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Os traumas que impediram o Rei Kazu de disputar uma Copa do Mundo

Os japoneses terão ao menos mais um ano para saudar o seu rei dento de campo. O Yokohama FC anunciou nesta quarta a renovação com Kazu Miura por mais uma temporada. Garante King Kazu em atividade até os 49 anos, um recorde no país. E, apesar da idade, o atacante continua sendo importante para a sua equipe. Na atual edição da segunda divisão do Campeonato Japonês, o veterano marcou três gols em 16 partidas, sua melhor marca desde 2010. Neste intervalo, chegou a conciliar o trabalho no clube até mesmo com a seleção de futsal, chegando à Copa do Mundo da modalidade.

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Kazu talvez seja a versão real mais próxima de Oliver Tsubasa. O garoto de uma família rica veio ao Brasil para “aprender” o futebol jogado por aqui, e tornou-se querido em vários clubes. Emplacou seus sucessos principalmente no Santos, no Coritiba, no CRB e no XV de Jaú. Depois, com o início da J-League, o artilheiro voltou para o seu país. E virou uma verdadeira lenda com a camisa do Verdy Kawasaki. Em 1993, foi eleito o melhor jogador da primeira edição da liga e também o craque asiático do ano. Conduziu sua equipe ao título, marcando gols nos dois jogos da final contra o Kashima Antlers de Zico.

Durante o seu auge, porém, Kazu não teve a sorte de disputar a Copa do Mundo. Era um dos protagonistas de um dos maiores traumas da história da seleção japonesa. Os Samurais Azuis ficaram a minutos de assegurar a classificação para o Mundial de 1994. Mas um gol sofrido aos 45 do segundo tempo impediu Kazu de estrelar o país nos Estados Unidos. Um episódio que ganhou até nome próprio: a Agonia de Doha.

Kazu arrebentou nas primeiras etapas das Eliminatórias de 1994. Na fase inicial, o Japão liderou um grupo que não era tão simples, com a concorrência dos Emirados Árabes – que estiveram na Itália em 1990. Os japoneses venceram sete dos oito jogos, e King Kazu anotou nove gols. Só que o hexagonal final se complicaria ainda mais. Em tempos nos quais a Copa só tinha 24 participantes, a Ásia ganhava duas vagas. Briga de cachorros grandes, que contava também com Arábia Saudita, Coreia do Sul, Iraque, Irã e Coreia do Norte.

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A classificação acontecia em turno único, com todos os jogos realizados em Doha, durante duas semanas. Clima já de Copa do Mundo para os asiáticos. O Japão começou mal o torneio. Empatou sem gols com os sauditas e perdeu para o Irã. Mas conseguiu a recuperação na sequência, muito graças a Kazu. O atacante marcou dois gols na vitória por 3 a 0 sobre os norte-coreanos. E decidiu também o clássico ante os sul-coreanos, anotando o único tento do triunfo por 1 a 0. Na última rodada, os japoneses partiram na liderança. Só precisavam da vitória simples contra os iraquianos para confirmar a primeira participação em Mundiais.

Aos cinco minutos de jogo, Kazu ia ratificando a classificação do Japão, ao abrir o placar contra o Iraque. A vantagem se manteve até o início do segundo tempo, quando Shenaishil empatou para os iraquianos, aproveitando bobeira da zaga. No entanto, Nakayama logo voltaria a colocar os nipônicos em vantagem. Contudo, os Samurais Azuis não tinham margem de erro. A Coreia do Sul goleava a eliminada Coreia do Norte por 3 a 0. Enquanto isso, a Arábia Saudita também dava sua prova de força, vencendo o Irã por 4 a 3.

A expectativa dos japoneses durou até os acréscimos do segundo tempo, quando tudo desabou no Estádio Al Ahly. A partir de uma cobrança de escanteio, Jaffa Omran desviou de cabeça para o fundo das redes do goleiro Matsunaga. A reação dos nipônicos foi espontânea e emblemática: boa parte dos jogadores desabou no gramado, em desespero com o empate por 2 a 2. Era o fim da linha para a maioria daquele elenco. O técnico Hans Ooft foi demitido dias depois, enquanto o camisa 10 Ruy Ramos também não duraria muito no time. Apenas dois jogadores que estavam em campo teriam a oportunidade de disputar a Copa de 1998.

Kazu terminou as Eliminatórias da Copa de 1994 com 13 gols, artilheiro do torneio entre as seis confederações. E não foi o trauma que tirou suas chances da seleção japonesa. No ciclo anterior ao Mundial de 1998, o atacante seguiu em grande fase com o Verdy Kawasaki, enquanto teve até mesmo uma rápida passagem pelo Genoa. O sucesso era tanto que Kazu chegou a fazer parte da seleção da Fifa em 1996. E, de novo, voou nas Eliminatórias. King Kazu anotou 14 gols, em um time que ainda tinha Nakata e Wagner Lopes como astros. O Japão foi para a repescagem dentro das Eliminatórias Asiáticas, mas desta vez protagonizou o “Júbilo de Johor Bahru”, batendo o Irã por 3 a 2 na Malásia graças a um gol de ouro aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação.

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Aos 31 anos, porém, Kazu não fez parte do time que disputou a Copa do Mundo de 1998. Após ser pré-selecionado no elenco de 26 jogadores, o atacante acabou cortado em maio, às vésperas do Mundial da França, em decisão bastante contestada (e até hoje considerada inexplicável) do técnico Takeshi Okada. Pressionado pelo corte, o treinador foi demitido logo após a fraca campanha na Copa. Já Kazu não teria mais vida longa com os Samurais Azuis. Disputou mais dois jogos em 2000, como despedida, mas sem ser cogitado para a Copa de 2002. Aposentou-se da equipe nacional com 28 gols em Eliminatórias, o terceiro maior artilheiro da história da competição, com média de 1,08 tentos por jogo.

A partir de então, Kazu se concentrou apenas na carreira por clubes. Em 2005, teve a chance de disputar o Mundial de Clubes de 2005, compondo dupla de ataque mítica com Dwight Yorke no Sydney FC. Depois disso, passou a se dedicar apenas ao Yokohama FC, e ajudou o time a conquistar o acesso à primeira divisão em 2006. São mais de dez temporadas no time. Idolatria que permanecerá por pelo menos mais um ano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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