Ásia/Oceania

Brasileiro se candidatou e virou técnico do Sri Lanka

É verdade que o Ranking Fifa não é muito confiável para medir a qualidade de uma seleção. Entretanto, no caso específico dos cingaleses, a tabela mostra a realidade. Atualmente, a seleção de Sri Lanka ocupa o 171º lugar, atrás de São Tomé & Príncipe e Nepal, mas à frente de Laos e Ilhas Faröe, por exemplo. O mais longe que o país asiático chegou foi a 122ª colocação, em agosto/1998, e recentemente esteve no 193º lugar, em fevereiro/2013, seu pior resultado.

Nada de muito diferente do que já ocorreu na história do futebol do país de pouco mais de 20 milhões de habitantes, localizado ao sul da Índia, uma grande ilha cuja capital é Colombo. A modalidade ganhou ares oficiais após 1948, data da independência do Ceilão (antiga nomenclatura de Sri Lanka) em relação ao Reino Unido. Quatro anos depois, nasceu a federação local e foi disputada a primeira partida, derrota de apenas 2 a 0 para a Índia.

Incipiente

No início, a seleção cingalesa se resumiu a enfrentar adversários regionais, como Índia e Burma (atual Mianmar). Tudo mudou a partir de meados da década de 1950, mas para pior… O país vivia disputas étnicas entre os grupos que falavam cingalês – ou sinhala – e tâmil. O senado chegou a ser fechado e os defensores do cingalês como idioma principal venceram a disputa, resultando na debandada dos preteridos para o exterior.

O país abdicou do direito de disputar as eliminatórias para a Copa da Ásia entre as edições de 1956-68, restando à seleção nacional um amistoso (12 a 1 para a Alemanha Oriental) e quatro jogos pelo qualificatório dos Jogos Olímpicos 1964 e 1968, com goleadas a favor de Índia e Israel. Ou seja, cinco compromissos entre 1955 e 1971. Na volta do futebol internacional, nas eliminatórias para a Copa da Ásia 1972, só derrotas contra Iraque (5 a 0), Jordânia (2 a 1) e Bahrein (3 a 0).

Mas a instabilidade política ainda não permitia investimentos no futebol, que até hoje não é a principal modalidade, perdendo para o críquete. Entre abril e junho de 1971, insurgentes chegaram a capturar várias cidades e zonas rurais das forças do governo, que eram mais bem treinadas e armadas – no fim, o exército venceu a batalha. Entre 1971-72, Sri Lanka jogou 12 vezes, tendo encarado seleções importantes, como o Japão (derrota de 5 a 0), no torneio de Merdeka, realizado na Malásia.

No começo de 1977, os cingaleses conheceram os adversários do Grupo 1 das eliminatórias para a Copa da Argentina 1978, mas não chegaram a enfrentar Hong Kong, Cingapura, Malásia, Indonésia e Tailândia, pois desistiram. O motivo: não havia dinheiro para pagar as taxas de participação. Um ano antes (1977), um novo presidente alcançou o poder, introduziu constituição e adotou a economia de mercado, o primeiro país do sul da Ásia a fazê-lo.

As mudanças não agradaram aos Tigres do Tâmil, grupo insurgente que desejava a independência do território cingalês – financiado pelos que deixaram o país. A guerra civil começou em meados de 1983, mas o futebol conseguiu sobreviver até um ano depois. Em 1984, Sri Lanka tentou a classificação para a Copa da Ásia, mas ficou em terceiro lugar em sua chave, atrás de Arábia Saudita e Emirados Árabes, vencendo um jogo (4 a 0 sobre o Nepal).

Após essas partidas, o país mergulhou em combates étnicos, paralisando o futebol nacional por cinco anos – é importante ressaltar que a primeira edição da Dialog Champions League, principal divisão, aconteceu em 1985. Os conflitos durariam até 2009, após idas e vindas em acordos de paz e recaídas, mas o futebol conseguiria voltar à pauta em 1989.

