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O final maluco do Campeonato Iraniano levantou uma teoria da conspiração que faz sentido

O Campeonato Iraniano viveu uma rodada final de pura insanidade na última sexta. Tanto que dois times comemoraram o título ao mesmo tempo, mas apenas um tinha razão: o Sepahan, que levantou a taça pela quinta vez em sua história. O Tractor Sazi, no entanto, jura que sua festa não foi apenas um erro de cálculo. Entre torcedores e membros do clube, surgem acusações de que tudo faz parte de uma conspiração contra os alvirrubros. Para eles, não seria de interesse do poder central a conquista de uma equipe do Azerbaijão Oriental, província na fronteira do país sob forte influência da cultura azeri, não da persa, e com movimentos separatistas notáveis.

As reclamações do Tractor Sazi se concentram especialmente sobre a expulsão de Andranik Teymourian, capitão da seleção e principal jogador da equipe, expulso na rodada final quando os alvirrubros venciam por 3 a 1. Depois disso, o Naft Teerã (clube administrado pela Companhia Nacional de Petróleo do Irã) buscou o empate a partir dos 31 minutos do segundo tempo. O que, ainda assim, era o suficiente para a conquista do Tractor.

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Segundo o técnico português Toni Oliveira, comandante do Benfica no vice da Champions de 1988, seu clube foi enganado. Um funcionário da federação iraniana o informou que o empate garantia o título do Tractor. Mas, naquele momento, o Sepahan já vencia seu jogo e ia ficando com a taça. Além disso, conforme o próprio presidente do Naft Teerã, em entrevista à France Presse, houve um corte de comunicação no estádio a partir dos 42 minutos do segundo tempo. As transmissões de televisão e de rádio foram repentinamente cortadas, assim como os sinais dos celulares desapareceram.

Após a comemoração frustrada de torcedores e jogadores do Tractor Sazi, com direito a um bandeirão gigante da região separatista, a confusão tomou conta do estádio. As centenas de pessoas que invadiram o campo passaram a se revoltar com o árbitro, atirando cadeiras e outros objetos contra a polícia. Além disso, o confronto extrapolou as arquibancadas e também tomou as ruas da cidade de Tabriz. Tornou-se, sobretudo, uma manifestação separatista da população local, que gritava pelo fim do “racismo persa”, contra a república islâmica e em apoio ao Azerbaijão.

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Habitada por 1,5 milhão de pessoas, Tabriz é uma cidade estratégica para o Irã, tanto por sua produção industrial quanto por sua localização, sendo alvo de disputa com os soviéticos após a Segunda Guerra Mundial. Fundado na década de 1970, o Tractor Sazi logo se tornou um símbolo local, especialmente pela resistência da minoria azeri contra a Revolução Islâmica de 1979. Durante os últimos anos, o estádio dos alvirrubros se tornou alvo de diversas manifestações nacionalistas pelo Azerbaijão, enquanto a torcida também levou questões locais em suas visitas nos jogos em Teerã – como sobre a drenagem do Lago Úrmia, símbolo local. A média de público do clube é a mais alta do campeonato nacional, batendo 30 mil torcedores por jogo e atraindo simpatizantes dos países vizinhos, especialmente azeris e turcos.

O histórico de protestos contra o governo iraniano através do futebol é extenso. E deverá ter novos capítulos em Tabriz durante esta semana. Torcedores do clube lançaram na internet a campanha “cartão vermelho ao presidente Hassan Rouhani”, reclamando da hierarquia imposta pelo país contra as minorias. E o chefe de estado possui uma visita marcada ao Azerbaijão Oriental justamente a partir desta quarta-feira. O Tractor Sazi deverá estar no centro de sua pauta para tentar acalmar os ânimos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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