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[Entrevista] Digão: “A pressão no Al Hilal é como se fosse em Fla, Flu ou Corinthians”

O Al Hilal entra em campo neste sábado para um encontro com a história. Um dos clubes de maior torcida da Ásia busca o seu terceiro título na Liga dos Campeões. Uma conquista que não vem há 14 anos, mas que pode igualar os sauditas ao Pohang Steelers, time com mais taças no continente. E, por isso mesmo, tem contado com o apoio massivo dos fanáticos torcedores. Após a derrota por 1 a 0 para o Western Sidney Wanderers, a promessa é de 65 mil pessoas no Estádio Rei Fahd empurrando a equipe em busca da virada e da façanha.

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E, se a conquista realmente se concretizar, dois brasileiros aparecerão como protagonistas. Enquanto Thiago Neves é a estrela do ataque, Digão serve de referência na defesa. O ex-zagueiro do Fluminense chegou ao clube em janeiro, após quatro anos na equipe principal do Tricolor. Precisou de pouco tempo para acertar a defesa, trunfo do Al Hilal na excelente campanha na LC da Ásia. Foram apenas dois gols sofridos nos mata-matas até o momento, com o time deixando para trás adversários fortes, como o Al Ain de Asamoah Gyan e o Al Sadd de Muriqui.

Na antevéspera da partida decisiva, marcada para este sábado, Digão conversou com a Trivela. Falou sobre as expectativas do jogo e também da mobilização dos torcedores com as chances do triunfo. Mas o defensor também foi além da final, conversando sobre a vida na Arábia Saudita, as restrições às mulheres nos estádios e a adaptação à cultura do país. Confira:

Como está a confiança do Al Hilal para reverter a derrota no jogo de ida da final?

A expectativa está boa. Lógico que nós queríamos ter vencido o jogo lá, jogamos bem melhor do que eles. O goleiro deles estava inspirado e, nas duas únicas oportunidades que eles tiveram, em uma acertaram a trave e em outra fizeram o gol. Mas está todo mundo animado para o jogo de volta, a torcida principalmente. Na quarta, mais de cinco mil pessoas foram no clube para nos incentivar. Temos feito uma campanha muito boa em casa, até com goleadas, então espero que não seja diferente desta vez.

O Western Sidney Wanderers é a grande surpresa da competição, especialmente depois de eliminar o Guangzhou Evergrande. Como foi a preparação de vocês para enfrentar um time desconhecido para a maioria.

Estudamos o adversário através de vídeos. Eu não conhecia o adversário, é um time novo, mas que está sendo uma surpresa. Eu particularmente não achei eles bons, mas levam poucos gols e são fortes na bola aérea. O time tem seus méritos e não caíram de paraquedas. Precisamos respeitar, mas vejo com bons olhos o nosso título. Temos mais time que o eles. A rapaziada vai dar a vida, porque não podemos deixar passar essa oportunidade.

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Você falou das dificuldades do campeonato. Qual a comparação que dá para fazer com a Libertadores, que você disputou pelo Fluminense?

A Libertadores é mais pegada. Os times sul-americanos são mais de mais força. Já aqui na Ásia é um campeonato de mais velocidade. Tem que estar preparado para a correria. Estava assistindo aqui o jogo do Seoul contra o Western Sidney, os coreanos correm o tempo todo, achei até que eles iriam ganhar. E é difícil como a Libertadores.

Como foi sua adaptação, tanto ao clube quanto à vida na Arábia Saudita?

A adaptação foi rápida. Lógico que o começo é sempre difícil: tem o clima, o fuso horário, o idioma, a comida. É fácil quando a família está por perto. Tem o Thiago e a família dele, que me ajudaram bastante.  Óbvio que existem as diferenças e as dificuldades, mas a gente vai superando. Em relação ao idioma e à cultura que são diferentes foi difícil no começo, mas agora já estou bem adaptado e me sinto em casa. Já no clube, me preparei bastante quando soube que viria. Fiz dois ou três treinos e pedi para jogar. O treinador não queria me colocar, porque era um clássico, mas eu insisti. Joguei bem e me firmei, o que deu confiança.

A Arábia Saudita é um país bastante restrito, baseado na Sharia, a lei islâmica. Você chegou a enfrentar alguma restrição desde que chegou?