O renascimento

Pode-se dizer que a data do recomeço do futebol cingalês foi 8 de abril de 1993, na derrota de 4 a 0 para os Emirados Árabes, em jogo válido pelas eliminatórias para a Copa dos EUA. Sri Lanka perderia os oito jogos, até para Bangladesh, sem marcar gols e com 28 sofridos, mas dali para frente estaria presente nas principais competições internacionais. A primeira vitória nesta nova fase veio quatro anos depois, 3 a 0 contra Filipinas, fora de casa, no qualificatório para o Mundial da França.

Mas a maior honra do futebol nacional ocorreu em 1995, quando o país sediou o Campeonato Sul Asiático (SAFF Championship). A equipe venceu a Índia na prorrogação e comemorou o único título. Depois, poucas vitórias e um último episódio de desistência, nas eliminatórias para a Copa da Ásia 2007, em período de ofensiva do governo sobre os Tigres do Tâmil.

Pensamento grande

Após 26 anos de guerra civil, que consumiram 200 bilhões de dólares da economia cingalesa, o governo derrotou os Tigres do Tâmil e o país pôde se recuperar. O turismo cresceu, investimentos foram atraídos, bem como um desconhecido técnico brasileiro… Claudio Roberto Silveira tem 37 anos, acumula passagens por times capixabas, mas seu melhor momento foi no Mato Grosso do Sul.

Campeão duas vezes (2007 e 2012) com o Águia Negra no estadual, os únicos títulos do clube na elite sul-matogrossense, Claudio ainda subiu com o tradicional Corumbaense, em 2012. Desde então, o técnico vem experimentando novos ares. Em entrevista exclusiva a Trivela, Claudio informou como conseguiu o cargo na seleção cingalesa:

“Foi por meio de um amigo, que fez um estudo nos países emergentes da Ásia. Identificamos as seleções em potencial, elaboramos meu currículo em inglês e enviamos para as federações locais. A primeira a responder foi Sri Lanka”. As negociações duraram quase um ano, por telefone e e-mail, até que as partes chegaram a um acordo (dois anos de contrato), e Claudio Roberto foi para Colombo. No cargo desde maio, o treinador ainda não pode destacar nenhuma promessa individual: “Elaboramos um banco de dados que nos permite ter informações dos jogadores aptos a servir a seleção dentro do modelo de jogo que implantamos. Os atletas [média de idade de 22 anos] são tecnicamente semelhantes, alguns promissores, mas com pouca experiência internacional”, disse.

E mesmo há pouco tempo no cargo, Claudio Roberto já tem objetivo a cumprir: o recém-eleito presidente da federação local, Rodrigo Ranjith, quer o título do SAFF Championship 2013, que ocorrerá entre 1º e 11 de setembro. Está sob a responsabilidade de um brasileiro a evolução do futebol cingalês a um novo patamar…

Curtas

– Sri Lanka está no Grupo B, ao lado de Afeganistão, Ilhas Maldivas e Butão. A seleção é formada apenas por atletas que atuam no próprio país, apesar de haver dois jogando no exterior. Nascido na Suiça, o atacante Reshigesan Suhanthan, 28, defende o FC Laufen (Suiça), da quinta divisão. Já o meia Nikki Ahamed, 22, é de Colombo, mas se mudou cedo para a Inglaterra, onde jogou na base do Chelsea, além do time reserva. Esteve no Mafra (Portugal), da terceira divisão, em 2012-13.

– O Saunders SC é o maior campeão nacional, com 12 troféus, mas é o Ratnam quem atualmente domina o futebol cingalês, com três títulos nas últimas seis temporadas, sendo o atual campeão (2011-12). Pode parecer mentira, mas o país tem quatro divisões.

– As maiores vitórias da seleção foram 7 a 1 sobre o Paquistão (abril/2008) e 6 a 0 em cima de Butão (dezembro/2009). Por outro lado, as maiores goleadas sofridas foram diante da Alemanha Oriental, por 12 a 1 (1964), e 11 a 0 a favor do Irã (1980).

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