 

Quando Loco Abreu entra no lugar de Cavani, por volta dos 30 minutos do segundo tempo, o narrador da Fifa destaca que o veterano atacante do Botafogo havia defendido 17 clubes em sua carreira e jogado “em praticamente todo país que tem futebol”. Desde então, Abreu encontrou mais alguns e já chegou a 29 camisas defendidas. 

Prancheta 

A Copa levaria Cavani do Palermo ao Napoli, pelo qual o atacante se destacaria a ponto de ser uma das grandes contratações do Paris Saint-Germain. Ao chegar ao clube francês, precisou atuar pelos lados de campo para acomodar Zlatan Ibrahimovic como comandante do ataque, o que causou certa discussão, mas não era novidade. Nesta partida contra Gana, foi meia esquerda no primeiro tempo e meia direta no segundo, sempre fechando a linha de quatro do meio-campo sem a bola e com liberdade para centralizar quando o Uruguai atacava. Não fez um grande jogo, porém.

Vestiários

Luis Suárez, totalmente satisfeito:

“Para mim, foi a defesa da Copa. Era a circunstância do momento. Não tinha outra solução. Agora, a ‘Mão de Deus’ é minha. Quando vi que foi na trave, senti uma felicidade enorme. Vieram me abraçar e disserama que tinha sido graças a mim”.

Tabárez defendeu Suárez de acusações de que teria trapaceado:

“Dizer que trapaceamos Gana é uma palavra muito dura. Nós também seguimos o que o árbitro fez. Sim, ele colocou a mão, mas não foi uma trapaça, não acho que seja justo dizer isso. Foi instintivo. O jogador reagiu instintivamente e foi expulso da partida e não pode jogar a próxima. O que mais vocês querem? Suárez é culpado por Gana ter perdido o pênalti? Tentamos ter dignidade se perdemos um jogo, olhar os motivos. Você não pode olhar para terceiro. É futebol. Há consequências por colocar a mão na bola e ele não sabia que Gana perderia o pênalti”.

Asamoah Gyan, anos depois:

“Nunca esquecerei aquele erro. É parte da minha vida agora. Eu não sou o único jogador que perdeu um pênalti decisivo. Nós poderíamos ter nos tornado o primeiro time africano a chegar às semifinais da Copa do Mundo. Às vezes, quando estou sozinho, penso nisso e ainda dói. Eu sinto que talvez pudesse bater o pênalti novamente para me redimir. A vida segue. Tenho que que esquecer isso e viver minha vida”.

Loco Abreu, sobre seu pênalti:

“Graças a Deus que não conheciam minha cobrança. Ainda bem que a internet não chegou a Gana, pude chutar o pênalti e fazer o gol a la Panenka. Fui muito sério e muito responsável. Tenho confiança em como vou bater, creio muito nesta execução. Depois que vi as cobranças anteriores, percebi que ele sempre se adiantava um passo antes dos jogadores baterem. Vi ali minha chance”.

Nos livros de história

A defesa de Suárez entrou para a história das Copas como um dos seus momentos mais inusitados e se juntou a uma longa lista de controvérsias do atacante, talvez a menos desagradável delas – entre as outras, por exemplo, há mordidas e ofensas racistas. O lance fez com que a Ministra dos Esportes pedisse que a Fifa mudasse as regras, sem especificar o que deveria mudar. A vitória colocou o Uruguai entre os quatro primeiros pela primeira vez desde 1970 e deu início a uma década de renascimento para a seleção de Óscar Tabárez.