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Thiago Neves está perto de superar Rivellino. Pelo menos para os loucos pelo Al Hilal

Vinte oito anos depois de se despedir de Rivellino, a apaixonada torcida do Al Hilal abriu os braços para recepcionar outro ex-jogador do Fluminense, meia, canhoto e habilidoso. Thiago Neves teve a sua primeira passagem no clube da Arábia Saudita entre 2009 e 2011 antes de voltar ao Flamengo, mas é por causa da segunda que pode superar a idolatria pelo inventor do elástico no coração dos torcedores. Basta passar das semifinais da Liga dos Campeões da Ásia (venceu o primeiro jogo contra o Al Ain por 3 a 0) e conquistar o título.

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“Falam que se eu for campeão asiático, eu posso passar o Rivellino e ser o maior ídolo estrangeiro do clube”, afirma em entrevista à Trivela o atleta de 29 anos, finalmente adaptado a um dos países islâmicos mais fechados e conservadores do mundo. Diferente do primeiro período, está à vontade na Arábia Saudita, que também relaxou um pouco nas proibições e permite que o brasileiro viva melhor em Riyadh, capital do país. “A gente andava pelo shopping e a Marcela (mulher dele) era parada , tinha que cobrir o cabelo, mas a cidade está mais aberta. Já dá para fazer algumas coisas”, conta.

Dificilmente deve voltar ao Brasil antes do final do seu contrato, daqui a três anos. Nem para buscar uma vaga na seleção brasileira do técnico Dunga, que o convocou para a Olimpíada de 2008, em Pequim, e cuja nomeação pegou Thiago Neves de surpresa. “E no momento que eu vi, bateu aquele arrependimento: por que eu vim para a Arábia? Eu teria ficado no Fluminense”, conta, ciente que é muito difícil chamar a atenção em um futebol que, na melhor das hipóteses, é de terceiro ou quarto escalão na hierarquia do futebol mundial.

Isso é passado, porém. A concentração dele neste momento está toda voltada a dar mais alegrias aos torcedores malucos do Al Hilal, que um dia pararam o carro do brasileiro em uma avenida de velocidade alta apenas para tirarem uma foto com ele e conseguirem um autógrafo. Nesta entrevista, ele também falou sobre o Fluminense e a pontinha de expectativa que sentiu de ser convocado para os amistosos da seleção brasileira na Ásia, nas datas Fifa de outubro.

Como que foi sua adaptação?

Foi mais fácil, né? Eu já conhecia o clube, já conhecia a cidade. Sabia o condomínio que eu ia morar. Eu já vim com a cabeça preparada para isso, com a dificuldade que eu encontraria. O país está muito mais aberto do que na minha primeira passagem. Acho que é por isso que eu estou mais relaxado, mais tranquilo, conseguindo jogar bem.

Quais são as principais diferenças entre a primeira vez e agora?

A Marcela não podia andar em shoppings. Ela era parada, tinha que cobrir o cabelo. Vários restaurantes foram abertos, a cidade está mais aberta. Já dá para fazer alguma coisas.

Isso tá se refletindo no seu desempenho?

Isso ajuda muito. Eu vendo a minha família feliz, minha filha feliz na escola, minha esposa em casa, isso me ajuda muito. Eu vou mais tranquilo para o clube, me ajuda a jogar bem. Não tive problema nenhum. Desde o campeonato passado para esse, estou me esforçando bastante.

Como que é a torcida do Al Hilal?

Tem a do Al Hilal e a do Al Nasr. Eles são muito fanáticos, muito apaixonados. Se algum jogador brasileiro está se destacando, eles fazem loucura pelo jogador. Às vezes me fecham no trânsito para bater uma foto. Eles dão um jeito para bater uma foto ou tirar um autógrafo. É comparável à do Flamengo, pelo fanatismo, pelo que fazem no estádio.

Qual loucura que já fizeram?

Já me fecharam no trânsito, em uma avenida rápida. Um carro veio parando, outro do meu lado, e eu não tive para onde sair. Me fizeram descer. No shopping não posso nem andar. No restaurante, todo mundo vem em cima, pagam a sua janta sem você saber. São muito fanáticos e para essas coisas até que é bom (risos).

Eles gostam muito do Rivellino por aí?

Gostam. O ídolo maior aqui do Al Hilal, estrangeiro, é o Rivellino. A comparação que eles fazem é a foto do Rivellino com a camisa da seleção, do Al Hilal e do Fluminense, as mesmas camisas que eu já vesti. Falam que se eu for campeão dessa Copa da Ásia, eu posso passar o Rivellino e ser o maior ídolo estrangeiro.

O que isso significaria para você?

Muito. Ainda mais aqui na Arábia Saudita, onde eles são muito apaixonados. Pode significar muito até para minha carreira por aqui, não sei o que vou fazer depois que eu parar.

Qual o nível técnico da Liga dos Campeões da Ásia?

É um campeonato muito forte. Mas, em comparação com Libertadores, outros campeonatos, ainda fica um pouco longe. Tem vários times de muita qualidade. Nosso time este ano está muito forte, com técnico novo, jogadores que foram comprados. Temos grandes chances.

Alguma lição da perda da Libertadores?

Claro. Na minha primeira passagem, passamos por uma situação parecida. Chegamos à semifinal e acabamos perdendo. Agora, o primeiro jogo ganhamos em casa, 3 a 0, e vamos jogar o segundo jogo com um boa vantagem. Estão todos falando que temos grandes chances, como tínhamos em 2008. Nosso time era melhor, mas final é complicado. Se outro time chegar também à final, tem muita qualidade. Aqui na Arábia, eles pecam um pouco nisso. Eles relaxam porque acham que nosso time é melhor. Estou tentando falar que não é assim.

Ficou surpreso com o Dunga?

Óbvio que eu fiquei. E no momento que eu vi, bateu aquele arrependimento: por que eu vim para Arábia? Eu teria ficado no Fluminense. Agora, não que eu esperasse uma convocação, porque aqui não tem nem como, mas como o Brasil está vindo para Ásia, vai que ele acaba se lembrando de mim? Lógico que deu uma esperançazinha, mas eu sei também que é complicado hoje em dia.

Talvez se você enfrentar o Real Madrid no Mundial de Clubes…

Aqui já estão pensando nisso: o sonho é enfrentar o Real Madrid. Não é tão simples assim. Querer jogar, todo mundo quer. Mas no Mundial, é só os melhores do mundo.

Você começou o ano no Fluminense. Esperava que o time fizesse campanha de rebaixado?

Não. Até pelos jogadores, pelo time que a gente tinha. Tinha acabado de ser campeão. Eu sai, saiu o Wellington Nem, mas o time tinha outros jogadores. Tinha algumas peças. Não sei se acomodaram, se não encaixou. Também teve a saída do Abel, que atrapalhou.

Você acompanhou essa campanha?

Mandei várias mensagens, vários vídeos para tentar motivar os jogadores. Mando o vídeo para tentar ajudar, mas não é tão fácil.

O que você pensa para o futuro?

Eu não tenho em mente um ano em que eu vá voltar. Eu tenho mais três anos de contrato e quero cumprir. Quero ficar aqui, estou bem confortável. Depois, não sei. Eu tenho a opção de querer ficar ou renovar. Depois vou ver com a minha família, não quero sair daqui.

Nem tentar volta à seleção motiva você a sair?

Não me motiva mais. Quando eu sai do Fluminense, essa foi uma das decisões. Se eu for para Arábia, seleção acabou, não vai acontecer mais.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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