Em meio à pandemia do novo coronavírus, criamos a seção Assistimos na Quarentena, com jogos históricos revisitados. Muitos dos jogos você encontra no Footballia. Quer ver um jogo específico aqui? Vá aos comentários e sugira. O espaço é seu.

Contexto

A Holanda vivia tempos de esperança, com a retomada do poder continental em clubes. Semanas após a conquista do PSV na Copa dos Campeões, a seleção retornava à Eurocopa após a ausência na edição de 1984. Em Copas do Mundo, a Laranja sequer jogou em 1982 e 86. A geração de Ruud Gullit, Marco Van Basten, Frank Rijkaard e Ronald Koeman tinha uma mescla interessante entre uma juventude talentosíssima (o trio do Milan, por exemplo, tinha média de 24 anos) e os veteranos como Hans van Breukelen, Arnold Mühren, Adri van Tiggelen e Jan Wouters.

Anos depois, parece justo cravar que, com aquele esquadrão, a Holanda era favorita ao título. Mas na prática, não era bem assim. Apesar de ter Rinus Michels no banco de reservas, em seu último trabalho relevante, os atores da seleção ainda eram bastante questionados com a camisa laranja. Basta relembrar os oito anos fora de torneios internacionais e as quedas trágicas em Eliminatórias Europeias.

De fato, a Holanda precisava provar que não era apenas um time com boas ideias, mas fracassado. Para isso, tinha de superar um grupo difícil e atuações abaixo da crítica antes do mata-mata. A forma física de van Basten preocupava: se recuperando de problemas no tornozelo, o goleador do Milan sequer era titular na estreia contra a União Soviética. Se quisesse chegar às semifinais, a Laranja de Michels precisava superar os soviéticos, a forte Inglaterra de Bobby Robson e a surpreendente Irlanda, treinada por Jack Charlton.

Deu tudo certo, aos trancos e barrancos. Depois de perder na estreia, por 1 a 0, a Holanda reacendeu, superando a Inglaterra por 3 a 1 (três de van Basten) e a Irlanda, por 1 a 0, gol de Wim Kieft. Veio, então, uma reedição do duelo que agitou o futebol mundial em 1974. Em Hamburgo, os holandeses queriam a vingança contra os alemães, e não havia ninguém que não citasse a final da Copa do Mundo de 14 anos antes como plano de fundo para mais um jogo decisivo entre os países.

Muitos acreditam que a vitória por 2 a 1 contra os anfitriões foi o verdadeiro título holandês em 1988. Um clássico vencido na base da perseverança e de gols de Koeman e van Basten. Aliás, é impossível esquecer o gesto de Koeman após o apito final, simulando limpar o traseiro com uma camisa alemã trocada com o meia Olaf Thon. Veio, então, a decisão. Outra chance de revanche.

O título estava a um jogo, contra a velha conhecida União Soviética. No mesmo campo em que a taça da Copa do Mundo escapou na década anterior. Mas não se engane: os soviéticos comandados por Valery Lobanovskiy não eram qualquer timeco sortudo. Depois de uma boa participação na Copa de 1986, a equipe manteve a base. Pouco depois, muitos de seus jogadores estouraram na principal liga do mundo, a Serie A italiana, como Sergei Aleinikov e Aleksandr Zavarov. Além deles, se destacava o paredão Rinat Dasaev, goleiro e capitão, e o atacante Oleg Protasov. Ambos jogavam por clubes soviéticos, Spartak Moscou e Dynamo Kiev, respectivamente.

Assista ao jogo completo quando quiser, antes, durante ou depois do texto clicando aqui.

Primeiro tempo

A bola rolou em 25 de junho de 1988, no Olímpico de Munique, para 62 mil pessoas. O árbitro foi o francês Michel Vautrot. Holanda e URSS mostraram um futebol de muita marcação, disposição e ataque. Foi, desde o início, uma decisão perfeita para quem aprecia um futebol objetivo e agressivo. Um detalhe importante: o gramado estava impecável, o que ajudou na fluidez da partida.

