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A seleção síria dá motivos de orgulho em meio a um país esfacelado pela guerra

A Síria vive a maior crise humanitária da atualidade. A Guerra Civil que assola o país desde março de 2011 já vitimou mais de 300 mil pessoas, com uma disputa de poder que envolve diferentes grupos – incluindo as forças armadas da ditadura de Bashar Al-Asad, os rebeldes oposicionistas, o Estado Islâmico e os revolucionários curdos. E isso sem contar a interferência externa, incluindo os bombardeios recentes da Rússia. Assim, o ambiente de terror tornou-se comum. Em uma nação com 17,9 milhões de habitantes, já são 7,6 milhões de desabrigados e 4,1 milhões de refugiados. Massa que se move principalmente aos países vizinhos, incluindo Turquia e Líbano, e à Europa na busca por condições dignas de vida.

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Diante de todo o cenário de medo, o futebol acaba sendo uma válvula de escape natural ao povo sírio. E tem dado muitos motivos para os torcedores se orgulharem. A seleção principal faz excelente campanha nas Eliminatórias da Copa de 2018, liderando uma chave que também conta com o Japão. Já os juvenis carregarão a bandeira do país no Chile, representando a Síria no Mundial Sub-17. Na próxima segunda-feira, a equipe estreará contra o Paraguai, na cidade de Puerto Montt.

A equipe principal, aliás, conquistou uma vitória emblemática na última terça-feira. Mais pelas questões geopolíticas do que pelo jogo em si. Os sírios venceram o Afeganistão por 5 a 2, dois países que lidam com os conflitos civis em seu cotidiano. Por conta das questões de segurança, a partida precisou ser disputada em Omã, com a presença de apenas 680 espectadores. O primeiro duelo, que teve mando de campo dos afegãos, aconteceu no Irã. Seleções expatriadas que tentam manter o seu orgulho apesar das dificuldades.

De todo o elenco convocado pelo técnico Fajr Ibrahim, apenas três jogadores atuam no Campeonato Sírio – um reflexo das centenas de transferências para o exterior desde o estopim do conflito. E todos os locais defendem o Al-Wahda, incluindo o artilheiro Raja Rafe e o capitão Mosab Balhous, goleiro que mantém o recorde de aparições pela seleção – e que chegou a ser preso em 2011, acusado de colaborar com rebeldes. Apesar do caos, a liga nacional continua sendo disputada, mas com as partidas realizadas apenas em Damasco e Latakia. A capital síria, inclusive, é considerada segura pelo elenco, embora a Fifa e a AFC prefiram não arriscar a autorização para os jogos internacionais.

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Entretanto, sobram conflitos internos na própria equipe. Alguns jogadores passaram a recusar a seleção, afirmando que ela legitima a ditadura de Bashar Al-Asad. É o caso do atacante Firas Al-Khatib, um dos maiores astros do futebol local, que soma 31 gols em 51 jogos pelo país. Já outros companheiros desertaram, se juntando a uma equipe nacional rebelde, a Síria Livre, que treina no Líbano. Oposicionistas acusam o governo de garantir privilégios aos jogadores, para que os sucessos no futebol criem uma noção artificial de calmaria no país. Mas os remanescentes rebatem as críticas. Segundo o técnico Fajr Ibrahim, eles estão lá para “lutar contra o mundo que está contra a Síria e mandar uma mensagem ao resto do mundo. Acreditamos no nosso país. Todo o time joga por apenas um motivo: o povo sírio”.

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Ao menos não dá para dizer que tantos problemas atrapalham os resultados da Síria. Presente na Copa da Ásia de 2011 e campeã da Copa do Oeste Asiático em 2012, a seleção só perdeu três partidas desde o último ano. Nas Eliminatórias da Copa, são quatro vitórias e uma derrota, para o Japão. Ainda assim, os sírios permanecem na liderança do Grupo E, com dois pontos e um jogo a mais que os nipônicos, ocupando a vaga direta na fase decisiva do qualificatório para o Mundial de 2018. Não custa sonhar e seguir lutando pela inédita classificação. O mais próximo que a Síria chegou foi em 1986, quando perdeu o duelo derradeiro para o Iraque.

Boa fase que deve se sustentar no futuro, com o trabalho nas categorias de base. São seis presenças em mundiais sub-20 ou sub-17, com o último sucesso sendo vivenciado desde 2014. Os sírios chegaram às semifinais do Campeonato Asiático Sub-16, o suficiente para conquistar a vaga na Copa do Mundo da categoria, apesar da derrota por 7 a 1 para a Coreia do Sul. O elenco inteiro convocado atua no futebol sírio, dividindo-se entre 14 clubes diferentes. E os garotos tiveram que superar alguns percalços na preparação rumo ao Chile.

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O caso mais emblemático é o de Mohammed Jaddou, ex-capitão da seleção juvenil. O jovem desistiu do sonho de disputar o Mundial para se refugiar na Alemanha. Prevaleceu o medo de quem treinava sob o barulho dos mísseis. Durante os últimos meses, diante das dificuldades de locomoção, o grupo se manteve concentrado na maior parte do tempo. Mesmo assim, correu sério risco de uma tragédia em agosto. O local onde o time treinava na foi atingido por 10 morteiros, mas, por sorte, ninguém se feriu durante o ataque.

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Já a viagem da Síria ao Chile dependeu de um forte aparato de segurança. Os jogadores foram escoltados até Beirute, onde embarcaram para Dubai e depois vieram à América do Sul. O percurso demorou 60 horas, com os jogadores recebidos em Santiago pelo embaixador sírio. Agora, é momento de se concentrar na reta final da preparação. Por mais que a Síria passe longe do favoritismo, inicia o Mundial buscando manter a dignidade. Dar um motivo de distração aos seus compatriotas em meio à triste realidade que o país vive.

Sentimento muito bem resumido por Abdulrazak Al-Husein, meio-campista da seleção principal que atua no futebol emiratense. “Nosso principal objetivo é unir as pessoas. Não importa se vencemos ou perdemos, o que estamos tentando fazer como time é dar um bom exemplo. No fim do dia, nós estamos jogando pelo país, na esperança que ele volte ao normal. A melhor coisa que podemos fazer é unir as pessoas da Síria”, declarou, em entrevista ao Guardian. É este o espírito de um país dizimado, mas que segue vivo graças ao futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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