Que eu me lembre, de ir ao shopping sozinho de bermuda e o segurança barrar. Se você for com a família, eles deixam entrar. É uma coisa estranha, mas fomos acostumando, temos que respeitar a cultura. Uma vez fui ao shopping com o tradutor e, na entrada, se o guarda for com a sua cara ele deixa você entrar. Se ele vê dois homens entrando em um carro eles não deixam. É meio complicado, mas a gente vai levando a vida. E tem a questão da reza, em que eles fecham tudo para aquele momento. Já passei por isso, mas estou mais ligado.

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No jogo de ida das semifinais da Liga dos Campeões, contra o Al Ain, a presença de torcedoras nos Emirados Árabes chegou a repercutir aqui no Brasil. Muitos sauditas ficaram incomodados com a presença de mulheres no jogo, o que é proibido no país. Você acredita que possa haver uma mudança nesse sentido com o título? Vale lembrar que, em 1998, a conquista da vaga na Copa do Irã causou uma revolução liderada pelas mulheres em busca de direitos.

Tomara que sim. Seria legal as mulheres irem ao estádio, como é no Brasil. Só que há a cultura e os costumes deles, é difícil mudar. As mulheres aqui estavam pensando em protestar para poder dirigir, ir ao estádio, ter mais liberdades. Elas estavam brigando para ganhar esses direitos, o que acho difícil que aconteça. Mas tomara que mudem o pensamento e deem mais liberdade. Parece que para a final, vão deixar as esposas dos jogadores para irem ao estádio, minha mulher está doida para ir ao jogo. Quando é partida fora, elas viajam, porque aqui não pode. Realmente vi várias mulheres contra o Al Ain, mas não soube dessa repercussão.

A torcida do Al Hilal tem dado show na Liga dos Campeões da Ásia. Como é essa relação com eles e qual a importância na campanha.

A torcida aqui é louca, apaixonada. Os caras são loucos por futebol, particularmente os torcedores do Hilal, que são maioria. Eles fazem cada loucura que você nem imagina. E o apoio é fundamental, em todos os jogos eles lotam o estádio. Tem feito a diferença, em casa dificilmente a gente perde ou leva gols. Esse título também vai ser para eles. No instagram você posta uma foto e eles só falam da Ásia, que é um título tão sonhado para eles. A gente não pode decepcioná-los, tem que ganhar de qualquer jeito. Quando veem alguma coisa na internet falando sobre o Hilal, mesmo sendo do Brasil, eles vão curtir. É do torcedor aqui, tudo o que envolve o clube deixa eles loucos. No começo, o reconhecimento era até meio assustador, eles são muito fanáticos e aonde você vai eles querem tirar foto. Tem vezes em que nem ligam para sua privacidade, querem tirar foto até quando você está almoçando. Mas é legal. São carinhosos e respeitam bastante, isso é importante. É o que vale.

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E como o elenco recebeu a notícia de que um dos príncipes sauditas bancariam os 65 mil ingressos para a final e distribuiria aos torcedores? Ele chegou a oferecer também uma premiação extra para vocês em caso de título, não é?

É normal para ele. O príncipe sempre faz isso quando é jogo importante. Ao invés do torcedor comprar, ele vai lá e compra tudo, a entrada fica de graça. Não é a primeira vez e também nem faz falta para ele, o cara tem muito dinheiro. E é bom também, porque ele é torcedor fanático. Também não é a primeira vez que oferece premiação, sempre dá um dinheiro a mais. Ele não vai ao clube, não aparece, mas por fora ele está sempre dando essa assistência. Esse apoio de longe sempre é bem vindo.

O Al Hilal tem dois títulos da Liga dos Campeões da Ásia e foi igualado na década passada pelo Al Ittihad, um dos seus grandes rivais. Como está a cobrança pela conquista?

A pressão pelo título é grande. Como se fosse em um Flamengo, um Corinthians, um Fluminense no Brasil. Toda semana o príncipe vai falar alguma coisa. Não é nem cobrando, mas lembrando da importância do título, que há um tempo que o Hilal não ganha. E por ter também a rivalidade com o Ittihad, sempre querendo estar na frente, isso faz parte por ser um time grande. Na semana passada, o presidente até falou na Austrália que, se a gente ganhar esse título, a vida de cada um vai mudar, e para bem melhor. Foram palavras dele, então vamos fazer de tudo pra ganhar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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