A URSS levava mais perigo nos primeiros vinte minutos. A linha defensiva holandesa mais estava sendo bastante exigida, seja para conter os avanços velozes de Zavarov e Protasov ou para tirar espaços do articulador Belanov, que controlava bem a bola e, em certo lance, achou Zavarov livre para bater na risca da grande área. Mas van Breukelen estava com os reflexos em dia e agarrou a bola sem dar rebote. Koeman, Rijkaard e Gerald Vanenburg corriam e desarmavam bastante, em uma prova de dedicação do time alaranjado.

Os rivais, por outro lado, não aliviavam nas divididas. Se não na técnica, usavam da força para impedir Gullit de chegar ao último terço do campo. Conforme o tempo passava, o jogo se transformou em um simulacro de futebol americano, uma luta por jardas e com muitas colisões. Sem medo de chutões, a Holanda não queria correr riscos por tentar passar de pé em pé. Foram muitas as ocasiões em que a bola foi afastada com força excessiva. A compactação do sistema defensivo de Michels facilitava a recomposição quando sua equipe estava sob ataque. Assim, a cada vez que a URSS descia, com raras exceções, os homens de laranja ocupavam toda a extensão da área.

O primeiro gol

Aos 32 minutos, Gullit era o homem mais ativo pela Holanda em campo. Criava, finalizava, e testava Dasaev. Pouco antes do gol, tabelou com van Basten e sofreu uma falta pertinho da área. Ele mesmo se encarregou de bater e forçou Dasaev a praticar uma defesaça.

Erwin Koeman cobrou escanteio, Gullit cabeceou, mas foi bloqueado pela defesa soviética. No rebote, Koeman recuperou a bola na ponta direita, cruzou para a área, van Basten recebeu em boa condição, com a defesa adiantada, e tocou de cabeça. Completamente isolado, quase na marca do pênalti, Gullit subiu, teve tempo de posicionar a coluna e cabecear com força, à queima roupa. Dasaev só pôde saltar para sair bem na foto.

Gol da Holanda, em um lance plasticamente perfeito, tanto pela mecânica da cabeçada quanto pelo movimento dos cabelos de Gullit, que pararam no ar.

Segundo tempo

Jogadores geniais não precisam participar do jogo sempre com eficiência. Mesmo em dias ruins, eles têm a capacidade de resolver uma partida ou um cenário, com três ou menos toques. É por isso que van Basten jamais foi um jogador comum. Verdade seja dita, o atacante estava um tanto oscilante em campo, errando demais em passes, domínios e devoluções. Mas não fosse por ele, o primeiro gol provavelmente não teria saído. Detalhes. Detalhes eram o que diferenciavam van Basten de qualquer outro atacante na história.

O jogo estava um tanto confortável para a Holanda, que vencia, mas não produzia o suficiente para ampliar. Tampouco se expunha para sofrer o gol de empate dos soviéticos. Cozinhar o jogo podia ser uma boa alternativa. Porém, Michels não era um treinador que era exatamente conhecido por abraçar o 1 a 0. Veja: foi uma final na qual não faltou vontade em nenhum dos 22 atletas em campo, atacando ou defendendo. Foram algumas faltas duras como a de Lytovchenko em Gullit (carrinho por trás), Khidiyatulin em van Basten (uma pernada para matar um contragolpe) e de Wouters em Zavarov, um tranco fortíssimo lateral. Mas não quer dizer que não houve lances de técnica apurada, boas inversões, dribles curtos, passes abertos e demonstrações de leitura rápida de cenários.

O segundo gol, uma obra prima

Perigo. Na segunda etapa, os rivais seguiram se estudando em busca de uma brecha. Oleksiy Mikhalychenko tentou esticar uma bola para Zavarov, que não alcançou. Wouters recuperou, saiu jogando com calma e, em menos de dez segundos, o contragolpe holandês estava em curso. Erwin Koeman recebeu na esquerda, viu van Basten na paralela e resolveu testar a linha defensiva soviética. Com um passe perfeito em curva, achou o centroavante livre para dominar a bater, acertando o pé da trave esquerda de Dasaev. Mas em impedimento.

Foi mais ou menos nessa configuração que saiu o gol, uma verdadeira pintura de van Basten, aos nove minutos da segunda etapa. Mais um erro de saída da URSS: Khidiyatulin tentou lançar para Zavarov, que dominou mal e foi interceptado por van Tiggelen. O camisa 2 avançou em alta velocidade, tendo Gullit próximo à direita, van Basten mirando a infiltração pela direita, e Mühren à esquerda, sem marcação. Era uma descida de quatro contra quatro.

Van Tiggelen diminuiu a passada e acionou Mühren, que vinha acompanhando. Mas antes de pensar em correr, ele fez o mais difícil: de primeira, lançou uma bola muito alta, mirando van Basten, que estava na mesma linha dos zagueiros e correu como um torpedo para a linha de fundo. Ninguém em todo o planeta esperava aquilo. Talvez nem o próprio van Basten. O natural seria esperar a bola quicar, evitar a saída e rolar para trás, para Gullit, que esperava na marca do pênalti. Exceto que van Basten não era qualquer jogador. Era Marco van Basten.

Das profundezas do impossível, ele sacou um chute de primeira, um semi-voleio após ajustar a passada. A bola fez um arco ridículo descendente, pegando Dasaev desprevenido, e caiu no ângulo oposto. O goleiro soviético caiu em pé de seu salto em vão, atordoado e cambaleante. Nem ele entendeu o que havia acontecido. 2 a 0 para a Holanda. De todas as possibilidades para aquele lançamento de Mühren, Marco tirou da cartola a com maior dificuldade de execução. Poderia ter matado no peito, tocado de primeira, cabeceado, qualquer coisa. Menos um passo reduzido e um chute seco no sem pulo. Golaço, golaço e golaço. No banco de reservas, Michels se emocionou e colocou a mão no rosto, completamente incrédulo.

Mais uma vez golpeada, a URSS resolveu tomar medidas drásticas. Bola pra área, deus nos acuda, bumba meu boi. Nessas soluções desesperadas, surgem erros defensivos da Holanda, que afasta mal duas bolas após uma falta cobrada na área. Gullit fura, a bola sobra limpa para Belanov, que chega de surpresa e acerta a trave de van Breukelen. Havia esperança? Afasta, Rijkaard!

Com poucos passes, os soviéticos devolveram a bola para a área holandesa. Momento de pressão. Protasov aproveitou de uma espanada de van Tiggelen e cabeceou para a linha de fundo, procurando Sergei Gotsmanov. Desesperado, van Breukelen saiu nos pés do meia e cometeu pênalti por uma carga excessiva. Aqui se erra, aqui se corrige: o goleirão holandês tentou intimidar o cobrador, Belanov. E conseguiu. O soviético mandou uma bomba no canto direito inferior, espalmada para a lateral. Uma defesa heróica para um goleiro destemido. Estava praticamente definido o título holandês após as duas chances capitais perdidas por Belanov.

A Holanda revolucionou o futebol nos anos 1970, mas em 1988 o objetivo não era mais encantar. Era vencer, como fosse possível. Ainda que o jogo não tenha sido sofisticado como o da equipe de 1974, Michels comandou um esquadrão incansável e que priorizava a finalização em vez da posse.

Quem comeu a bola

Ruud Gullit, da Holanda (Arte: Felipe Portes)

Gullit. Sem sombra de dúvida. Foi o motorzinho holandês e buscava quebrar a linha defensiva da URSS a todo momento. Fez um belíssimo gol para abrir o caminho ao título e centralizou as ações de ataque, como um grande comandante faria.

Atuação subestimada

Rijkaard. Não perdeu uma dividida, afastou todas as bolas que não poderia dominar e ainda armou um bom número de ofensivas com passes para a frente. Um volante de classe e com visão ímpar do campo.

Quem pisou na bola

Belanov. Teve duas chances limpas em menos de três minutos, com bola rolando e em um pênalti. Desperdiçou ambas. Poderia ter empatado o jogo para a URSS, mas acabou marcado pelos erros em momentos cruciais.

Momento decisivo

Marco Van Basten, da Holanda (Arte: Felipe Portes)

O gol de van Basten, por fechar o placar e por ser um gol brilhante, inesquecível e improvável. Uma forma exuberante de encerrar um torneio tão especial para a sua seleção, saindo do banco e superando problemas físicos para ser o protagonista da decisão da Euro.

Os melhores cinco minutos

Erwin Koeman recebe sozinho, dentro da área, para tentar ampliar, aos 30 do segundo tempo. Na hora de testar para a rede, o camisa 13 mira alto demais. Ele provavelmente teria vencido Dasaev, que voltava para se reposicionar. Logo depois, Wouters arrisca de longe e vê a bola desviar na defesa, para escanteio.

A cobrança vem alta, a URSS alivia o perigo, Mühren pega de primeira na meia-lua e a bola estoura em Aleinikov. Outro escanteio, que agora para em Khidiyatulin, quase em cima da linha. Não acabou! Depois de recuperar a bola na defesa, a Holanda desce com um lançamento longo que para na cabeça de van Basten, que protege.

Como um trem, aparece Gullit, que ganha de dois marcadores e devolve em van Basten, passando pelas suas costas, entrando na área. De calcanhar, Marco resolve acionar Wouters, que sem ângulo e sob marcação, chuta pelo alto. Ufa.

Prancheta

Com pouco espaço para pensar jogadas, os adversários tocavam rapidamente em busca de um companheiro livre. Gullit era o único em campo que efetivamente conseguia carregar a bola, armando as tramas e criando oportunidades com passes rápidos pelo chão. Mas nem o capitão da Laranja tinha paz: com marcadores em seu encalço, o camisa 10 precisava tomar decisões rápidas e cansou de apanhar. Foi essa a dinâmica de um jogo tenso e repleto de boas chances de gol. Passe, passe, passe, correria, erros em contragolpes, marcação homem a homem e certa ansiedade para afastar a bola da própria área. Uma partida de xadrez com alta intensidade.

Vestiários (declarações de atletas)

Gullit, ao site Uefa, anos depois, comentou: “É como se estivéssemos num filme, nos desligamos de tudo. Sabemos que temos a taça, é uma loucura. Mas é como se estivéssemos sozinhos. Olhamos para o troféu, nas tribunas e, de repente, nos perguntamos: Isso está acontecendo de verdade? Há muita coisa de que já não me lembro.”

Van Basten, também à Uefa, sobre seu gol: “Estava no segundo tempo e eu já tinha cansado bastante. Aí a bola veio do Mühren e eu pensei: ok, posso pará-la e confundir os zagueiros. Ou posso fazer do jeito mais fácil, arriscar e chutar. Sabe, você precisa ter sorte para um chute como aquele. Tudo deu certo. É uma daquelas coisas que acontecem ocasionalmente. Você tenta, mas precisa ter sorte e foi o que aconteceu comigo. Fazer aquilo na hora certa.”

Mas a frase mais apropriada veio do chefe, Rinus Michels, o homem que montou alguns dos times mais fascinantes da história, e que finalmente comemorava uma conquista com o seu país. “A verdadeira final foi contra a Alemanha”, disse em solo holandês durante a recepção da Laranja em na casa real holandesa.

Nos livros da história

A Holanda saiu do grupo do quase para entrar para a história dos vencedores. Perdeu duas finais seguidas, esteve fora de competições importantes e voltou com mais força e confiança. Deixou para trás seu perfil de futebol utópico para se adaptar às exigências competitivas e de eficiência do esporte nos anos 1980. E aí é que está a versatilidade de Michels, que soube entender a demanda do futebol naquele momento, reformando alguns dos pontos nevrálgicos que outrora custaram caro em decisões. Com Gullit e van Basten inspirados, ficou mais fácil.